São
Paulo
auto-
fágica
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Edifício Martinelli,
construído entre 1924 e 1931,
nos traços do artista Eduardo Bajzek.

por Helena Bagnoli & Guilherme Werneck
fotos e vídeos Henk Nieman
ilustrações Luan Zumbi


"A ideia do monumento horizontal - ou anti-monumento
é um instrumento de politização
do espaço que
vem sendo
utilizada por
diversos grupos
sociais".


Lugares de Morte,
Lugares de Resistência

por Renato Cymbalista

De noite eu rondo a cidade. Alguma coisa acontece no meu coração. São, São Paulo, quanta dor. Entrei na rua Augusta a 120 por hora. Ó cidade tão lírica e tão fria. Escrevendo sua história com neon. Aqui ninguém vai pro céu. Mas quem vai acreditar no meu depoimento? Paulo, Caetano, Tom, Ronie, Vinicius, Emicida, Criolo, Brown. Seja com olhar de dentro, de fora ou de lado, quem ousa cantar SP tem que passar por seus demônios antes de tentar buscar nas frestas os seus encantos.

Impossível fixar São Paulo em um só lugar. Da vila bandeirante à terra da garoa, das mansões do café ao parque industrial, do moedor de sonhos imigrantes ao luxo cosmopolita, dos zumbis blindados na opulência aos corpos abjetos nas ruas, a metrópole vai sendo construída em diferenças, em fricção. Seu calor não é natural: vem do choque, do confronto. Só a antropofagia nos une.

São Paulo é contruída para ser desfeita, vive da incerteza de suas escolhas, de seus rios retificados e cobertos com concreto e asfalto, de seu apartheid mal disfarçado, de sua violência motorizada, de seus monumentos ao individualismo. O mesmo individualismo capaz de, ainda que de forma canhestra, abrir brechas para se viver com uma liberdade de escolhas que poucas cidades latino-americanas conseguem alcançar.

Politicamente, é uma das poucas cidades brasileiras com uma alternância frenética de poder, que remixa e remodela suas preferências a cada quatro anos, quando, de um espectro ideológico a outro, rola vagarosamente a pedra de sísifo espigão acima.

O desafio de São Paulo é integrar-se a si mesma, é fazer com que a liberdade de poder viver os mais loucos personagens no dia-a-dia não acabe no vazio do anonimato. A cidade sempre tem mais cidade pela frente, não acaba nunca. Talvez por isso ela seja tão fracionada, tão cheia de dissonâncias, tão vazia de pertencimento.

Mas uma coisa é inegável. Nos últimos anos, uma nova geração começou a romper as barreiras invisíveis que contornam a metrópole. Festas de rua, ocupações artísticas e políticas, novas opções de mobilidade, fortalecimento da cultura periférica, explosão de coletivos de arte, tentativas de renovar sua pulsante economia criativa, e os modos de organização no trabalho descortinam outras muitas opções para quem vive nesta cidade retroalimentar.

Comparada à sua monumentalidade, ela tem certa discrição no que diz respeito à arte pública. Obras nas ruas, em praças, no metrô, em cemitérios quase sempre passam despercebidas. Por outro lado, o grafite e sobretudo o pixo, em seu gesto claro de confronto, a coloca entre uma das cidades mais interessantes para quem sabe apreciar e decifrar seus hieróglifos.

São Paulo é para iniciados, e se você consegue as senhas para se movimentar entre seus segredos, pode vir a descobrir o fascínio de viver em realidades múltiplas.

Didiana Prata:
poética da cidade
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como operar
entre a
catástrofe e
o provisório

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texto e fotos por Nelson Brissac Peixoto

A periferia é um território que se mantém longe do equilíbrio. Estabilizada no ponto limite do estancamento e da fluidez, da drenagem e da contenção, do arrimo e do deslizamento, da mobilidade e da inércia. É uma área crítica, à beira do colapso, em que pequenas oscilações (como um temporal ou um acidente de trânsito) podem causar grandes catástrofes (alagamentos, desmoronamentos, tumultos).
Ali a cidade se estende sobre terreno instável. Materiais vão se juntando, depositando, nas margens dos rios e nos aterros sanitários, constituindo áreas não consolidadas, suscetíveis a deslizamentos e enchentes. Onde tudo se amontoa, em pilhas de rejeitos. Uma acumulação desordenada, fora de equilíbrio. Uma cidade precária, construída muitas vezes com elementos descartados, assentada em solo movente. A periferia engendra uma cultura do provisório: tudo pode, a qualquer momento, desaparecer, arrastado pela água, por desmoronamentos de terra.
Essa desestabilização deixa os indivíduos sem chão, num estado intermitente de precipitação. Instaura-se uma crise do sentido de equilíbrio: quando em queda livre, tem-se a sensação de flutuar. A periferia vive em estado de catástrofe, sofrendo desastres periódicos (enchentes, deslizamentos, disfunções nos transportes e no fornecimento de energia e conexão telefônica). Situações limite: inundações e seca simultâneas, opostos ocorrendo ao mesmo tempo. Na periferia, a urbanização se faz em condições extremas.
As cidades enfrentam um novo desafio: as mudanças climáticas. Os efeitos previstos são o aumento do nível do mar, com tempestades nas costas inundando temporariamente extensas áreas de terra, e alterações no regime de chuvas que impactam o comportamento dos rios, intensificadas pela ocupação das margens e pela pavimentação do solo, dificultando a drenagem. As respostas têm sido convencionais: se ocorrem inundações, construir mais canais de drenagem e barragens. Mas esses métodos em geral deslocam o problema para áreas vizinhas. As infraestruturas rígidas, inflexíveis, dependem de um clima estável, com variações limitadas, o que não ocorre mais.
As configurações urbano-ambientais se estabilizam num estado crítico, na fronteira entre a ordem e o caos, em que a mais leve perturbação pode causar uma reação em cadeia. O dispositivo opera sempre no limite do colapso, precariamente estável, mas responde às oscilações retornando ao seu estado crítico inicial. Desastres periódicos é que asseguram, paradoxalmente, a estabilidade crítica do sistema. Compreender a cidade em termos ecológicos pode ajudar a desenvolver estratégias para lidar com mudanças climáticas. Consiste em abordar as cidades como sistemas dinâmicos, incorporando as mudanças no meio ambiente.
O espaço da metrópole contemporânea reconfigurou o paradigma da ecologia. Essas paisagens urbanas emergentes podem viabilizar a criação arquitetônica no contexto de sistemas culturais-naturais complexos e dinâmicos. Se nossas práticas incorporarem as dinâmicas socioculturais e político-econômicas da paisagem, novas tipologias infraestruturais emergirão. Por exemplo na recuperação de áreas fluviais pós-industriais, com o objetivo de refazer a infraestrutura da planície fluvial e criar uma nova fronteira urbana. Cria-se um conjunto de ecologias culturais e naturais integradas, organizadas principalmente pelo rio e sua própria hidrologia que se auto-organiza.
Aqui trata-se de construir no limite da catástrofe. A instabilidade é constitutiva da condição periférica. Obras de infraestrutura e sistemas construtivos devem cada vez mais incorporar modos de resiliência, a capacidade de se recompor quando de perturbações. Conviver com condições de instabilidade. Desenvolver materiais que respondam às variações na umidade relativa do ambiente. Modos construtivos adaptados à terrenos instáveis, encostas, várzeas. Construir em situações críticas.

Kant diz que o sentimento do belo atesta o prazer suscitado pela capacidade de apresentar um objeto, tal como o definimos. Já o sublime é um sentimento penoso, que tem lugar quando a imaginação fracassa em representar um objeto, de acordo com o conceito. É quando um objeto grande – o deserto, uma montanha, uma pirâmide – ou muito potente – uma tormenta, a erupção de um vulcão, uma avalanche – suscita a idéia de um absoluto que não pode ser pensado e não tem apresentação sensível possível. A impotência da imaginação é que, então, a leva a tentar apresentar o inapresentável. A fazer ver que há alguma coisa que não podemos conceber e que não podemos ver.
Mas o sublime não consiste propriamente nesses grandes objetos, mas na grandeza absoluta, aquilo que se apresenta como absolutamente ilimitado. A forma, o contorno, é o limite: a questão do belo. O sublime coloca a questão do ilimitado, aquilo que se dá na beira do limiar. Aquilo que se faz sentir no momento em que o limite é atingido, no elã suspenso, na tensão rompida.
A pintura retrata avalanches e tempestades, um desequilíbrio próprio de coisas que desmoronam. A composição se desagrega, nenhuma forma conserva sua integridade. O ato de pintar, diz Deleuze, passa por uma catástrofe para engendrar a cor. Há primeiro um momento de caos, de indiferenciação, de onde vão sair os planos, a geometria, a geologia. O segundo momento é dominado pelo cinza, pelas cores que se misturam, um pântano do qual as cores não ascendem. Por fim, o momento da emergência da cor, o cinza que traz o verde e o vermelho, a matriz das dimensões e das cores. Uma modulação das cores, uma restrição da palheta intensa, para fazer surgir a cor. É o que permite superar o problema do terroso, do lodoso, das cores rebaixadas. O acinzentado da areia, do cascalho e do concreto é reconstituído por pequenos toques de tons puros. A cidade é esse caos, esse indiferenciado, do qual entretanto surge a cor.
Durante uma inundação, a cidade é transformada. A elevação de uma massa líquida, meramente horizontal, por um eixo vertical provoca radicais reconfigurações planares. O movimento da água através de uma escala vertical permite perceber as sutis modulações da topografia e a conseqüente extensão horizontal da enchente. Durante um alagamento, a seção vertical faz emergir novas formações e visões da cidade. Estudar as transformações planares que ocorrem durante a subida das águas é uma oportunidade para reinventar e redesenhar a cidade do século XXI.
As cidades são sustentadas pela infraestrutura, mas a enorme dimensão desses elementos torna difícil sua compreensão como um sistema articulado. Os momentos de crise (inundações, apagões e falta d`água), em que o dispositivo colapsa, servem para fazer refletir sobre o funcionamento da infraestrutura. O desastre pode ser a ocasião para pensar o futuro da cidade.

Continuar lendo texto
de Nelson Brissac Peixoto

onze lentes
paulistanas
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Muitas camadas de cultura

Por entender que esse trânsito é fundamental, a Bravo! se propôs a lançar diferentes olhares sobre as camadas de cultura que se sobrepõem na cidade, decifrar alguns de seus códigos e abrir algumas trilhas para quem quer se aventurar em outras direções.

Um começo lúgubre, pero no mucho. Você sabia que existem visitas guiadas ao cemitério da Consolação oferecidas pelo Serviço Funerário de SP? O interessado deve mandar um e-mail para [email protected] e agendar sua visita para um mergulho na arte cemiterial, que abriga um casting estelar de artistas.

Já no metrô, o paulistano pode encontrar 91 obras produzidas por renomados artistas plásticos brasileiros que estão presentes em 37 das 64 estações da cidade. A peculiaridade é que elas foram concebidas especificamente para o local onde serão expostas. À parte isso, em algumas estações, como na República, você pode dar a sorte de ver um pianista tocando uma sonata ou um ragtime, simplesmente porque o
piano que fica no caminho da linha vermelha está livre para quem quiser se aventurar a tocar para a multidão sempre apressada.

São Paulo tem um mercado de entretenimento que contribui para a sua conhecida efervescência cultural. São seiscentos diferentes espetáculos teatrais por ano, cem deles em cartaz toda semana, e nenhuma outra cidade do país recebe tantos musicais e atrações internacionais. No quesito equipamento cultural, os números são superlativos: 282 salas de cinema, 101 museus (quatro deles estão entre os dez melhores do país), 164 teatros, 39 centros culturais, 146 bibliotecas e por aí vai. Sem contar suas galerias, às vezes intimidadoras, mas abertas ao público que procura mergulhar na arte contemporânea.

Na arte urbana, ninguém é excluído – muito ao contrário. Mas toda conquista é brigada – da transformação do Minhocão em parque à criação do Parque Augusta. Dificuldades que não impedem o avanço da arte de rua, que se multiplica em formatos híbridos e expressões variadas: grafites, projeção, filmagem, maps, desenhos, poesia urbana, iluminação, stickers, tatuagens e um sem fim de manifestações viscerais.

É assim que a cidade vem se transformando num palco de manifestações artísticas cada vez mais consistente. A arte passou a ser um laboratório de comunicação entre os artistas e a população, hoje orgulhosa com a diversidade de cena.

"As novas gerações estão
ocupando as cidades
de outras maneiras."
A Revolução Urbana
Não será privatizada

por Maria Shirts

10 filmes por
Eugenio Puppo
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"megavila
provincianópole
oxímoro máximo
capital do interior"
Frederico Barbosa em
coletânea 10 poemas
sobre SP
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Duas Faces do Metrô, Wagner Caetano ou W.G, 26
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Rolê – Pedro Junqueira, 17

#OcupaSP

Com toda a sua pompa, São Paulo tem se permitido ser mais experimental, abrindo cada vez mais espaço para criadores de todos os matizes. E se não abre, a população arromba a porta, principalmente nas zonas periféricas onde as dificuldades do passado foram minimizadas com o poder mobilizador das redes sociais. Tem dado certo. Coletivos e artistas locais começaram a se organizar, produzir e disseminar uma produção antes oculta para o centro da cidade – que, não raro, se apropria dessas manifestações, fazendo de conta que não entendeu onde o galo cantou.

E o melhor que nada disso precisa passar pelos canais institucionais. A periferia consome espontaneamente muito mais sua própria cultura, até por identificação com o que se produz em casa.

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Maria do Carmo, Tchuca, 15
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Daniel Gagliardi, 15

Hoje, há residências artísticas até nas ocupações dos sem teto, que revelam a enorme quantidade de edifícios abandonados e espaços públicos ociosos no centro da cidade. A questão é polêmica, pois acaba gerando conflitos com proprietários negligentes. Mas as comunidades ocupantes organizadas têm provado trazer muitos benefícios na discussão do espaço público.

Um exemplo é o prédio do Hotel Cambridge, na avenida 9 de Julho. Abandonado havia dez anos e de propriedade da prefeitura, foi ocupado na noite de 22 de novembro de 2012 por militantes do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro). Na ocasião, eles retiraram dali 15 toneladas de lixo. O edifício de 15 andares, com 241 quartos e 136 banheiros, hoje tem uma residência artística, originada com a produção de um longa-metragem no local com a participação de inúmeros moradores. Em julho de 2016, eles conseguiram a posse do edifício.

A ocupação da Funarte, neste ano, é outro caso ilustrativo. De um prédio ocupado com fins políticos, brotaram todo tipo de manifestações, pinturas, performances, peças, cartazes, canções, e, mais que isso, a propagação de ideias que se alastram mesmo depois da reintegração de posse.

São exemplos de como São Paulo vem tentado se humanizar, criar sopros de suavidade e permitir que a população tenha algum canto para si, entre malabaristas, motoboys e shopping centers. Parte importante advém desses olhares artísticos sobre a cidade, que nos ajudam a amadurecer como cidadãos e reforçam a premência de ocupar os espaços públicos.

"O que a gente sempre
pensou é que a gente
gostaria que esse filme não
fosse um assunto só de
cinema e cultura, que ele
tivesse uma dimensão maior"
Leia a entrevista
completa com
Carla e Eliane Caffé
“Eu falava o meu
coletivo é o ‘eu vim’,
eu vim, estou aqui
a fim de contribuir”
Leia a entrevista
completa com
Camila Valones

pinturas&gravuras
por Renato de Cara
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espaço
público,
a marca de
uma cidade

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por Mauro Calliari
Mestre em urbanismo, autor do blog
Caminhadas Urbanas, no Estadão,e do
livro Espaço Público e Urbanidade em SP,
a ser lançado em novembro pela Bei

O espaço público é o palco onde convivemos com pessoas que não são nossos conhecidos. É através dessa difícil convivência entre os diferentes, que nos conhecemos e que desenvolvemos nossa própria identidade.
Os espaços de fruição da cidade são as praças, os parques, mas também as ruas, as feiras, as estações, onde se dá a troca diária e os encontros que acontecem ao acaso.

A configuração atual da cidade de São Paulo conta a história de uma relação conturbada entre seus habitantes e seus espaços públicos. Vamos passear por essa história para entender como chegamos ao ponto em que estamos.

A comunidade.
Nos primeiros séculos de São Paulo,
a vida corria ao acaso.

A vila era isolada da costa pela enorme barreira da Serra do Mar. As notícias demoravam a chegar. A cada saída dos bandeirantes, a cidade se esvaziava. Os fazendeiros moravam longe do centro, em suas chácaras e só vinham à cidade para comerciar ou fazer política.

Com esses predicados, a vida na cidade foi, no mínimo, modorrenta durante os primeiros séculos. A vida pública era regulada pela Igreja. As procissões, as missas eram as poucas atividades que estimulavam o encontro.

No resto do tempo, as ruas eram território dos escravos. As mulheres ficavam em casa, escondidas, até que fossem liberadas para as únicas funções públicas permitidas: os eventos religiosos.

A cidade burguesa:
A fruição do espaço público

A cidade mudou no final do século XIX. A vida pública ganhou novos ares com o café, o desenvolvimento econômico, o fim da escravidão, a indústria e a imigração.
A cidade descobriu as dores e a delícia da diversidade. No lugar de papéis sociais pré-estabelecidos, a negociação. No lugar da autoridade patriarcal absoluta, a civilidade.
As atas da Câmara da época expõem a perplexidade diante dos novos conflitos: “onde jogar os dejetos”, “como coibir as pessoas de tomarem banho nuas no Tamanduateí” ou ainda “como melhorar a circulação nas calçadas cheias de vendedores”.

De qualquer modo, foi nesse momento que a elite passou a pleitear a ocupação da cidade. Os espaços públicos do início do século XX são a expressão desse desejo de fruição da cidade: o conjunto afrancesado do Vale do Anhangabaú, o Parque D.Pedro II e a urbanização do centro novo.

A cidade dos carros:
O descaso com o espaço público.

A cidade cresceu nas primeiras décadas do século XX. O espraiamento começou a minar uma das características importantes da fruição da cidade: a diversidade. Indústrias que se instalavam ao longo da linha do trem atraíam os operários. A elite foi ocupando a área oposta, em direção a oeste, fazendo diminuir o convívio entre classes sociais diferentes.
Outro golpe para a fruição das áreas públicas veio com o Plano de Avenidas, de 1930. O predomínio dos automóveis provocou uma perda de protagonismo do pedestre e o carro ganhou espaço até dominar por completo o imaginário coletivo.
Os eixos viários que foram sendo construídas nas décadas seguintes cortaram bairros ao meio, destruindo casas e segregando vizinhanças, como na Bela Vista, por exemplo.
As avenidas construídas nos fundos de vale, para aproveitar espaços vazios, trouxeram ainda um outro golpe sobre a paisagem: o enterramento dos rios, tornados invisíveis e sem nenhuma chance de aproveitar suas margens para a criação de espaços de convivência.
A vitória dos carros sobre os antigos espaços públicos mudou a configuração de alguns espaços emblemáticos da cidade.
O descaso com o passado recém-construído da cidade também gerou a transformação do Vale do Anhangabaú, de recinto suntuoso a uma vulgar passagem de carros.

São Paulo,
a quem
pertence
essa cidade?

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por Jorge Bassani
Doutor em Arquitetura e Urbanismo, professor de História do Urbanismo na FAUUSP, coordenador do GeMAP, Grupo de Estudos Mapografias Urbanas.

Para essa pergunta, não sabemos a resposta e qualquer uma que seja dada, mesmo um conjunto delas, não dará conta de sintetizar a complexidade do problema, quanto mais apresentar soluções. No entanto, nós ouvimos, lemos e, principalmente, vemos (sentimos) coisas da cidade. Nesta condição, de “sujeitos urbanos” (na definição da socióloga da Universidade de Columbia, Saskia Sassen), nos lançamos legitimamente neste debate, intensamente provocativo para quem habita cidades.
Temos que ter no horizonte que o desenho excludente que São Paulo apresenta neste momento, foi concebido, portanto desejado, pela sociedade que construiu seu espaço segundo uma estrutura definida previamente. Evidentemente, não precisamos nem ao menos lembrar que alguns setores da sociedade desenharam-na mais do que outros, em quantidade e intensidade. A sociedade urbana é dividida em os “com poder” e os “sem poder” (recorrendo novamente à profa. Sassen), entre todos os poderes o supremo é certamente este, construir as cidades de acordo com seus desejos.
Portanto, sabemos com relativa clareza que a não integração, ou a fragmentação e segregação de São Paulo obedeceu e obedece às pré-figurações que atores, também, relativamente conhecidos, fazem da cidade. Então, é o caso de perguntar quem deseja que a cidade se integre a ela mesma? Possivelmente todos os outros, os “sem poder” e, possivelmente também, parcelas dos “com poder” que em algum sentido também são vitimadas pela agressividade de uma lógica urbana (não só desenho, mas sistema de trocas) que segrega e distancia ao extremo.
A integração da cidade a ela, questão colocada pela Bravo!, constitui um estado de permanente porosidade entre os diversos territórios (condições geográfica + política) que compõem a cidade envolta por um senso cívico de pertencimento a um todo único. Assim colocada, a questão supera o utópico e esbarra no ingênuo e vazio de significado ante a realidade que temos. Porém, ganha dimensão e profundidade quando entendemos que o requerido franco acesso à cidade advém de que ela é desejada, interessante, agradável, útil.
Portanto, a integração reivindicada seria todos terem acesso a essas condições favoráveis existentes na cidade que habitam. São Paulo tem dois estágios, pertence à (muito minoritária) elite que tem dinheiro (poder); mas, deveria pertencer a todos. Como resolvemos isso? Integrando as massas excluídas à cidade bem desenhada (aquela pensada para excluir). Mas, não podemos esquecer que nos quantitativos ela é exígua no oceano da mancha urbana construída pelo crescimento periférico voraz.
Sabemos muito bem que o mais difícil pelos custos, trabalho social e motivações políticas envolvidos, é a transformação físico-espacial da cidade, ou seja, é constituir infraestrutura e superestrutura urbanas em quantidade capaz de proporcionar esta cidade do “bem estar” acessível a todos.
Do ponto de vista técnico urbanístico, apesar da enorme complexidade do problema, existe grande segurança nas respostas amparadas em procedimentos generalistas aplicados nas últimas décadas em várias cidades do mundo. Em geral eles começam pelo item mobilidade e a acessibilidade (em todas as escalas) como elemento estruturante; em seguida pelas condições do habitat como elemento estruturado. No caso de São Paulo, e parece uníssono, seria a melhor resposta para reverter o desenho excludente da cidade. É submeter a cidade toda (e sua população) a uma lógica de hierarquias de fluxos. Não sei se é ruim, mas, também, não sei se é bom.
A dificuldade em aderir a esse pensamento é exatamente sua lógica de linha de montagem naturalizada. E como essas lógicas sempre estão mais ativas em controlar e disciplinar do que expandir e transbordar. Impossível não lembrar o PIN (Plano de Integração Nacional) criado pela ditadura militar (1970, Gal. Garrastazu Médici) para fazer o Estado chegar aos “vazios demográficos” das regiões mais distantes do país. O fato mais memorável do Plano foi a construção da Transamazônica e toda a catástrofe ambiental, social e étnica (questão indígena) que representou. E, o mais importante nesta lembrança, é verificar que o PIN previa “colonizações” em uma extensa margem ao longo das estradas a serem construídas - o estruturante e o estruturado.
Não pretendo ser tão dramático a ponto de comparar as políticas de controle da ditadura militar com as propostas de políticas de mobilidade atuais. Porém, colocá-las como referência exacerbada de que a aplicação de lógicas simplificadoras deve ser questionada quando transforma-se em resposta pronta. E, aqui neste artigo, o questionamento dirige-se para dois pontos.
O primeiro é, me desculpem pelo trocadilho, primário. Os fluxos, especialmente de pessoas, em São Paulo são motivados pelo trabalho e reprodução do capital, a eficiência dos canais de circulação está comprometida com este papel. Na escala do cotidiano, também representa que o cidadão sai da periferia precária para a muito distante cidade de boa forma para trabalhar. Ou mesmo que seja para estudar, comprar, se divertir. A cidade equipada com tudo isto está longe dele, logo a necessidade de transportes eficientes para integrá-lo à cidade que não é o território que ele habita, que continua a não-cidade ou a cidade que não está integrada a ela mesma nem a nenhuma outra.
O segundo ponto é, também usando o exemplo em cores carregadas da Transamazônica, o que aconteceu com os índios (selvagens) em termos culturais, territoriais e de saúde (inclusive mental) quando entram em contato (conflito) de maneira tão abrupta com a lógica civilizada, pode nos sugerir como é o processo diário de desterritorialização nos trajetos de casa para o trabalho. No senso comum, temos ideia deste tipo de impacto. Se lá na Amazônia o impacto tinha uma matriz, antes de tudo, tecnológica para subjugar a cultura indígena; as relações desiguais de poder entre a cidade e os territórios periféricos têm como matriz as formas de consumo, principalmente consumo da própria cidade.
Isto é um manifesto em favor do isolamento?! Absolutamente não, é um livre pensar sobre a diversidade dos territórios urbanos e como pode haver trocas positivas e de grande intensidade para o viver democrático na cidade. Melhor dizendo, nas cidades e entre as cidades. Existem várias em São Paulo ou em qualquer outra metrópole do mundo, muito além da polarização formal e informal. E não falamos em limites administrativos, falamos em manchas construídas “unitárias” em forma, um tecido definível (apesar de bordas imprecisas) geograficamente e ocupado por funções que seriam características do urbano. Contudo, a experiência com este ambiente nos relata que são inúmeros universos diferentes com geopolítica e geometria também definidas (apesar de por vezes sobrepostos) e, proporcionalmente à mancha toda, prioritariamente ocupados por uma única função, o morar, ou o sobreviver.
De fato, o todo equilibrado não existe em qualquer acepção que fizermos dele. A ideia da cidade unitária, civitas, é impensável nas realidades pós-industriais. A leitura de que são inúmeras configurações formais e socioculturais disputando territórios de alguma forma “integrados” a outros territórios da mancha geourbana é clara. O todo pressupõe o Centro, o magneto da unidade, em termos reais ele existe nas expressões do poder político seja com quaisquer compromissos que ele é exercido. Ele não é definido espacialmente na geometria euclidiana, é um espaço não dimensional, topológico, pulverizado em muitos dos territórios urbanos. Sua pulverização molecular também depende das integrações espaciais; ou melhor, espacialmente ele se constitui por meio das redes que constrói sobre os territórios escolhidos criteriosamente.
Por tudo isso, o que me ocorre como ponto fundamental para pensar sobre integração da cidade com seu cidadão de qualquer extrato social é reconhecer o direito dos territórios construídos por seus ocupantes nas margens da cidade legal de “serem cidade”. A quem pertence a cidade? Àqueles que territorializaram relações socioculturais numa porção delimitada de terra, que constituíram relações urbanas entre si em escala política definida, em código de conduta ou contrato social próprios.
Os vínculos e integrações com outros territórios devem atender exclusivamente às necessidades de territorialização e urbanização de cada bairro, comunidade, assentamento, vila, ou qualquer nome que dermos a essas unidades moleculares que formam o tecido da mancha urbana de São Paulo. A impressão que temos é que qualquer que seja o desenho de cidade originário das ideias de unidade (de seu centro tomador das decisões) será excludente. Em proporções e condições diferentes estará sempre excluindo partes da sociedade e, não raramente, maiorias. Não é a periferia metropolitana em sua precariedade material que sufoca a cidade, mas sim o contrário. A pressão socioeconômica exercida pelos centros urbanos que esmagam as potencialidades transformadoras dos territórios nas periferias da cidade.
E elas são muitas, proporcionadas exatamente pelo exercício diário de se constituírem como comunidades, como vida em sociedade apesar da ausência de um Estado atento às suas demandas. Esta prática confere o caráter urbano, o direito de ser cidade, mais que o direito de acessibilidade espacial, é o direito à sua urbanidade, das necessidades básicas de saneamento e calçamento à toda a diversidade de atividades urbanas definidas pelo suas dinâmicas culturais. Quanto às tipologias e morfologias, elas estão designadas pela própria territorialização e obedecem seus contratos socioespaciais.
Ainda em relação ao direito de ser cidade, o pertencimento e a integração, não se pode evitar as reflexões do sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre que, no emblemático ano de 1968, incutiu a ideia na pauta de discussões sobre a sociedade contemporânea ao publicar “O direito à cidade”. Na época foi fundamental para a tomada de Paris pelas barricadas de Maio, nos últimos anos voltou à moda pela (mais ainda) urgência do tema. Ele se posiciona perante as ciências da cidade no sentido de provocar, além do entendimento do fenômeno urbano, a necessidade de problematizar para quem e com quais meios políticos a cidade se realiza. E propõe essa reflexão a partir cotidiano real ao invés de modelos abstratos e ideologizados.
Recorro a dois trechos da obra, um para evidenciar que os territórios à margem é questão emergente logo no início da metropolização galopante no segundo pós-guerra, ao notar que em 68 já era sensível e preocupante para Lefebvre. E, mais, a constatação de que a transformação social só é possível por meio dos elementos locais, possibilidade que depende forças que os reúna, os potencialize:
“Num período em que os ideólogos discorrem absolutamente sobre as estruturas, a desestruturação (social, cultural). Esta sociedade, considerada globalmente, descobre que é lacunar. Entre os subsistema e as estruturas consolidadas por diversos meios (coação, terror, persuasão ideológica) existem buracos, às vezes abismos. Contêm os elementos deste possível, elementos flutuantes ou dispersos, mas não a força capaz de os reunir. Mais ainda: as ações estruturantes e o poder do vazio social tendem a impedir a ação e a simples presença de semelhante força. As instâncias do possível só podem ser realizadas pelo decorrer de uma metamorfose radical”.
O outro para reforçar a ideia que “o urbanismo como doutrina, isto é, como ideologia, que interpreta os conhecimentos parciais, que justifica as aplicações, elevando-as (por extrapolação) a uma totalidade mal fundamentada ou mal legitimada” (p.47), não constitui instrumento capaz de atribuir aos territórios a urbanidade desejada. A única fresta em que podemos enxergá-la é por meio de uma dinâmica urbanística resultante da atuação dos atores territorializados e organizados em comunidades. Neste formato mesmo o técnico urbanista pode e deve atuar em conjunto a partir do conhecimento das dinâmicas próprias do território e não da aplicação de modelos sob a noção de unidade composta por partes integradas e hierarquizadas.
Para Lefebvre, “O direito à cidade não pode ser concebido como um simples direito de visita ou de retorno às cidades tradicionais. Só pode ser formulado como direito à vida urbana, transformada, renovada”... o ‘urbano’, lugar de encontro, prioridade do valor de uso, inscrição no espaço de um tempo promovido à posição de supremo bem entre os bens, encontre sua base morfológica, sua realização prático-sensível.”

O Jardim Lapenna
Uma breve ilustração das reflexões introdutórias deste texto, mais que ilustração, possivelmente a motivação delas decorre da experiência realizada com estudantes de ensino médio de uma escola do Jardim Lapenna. A USP tem um programa chamado “Aprender com Cultura e Extensão”, nele estudantes da Universidade colaboram em projetos junto à comunidade coordenado por um professor. Inscrevi (e foi selecionado) no ano passado o projeto Mapografias urbanas – Zona Leste, sua realização foi na Escola Estadual Pedro Moreira Matos na região de São Miguel Paulista.
O projeto Mapografias consiste de propor a jovens na faixa dos 16, 17 anos desenhar mapas diversos de seu território. A faixa etária é importante, crescidos o suficiente para caminharem sem tutores e movidos pelo desejo de descobertas, no entanto, ainda sem os vícios da percepção utilitária da cidade. O projeto foi aplicado em outra oportunidade em escola no centro de São Paulo. Na periferia distante foi a primeira vez e, como já era esperado, deu nova dimensão ao projeto. Isso porque as noções primárias de território e territorialização fazem parte das práticas de sobrevivência diárias nestes nestas situações geo-urbanas.
O Mapografias entende que a transformação da sociedade ocorre por meio da compreensão que ela faz do território (espaço + sociedade + política). Aprendemos com Milton Santos que território é “de uma forma impura, um híbrido, uma noção que, por isso mesmo, carece de constante revisão histórica. O que ele tem de permanente é ser nosso quadro de vida. Seu entendimento é, pois fundamental para afastar o risco de alienação, o risco de perda do sentido individual e coletivo, o risco de renúncia ao futuro” (Por uma Geografia Nova, 1978).
A primeira edição do projeto foi conduzida no Colégio de São Paulo, localizado no Parque Dom Pedro II, absolutamente central. As indicações fornecidas pelos estudantes em seus mapas de suas formas de territorialização foram muito interessantes, porém, difusas. Lá os estudantes estão no Centro, são cortados por inúmeros sistemas de circulação que apontam em todas as direções do mundo exterior. Eles convivem com a saturação do centro contemporâneo, mesmo que decaído, com os arranha-céus, com os veículos e as multidões. O território para eles tem um componente de midiático.
O Lapenna é o mais franco imediatismo nas relações população – ambiente, nas relações de territorialização. A experiência com os estudantes do Pedro Moreira nos mostrou isso, e mais, mostrou-nos o quanto é fundamental para a existência atual e as perspectivas de futuro eles estarem territorializados. O Jardim é uma vila (mistura de loteamento clandestino com ocupações) pendurada na linha do trem e espremida entre a via expressa Jacú-Pessego, a rodovia Ayrton Sena e as enormes instalações de uma indústria química na várzea do Rio Tietê. Como todas nestas condições, sujeita aos fluxos pendulares do trabalho. No entanto estes jovens ficam lá, poucos trabalham, portanto poucos saem da ilha cercada por canais vedados de mobilidade.
Quando foram provocados a se inscreverem no território do Lapenna e deixar desenhada (ou cartografada) esta inscrição, toda a timidez no contato com estudantes da USP se desfez, eles são incisivos e diretos, o desejável e o indesejável, o seguro e arriscado, o lícito e o ilícito são narrativas completas e não descrições abstratas.
Esta demonstração aconteceu em um happening no pátio da escola no horário do recreio noturno. Os estudantes que participaram das oficinas do projeto fizeram um mapa base da vila e colaram na parede para que os outros estudantes marcassem seus cotidianos sobre aquela representação. Na ocasião pode ser visto claramente o potencial transformador dos “elementos não reunidos” a que se refere Lefebvre. Mas, quanto ao nosso debate sobre integração e desenho excludente, a experiência mais marcante para refletir sobre o tema, aconteceu ao término das atividades do projeto.

Em conversas com os meninos e meninas, prometi que os levaria para conhecer a FAU depois que acabassem as oficinas. Acho que o fiz para que não dispersassem e me deixassem falando sozinho. Mas, uma vez prometido, tive que cumprir. Fomos num grupo de uns dez estudantes de trem + metrô + ônibus, ida e volta, de São Miguel até a Cidade Universitária, a maioria nunca tinha entrado no metrô! Foi muito divertido para todos nós. Eles adoraram o prédio de Vilanova Artigas e os funcionários dos laboratórios fizeram questão de mostrar tudo e convidá-los para atividades que acontecem lá abertas ao público externo.
Seria o cúmulo da pieguice, narrar este acontecimento e falar que àqueles meninos e meninas que pertence a cidade, que eles sim devem ter o direito à cidade. O que é a pura verdade, mas uma verdade que tem outra versão. Nos comentários, expressões, reações às quais fiquei muito atento durante o dia todo do passeio - trajeto muito longo, chegada no jardim da Cidade Universitária (é possível contar nos dedos o número de árvores no Lapenna), a entrada no Salão Caramelo da FAU - era perceptível o espanto de como achavam tudo fantástico, ainda mais tratando-se de uma escola.
Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi certa displicência “turística”. Estávamos em um grupo de turistas, claro um turismo qualificado e com ares acadêmicos, mas ainda assim, este tipo de distanciamento turístico ficou patente no comportamento deles. Não por desinteresse, estavam o tempo todo muito empolgados com tudo que viam e ouviam. Ou seja, como todos ficamos quando visitamos outras cidades.
Conversando com eles, ouvi comentários diversos que, em minha interpretação, explicavam as minhas impressões. Não se tratava de aquela morfologia ou aquele equipamento estarem acessíveis, nem ao menos da distância e dificuldade para chegar até lá, nem tampouco se eles têm a chance de estarem lá futuramente como alunos. Mas, sim, o quão formidável seria ter aquele universo de possibilidades onde eles estão territorializados, no cotidiano do território deles.
A imagem que me ocorreu imediatamente enquanto os ouvia, era daquele grupo de jovens do Pedro Moreira marcando lugares no mapa do Lapenna, pois falavam de como aquela multiplicidade de acontecimentos e atividades descobertas na USP deveriam povoar a vila deles. Eles não priorizavam a forma urbana da Cidade Universitária ou a tipologias dos edifícios, apesar de gostarem muito. Mas elas são o outro, ou de outros, eles reconhecem a própria construção coletiva e identitária de seu território, portanto, não faria sentido transplantar outras na complexa e autoral morfologia que construíram.
Para eles neste momento, saberem que Cidade Universitária está lá, que podem ir a qualquer momento e saberem como se chega até ela, é o suficiente. Mesmo que demore duas horas chegar é um lugar muito agradável e interessante para se passear, mas as funções sociais que ela abriga deveriam estar espalhadas pela cidade. E a cidade está no território deles. Aprendi com eles um encaminhamento possível para pensar a questão da integração na cidade do desenho excludente.

Julho, 2016

Continuar lendo texto
de Jorge Bassani
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Vídeo-instalação da obra “Cinema Lascado”, de Giselle Beiguelman
“(...) a artista atua na
estrutura formadora da
combinação binária das
imagens digitais,
corrompendo códigos,
abrindo a porta para que o
acaso também participe
dessa equação (...).”
Eder Chiodetto
sobre Giselle Beiguelman

A cidade dos muros.
O medo do espaço público


A fuga do espaço público aumentou ainda mais na década de 1970. Como resultado do aumento da violência, a cidade se voltou cada vez mais para dentro, construindo os shoppings, os condomínios murados, os centros empresariais. Nesses locais, trabalha-se, mora-se e compra-se dentro de muros, sem precisar colocar o pé no chão da rua.

O problema é que esses lugares acabam sugando ainda mais a energia da rua e ainda têm o efeito de criarem grandes muros que isolam a calçada, criam áreas inseguras.

Para piorar, o centro da cidade que estava perdendo o seu caráter simbólico, ganha um golpe feroz: o Minhocão desprezou as ruas, as praças e os largos existentes, produziu uma cicatriz no centro e acabou com as vidas dos seus vizinhos.

É possível que tenhamos chegado ao fundo do poço na virada do século XXI: uma cidade que não permite a fruição da diversidade e onde quem pode se isola cada vez mais.

A cidade contemporânea:
O resgate da urbanidade


A história não terminou. Para os que advogam que a cidade é um organismo vivo, há sinais de que esse organismo está se movendo em outra direção
Os sinais são claros: no espaço de uma década, começamos a ver mais e mais gente nas ruas. Há multidões em cada virada cultural, as praças começam a ser retomadas pelos vizinhos, milhões aparecem para curtir a Paulista no Reveillon, no Natal e até nas manifestações de todos os tipos e matizes.

A cada pequena intervenção, as pessoas respondem, entusiasmadas. Desde um parklet que oferece uma parada na correria, até a Praça Roosevelt, uma tampa viária que, reformada, trouxe o saudável conflito entre grupos que querem ocupá-la.

As pessoas querem a sua cidade de volta.tuoso à uma vulgar passagem de carros.

a rua
é nóiz
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por Filipe Luna

A noite de São Paulo ainda é a melhor e maior do Brasil.
Mas a cena, que era conhecida pelos clubes famosos que varavam
a madrugada, agora não acontece apenas em espaços fechados e
nem necessariamente à noite. A rua também é pista na capital
paulista.

São muitos os passos que percorrem as ruas do centro de São Paulo. São decididos, andam pra frente, ou se tropeçam, se batem, se esbarram, apressados, ao som do compasso agitado do ritmo do trabalho na cidade. São movimentos que carregam a potência da maior economia do Brasil, que avançam decididos atravessando calçadas, movimentando o comércio, entrando e saindo dos túneis do Metrô. Sem melodia ou harmonia, apenas ritmo, eles batucam as calçadas de segunda a sexta incessantemente. Livres das correntes do horário comercial, os passos se abrem, mais anárquicos e apontam pra todas as direções. Pra frente, pra trás, pro lado e pro outro, comandados por quadris que se movem ao som da música, que agora ocupa aquela paisagem antes dominada pelo barulho ensurdecedor do trabalho. Passo a passo, o centro de São Paulo foi ocupado, transformando o asfalto, o concreto, o mosaico das calçadas, na maior e melhor pista de dança da cidade.

Para Facundo Guerra, dono de vários bares e casas noturnas de São Paulo, o primeiro passo aconteceu na Green Sunset do Museu da Imagem e do Som, há 5 anos. “Foi essa festa que deu o primeiro impulso pra mostrar que as pessoas podem dançar e se divertir durante o dia. Não precisa ser só à noite.” Para Karen Cunha, coordenadora de programação da Secretária Municipal de Cultura, um passo importante foi “uma das primeiras vezes em que a festa Voodoohop tocou na rua no Mês da Cultura Independente, em 2010, na sacada da Trackers”. Já Pita Uchôa, produtor e DJ da festa Calefação Tropicaos, que era um dos membros da VoodooHop quando esta dava seus primeiros passos, diz que “não tinha essa coisa pensada: vamos ocupar o espaço público. Era muito por zoeira mesmo e até pra debochar: não tem autorização então vamos colocar o som no Minhocão e ver até onde vai.” Fato é que cada um desses passos traçou a retomada de um hábito muito brasileiro na cidade de São Paulo: fazer festa em espaços públicos.

Vem pra rua

São muitos os exemplos da cultura brasileira de festejar na rua e quase todas de origem religiosa: quermesses, festas juninas e o inescapável carnaval. Mas em São Paulo até a mais brasileira das festas estava sufocada pela dor e delícia de ser uma das maiores metrópoles do mundo.
Confinado no sambódromo do Anhembi com o desfile das escolas de samba, o carnaval de São Paulo só botou o bloco na rua pra valer em 2015, quando registrou 172 agremiações cadastradas. Neste ano, o número mais que dobrou: 355 blocos desfilaram pelas ruas. Esse transbordo foi eco direto do crescimento da Virada Cultural, festa que, desde 2005, ocupa o centro de São Paulo por 24 horas com atrações culturais a cada esquina. São eventos que fizeram parte de uma mudança de percepção do espaço público para quem vive na cidade. “Num contexto mais amplo, o paulistano perdeu o medo da rua”, afirma Facundo. “Porque a gente cresceu, eu falo pelo menos da minha geração, já que tenho 40 anos, achando que a rua era perigosa. Minha mãe ficava mais feliz se eu ficasse no Atari em casa do que jogando bola”.
Para essa geração, da qual também faço parte, a casa noturna sempre foi o lugar onde a festa era possível. É importante pensar que a festa tem uma característica fundamental: ela precisa ser subversiva. As regras que se aplicam na vida em comunidade são diferentes do que se permite fazer no clube. Não há olhares reprovadores para quem está num estado alterado de consciência, para quem dança seus males na pista ou para quem tem quentes demonstrações de afeto em público.
Quando comecei junto com meus sócios há 8 anos a festa Talco Bells, nossa ideia de subversão era tocar música soul em clubes em que o contexto habitual era música eletrônica, pop, rock and roll ou samba rock. Um par de anos depois de começarmos, esse modelo começaria a se tornar anacrônico: até os clubes têm uma estrutura com códigos de comportamento, e o público começava a sentir necessidade de subvertê-la.
“Quem gosta de ir em festas de rua acha clube muito cafona”, diz David Carneiro, 26 anos, organizador da festa Primavera, eu te amo. “Pagar pra ir na balada, pagar pra ficar em fila é muito anos 2000”. Não são poucos os que compartilham da opinião de David: a última edição na rua da sua festa levou 10 mil pessoas à praça ao lado do Teatro Municipal de São Paulo, a Praça Ramos de Azevedo. “O público que vai pra rua está procurando um ambiente em que tenha um maior arbítrio”, explica Akin Deckard, DJ e organizador da festa Metanol FM. “Ele tem a liberdade de beber o que tá ali à venda, de levar de casa. As pessoas vão pelo conteúdo, em grande parte, e também pelo movimento social que é o evento de rua. Por você poder estar em contato com outras pessoas e poder ter contato com o que você gosta, culturalmente falando, num ambiente de expressão individual mais aberto”.

Diferente dos clubes, todos os passos que compõem a coreografia de uma festa de rua são mais complexos de definir. Tem o público que veio das baladas, mas tem ambulantes, moradores de rua, pedintes, transeuntes. Pessoas que não conhecem o código de comportamento dos clubes ou simplesmente não se importam. “O que mais gosto é o impoderável. É completamente aleatório”, explica Millos Kaiser, 29 anos, metade da dupla Selvagem, que por muito tempo realizou sua festa na Praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo. “Já rolou uma cerimônia de casamento durante a festa. Performances bizarras, mendigos dançando com patricinhas – às vezes pegando patricinhas. É um mix muito grande. São encontros entre seres humanos que normalmente não acontecem porque as pessoas não se permitem muito. Numa festa de graça essas coisas acontecem. É incontrolável, pro bem e pro mal. [A Selvagem] Ficou tão grande uma época, com tanta gente, que quase implodiu. Não dava pra ir no banheiro, não dava pra comprar bebida, era só uma grande massa. Mas era muito bom. Tenho saudades”.

A praça é nossa

Passos que percorrem caminhos opostos de segunda à sexta, mas que se cruzam na pista de dança aos sábados e domingos. Esses encontros têm transformado a experiência de viver na cidade a partir do centro. A ocupação da rua e dos espaços públicos também se estendeu além das festas, principalmente em manifestações políticas. “A gente costuma dizer que faz festa na rua porque é nossa maneira de fazer política”, explica Akin. “O que a gente faz também contribui positivamente para a ideia do uso do espaço público de maneira legítima para qualquer coisa que você queira como cidadão. Reinvidicar seus direitos políticos, discutir a questão de gêneros e classes, pontuar ideias, festejar, celebrar”.

A Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura tem incentivado essa mudança de paradigma. Em 2014, aconteceu a primeira edição do SP na Rua, evento que convidou 22 coletivos para tomarem as ruas do centro de São Paulo com seus sistemas de som por uma noite. Já aconteceram outras duas edições do evento – a última teve participação de 36 coletivos. A próxima está marcada para 10 de setembro (antes da publicação, mas depois do fechamento desta reportagem). O SP na Rua é um reflexo do apreço que a atual gestão municipal tem pelas festas em espaço público. “Tem a cara de São Paulo”, diz Karen Cunha. “Gostam muito de colocar na nossa cabeça essa ideia de que o paulistano só quer ficar trancado em casa, só gosta de shopping e só quer saber de trabalhar. Logo que a gente voltou com o carnaval de rua já se provou que as pessoas queriam muito sair pra rua. Se os coletivos querem ocupar a rua, desde que isso não seja um problema com a vizinhança do local, não consigo entender porque o poder público deve ser contra. A secretaria de cultura quer mais que a cultura esteja em toda parte.”

Essa negociação com a vizinhança local é mais simples quando as festas permanecem na região central. Quando se espalham para o centro expandido e suas zonas residenciais, a situação se torna mais delicada. Pita Uchôa, da Calefação Tropicaos, mora em Perdizes e tem dificuldades para ocupar o bairro. “Aqui nessa região existe uma cultura das pessoas tratarem as praças como uma extensão das casas delas, mas no mau sentido”, explica. “De querer que aquilo ali seja deles, então pensam: quem são essas pessoas aqui que não conheço e que estão praticamente dentro da minha casa? Mas não é sua casa, é uma praça pública em que todo mundo pode transitar. A gente já foi impedido de fazer um piquenique há 5 anos só porque eram pessoas, sei lá, com roupas estranhas, com aparências estranhas. Chamaram a polícia e, mesmo sem argumento, reprimiram e tiraram a gente de lá. O principal passa mesmo pelo comportamento das pessoas. Entender até onde vai seu direito e o direito do outro. Inclusive da parte de quem faz”. Pita explica que a experiência com os moradores do Minhocão o fez repensar fazer festas naquele local. Num espaço onde os carros estão tão próximos que parecem dentro dos apartamentos, o domingo era o único dia de sossego do barulho para quem habita a região.

Segue o fluxo

Se nos bairros de classe média há um descompasso entre quem quer festa e quem quer descanso, na periferia o passinho segue outro ritmo. “Eu vim de Perus e sempre achei caro pra caramba vir pra alguma balada aqui no centro de São Paulo”, conta David Carneiro, da festa Primavera, eu te amo. “Quando você vem da periferia e vai se inserir em outro círculo social, você tem medo de não ser aceito”. Essa é uma das explicações para a distância entre a cultura que se vive na periferia e o que acontece no centro. O jornalista carioca Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, que publica notícias sobre os morros do Rio de Janeiro, esteve na periferia de São Paulo para fazer um documentário sobre o Passinho do Romano (dança do funk criada no bairro Jardim Romano) e conheceu de perto o Fluxo – festas de funk que acontecem na rua e são divulgadas pelas redes sociais. “Diferente de qualquer festa de rua, o funk é uma parada que acontece na favela em que mistura gente que tem condição de sair para outro lugar, mas opta por curtir aquele espaço com uma galera que não tem uma grana pra sair e não precisa sair do seu território para poder curtir”, explica Raull. “É um lugar dentro da sua área onde você vai gastar menos. A bebida, o lanche vai ser mais barato, você não gasta com condução e nem tem que se preocupar se vai ter algum problema na entrada da favela quando voltar, alguma dura, uma revista, passar por uma situação vexatória”.

Raull usa sempre uma expressão quando fala da periferia: “o nós por nós”. O Fluxo é uma festa realizada para um público local que além de ser um encontro social tem impacto econômico. Um deles, e mais evidente, é ser uma plataforma para divulgação das músicas que são gravadas por MCs da periferia. O outro é gerar uma oportunidade econômica para comerciantes do local. “A partir do momento que você tem um baile, um cara que tá sem emprego bota um isopor e faz uma renda extra”, explica Raull. “No dia do fluxo, o salão de cabeleireiro tem uma clientela maior, uma loja de roupa vende um pouco a mais. Acaba gerando um movimento em torno do baile e isso que torna essa força do baile dentro da favela”.

Fervo pro bono

“Grana nunca vai rolar”, Pita Uchôa é categórico. “Quem fizer festa de rua esperando grana ou não vai fazer ou vai fazer de uma forma bem comercial que já foge do propósito do negócio. Aí é melhor ir fazer num clube”. A curva de popularidade das festas de rua começou sua ascendência em 2010 e teve o auge entre 2013 e 2015. Este ano, a frequência dos eventos sofreu uma queda, eles estão menos cheios. Seria uma crise? Na verdade, embora ocupar o espaço público seja um desejo de quem faz e de quem vai, esse formato tem o mesmo problema fundamental de qualquer empreendimento: como os organizadores podem fazer dinheiro com o evento para cobrir os custos? “O ambiente do espaço público não dá pra capitalizar”, afirma Akin Deckard, da Metanol. “Mas a gente nem tem a intenção de fazer dinheiro com festa de rua. Isso faz muito mais parte de nosso DNA ideológico e artístico do que do nosso DNA financeiro e capitalista. Quando eu toco na rua, consigo dialogar com um público muito maior, mais diversificado, menos elitista e muito mais cabeça aberta do que o público de clubes em geral”.

A Metanol FM usa um modelo replicado por muitos coletivos e realiza festas em outros espaços cobrando entrada. O coletivo ainda mantém um espaço, o S/A, que também abriga seus eventos. Sair da rua não significa um passo pra trás e voltar ao mesmo formato antigo dos clubes. A maioria das festas de rua buscou espaços alternativos para sediar suas edições pagas. Locais como a Casa da Luz, Casa das Caldeiras, Nos Trilhos, galpões abandonados, casas desocupadas. “Acho que esse foi o passo que todo mundo que tava na rua deu”, reflete Millos Kaiser, da Selvagem. “Achar esses lugares meio sem lei, fora do circuito de clubes, que não tem comanda, não tem segurança, nada disso. Acho que é justamente com esse objetivo de preservar essa aura que você tem na rua”.

“Percebi que esse era um processo irreversível”, avalia Facundo Guerra, que trabalha diretamente com o negócio dos clubes, “até porque essa estrutura do clube, da boate, já existe desde a década de 60, 70, e está obsoleta. A rua é uma resposta também a própria obsolecência do clube. Agora a gente tem um projeto que vai tentar atualizar a estrutura do clube pra não concorrer com a rua”. Facundo pretende resgatar o espírito dos clubes que tinham sócios e planeja começar o novo empreendimento captando os associados através de crowdfunding. Os apoiadores terão direito a frequentar o espaço pagando uma mensalidade. A diferença é que a estrutura acústica é desenhada por José Nepomuceno, da empresa Acústica e Sônica, que fez o projeto da Sala São Paulo. O resultado é um sistema de som de altíssima fidelidade para reproduzir áudio sem compressão, em formato digital ou em vinil. Além disso, Facundo mantém um olho na rua: “Estamos desenvolvendo um app pra estimular a música na rua chamado Gig. É um aplicativo que permite que as pessoas doem dinheiro diretamente pro artista. Já conseguimos juntar 800 mil reais de empresas.”
São mais de 20 milhões de pés nesta cidade e cada um tem seu passo. Se o trabalho dava o tom que guiava sempre o compasso da rua para uma mesma direção, o ritmo mecanizado que sai dos alto falantes injetou uma saudável dose de anarquia no free jazz que temos em São Paulo.
A noite da cidade ainda é a melhor do país e, se não tem um clube que seja seu símbolo, como Berlim tem o Berghain, ou Londres tem Fabric e Ministry of Sound, São Paulo tem mais: tem noite, tem dia, tem rua, tem balada, tem ocupação. Cada um no seu passo: pra um lado, pro outro, pra frente, pra trás.

Continuar lendo texto
de Filipe Luna
a redescoberta
das ruas
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Você já deve ter notado que alguma coisa está diferente na cidade de São Paulo nos últimos tempos...

O Carnaval. Muita gente passou a infância em bailes de carnaval em clubes, enquanto a cidade ficava estranhamente vazia durante o feriado. Dançar era só no Sambódromo. De uns tempos para cá, foram criados centenas de blocos, regulados hoje pela prefeitura para organizar a dança das ruas.

A retomada das praças e parques. Em qualquer domingão, os parques estão lotados; o Ibirapuera, o Villa Lobos, Aclimação, o Horto Florestal e tantos outros.
Até pouco tempo atrás, bacana era fazer festa em buffet, com valet, motoristas enfileirados, seguranças. Hoje, chique é ir até uma praça ou um parque e comemorar o aniversário com um piquenique na grama.

E outras ocupações também ganham peso. A Roosevelt foi reformada em 2012. Antes, ela era vazia, escura, ameaçadora. Hoje, tem skatista, tem mães passeando com bebês, crianças no parquinho e grupos de colegiais passeando pela praça. À noite, a turma dos teatros e dos bares fica por ali. Às vezes, há problemas. Tem gente que faz barulho demais e atrapalha o sono dos moradores. Tem gente que anda de skate e ameaça os que estão sentados nos bancos. O conflito existe e é preciso reconhecê-lo e resolvê-lo.

As ciclovias. A bicicleta nunca deixou de ser um meio de transporte para algumas pessoas, mas agora, há um desejo claro de mais e mais pessoas saírem por aí pedalando. Em vez de fila no estacionamento e congestionamento, o vento no rosto. Às vezes chove ou faz frio. Não importa. Tem muita gente querendo andar e chegar nos lugares de bike.

O Minhocão. Até um espaço símbolo da barbárie rodoviarista está sendo transformado. Em vez de carros, durante as noites e finais de semana, pessoas. Talvez ele venha abaixo, talvez vire parque. Em qualquer dos casos, a solução vai ser melhor do que ter 60-80 mil carros passando diariamente na altura da sua janela no terceiro andar, enquanto uma sombra obscurece a vida no térreo.


Os Eventos. Virada Cultural, virada esportiva, Parada Gay, Marchas religiosas e manifestações políticas. Todo mundo quer estar nas ruas. O Reveillon na Paullista parece que está lá desde sempre, levando milhões, mas é coisa que foi crescendo, desde a primeira vez que foi realizado ali, em 1997.

A Av. Paulista. Nada é mais representativo dessa vontade da cidade de reocupar o espaço público do que a Paulista. Desde que foi criada, em 1891, até meados do século XX, a Paulista era um dos espaços públicos mais luxuosos da cidade, com suas mansões art-decó, calçadas largas e iluminação e calçamento como só se viam por lá. Mas faltava gente, que só aparecia por ali para o corso de carnaval e para visitar o Mirante do Trianon. Os escritórios que se instalaram por lá trouxeram o poder econômico e também as pessoas. Mas foi só depois da instalação do metrô que as multidões começaram a tomar a rua em qualquer horário.

Numa cidade que tem tantas salas de cinema de shopping, os únicos que conseguem sobreviver na rua estão na região da Paulista, com uma ou duas exceções. Os bares da Augusta atraem multidões, as exposições, restaurantes, lojas, estão todos lotados. Mas o mais impressionante é o movimento espontâneo. Grupos se formam ao redor de músicos de rua, ou em rodinhas de amigos no vão do Masp. Mesmo numa avenida que incrivelmente não tem bancos, o pessoal senta onde dá.

Nos finais de semana, o movimento aumenta ainda mais, mas é no domingo que a avenida fica mais linda. Sem carros, sem barulho, fumaça e desconforto, as pessoas vão para lá só para caminhar, olhar o movimento, sentar, descansar, pensar. Sim, a cidade está nas ruas.
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O poeta Boudelaire, andarilho dos bulevares parisienses, onde, segundo ele, "tomava banho de multidão!"

"Lugar – Um espaço que
adquire significado se torna
um lugar."


Lexico da Caminhada
por Mauro Calliari
o melhor
caminho
é caminhar
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São Paulo é grande, acidentada e muitas vezes difícil para o pedestre. Mas dá para fazer muita coisa a pé. E não há nada igual para conhecer a cidade!

Andar a pé permite ver coisas que estão escondidas para quem anda de carro, ou de ônibus, ou de metrô. Uma lojinha com artigos especiais de desenho perto da Praça da República, os vendedores de ouro na rua Barão de Paranapiacaba, um mural num prédio que você nunca teria reparado, uma vista surpreendente depois de uma subida difícil em Perdizes.

As melhores coisa para se ver, no entanto, são as pessoas. Ver pessoas diferentes é sempre um acontecimento.
O melhor da cidade são as pessoas e a capacidade de conviver com pessoas diferentes é uma medida da sua própria identidade. Parece paradoxal, e talvez seja mesmo, mas quanto mais você convive e vê gente diferente de você, mais se conhece e cresce.


Como Caminhar
Cada um tem seu jeito de caminhar. Tem gente que prefere escolher um ponto de chegada e ir direto, sem paradas.Tem outros que vão vagueando, ou flanando sem rumo. Outros ainda gostam mesmo é de parar, numa feira, uma padaria, um museu.

Teste seu estilo. Misture destinos, paradas, e o que mais interessar: arquitetura, comércio, parques, cafés.
Um jeito bom de ir longe é não se preocupar em voltar a pé. Vá andando até onde conseguir e volte de ônibus, de metrô, de taxi. Assim, você vai mais longe e conhece a pé lugares que normalmente você não iria.

caminhos
de M. Calliari
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onde
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O Centro - Nada é mais simbólico do que o Centro da Cidade. São Paulo surgiu e ficou séculos limitada à colina histórica e depois começou a se espalhar para oeste e leste. Grande parte das ruas do Centro são exclusivas para pedestres e você pode ir andando sem rumo e sem medo de se perder. Vale a pena passar pelos pontos históricos e incluir coisas que aumentem o interesse. Se tiver crianças com você, então, inevitável colocar paradas e atrações. Aí vão duas sugestões, mas melhor mesmo é você fazer o seu próprio roteiro.

Bom Retiro – Caminhar pelo Bom Retiro faz bem aos sentidos. Tem gente por todos os lados e gente de todos os tipos. O bairro já foi lugar de imigrantes judeus, coreanos, latino-americanos. Durante a semana, as centenas de portinhas trazem uma surpresa a cada cinco metros. O Jardim da Luz, ali do lado, é o primeiro parque de São Paulo e mais um pouco e você está na Pinacoteca. Nenhum bairro vai ter tantas opções gastronômicas diferentes; comida grega – o famoso Acrópole (cuidado para não bater a cabeça no teto baixo na hora de ir pegar sua mussaka); judaica – a Shoshi Dehli, despretensiosa e deliciosa. Descanse no Centro de Cultura Oswaldo Cruz, ao lado dos bailarinos e atores das oficinas ali ao lado.

Santa Cecília – Caminhar por Santa Cecília permite observar um dos melhores exemplos em São Paulo do que os urbanistas chamam de uso misto. Prédios residenciais com comércio embaixo dão uma mistura gostosa ao caminho. Você vê uma lavanderia, uma quitanda, um chaveiro na mesma calçada em que moradores antigos jogam um dominó no bar da esquina.

Brás – O Brás é quase uma cidade em si. Desde que a cidade começou a crescer, o Brás se transformou na porta para a região Leste e acomodou imigrantes de todas as nacionalidades. Os italianos chegaram a construir uma ópera no Largo da Concórdia. Hoje, dá para apreciar o movimento dos clientesdas milhares de lojas de roupas espalhadas pelo bairro. Sair do bairro em direção ao centro exige um cuidado: a região do Parque Dom Pedro é bem incômoda de cruzar a pé.

"Sabia intuitivamente que
São Paulo era feita de gente,
e gente se encontra em
aparelhos culturais: bares,
cinemas, museus, praças e rua."


Arqueologia Afetiva
por Facundo Guerra

10 livros por
Cadão Volpato
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Higienópolis – Prédios bonitos de arquitetos famosos, traçado quadradinho das ruas, comércio, moradores na rua.. Cruzar o Higienópolis é um prazer. Parada boa na Praça Villaboim e no Parque Buenos Aires, uma das praças com bancos mais confortáveis em São Paulo.

Jardins – O Jardim Paulista é o lugar do comércio sofisticado, de restaurantes caros e de prédios luxuosos. Mas há muita diversidade; as lojinhas de todos os tipos na Augusta, de tatuadores a restaurantes naturais. A Oscar Freire, reformada, com fios enterrados, calçada com material especial e vitrines bonitas merece um passeio com calma.

O Bixiga – o Bixiga é uma quebra na paisagem urbana. Grande parte do bairro é tombada, as ruas têm um movimento agradável de dia, misturando moradores, casinhas, lojas, e, claro, cantinas.

A Paulista. Em qualquer roteiro, passe pela Paulista. Ao longo dela, ou cruzando, você vai se deixar levar pelo movimento, a calçada larga, ainda que totalmente ocupada pelas pessoas e pelos ambulantes. A vantagem de começar um roteiro pela Paulista é óbvia: de lá, só se desce...

Ibirapuera. Passe por lá em qualquer passeio entre Moema, Jardins, Itaim. O Parque foi considerado um dos 10 melhores do mundo pelo jornal inglês The Guardian, com razão. O paisagismo é acolhedor, a marquise é movimentada, os museus são legais, tem show de graça, tem tudo.

Liberdade. Do ladinho do Centro, saia pela Praça da Sé e vá andando pelas ruas lotadas de gente atrás de novidades e da última moda gastronômica, o lamen, que ocasiona filas visíveis para quem passeia por ali na hora do almoço. A Praça da Liberdade é um daqueles lugares onde tem de tudo. Feira de comida, artesanato, estudantes, japoneses, festas típicas, lojas interessantes. Vale por uma viagem para outro país.

Pinheiros. Pinheiros tem de tudo. Dá para começar um roteiro fácil – só descida - na estação Clínicas do metrô. Desça pela Teodoro Sampaio, veja as lojas de instrumentos musicais, pare na Praça Benedito Calixto (feirinha aos sábados), continue pelas ruas agradáveis que cortam a Teodoro e a Cardeal, vá até a agradável praça da FNAC e termine comendo nos boxes do Mercado de Pinheiros, e vá ver o movimento no Largo da Batata.



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Lugares de morte, lugares de resistência

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Por Renato Cymbalista

Renato Cymbalista é professor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da FAU-USP e autor de "Cidades dos vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do Estado de São Paulo" (Anna Blume/Fapesp) e de "Sangue, ossos e terras: os mortos e a ocupação do território luso-brasileiro, séculos XVI e XVII" (Alameda Editorial/Fapesp, 2011)

Em 3 de fevereiro de 2004, Flávio Sant’Ana, de 28 anos foi morto pela PM em Santana, zona norte de São Paulo. Tecnicamente, a razão da morte de Flávio encaixa-se na categoria “Atitude Suspeita”.

Flávio Sant’Ana era dentista. Na verdade, a profissão dele não faz a menor diferença. Aliás, se ele fosse bandido não faria a menor diferença. No Brasil, no jargão policial, “atitude suspeita” significa quase sempre ser negro, o que era o caso.

As chances maiores apontavam para o desaparecimento do assassinato de Flávio Sant’Ana no meio dos grotescos números de mortes causados pela polícia no Brasil, de forma que eu jamais poderia evocá-lo aqui. Mas, neste caso, o excepcional aconteceu: a morte de Flávio produziu uma forte organização de ativistas pelos direitos dos negros, que se nomeou “Frente 3 de Fevereiro” e levou adiante o propósito de não deixar passar em vão esta morte.

A Frente lastreou um conjunto de ações políticas no episódio. Dois meses depois do assassinato, no dia 4 de abril, a Frente inaugurou no local da morte um chamado “monumento horizontal” em memória de Flávio, com a presença de sua família.

O monumento consistia em uma placa de ferro reproduzindo em tamanho próximo ao real uma silhueta estilizada, e, dentro da figura do corpo, a frase: “Aqui! Flávio F. Sant’Ana foi morto pela Polícia Militar de São Paulo”.

No dia seguinte ao ato, a PM destruiu e removeu o monumento. Dali a uma semana, a Frente voltou ao mesmo local e refez o monumento, desta vez em concreto e tinta, plasmados no asfalto de forma a impedir sua remoção. Novamente, o dia seguinte o monumento apareceu semi-destruído.

Além de enfrentar a destruição do monumento a Flávio Sant’Ana, a Frente 3 de fevereiro atuou em outros níveis: publicando, cantando e dançando a história. Agiu também política e juridicamente, buscando punir os responsáveis de forma emblemática.

Não é possível sabermos o que teria acontecido se a Frente 3 de Fevereiro não tivesse ancorado suas ações no local da morte, nem eleito o lugar como centro simbólico de suas reivindicações. O fato é que esta morte teve um desfecho diferente da maior parte das mortes de negros e jovens no país. Os três policiais responsáveis pelo assassinato foram condenados em 2005 a até 17 anos de prisão. Não fui capaz de descobrir se houve recurso ou se as penas foram efetivamente cumpridas.

Monumento horizontal
A ideia do monumento horizontal – ou anti-monumento, ou contra-monumento – é um instrumento de politização do espaço que vem sendo utilizada por diversos grupos sociais nas últimas décadas. Contrapõe-se ao monumento vertical, às tantas marcas tradicionais, estátuas, memoriais e mausoléus que buscam cristalizar em forma edificada uma narrativa no espaço da cidade. O monumento horizontal é uma marca no solo que depende do engajamento, e não da contemplação.

No dia 6 de fevereiro de 2000, o adestrador de cães Edson Neris da Silva passeava de mãos dadas com seu namorado na Praça da República quando foi atacado por um grupo de skinheads denominado Carecas do ABC.

Uma testemunha seguiu os algozes e chamou a polícia, que os cercou e os identificou em um bar. Foram processados, e o promotor público Marcelo Milani defendeu desde o início do processo que se tratou de “crime de ódio”, e foi a primeira vez que tal crime foi tipificado no Brasil.

Três dos assassinos foram condenados a até 21 anos, e o movimento LGBT elegeu Edson Neris como figura emblemática de sua luta. Em 2005, foi fundado o Instituto Edson Neris, por um grupo de militantes.

Alguns ativistas tentaram marcar o sítio da morte na Praça da República com um triângulo rosa, símbolo nazista da segregação de homossexuais masculinos, que foi ressignificado como bandeira de luta. Até agora o desejo de marcar o local da morte de Neris não foi realizado.

Em 2012, em mais uma conquista na luta pela legitimidade dos movimentos LGBT, o Governo do Estado de São Paulo inaugurou o Museu da Diversidade, o primeiro do gênero no Hemisfério Sul. Como local para a primeira sede, o Governo ofereceu para o Museu escolher dentre as lojas e espaços ocupáveis em estações de Metrô.

A escolha recaiu sobre um espaço no Metrô República, e o critério foi justamente o histórico do local, abaixo de onde ocorreu o assassinato de Neris. O Museu da Diversidade, assim, além de ser um lugar de ativismo, de resistência e de celebração, é também um lugar de memória.

As mortes de Edson Neris e Flávio Sant’Ana possuem suas especificidades, mas uma série de elementos comuns. Simbolizam a violência e a violação de direitos, e nisso são casos típicos em um cenário assombroso. Simbolizam também a luta, à medida que as duas narrativas foram adotadas como bandeiras políticas pelos movimentos afirmativos. E significam também vitórias bastante excepcionais, pois nesses dois casos a mobilização trouxe a legitimidade e o engajamento de gestores públicos e de operadores do direito.

A memorialização dessas duas vítimas passa por marcar os sítios de morte. Se nossa perspectiva é de construção de cidadania, esse tipo de lugar é, na verdade, indispensável. São catalisadores de narrativas, são repositórios de esperanças e de identidades. São lugares que adquirem uma dimensão política – e por isso mesmo, possuem potencialidades pedagógicas.

Cabe a nós reconhecer e explorar as oportunidades legadas pelas tragédias, desafiando os limites e preconceitos da sociedade, exigindo de nós mesmos a construção de um futuro mais generoso do que o passado.

Como operar entre a catástrofe e o provisório

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Por Nelson Brissac Peixoto

Nelson Brissac Peixoto é filósofo, trabalha com questões relativas à arte e ao urbanismo. É professor do curso de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (PUC-SP). É organizador e curador de Arte/Cidade (www.artecidade.org.br), um projeto de intervenções urbanas em São Paulo, desde 1994. A periferia é um território que se mantém longe do equilíbrio. Estabilizada no ponto limite do estancamento e da fluidez, da drenagem e da contenção, do arrimo e do deslizamento, da mobilidade e da inércia. É uma área crítica, à beira do colapso, em que pequenas oscilações (como um temporal ou um acidente de trânsito) podem causar grandes catástrofes (alagamentos, desmoronamentos, tumultos).
Ali a cidade se estende sobre terreno instável. Materiais vão se juntando, depositando, nas margens dos rios e nos aterros sanitários, constituindo áreas não consolidadas, suscetíveis a deslizamentos e enchentes. Onde tudo se amontoa, em pilhas de rejeitos. Uma acumulação desordenada, fora de equilíbrio. Uma cidade precária, construída muitas vezes com elementos descartados, assentada em solo movente. A periferia engendra uma cultura do provisório: tudo pode, a qualquer momento, desaparecer, arrastado pela água, por desmoronamentos de terra.
Essa desestabilização deixa os indivíduos sem chão, num estado intermitente de precipitação. Instaura-se uma crise do sentido de equilíbrio: quando em queda livre, tem-se a sensação de flutuar. A periferia vive em estado de catástrofe, sofrendo desastres periódicos (enchentes, deslizamentos, disfunções nos transportes e no fornecimento de energia e conexão telefônica). Situações limite: inundações e seca simultâneas, opostos ocorrendo ao mesmo tempo. Na periferia, a urbanização se faz em condições extremas.
As cidades enfrentam um novo desafio: as mudanças climáticas. Os efeitos previstos são o aumento do nível do mar, com tempestades nas costas inundando temporariamente extensas áreas de terra, e alterações no regime de chuvas que impactam o comportamento dos rios, intensificadas pela ocupação das margens e pela pavimentação do solo, dificultando a drenagem. As respostas têm sido convencionais: se ocorrem inundações, construir mais canais de drenagem e barragens. Mas esses métodos em geral deslocam o problema para áreas vizinhas. As infraestruturas rígidas, inflexíveis, dependem de um clima estável, com variações limitadas, o que não ocorre mais.
As configurações urbano-ambientais se estabilizam num estado crítico, na fronteira entre a ordem e o caos, em que a mais leve perturbação pode causar uma reação em cadeia. O dispositivo opera sempre no limite do colapso, precariamente estável, mas responde às oscilações retornando ao seu estado crítico inicial. Desastres periódicos é que asseguram, paradoxalmente, a estabilidade crítica do sistema. Compreender a cidade em termos ecológicos pode ajudar a desenvolver estratégias para lidar com mudanças climáticas. Consiste em abordar as cidades como sistemas dinâmicos, incorporando as mudanças no meio ambiente.
O espaço da metrópole contemporânea reconfigurou o paradigma da ecologia. Essas paisagens urbanas emergentes podem viabilizar a criação arquitetônica no contexto de sistemas culturais-naturais complexos e dinâmicos. Se nossas práticas incorporarem as dinâmicas socioculturais e político-econômicas da paisagem, novas tipologias infraestruturais emergirão. Por exemplo na recuperação de áreas fluviais pós-industriais, com o objetivo de refazer a infraestrutura da planície fluvial e criar uma nova fronteira urbana. Cria-se um conjunto de ecologias culturais e naturais integradas, organizadas principalmente pelo rio e sua própria hidrologia que se auto-organiza.
Aqui trata-se de construir no limite da catástrofe. A instabilidade é constitutiva da condição periférica. Obras de infraestrutura e sistemas construtivos devem cada vez mais incorporar modos de resiliência, a capacidade de se recompor quando de perturbações. Conviver com condições de instabilidade. Desenvolver materiais que respondam às variações na umidade relativa do ambiente. Modos construtivos adaptados à terrenos instáveis, encostas, várzeas. Construir em situações críticas.

Kant diz que o sentimento do belo atesta o prazer suscitado pela capacidade de apresentar um objeto, tal como o definimos. Já o sublime é um sentimento penoso, que tem lugar quando a imaginação fracassa em representar um objeto, de acordo com o conceito. É quando um objeto grande – o deserto, uma montanha, uma pirâmide – ou muito potente – uma tormenta, a erupção de um vulcão, uma avalanche – suscita a ideia de um absoluto que não pode ser pensado e não tem apresentação sensível possível. A impotência da imaginação é que, então, a leva a tentar apresentar o inapresentável. A fazer ver que há alguma coisa que não podemos conceber e que não podemos ver.
Mas o sublime não consiste propriamente nesses grandes objetos, mas na grandeza absoluta, aquilo que se apresenta como absolutamente ilimitado. A forma, o contorno, é o limite: a questão do belo. O sublime coloca a questão do ilimitado, aquilo que se dá na beira do limiar. Aquilo que se faz sentir no momento em que o limite é atingido, no elã suspenso, na tensão rompida.
A pintura retrata avalanches e tempestades, um desequilíbrio próprio de coisas que desmoronam. A composição se desagrega, nenhuma forma conserva sua integridade. O ato de pintar, diz Deleuze, passa por uma catástrofe para engendrar a cor. Há primeiro um momento de caos, de indiferenciação, de onde vão sair os planos, a geometria, a geologia. O segundo momento é dominado pelo cinza, pelas cores que se misturam, um pântano do qual as cores não ascendem. Por fim, o momento da emergência da cor, o cinza que traz o verde e o vermelho, a matriz das dimensões e das cores. Uma modulação das cores, uma restrição da palheta intensa, para fazer surgir a cor. É o que permite superar o problema do terroso, do lodoso, das cores rebaixadas. O acinzentado da areia, do cascalho e do concreto é reconstituído por pequenos toques de tons puros. A cidade é esse caos, esse indiferenciado, do qual entretanto surge a cor.
Durante uma inundação, a cidade é transformada. A elevação de uma massa líquida, meramente horizontal, por um eixo vertical provoca radicais reconfigurações planares. O movimento da água através de uma escala vertical permite perceber as sutis modulações da topografia e a conseqüente extensão horizontal da enchente. Durante um alagamento, a seção vertical faz emergir novas formações e visões da cidade. Estudar as transformações planares que ocorrem durante a subida das águas é uma oportunidade para reinventar e redesenhar a cidade do século XXI.
As cidades são sustentadas pela infraestrutura, mas a enorme dimensão desses elementos torna difícil sua compreensão como um sistema articulado. Os momentos de crise (inundações, apagões e falta d`água), em que o dispositivo colapsa, servem para fazer refletir sobre o funcionamento da infraestrutura. O desastre pode ser a ocasião para pensar o futuro da cidade.

A Revolução Urbana Não Será Privatizada

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Por Maria Shirts

As novas gerações estão ocupando as cidades de outras maneiras. Avenidas, largos, praças, metrôs e até mesmo escolas têm se tornado palco de manifestações artísticas e políticas, com quórum majoritariamente jovem. A juventude tem tomado a cidade para si, democratizando o espaço público e ensinando a sociedade como fazê-lo.

O movimento é global. Praça Tahir, Praça Taksim, Praça Roosevelt. Candelária. Praça da República, da Bastilha. Syntagma. As manifestações das primeiras décadas dos anos 2000 clamaram por urgência de democratização e mudaram a perspectiva de acesso, locomoção e ocupação da cidade.

De acordo com o geógrafo David Harvey, os movimentos sociais urbanos de todo o mundo eclodiram, depois de 2008, na tentativa de reconfigurar as cidades que foram entregues aos empreiteiros. No seu livro Cidades Rebeldes, o teórico afirma que “a qualidade de vida urbana tornou-se uma mercadoria para os que têm dinheiro, como aconteceu com a própria cidade em um mundo no qual o consumismo, o turismo, as atividades culturais (…) tornaram-se aspectos fundamentais da economia política urbana”. Nesse sentido, o mercado privatizou a moradia, o lazer e em grande parte os espaços públicos, de modo que as massas urbanas foram desapropriadas de todo e qualquer direito à cidade. Segundo Harvey, esse tipo de privatização periodicamente termina em rebeliões.

Do ponto de vista psicanalítico, a privatização dos espaços públicos gera sofrimento também para quem mora dentro dos muros. A tese é do psicanalista Christian Dunker, que explica que essa condominização das cidades gera uma falsa prerrogativa na cabeça do brasileiro. É como se o sonho de consumo dessa vida particular tivesse sido projetada para o imaginário nacional. Quem vive nessa situação se sente mais seguro, porque os muros produzem um efeito subjetivo de defesa. E para essas pessoas, segurança significa estar murado entre iguais, isto é, entre aqueles que podem pagar por determinado estilo de vida. É uma exclusão da diferença, explica Dunker. Nesse sentido, parte da população desaprende a conviver em sociedade porque projeta a sua condominização para a vida pública.

Em São Paulo, esse tipo de privatização foi catalizada pelo poder público. Projetos como a Operação Urbana Água Espraiada, que reconfigurou a região empresarial da Berrini durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab, desalojou milhares de famílias de baixa renda em detrimendo do capital imobiliário. Àquela época, favelas foram misteriosamente incendiadas (e ainda o são), ao mesmo tempo em que institucionalizaram-se políticas gentrificadoras e policialescas, como a proibição de manifestações artísticas de rua.

O fim dessa história, já se sabe. A exclusão e a mercadorização da vida pública alimentaram a indignação dos movimentos urbanos, dentre eles o Passe Livre, culminando nos protestos de junho de 2013 – quando a população reagiu a mais um aumento significativo da tarifa dos transportes.

À época, parte da equipe da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da gestão Fernando Haddad já havia percebido que conselhos e conferências não estavam suprindo a demanda de participação dos movimentos sociais e outros grupos políticos. A resposta seria a criação de uma pasta de Direito à Cidade.

Ainda jovem, a coordenação tem lançado projetos de ocupação do espaço público e apoiado iniciativas de outras secretarias que tenham como foco a democratização da cidade. Promovem eventos em regiões específicas de São Paulo, como na Cracolândia, para atender um segmento da população hoje discriminado, explica a coordenadora da pasta, Marilia Jahnel.

Um outro exemplo da coordenação que tem como intuito ampliar o acesso à cidade é o edital Redes e Ruas. O propósito dele é contemplar projetos de produção e formação artística, cultural, de comunicação, de desenvolvimento tecnológico e de ocupação do espaço público. Lançado com outras duas secretarias, o edital procurou fomentar a cultura digital em todas as macrorregiões de São Paulo.


Parque Augusta

Não raro a gestão Haddad é duramente criticada por algumas ações em espaços públicos. Foi o caso da conduta da Guarda Civil Metropolitana com os moradores sem teto num dos mais tenros invernos da cidade, agora em 2016, e também na sua relação com o Parque Augusta.

Apesar da negociação indicar que o Parque vai ser entregue à população, Augusto Aneas, um dos ativistas do organismo, crítica a gestão afirmando que a implementação das políticas que concernem ao espaço público não estão sendo realizadas de uma forma sistêmica. “Percebemos que a cidade é importante politicamente. E esse processo se intensificou em 2013. O desejo de ocupar a cidade está expandindo cada vez mais e eu acho que a gestão pública não conseguiu acompanhar esse desejo político”.

Aneas, que é urbanista e também parte da Rede Novos Parques, acredita que para aprimorar sua ocupação de espaços e também a qualidade de vida, São Paulo precisa de pequenas transformações que gerem impactos na sua paisagem. Desde a graduação, na FAU-USP, ele desenvolve um projeto chamado Rede Verde, que procura interligar a cidade através de conexões entre seus parques e praças.

Pensando no mapeamento de ruas locais e implementação de “ruas verdes”, Augusto milita para que todos os parques e praças dentro da área central da cidade sejam conectados entre si através de uma malha arborizada. “Se implementássemos essa ideia, poderíamos viver em uma infraestrutura onde são priorizados o meio ambiente, o verde e a qualidade de vida humana sem ter que destruir o que está configurado, mas com uma nova camada que se sobrepõe à cidade”, defende. E diz que escolheu o centro expandido por uma questão estratégica. Mas que a mesma lógica pode ser aplicada na periferia. É uma lógica genérica para aprimorar a qualidade do ar arrefecendo ilhas de calor urbanas e tornando a paisagem agradável.

Para Augusto, é frustrante que uma cidade cheia de rios tenha sido capturada pelo sistema privado: ”Hoje estamos numa disputa do privado versus o público. Vivemos num espaço de fluxos que não induz a permanência, e estamos [os movimentos urbanos] tentando reverter essa lógica. Mas o que temos ainda hoje é uma pauta em cima do individual, da propriedade privada.”. Ele, entretanto, está otimista com os desdobramentos dessa agenda. “Muitas pessoas desejam essa cidade com mais espaços públicos. As pessoas querem reativar essa vida desde 2013, quando a mudança aconteceu”.

E a mudança não está só em São Paulo. Movimentos como o Parque Augusta, de reapropriação de espaços públicos pela sociedade civil estão acontecendo em diversos lugares do país. É o caso do Ocupe Estelita, no Recife, e do grupo Indisciplinar, em Belo Horizonte. No Rio de Janeiro também se vê resistência ao loteamento da cidade, intensificado por conta das Olimpíadas.

O Futuro do Movimento

Intuitivamente pensa-se que é responsabilidade do poder público continuar a desenvolver um planejamento urbano que possibilite a ocupação de espaços na cidade. Mas há quem diga que, se não fosse pelo questionamento da sociedade civil, esse processo não teria se acelerado nas últimas décadas.

A sociedade é uma das três esferas de poder que serve à manutenção do sistema, de suas políticas públicas e da relação entre o poder público e o setor privado. É por isso essencial que ela não se submeta às outras duas que, historicamente, têm uma relação de cumplicidade. Há quem entenda que a saída inevitável para uma cidade mais democrática seja o fortalecimento da sociedade civil.
Os movimentos urbanos atuais, entretanto, ainda têm alguns obstáculos pela frente. Uma de suas questões centrais, segundo seus articuladores, é manter princípios básicos como a horizontalidade e o apartidarismo, considerados pontos cruciais para sua credibilidade. Outra polêmica inerente às causas é a questão de seu financiamento. Para não se subordinarem a partidos políticos ou mesmo iniciativas privadas, operam através do puro voluntariado. Com colaboradores que têm flexibilidade de agenda, com tempo livre. O que pode ser excludente.

Apesar dos obstáculos, percebe-se o nascimento de uma nova geração que está precocemente sintonizada com o desejo de expandir essa forma de vida. É o caso, por exemplo, do movimento de secundaristas de São Paulo. Há um despertar em curso, uma potência que não tem cara de que vai cessar.

SP em 10 poemas selecionados por Luiz Roberto Guedes

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1.GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969)

OS CARTAZES

Tudo o que os homens falam
o dia todo, como de costume,
quando as ruas se calam
os cartazes repetem no tapume:

[de Rua, Martins Editora, S. Paulo, 1961]


2. OSWALD DE ANDRADE (1890-1954)

IDEAL BANDEIRANTE

Tome este automóvel
E vá ver o Jardim New-Garden
Depois volte à Rua da Boa Vista
Compre o seu lote
Registre a escritura
Boa firme e valiosa
E more nesse bairro romântico
Equivalente ao célebre
Bois de Boulogne
Prestações mensais
Sem juros

[de Cadernos de Poesia do Aluno Oswald (Poesias Reunidas), Círculo do Livro, 1982]


3. AFRÂNIO ZUCCOLOTTO (1913-1997)

"A ORDEM É — CIRCULAR!"

Meu irmão, esta cidade
Está crescendo demais.
Deitou corpo em poucos anos,
Mudou o penteado e a voz.

Vamos daqui, que eu não posso
Viver neste acampamento.
A tarde está inconveniente
E as manhãs nascem cansadas.

Os caminhos se fecharam
Pra quem não lê tabuletas.
Meu irmão, vamos embora
Estou farto de cartazes.

Aqui não há mais mulheres
Porque os pares se acasalam
De acordo com o preço e horário
Dos cinemas e dos ônibus.

Não há moças para nós
Porque os sexos se harmonizam
Segundo a lista de sócios
Dos clubes e irmandades.

Meu irmão, vamos embora,
Pra ficar será preciso
Abrir de novo os caminhos,
Matar os guardas do trânsito,
Suprimir os semafóricos,
Deixar que as ruas se cruzem
Livremente, sem o estorvo
Das vias preferenciais.

Meu irmão, naquela esquina
Estão fechando um negócio,
Vamos embora daqui
Que a ordem é — circular!

[ in Poemas, Editora Brasiliense, S. Paulo, 1948]


4. CARLOS QUEIROZ TELLES (1936-1993)

O CARDÁPIO

A cidade está com sede,
a cidade está com fome.
Ferro, árvore, gente
de tudo a cidade come.

Come quem é consumido
e também a quem consome,
come terra, come espaço,
a cidade está com fome.

Para servir a cidade
estamos todos na mesa:
alguns à moda da casa.

Outros à milanesa.
Os mais velhos vão na frente,
os moços na sobremesa.

[de Univercidade, 1969]


5. CELSO CRUZ

TEATRO MUNICIPAL

O mulato perneta agita a galera. Uniforme
canarinho, muleta na mão, joelheira no cotó
da canhotinha. E bola no ar, que o rei não
deixa a peteca cair. Enquanto toca, conta:
1000, 1132... Craque suando, novo recorde
a caminho. A cada embaixada um ó sem fim
da geral em frente à vitrine do Mappin e na
arquibancada do Municipal. Se o show é do
vosso agrado, senhores, queiram deixar um
trocadinho...

[in Caixa de Escorpião, edições Ciência do Acidente, 2000]


6. DONIZETE GALVÃO (1955-2014)

A CIDADE NO CORPO

A cidade perfura
o corpo
até a medula.
Contamina os ossos
com seus crimes.
Bica o fígado,
pesa sobre os rins.
Imprime seu labirinto de cinzas
na árvore dos pulmões.
A cidade finca raízes
no espaço das clavículas.
Esta cidade: minha cela.
Habita em mim
sem que eu habite nela.

[de pelo corpo, Alpharrabio Edições, 2002]


7. FREDERICO BARBOSA

mais prazer encontro eu lá

morar em são paulo
é viver em fuga

cidade escapista
essa sem praia

megavila
provincianópole
oxímoro máximo
capital do interior

a alegria começa
como promessa de norte
utópico
quando
a estrada atravessa
o trópico
br [de Brasibraseiro]



8. GLAUCO MATTOSO

SONETO 532 URUBUEIRO (2002)

Cortavam tuas águas belo bosque,
chamado de Dom Pedro, antes de entrares
no limpo Tietê, rente a pomares,
caramanchões, coretos, a um quiosque...

Não falta, agora, entulho que se enrosque
nas tuas pedras podres, e teus ares
venenos são, a ponto de nem dares
abrigo ao rato audaz que em ti se embosque...

Se esgoto a céu aberto é o Tietê,
nem isso és tu: tens teto sobre ti!
Teu leito, lodo grosso, mal se vê...

Reflexo da tristeza em que caí,
o mais saudoso adeus que alguém te dê,
Tamanduateí, te mando aí!

[de Cara e coroa, Carinho e Carão, 2004)


9. ROBERTO PIVA (1937-2010)

PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS


A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
      de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
      na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
      onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
      onde beatificados vêm agitar as massas
      onde Garcia Lorca espera seu dentista
      onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
      anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
      privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

[de Paranóia, Instituto Moreira Salles, S. Paulo, 2000]


10. RÉGIS BONVICINO

não há saídas
só ruas viadutos avenidas


[de Sósia da Cópia, edição do autor, S. Paulo 1983; poema musicado por Itamar Assumpção]

NOTA__ Todos os poemas acima fazem parte da antologia poética Paixão por São Paulo, organização de Luiz Roberto Guedes (editora Terceiro Nome, 2004).

Era uma vez um hotel

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Era O Hotel Cambridge, único selecionado para representar o Brasil no Festival de San Sebastián, Espanha, e com estreia prevista por aqui em fevereiro de 2017, é um filme de criação coletiva, com direção de Eliana Caffé e direção de arte de Carla Caffé.
A Bravo! conversou com as duas irmãs para entender o processo de criação e realização desse longa-metragem que conseguiu trabalhar numa lógica total de trabalho horizontalizado, misturando ficção e realidade.

Como nasceu o projeto do filme?

Eliane: O projeto inicial tinha foco no refugiado, o objetivo era tratar esse tema com uma visão mais épica. Aos poucos fomos percebendo que tratar dessa questão era bastante complexo. Os refugiados não existem oficialmente. Fora isso tem a questão da língua, das diferenças culturais...Percebemos que antes de tudo, íamos ter que ajudá-los a discutir algumas coisas, principalmente a questão da documentação, que para eles é uma questão seríssima, não só pela moradia, mas para conseguir emprego, para existir, né? Fizemos um Fórum para unir as várias pontas para dar andamento às principais questões. Estava o presidente do Acnur [Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados] no Brasil, estava presente a Polícia Federal, CONARE - Comitê Nacional para os Refugiados, representante da Cáritas, grupo de refugiados etc .

Carla: Nesse sentido o papel do filme foi justamente começar a criar um diálogo entre os sem teto e os refugiados. Fizemos isso através das oficinas de dramaturgia. Buscávamos encontrar um possível ator para o filme. E aí, através dessas oficinas, começaram a vir uns refugiados e, num primeiro momento, o que eles buscavam era documentação, mas, com o tempo, com o desenvolvimento dos exercícios de dramaturgia, com os exercícios para selecionar os atores que iam participar do filme, começou a haver um entrosamento entre o movimento dos sem teto e os refugiados.

Eliane:No convívio das oficinas, começou a virar verdade, eles começaram a criar lá uma relação de convívio e alguns começaram a querer entrar para o movimento de ocupação dos sem teto.

Carla: Essas oficinas foram um estopim pra eles, mesmo com a dificuldade da língua, começaram a se interessar e trocar interesses, sonhos, porque tinha também o trabalho lúdico da dramaturgia, então era um momento em que os refugiados e os sem teto conseguiam “se encarar”. A gente estava lá mediando a questão da língua e a gente estava também propondo um exercício lúdico. Então esse momento eu acho que foi um grande ganho para o movimento, e vice-versa, pro filme também. Foi aí que a gente começou a costurar as relações entre os futuros atores do filme, a gente começou a conhecer quem era da ocupação, como é que participavam, a gente começou a ter também um contato maior com os refugiados.

Eliane:Inclusive tinha sequências inteiras do roteiro que a gente entregava para eles e aí eles modificavam completamente, traziam sugestões. ‘Não, não, um irmão não brigaria assim com o outro’, diziam, por exemplo, aí eles começaram a trazer elementos da cultura deles. Eles foram “tomando posse”, vamos dizer assim, da própria história que eles contam no filme.

Bravo!: O filme é de ficção?

Eliane: É um híbrido, mas eu acho que ele é um filme de ficção. Teve cenas que a gente tirou da realidade, inclusive cenas de documentários que a gente conseguiu, o Blood in mobile. Quando essas cenas migram para o nosso filme, elas viram material onírico, de devaneio do personagem, então esse material entra na estrutura de ficção. Mas o conteúdo, a leitura da imagem, remete ao documentário, ela foi tirada mesmo de um documentário. O filme tá cheio disso e também, por exemplo, como a gente ficou lá o tempo todo convivendo na zona de conflito, tinha momentos em que aconteciam atos no meio da filmagem, acontecia da Carmen ( liderança do Movimento dos Sem Teto do Centro), que é a atriz principal, trazer a notícia de que o Cambridge tinha passado por chamamento, então foi uma comemoração que aconteceu no meio da filmagem. Era real. Não tem como isso não ser lido pela câmera. E a gente pôs cenas que eles improvisavam, a gente começava a rodar a câmera, a cena continuava, a câmera não parava de rodar e, quando a gente via, a melhor cena estava no que veio depois do que eu tinha pensado, a priori,no roteiro.

Carla: Nesse sentido, ele é uma ficção documental, que traz essa relação horizontal no processo de criação. Por exemplo, o documentário Blood in Mobile que a Lili está falando, faz parte do devaneio de um dos personagens e foi trazido por um dos alunos da Escola da Cidade, um grupo que participou comigo da direção de arte.

Eliane: Quando você monta um grupo que nem o da Escola da Cidade, são mais vinte e uma cabeças pensando.

Bravo -E como foi na prática essa relação horizontal?

Carla: Um trabalho horizontal, eu percebi com essa experiência, é um pêndulo, ele tem momentos horizontais, mas tem momentos verticais. Chega um momento em que você tem que afunilar a informação ou a ideia e fazer com que ela se sobressaia.
Na verdade tudo isso partiu das oficinas, então teve todo esse processo coletivo.

Bravo - Como eram as oficinas?

Carla: Tinha oficinas de dramaturgia com os refugiados e os atores, tinha as oficinas das crianças, tinha a oficinas de arte, de cenografia, a TV Cambridge...

Eliane: A TV Cambridge, foi o jeito de a gente introduzir a câmera lá dentro.

Carla:Na verdade, eu acho que quem abriu as portas do Cambridge foram as crianças. Elas são muito mais receptivas. Aí quando a criança começou a se aproximar da questão da câmera, da filmagem, da equipe que estava participando, os adultos começaram a se aproximar também. Os adultos têm certa resistência, a criança não. As crianças ajudaram muito a gente a conquistar espaço lá, a gente acha que numa zona de conflito a gente está dando tudo de si só que a gente chega lá e existe uma super-resistência. Então a gente começou a perceber que as crianças é que davam as boas-vindas, abriam as portas. A criação das oficinas foram muito importantes para abrir as portas até porque tentamos trabalhar no conceito do movimento, porque você pode imaginar que o movimento recicla edifícios abandonados, edifícios que estão em litígio há anos. Então, a gente fez todo o cenário com materiais coletados em ecopontos.

Eliane: O que a gente sempre pensou é que a gente gostaria que esse filme não fosse um assunto só de cinema e cultura, que ele tivesse uma dimensão maior, de outras questões, como essa, é um filme que está criando uma certa militância.

Bravo!: Isso já era um propósito?

Eliane: Foi no processo, nitidamente. Quando a gente terminou a filmagem, em janeiro, eu lembro, nunca vou esquecer, a gente se encontrou no café com a Carmen e éramos só quatro. A gente falou: "como é que a gente vai continuar agora?" Já tinha acabado a filmagem. Aí a gente começou a falar de criar o filme estendido, o que significava não parar as ações geradas para produzir o filme. A gente quis continuar para aí fortalecer os grupos e transcender. A partir daí várias ações foram geradas, festival de música que levou 2.500 pessoas ao MIS [Museu da Imagem e do Som] que foi autogerido pelos grupos, pelos refugiados, uma residência artística que está ativa, exibição de filmes, palestras, enfim, um inventário de ações.

Carla: O Brechó Cambridge.

Eliane: O brechó, o GRIST, Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto, que se formalizou como um grupo de luta....

Bravo. Essa foi a grande conquista da obra?

Carla: Sem dúvida, isso a gente deixaria para uma segunda etapa de conversa...

Ocupar e resistir

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Artista visual e sonora, poeta e atuadora no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, a pernambucana Camila Valones participou de algumas das mais importantes ocupações artísticas da cidade nos últimos meses. A Bravo! Conversou com ela para entender a dinâmica dessas ocupações.

Como você se aproximou dos coletivos e das ocupações artísticas?

Eu estive durante algum tempo mergulhada em um processo de trabalho muito solitário, as vezes trabalhava em duplas ou pequenos grupos, mas nunca num tudão borbulhante. Muitos encontros, e eu sempre entre. Entre linguagens, descobrindo construindo linguagem, seguindo em fazer tudo que me dava tesão independentemente do meio, mas de alguma maneira um pouco sozinha. Sobretudo no campo das decisões. Há pouco mais de um ano entrei para o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. O teatro, e não só o Oficina, é um tudão borbulhante, e no tudão é que inflama tudo que precisa ser desobrigado do corpo, tudo que precisa ser desconstruído e reconstruído no, com e para o corpo. O tudão é vivo! Nossos corpos têm dessas em suas quase-memórias de reproduzir tratos que adoecem. Fui descobrindo que atuar no coletivo é um elástico imenso! Peguei gosto. Gosto de Amor Humor, como diz Oswald [de Andrade]. Hoje ando onde há espaço, indivíduos, coletivos e coletividades. De grupo, além do Oficina também o integro o Mexa, um grupo ativista conectado com gente, cheio de Mona, sabe? Transsexual.

No corpo eu tenho uma herança, um pai que foi por muito tempo sindicalista e sempre estive ligada na política, do macro, porém mais apaixonada em me mover no micro. Comecei a mover ações de mídia tática enquanto pensava linguagem, comunicação e sobre o meu/nosso corpo político. Me aproximei da luta de algumas ocupações por moradia, da luta dos Secundaristas, dos Aprendizes das Fábricas de Cultura. Fui cada vez mais me conectando com as pessoas por via de suas causas, costurando a presença entre os espaços e todo esse movimento cruzando com a rua. As respostas virão da rua. Até que tivemos a fatídica cena na Câmara que deu o primeiro passo pelo afastamento da presidenta, o golpe, a posse do interino e todo o desmonte promovido por ele... fomos ocupar a Funarte.

Como são as ocupações?

São muitas as naturezas de ocupação. Eu passei por algumas, todas cheias de questões inflamadas e vivas. Tem sempre o fato de aglutinar um grupo que não se conhece tanto e isso ir revelando muito de quem somos e de como somos na coletividade. Do encontro ir revelando as coisas que estamos dispostos a abrir, a reinventar, sim ou não, e é curioso como isso sempre inflama quando nos encontramos no doméstico. No doméstico da casa em nós, no consciente sedimentado, naquilo que o corpo reproduz totalmente automatizado, domesticado.

A Ocupação da Funarte SP foi mais um processo vivo. Passou por vários momentos. O primeiro deles foi a tentativa de aparelhamento partidário. Entramos e os partidos chegaram, implodindo reuniões e desmobilizando o corpo artístico. Enquanto isso tinham frentes fazedoras que atuavam em promover atividades de todo tipo, o espaço vivia lotado, ótimo, até que chegou um momento em que fomos ficando mais frágeis, a discussão política, que era e é urgente, foi ficando meio sem lugar quando tínhamos que acolher tudo que programávamos e ainda o que não programávamos, pois tinham acontecimentos que não passavam por nenhum tipo de programação em um exercício de abertura total dos espaços. Alguns grupos saíram nessa etapa, dando ares de desmobilização, e quem ficou precisava cumprir todas as etapas da cadeia produtiva. Seguir agendando, construindo, produzindo e limpando os espaços, o que incluía os banheiros por onde as vezes tinham passado 800 pessoas no dia anterior. Nesse processo surgiram movimentos como o GAPP - Grupo de Articulação de Política Preta, o Ateliê Comum, o Estúdio Livre, a Universidade Livre, o Teatro Hacker, e havia também a sempre propositiva presença dos artistas nômades em um exercício que chamei de Eu Vim. Estávamos ali, não pertencíamos a nenhum coletivo mas estávamos ali.

Em 09 de agosto aconteceu a reintegração de posse depois de 84 dias de ocupação. Foram tantos os movimentos até ali que só Euclides da Cunha para escrevê-los. Fomos o último equipamento de cultura, de todos que foram ocupados pelo Brasil, a ser reintegrado. Recebemos no dia 18 de julho uma liminar expedida pelo juiz substituto Tiago Bologna Dias, acompanhada de um relatório feito pela FUNARTE SP, assinado pelo então coordenador Judas Tadeu. O relatório criminalizava todo o processo da ocupação, não considerando o capital imaterial imenso que havia sido gestacionado e conquistado ali. Para responder ao relatório, conseguimos uma audiência com a Procuradora Geral da FUNARTE, a doutora Renata Renault e com a Procuradoria Federal que acompanhou a expedição. Na ocasião da reunião, por argumentação, conquistamos a possibilidade de propor uma gestão compartilhada do espaço da FUNARTE. Essa proposta está sendo construída agora, e dispara do desejo de abrir os espaços da FUNARTE por outras políticas que não a política de edital, que acaba por excluir inúmeros atores artísticos. Essa proposta de gestão está sendo construída por vários dos ocupantes, cada um a partir do seu campo propositor, porque, mesmo depois de mais de dois meses de convívio, encontros e desencontros, o grupo que resistia ocupado ainda encontra muita dificuldade para compor junto.

A ideia de botar a arte na rua e se mobilizar em coletivos serve para amplificar visões artísticas, mas, por outro lado, elas parecem não conseguir extrapolar barreiras e chegar ao público, que é um desejo da arte. Como você vê isso?

Primeiro eu acredito que ninguém está fora, não existe o fora. Quem pensa que está fora, esquece, está dentro, estamos todos aqui agora. Quem está aqui agora? Sinto que alguns coletivos estão muito concentrados em suas pautas próprias – Ana Maria Maia me disse: a moeda sagrada do tempo - e pouco ligados na potência da coletividade. Isso, talvez, traduza a barreira que você descreve. Mas nisso também existe o corpopovo que está conectado em cada pauta/causa. Para tudo que fazemos na vida existe um público. A questão é: existe um público que queremos alcançar? Ou como conectar os diferentes públicos?

Como disse antes, durante a ocupação participei de muitas conversas onde pude ver que a maioria dos grupos e coletivos não estavam dispostos a reinventar seus métodos e abrir uma escuta sincera para uma construção comum. Algo que considera as características de cada um e que atravessa todas elas, o comum. A vontade me parecia estar sempre em propagar a própria causa através da introdução de um método. Muito poucos foram os que estiveram até o fim dispostos à pluralidade total dos meios – esse que foi um dos fatores mais peculiares e representativos da ocupação em si. Quem não conquistou a "introdução do seu método", foi embora, e isso considero ser um grande sintoma do que vivemos agora. O tal "estamos abertos desde que seja da nossa maneira", ou o “somos solidários, veja como nosso corpo e nossa fala reproduzem toda a exclusão que negamos”. O que leva à outro sintoma, o da gentil gentrificação.

Quando alguém não está disposto a rever seus meios, lamento, acho que está morto. E o grave mesmo é que talvez nós que estamos aqui agora, muito de nós, estejamos dormindo, meio mortos, num coma profundo.

Como é que você pensa na produção artística dentro da ocupação? Dá para delimitar territórios desse fazer artístico?

Vamos acordar os atuadores que estão dormidos no nosso corpo. Vamos acordar Hélio, Lygia, Glauber! A arte está emaranhada na vida! Uma ocupação é um processo vivo! Vivíamos num terreiro de microperformances, essas ações encontradas no cotidiano que o suspendem e o recolocam subitamente. A questão, naquela ocupação, estava justamente em não delimitar territórios, estava em confluir com eles, em cruzá-los.

Uma vez, durante uma conversa organizada pela OCÚ~PAH, grupo LGBT que se formou na ocupação, sugeri que em vez de formármos uma fila/parede onde estariam sentados os convidados “oficiais”, que sentássemos todos espalhados pelo círculo entre os presentes. A conversa começaria sem apresentações ou mediações. Abriu o microfone, quem está com ele começa, começou. Isso gerou uma dinâmica muito interessante. Como não estava sinalizado no espaço quem havia sido convidado a falar, todos estávamos convidados a falar. O microfone fluiu entre todos os presentes sem distinção do que representava cada voz. Esse momento foi para mim uma grande experiência artística, quando formalmente talvez se tratasse de uma roda de conversa LGBT. Sinto que repensar as coreografias que reproduzimos no espaço seja o grande ato criador de novos territórios artísticos. Criar para que fluam, não para delimitá-los.

Você está há 10 anos em São Paulo. Vê uma transformação da cidade relacionada à arte nesse tempo?

Sim. A cidade é viva. Fato que esteja bastante adoecida, mas está viva. Pensa em tudo que se levantou nos últimos anos. Os rolezins dos jovens nos centros comercias da cidade e seus desdobramentos, arte. As ocupações e as movimentações oriundas delas, arte. A saída para a rua, a tomada das praças, a mobilização por parques, arte. O fluxo de imigrantes e refugiados e seus festivais culturais, arte. Reuniões, encontros e festivais públicos para discutir o que é público, arte. A Av. Paulista aos domingos, o Minhocão, o Vale do Anhagabaú e os encontros que ali acontecem, arte. Os pontos de cultura, o Pimp My Carroça, a Bateria Coração Valente, o Mexa, arte. Na rua a poesia, o pixo, o funk, o rap, o hip-hop, arte, arte, arte.

Fato que há quase tudo ainda por ser desnudado e reconstruído no acesso a esses espaços, na ligação de suas pontas. Fato que não serão vagas verdes, bicicletas financiadas por bancos e ciclovias que irão conectar tudo. Quem tem esse poder somos nós e diante do cenário político que vivemos e do que parece estar por vir, sinto que precisamos, nesse processo de transformação que tanto nomeia a rua como meio, compreender com que corpo estamos indo até ela. Sinto que se não consideramos aquilo e aqueles que estão na rua, caímos na armadilha humana de estarmos sempre construindo concreto para Marte. Você nem foi até lá, nem sabe o que vai encontrar lá, mas já tem todas as respostas e caminhos de como será feito. É perigoso. A armadilha de reproduzir todas as doenças de um corpo governado e oprimido.

Quando você fala de rua, a primeira coisa que a gente pensa são as pessoas vulneráveis que estão na rua, mas é mais que isso. A rua são as populações vulneráveis, são as pessoas que estão usufruindo dela para ir ao trabalho, para o lazer. A rua é essa pluralidade de interesses, é a pólis funcionando. Quando você fala de rua, entende essas camadas todas ou pensa mais nessa rua fragilizada?

Realmente me esforço em compreender todas as camadas. Quando penso sobre com que corpo vamos à rua, penso exatamente no ponto onde as camadas invariavelmente se cruzam, e nesse ponto estão também os que moram e sobrevivem da rua. Os que se perderem a hora de entrar no abrigo terão de dormir pra fora e ainda assim poderão ter seus cobertores recolhidos pela GCM. Os que talvez decidam por nem ir ao abrigo, porque muitos dos abrigos poderiam facilmente ser comparados a quartéis militares. Tenho alguns amigos que frequentam abrigos onde precisam acordar às 5h e sair até às 7h. Acordam todo dia no saculejo. Se não ganham na carreira, têm seus objetos de trabalhos furtados pela GCM ou pela PM. E nós queremos sair às ruas e nos sentir seguros... Eu tenho um pouco de dúvida do que significa se sentir seguro para muitos... Alguém vai ler essa entrevista, né? Você que está lendo, Como você se sente seguro? Ou, Como você se sente inseguro?

Sinto que há na linguagem uma crise brutal que paralisa e automatiza os corpos diante de certos contatos. Aí não só entre vulneráveis e não-vulneráveis. Vamos dilatar a ideia de vulnerável. Quem não está vulnerável? Ou, ao quê você é vulnerável? Tati, uma amiga integrante do MEXA, sempre diz: Onde está a assistente social? O que está por trás da figura do assistente social? A gente tem em comum uma amiga cadeirante também moradora de um abrigo que uma vez não pôde fazer xixi e cocô por ter passado da hora. Passado da hora de cagar, entende? Ela cadeirante sozinha tirou como pode a calça, fez xixi e cocô e caiu por cima da merda. Alguns moradores do abrigo que viram a ajudaram, as assistentes presentes que viam tudo disseram que se ajudassem poderiam ser punidas, porque já passava da hora... Acho que esse é um bom exemplo de um corpo governado e oprimido. Ir para a rua, comer da rua, estar aqui agora, o mutualismo precisa ser incorporado à polis.

Termino com uma frase de Dudu, um grande amigo artista também integrante do MEXA. No nosso projeto “69 salas h&v”, ele diz: “o medo do HIV não é o medo da morte, o medo do HIV é o medo do outro” eu parafraseio em dizer: o medo do corpo não é o medo da rua, o medo do corpo é o medo do outro.

São Paulo, a quem pertence essa cidade?

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Por Jorge Bassani

Doutor em Arquitetura e Urbanismo, professor de História do Urbanismo na FAUUSP, coordenador do GeMAP, Grupo de Estudos Mapografias Urbanas.

Para essa pergunta, não sabemos a resposta e qualquer uma que seja dada, mesmo um conjunto delas, não dará conta de sintetizar a complexidade do problema, quanto mais apresentar soluções. No entanto, nós ouvimos, lemos e, principalmente, vemos (sentimos) coisas da cidade. Nesta condição, de “sujeitos urbanos” (na definição da socióloga da Universidade de Columbia, Saskia Sassen), nos lançamos legitimamente neste debate, intensamente provocativo para quem habita cidades.
Temos que ter no horizonte que o desenho excludente que São Paulo apresenta neste momento, foi concebido, portanto desejado, pela sociedade que construiu seu espaço segundo uma estrutura definida previamente. Evidentemente, não precisamos nem ao menos lembrar que alguns setores da sociedade desenharam-na mais do que outros, em quantidade e intensidade. A sociedade urbana é dividida em os “com poder” e os “sem poder” (recorrendo novamente à profa. Sassen), entre todos os poderes o supremo é certamente este, construir as cidades de acordo com seus desejos.
Portanto, sabemos com relativa clareza que a não integração, ou a fragmentação e segregação de São Paulo obedeceu e obedece às pré-figurações que atores, também, relativamente conhecidos, fazem da cidade. Então, é o caso de perguntar quem deseja que a cidade se integre a ela mesma? Possivelmente todos os outros, os “sem poder” e, possivelmente também, parcelas dos “com poder” que em algum sentido também são vitimadas pela agressividade de uma lógica urbana (não só desenho, mas sistema de trocas) que segrega e distancia ao extremo.
A integração da cidade a ela, questão colocada pela Bravo!, constitui um estado de permanente porosidade entre os diversos territórios (condições geográfica + política) que compõem a cidade envolta por um senso cívico de pertencimento a um todo único. Assim colocada, a questão supera o utópico e esbarra no ingênuo e vazio de significado ante a realidade que temos. Porém, ganha dimensão e profundidade quando entendemos que o requerido franco acesso à cidade advém de que ela é desejada, interessante, agradável, útil.
Portanto, a integração reivindicada seria todos terem acesso a essas condições favoráveis existentes na cidade que habitam. São Paulo tem dois estágios, pertence à (muito minoritária) elite que tem dinheiro (poder); mas, deveria pertencer a todos. Como resolvemos isso? Integrando as massas excluídas à cidade bem desenhada (aquela pensada para excluir). Mas, não podemos esquecer que nos quantitativos ela é exígua no oceano da mancha urbana construída pelo crescimento periférico voraz.
Sabemos muito bem que o mais difícil pelos custos, trabalho social e motivações políticas envolvidos, é a transformação físico-espacial da cidade, ou seja, é constituir infraestrutura e superestrutura urbanas em quantidade capaz de proporcionar esta cidade do “bem estar” acessível a todos.
Do ponto de vista técnico urbanístico, apesar da enorme complexidade do problema, existe grande segurança nas respostas amparadas em procedimentos generalistas aplicados nas últimas décadas em várias cidades do mundo. Em geral eles começam pelo item mobilidade e a acessibilidade (em todas as escalas) como elemento estruturante; em seguida pelas condições do habitat como elemento estruturado. No caso de São Paulo, e parece uníssono, seria a melhor resposta para reverter o desenho excludente da cidade. É submeter a cidade toda (e sua população) a uma lógica de hierarquias de fluxos. Não sei se é ruim, mas, também, não sei se é bom.
A dificuldade em aderir a esse pensamento é exatamente sua lógica de linha de montagem naturalizada. E como essas lógicas sempre estão mais ativas em controlar e disciplinar do que expandir e transbordar. Impossível não lembrar o PIN (Plano de Integração Nacional) criado pela ditadura militar (1970, Gal. Garrastazu Médici) para fazer o Estado chegar aos “vazios demográficos” das regiões mais distantes do país. O fato mais memorável do Plano foi a construção da Transamazônica e toda a catástrofe ambiental, social e étnica (questão indígena) que representou. E, o mais importante nesta lembrança, é verificar que o PIN previa “colonizações” em uma extensa margem ao longo das estradas a serem construídas - o estruturante e o estruturado.
Não pretendo ser tão dramático a ponto de comparar as políticas de controle da ditadura militar com as propostas de políticas de mobilidade atuais. Porém, colocá-las como referência exacerbada de que a aplicação de lógicas simplificadoras deve ser questionada quando transforma-se em resposta pronta. E, aqui neste artigo, o questionamento dirige-se para dois pontos.
O primeiro é, me desculpem pelo trocadilho, primário. Os fluxos, especialmente de pessoas, em São Paulo são motivados pelo trabalho e reprodução do capital, a eficiência dos canais de circulação está comprometida com este papel. Na escala do cotidiano, também representa que o cidadão sai da periferia precária para a muito distante cidade de boa forma para trabalhar. Ou mesmo que seja para estudar, comprar, se divertir. A cidade equipada com tudo isto está longe dele, logo a necessidade de transportes eficientes para integrá-lo à cidade que não é o território que ele habita, que continua a não-cidade ou a cidade que não está integrada a ela mesma nem a nenhuma outra.
O segundo ponto é, também usando o exemplo em cores carregadas da Transamazônica, o que aconteceu com os índios (selvagens) em termos culturais, territoriais e de saúde (inclusive mental) quando entram em contato (conflito) de maneira tão abrupta com a lógica civilizada, pode nos sugerir como é o processo diário de desterritorialização nos trajetos de casa para o trabalho. No senso comum, temos ideia deste tipo de impacto. Se lá na Amazônia o impacto tinha uma matriz, antes de tudo, tecnológica para subjugar a cultura indígena; as relações desiguais de poder entre a cidade e os territórios periféricos têm como matriz as formas de consumo, principalmente consumo da própria cidade.
Isto é um manifesto em favor do isolamento?! Absolutamente não, é um livre pensar sobre a diversidade dos territórios urbanos e como pode haver trocas positivas e de grande intensidade para o viver democrático na cidade. Melhor dizendo, nas cidades e entre as cidades. Existem várias em São Paulo ou em qualquer outra metrópole do mundo, muito além da polarização formal e informal. E não falamos em limites administrativos, falamos em manchas construídas “unitárias” em forma, um tecido definível (apesar de bordas imprecisas) geograficamente e ocupado por funções que seriam características do urbano. Contudo, a experiência com este ambiente nos relata que são inúmeros universos diferentes com geopolítica e geometria também definidas (apesar de por vezes sobrepostos) e, proporcionalmente à mancha toda, prioritariamente ocupados por uma única função, o morar, ou o sobreviver.
De fato, o todo equilibrado não existe em qualquer acepção que fizermos dele. A ideia da cidade unitária, civitas, é impensável nas realidades pós-industriais. A leitura de que são inúmeras configurações formais e socioculturais disputando territórios de alguma forma “integrados” a outros territórios da mancha geourbana é clara. O todo pressupõe o Centro, o magneto da unidade, em termos reais ele existe nas expressões do poder político seja com quaisquer compromissos que ele é exercido. Ele não é definido espacialmente na geometria euclidiana, é um espaço não dimensional, topológico, pulverizado em muitos dos territórios urbanos. Sua pulverização molecular também depende das integrações espaciais; ou melhor, espacialmente ele se constitui por meio das redes que constrói sobre os territórios escolhidos criteriosamente.
Por tudo isso, o que me ocorre como ponto fundamental para pensar sobre integração da cidade com seu cidadão de qualquer extrato social é reconhecer o direito dos territórios construídos por seus ocupantes nas margens da cidade legal de “serem cidade”. A quem pertence a cidade? Àqueles que territorializaram relações socioculturais numa porção delimitada de terra, que constituíram relações urbanas entre si em escala política definida, em código de conduta ou contrato social próprios.
Os vínculos e integrações com outros territórios devem atender exclusivamente às necessidades de territorialização e urbanização de cada bairro, comunidade, assentamento, vila, ou qualquer nome que dermos a essas unidades moleculares que formam o tecido da mancha urbana de São Paulo. A impressão que temos é que qualquer que seja o desenho de cidade originário das ideias de unidade (de seu centro tomador das decisões) será excludente. Em proporções e condições diferentes estará sempre excluindo partes da sociedade e, não raramente, maiorias. Não é a periferia metropolitana em sua precariedade material que sufoca a cidade, mas sim o contrário. A pressão socioeconômica exercida pelos centros urbanos que esmagam as potencialidades transformadoras dos territórios nas periferias da cidade.
E elas são muitas, proporcionadas exatamente pelo exercício diário de se constituírem como comunidades, como vida em sociedade apesar da ausência de um Estado atento às suas demandas. Esta prática confere o caráter urbano, o direito de ser cidade, mais que o direito de acessibilidade espacial, é o direito à sua urbanidade, das necessidades básicas de saneamento e calçamento à toda a diversidade de atividades urbanas definidas pelo suas dinâmicas culturais. Quanto às tipologias e morfologias, elas estão designadas pela própria territorialização e obedecem seus contratos socioespaciais.
Ainda em relação ao direito de ser cidade, o pertencimento e a integração, não se pode evitar as reflexões do sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre que, no emblemático ano de 1968, incutiu a ideia na pauta de discussões sobre a sociedade contemporânea ao publicar “O direito à cidade”. Na época foi fundamental para a tomada de Paris pelas barricadas de Maio, nos últimos anos voltou à moda pela (mais ainda) urgência do tema. Ele se posiciona perante as ciências da cidade no sentido de provocar, além do entendimento do fenômeno urbano, a necessidade de problematizar para quem e com quais meios políticos a cidade se realiza. E propõe essa reflexão a partir cotidiano real ao invés de modelos abstratos e ideologizados.
Recorro a dois trechos da obra, um para evidenciar que os territórios à margem é questão emergente logo no início da metropolização galopante no segundo pós-guerra, ao notar que em 68 já era sensível e preocupante para Lefebvre. E, mais, a constatação de que a transformação social só é possível por meio dos elementos locais, possibilidade que depende forças que os reúna, os potencialize:
“Num período em que os ideólogos discorrem absolutamente sobre as estruturas, a desestruturação (social, cultural). Esta sociedade, considerada globalmente, descobre que é lacunar. Entre os subsistema e as estruturas consolidadas por diversos meios (coação, terror, persuasão ideológica) existem buracos, às vezes abismos. Contêm os elementos deste possível, elementos flutuantes ou dispersos, mas não a força capaz de os reunir. Mais ainda: as ações estruturantes e o poder do vazio social tendem a impedir a ação e a simples presença de semelhante força. As instâncias do possível só podem ser realizadas pelo decorrer de uma metamorfose radical”.
O outro para reforçar a ideia que “o urbanismo como doutrina, isto é, como ideologia, que interpreta os conhecimentos parciais, que justifica as aplicações, elevando-as (por extrapolação) a uma totalidade mal fundamentada ou mal legitimada” (p.47), não constitui instrumento capaz de atribuir aos territórios a urbanidade desejada. A única fresta em que podemos enxergá-la é por meio de uma dinâmica urbanística resultante da atuação dos atores territorializados e organizados em comunidades. Neste formato mesmo o técnico urbanista pode e deve atuar em conjunto a partir do conhecimento das dinâmicas próprias do território e não da aplicação de modelos sob a noção de unidade composta por partes integradas e hierarquizadas.
Para Lefebvre, “O direito à cidade não pode ser concebido como um simples direito de visita ou de retorno às cidades tradicionais. Só pode ser formulado como direito à vida urbana, transformada, renovada”... o ‘urbano’, lugar de encontro, prioridade do valor de uso, inscrição no espaço de um tempo promovido à posição de supremo bem entre os bens, encontre sua base morfológica, sua realização prático-sensível.”

O Jardim Lapenna
Uma breve ilustração das reflexões introdutórias deste texto, mais que ilustração, possivelmente a motivação delas decorre da experiência realizada com estudantes de ensino médio de uma escola do Jardim Lapenna. A USP tem um programa chamado “Aprender com Cultura e Extensão”, nele estudantes da Universidade colaboram em projetos junto à comunidade coordenado por um professor. Inscrevi (e foi selecionado) no ano passado o projeto Mapografias urbanas – Zona Leste, sua realização foi na Escola Estadual Pedro Moreira Matos na região de São Miguel Paulista.
O projeto Mapografias consiste de propor a jovens na faixa dos 16, 17 anos desenhar mapas diversos de seu território. A faixa etária é importante, crescidos o suficiente para caminharem sem tutores e movidos pelo desejo de descobertas, no entanto, ainda sem os vícios da percepção utilitária da cidade. O projeto foi aplicado em outra oportunidade em escola no centro de São Paulo. Na periferia distante foi a primeira vez e, como já era esperado, deu nova dimensão ao projeto. Isso porque as noções primárias de território e territorialização fazem parte das práticas de sobrevivência diárias nestes nestas situações geo-urbanas.
O Mapografias entende que a transformação da sociedade ocorre por meio da compreensão que ela faz do território (espaço + sociedade + política). Aprendemos com Milton Santos que território é “de uma forma impura, um híbrido, uma noção que, por isso mesmo, carece de constante revisão histórica. O que ele tem de permanente é ser nosso quadro de vida. Seu entendimento é, pois fundamental para afastar o risco de alienação, o risco de perda do sentido individual e coletivo, o risco de renúncia ao futuro” (Por uma Geografia Nova, 1978).
A primeira edição do projeto foi conduzida no Colégio de São Paulo, localizado no Parque Dom Pedro II, absolutamente central. As indicações fornecidas pelos estudantes em seus mapas de suas formas de territorialização foram muito interessantes, porém, difusas. Lá os estudantes estão no Centro, são cortados por inúmeros sistemas de circulação que apontam em todas as direções do mundo exterior. Eles convivem com a saturação do centro contemporâneo, mesmo que decaído, com os arranha-céus, com os veículos e as multidões. O território para eles tem um componente de midiático.
O Lapenna é o mais franco imediatismo nas relações população – ambiente, nas relações de territorialização. A experiência com os estudantes do Pedro Moreira nos mostrou isso, e mais, mostrou-nos o quanto é fundamental para a existência atual e as perspectivas de futuro eles estarem territorializados. O Jardim é uma vila (mistura de loteamento clandestino com ocupações) pendurada na linha do trem e espremida entre a via expressa Jacú-Pessego, a rodovia Ayrton Sena e as enormes instalações de uma indústria química na várzea do Rio Tietê. Como todas nestas condições, sujeita aos fluxos pendulares do trabalho. No entanto estes jovens ficam lá, poucos trabalham, portanto poucos saem da ilha cercada por canais vedados de mobilidade.
Quando foram provocados a se inscreverem no território do Lapenna e deixar desenhada (ou cartografada) esta inscrição, toda a timidez no contato com estudantes da USP se desfez, eles são incisivos e diretos, o desejável e o indesejável, o seguro e arriscado, o lícito e o ilícito são narrativas completas e não descrições abstratas.
Esta demonstração aconteceu em um happening no pátio da escola no horário do recreio noturno. Os estudantes que participaram das oficinas do projeto fizeram um mapa base da vila e colaram na parede para que os outros estudantes marcassem seus cotidianos sobre aquela representação. Na ocasião pode ser visto claramente o potencial transformador dos “elementos não reunidos” a que se refere Lefebvre. Mas, quanto ao nosso debate sobre integração e desenho excludente, a experiência mais marcante para refletir sobre o tema, aconteceu ao término das atividades do projeto.

Em conversas com os meninos e meninas, prometi que os levaria para conhecer a FAU depois que acabassem as oficinas. Acho que o fiz para que não dispersassem e me deixassem falando sozinho. Mas, uma vez prometido, tive que cumprir. Fomos num grupo de uns dez estudantes de trem + metrô + ônibus, ida e volta, de São Miguel até a Cidade Universitária, a maioria nunca tinha entrado no metrô! Foi muito divertido para todos nós. Eles adoraram o prédio de Vilanova Artigas e os funcionários dos laboratórios fizeram questão de mostrar tudo e convidá-los para atividades que acontecem lá abertas ao público externo.
Seria o cúmulo da pieguice, narrar este acontecimento e falar que àqueles meninos e meninas que pertence a cidade, que eles sim devem ter o direito à cidade. O que é a pura verdade, mas uma verdade que tem outra versão. Nos comentários, expressões, reações às quais fiquei muito atento durante o dia todo do passeio - trajeto muito longo, chegada no jardim da Cidade Universitária (é possível contar nos dedos o número de árvores no Lapenna), a entrada no Salão Caramelo da FAU - era perceptível o espanto de como achavam tudo fantástico, ainda mais tratando-se de uma escola.
Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi certa displicência “turística”. Estávamos em um grupo de turistas, claro um turismo qualificado e com ares acadêmicos, mas ainda assim, este tipo de distanciamento turístico ficou patente no comportamento deles. Não por desinteresse, estavam o tempo todo muito empolgados com tudo que viam e ouviam. Ou seja, como todos ficamos quando visitamos outras cidades.
Conversando com eles, ouvi comentários diversos que, em minha interpretação, explicavam as minhas impressões. Não se tratava de aquela morfologia ou aquele equipamento estarem acessíveis, nem ao menos da distância e dificuldade para chegar até lá, nem tampouco se eles têm a chance de estarem lá futuramente como alunos. Mas, sim, o quão formidável seria ter aquele universo de possibilidades onde eles estão territorializados, no cotidiano do território deles.
A imagem que me ocorreu imediatamente enquanto os ouvia, era daquele grupo de jovens do Pedro Moreira marcando lugares no mapa do Lapenna, pois falavam de como aquela multiplicidade de acontecimentos e atividades descobertas na USP deveriam povoar a vila deles. Eles não priorizavam a forma urbana da Cidade Universitária ou a tipologias dos edifícios, apesar de gostarem muito. Mas elas são o outro, ou de outros, eles reconhecem a própria construção coletiva e identitária de seu território, portanto, não faria sentido transplantar outras na complexa e autoral morfologia que construíram.
Para eles neste momento, saberem que Cidade Universitária está lá, que podem ir a qualquer momento e saberem como se chega até ela, é o suficiente. Mesmo que demore duas horas chegar é um lugar muito agradável e interessante para se passear, mas as funções sociais que ela abriga deveriam estar espalhadas pela cidade. E a cidade está no território deles. Aprendi com eles um encaminhamento possível para pensar a questão da integração na cidade do desenho excludente.

Julho, 2016

A bordo dos escombros do Minhocão

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Por Eder Chiodetto

Curador especializado em fotografia.

A obra de Giselle Beiguelman nos coloca diante de alguns paradoxos da imagem no mundo contemporâneo. As imagens criadas, machucadas e arruinadas pelas estratégias da artista, parecem flagradas num trânsito entre o nonsense que se tornou a experiência de circular pelas grandes metrópoles como São Paulo e a nossa incapacidade em representar tal paisagem, por mais que possamos captar imagens pelos mais diversos e incríveis aparatos criados com ferocidade capital pela indústria tecnológica.

O conjunto formado pelas obras de Cinema Lascado, (presente na Caixa Cultural de São Paulo de 17 de julho a 25 de setembro), investe numa possível nova estética a partir dos escombros da paisagem urbana metaforizados pelas ruínas geradas no confronto entre diferentes equipamentos - telefones celular ultrapassados, softwares descontinuados etc - os quais Beiguelman força uma relação, um diálogo.

Mais que gerar imagens totalizantes que apontam para um referente específico, a artista atua na estrutura formadora da combinação binária das imagens digitais, corrompendo códigos, abrindo a porta para que o acaso também participe dessa equação que a indústria, com seus aplicados engenheiros, empreende tantos esforços para que o "erro" seja totalmente eliminado.

Quando o acaso é injetado nesse sistema de representação da paisagem urbana - foco de interesse da artista -, Beiguelman restaura, na representação, a possibilidade da deriva. A mesma deriva que nos dá o direito de caminhar livre pela cidade sabendo que a cada esquina dobrada uma grande surpresa pode acontecer, como tão bem nos ensinou o personagem do flanêur, criado por Charles Baudelaire. Um golpe potente contra o tédio da previsibilidade.

A videoinstalação Cinema Lascado | Minhocão, é obra paradgmática nesse sentido. Projeto arquitetônico dos mais absurdos, criado em 1969 durante a ditadura militar, a via elevada denominada popularmente de Minhocão transformou uma das regiões mais agradáveis e tradicionais da cidade de São Paulo numa mancha territorial miserável, desvalorizada e suja. Uma fratura social. Construção feita para ser ruína!!!

Beiguelman a bordo de um carro filmou a via elevada em alta definição, percorrendo-a por cima e por baixo. Ao submeter essas imagens a programas de edição já obsoletos no mercado tecnológico, as ruínas começaram a se revelar não apenas na superfície das imagens - como acontece com a maioria daqueles que se aventuram a representar o caos citadino -, mas na própria natureza, no DNA que forma tais imagens. Mais que imagens, meta-imagens.

Essas imagens que pensam imagens, formadas por superfícies rugosas, quebradiças e por vezes com cores inesperadas provenientes de relações binárias conflituosas, levam a percepção ocular a procurar a origem da sua instabilidade. Território resultante de forças distintas e contrárias que, a partir de movimentos tectônicos provocados pela artista em seu interior, resultam em superfícies que se esforçam por harmonizar e criar uma estética errática a partir dos escombros formados por essas forças antagônicas.

A experiência de estar diante da projeção agigantada de Cinema Lascado | Minhocão é radicalmente semelhante a estar em deriva por esse cenário em ruínas que nossa civilização criou para espelhar suas próprias idiossincrasias.

A rua é nóiz!

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Por Filpe Luna

A noite de São Paulo ainda é a melhor e maior do Brasil. Mas a cena, que era conhecida pelos clubes famosos que varavam a madrugada, agora não acontece apenas em espaços fechados e nem necessariamente à noite. A rua também é pista na capital paulista.

São muitos os passos que percorrem as ruas do centro de São Paulo. São decididos, andam pra frente, ou se tropeçam, se batem, se esbarram, apressados, ao som do compasso agitado do ritmo do trabalho na cidade. São movimentos que carregam a potência da maior economia do Brasil, que avançam decididos atravessando calçadas, movimentando o comércio, entrando e saindo dos túneis do Metrô. Sem melodia ou harmonia, apenas ritmo, eles batucam as calçadas de segunda à sexta incessantemente. Livres das correntes do horário comercial, os passos se abrem, mais anárquicos e apontam pra todas as direções. Pra frente, pra trás, pro lado e pro outro, comandados por quadris que se movem ao som da música, que agora ocupa aquela paisagem antes dominada pelo barulho ensurdecedor do trabalho. Passo a passo, o centro de São Paulo foi ocupado, transformando o asfalto, o concreto, o mosaico das calçadas, na maior e melhor pista de dança da cidade.

Para Facundo Guerra, dono de vários bares e casas noturnas de São Paulo, o primeiro passo aconteceu na Green Sunset do Museu da Imagem e do Som, há 5 anos. “Foi essa festa que deu o primeiro impulso pra mostrar que as pessoas podem dançar e se divertir durante o dia. Não precisa ser só à noite.” Para Karen Cunha, coordenadora de programação da Secretária Municipal de Cultura, um passo importante foi “uma das primeiras vezes em que a festa Voodoohop tocou na rua no Mês da Cultura Independente, em 2010, na sacada da Trackers”. Já Pita Uchôa, produtor e DJ da festa Calefação Tropicaos, que era um dos membros da VoodooHop quando esta dava seus primeiros passos, diz que “não tinha essa coisa pensada: vamos ocupar o espaço público. Era muito por zoeira mesmo e até pra debochar: não tem autorização então vamos colocar o som no Minhocão e ver até onde vai.” Fato é que cada um desses passos traçou a retomada de um hábito muito brasileiro na cidade de São Paulo: fazer festa em espaços públicos.

Vem pra rua

São muitos os exemplos da cultura brasileira de festejar na rua e quase todas de origem religiosa: quermesses, festas juninas e o inescapável carnaval. Mas em São Paulo até a mais brasileira das festas estava sufocada pela dor e delícia de ser uma das maiores metrópoles do mundo.
Confinado no sambódromo do Anhembi com o desfile das escolas de samba, o carnaval de São Paulo só botou o bloco na rua pra valer em 2015, quando registrou 172 agremiações cadastradas. Neste ano, o número mais que dobrou: 355 blocos desfilaram pelas ruas. Esse transbordo foi eco direto do crescimento da Virada Cultural, festa que, desde 2005, ocupa o centro de São Paulo por 24 horas com atrações culturais a cada esquina. São eventos que fizeram parte de uma mudança de percepção do espaço público para quem vive na cidade. “Num contexto mais amplo, o paulistano perdeu o medo da rua”, afirma Facundo. “Porque a gente cresceu, eu falo pelo menos da minha geração, já que tenho 40 anos, achando que a rua era perigosa. Minha mãe ficava mais feliz se eu ficasse no Atari em casa do que jogando bola”.
Para essa geração, da qual também faço parte, a casa noturna sempre foi o lugar onde a festa era possível. É importante pensar que a festa tem uma característica fundamental: ela precisa ser subversiva. As regras que se aplicam na vida em comunidade são diferentes do que se permite fazer no clube. Não há olhares reprovadores para quem está num estado alterado de consciência, para quem dança seus males na pista ou para quem tem quentes demonstrações de afeto em público.
Quando comecei junto com meus sócios há 8 anos a festa Talco Bells, nossa ideia de subversão era tocar música soul em clubes em que o contexto habitual era música eletrônica, pop, rock and roll ou samba rock. Um par de anos depois de começarmos, esse modelo começaria a se tornar anacrônico: até os clubes têm uma estrutura com códigos de comportamento, e o público começava a sentir necessidade de subvertê-la.
“Quem gosta de ir em festas de rua acha clube muito cafona”, diz David Carneiro, 26 anos, organizador da festa Primavera, eu te amo. “Pagar pra ir na balada, pagar pra ficar em fila é muito anos 2000”. Não são poucos os que compartilham da opinião de David: a última edição na rua da sua festa levou 10 mil pessoas à praça ao lado do Teatro Municipal de São Paulo, a Praça Ramos de Azevedo. “O público que vai pra rua está procurando um ambiente em que tenha um maior arbítrio”, explica Akin Deckard, DJ e organizador da festa Metanol FM. “Ele tem a liberdade de beber o que tá ali à venda, de levar de casa. As pessoas vão pelo conteúdo, em grande parte, e também pelo movimento social que é o evento de rua. Por você poder estar em contato com outras pessoas e poder ter contato com o que você gosta, culturalmente falando, num ambiente de expressão individual mais aberto”.

Diferente dos clubes, todos os passos que compõem a coreografia de uma festa de rua são mais complexos de definir. Tem o público que veio das baladas, mas tem ambulantes, moradores de rua, pedintes, transeuntes. Pessoas que não conhecem o código de comportamento dos clubes ou simplesmente não se importam. “O que mais gosto é o imponderável. É completamente aleatório”, explica Millos Kaiser, 29 anos, metade da dupla Selvagem, que por muito tempo realizou sua festa na Praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo. “Já rolou uma cerimônia de casamento durante a festa. Performances bizarras, mendigos dançando com patricinhas – às vezes pegando patricinhas. É um mix muito grande. São encontros entre seres humanos que normalmente não acontecem porque as pessoas não se permitem muito. Numa festa de graça essas coisas acontecem. É incontrolável, pro bem e pro mal. [A Selvagem] Ficou tão grande uma época, com tanta gente, que quase implodiu. Não dava pra ir no banheiro, não dava pra comprar bebida, era só uma grande massa. Mas era muito bom. Tenho saudades”.

A praça é nossa

Passos que percorrem caminhos opostos de segunda a sexta, mas que se cruzam na pista de dança aos sábados e domingos. Esses encontros têm transformado a experiência de viver na cidade a partir do centro. A ocupação da rua e dos espaços públicos também se estendeu além das festas, principalmente em manifestações políticas. “A gente costuma dizer que faz festa na rua porque é nossa maneira de fazer política”, explica Akin. “O que a gente faz também contribui positivamente para a ideia do uso do espaço público de maneira legítima para qualquer coisa que você queira como cidadão. Reinvidicar seus direitos políticos, discutir a questão de gêneros e classes, pontuar ideias, festejar, celebrar”.

A Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura, tem incentivado essa mudança de paradigma. Em 2014, aconteceu a primeira edição do SP na Rua, evento que convidou 22 coletivos para tomarem as ruas do centro de São Paulo com seus sistemas de som por uma noite. Já aconteceram outras duas edições do evento – a última teve participação de 36 coletivos. A próxima está marcada para 10 de setembro (antes da publicação, mas depois do fechamento desta reportagem). O SP na Rua é um reflexo do apreço que a atual gestão municipal tem pelas festas em espaço público. “Tem a cara de São Paulo”, diz Karen Cunha. “Gostam muito de colocar na nossa cabeça essa ideia de que o paulistano só quer ficar trancado em casa, só gosta de shopping e só quer saber de trabalhar. Logo que a gente voltou com o carnaval de rua já se provou que as pessoas queriam muito sair pra rua. Se os coletivos querem ocupar a rua, desde que isso não seja um problema com a vizinhança do local, não consigo entender porque o poder público deve ser contra. A secretaria de cultura quer mais que a cultura esteja em toda parte.”

Essa negociação com a vizinhança local é mais simples quando as festas permanecem na região central. Quando se espalham para o centro expandido e suas zonas residenciais, a situação se torna mais delicada. Pita Uchôa, da Calefação Tropicaos, mora em Perdizes e tem dificuldades para ocupar o bairro. “Aqui nessa região existe uma cultura das pessoas tratarem as praças como uma extensão das casas delas, mas no mau sentido”, explica. “De querer que aquilo ali seja deles, então pensam: quem são essas pessoas aqui que não conheço e que estão praticamente dentro da minha casa? Mas não é sua casa, é uma praça pública em que todo mundo pode transitar. A gente já foi impedido de fazer um piquenique há 5 anos só porque eram pessoas, sei lá, com roupas estranhas, com aparências estranhas. Chamaram a polícia e, mesmo sem argumento, reprimiram e tiraram a gente de lá. O principal passa mesmo pelo comportamento das pessoas. Entender até onde vai seu direito e o direito do outro. Inclusive da parte de quem faz”. Pita explica que a experiência com os moradores do Minhocão o fez repensar fazer festas naquele local. Num espaço onde os carros estão tão próximos que parecem dentro dos apartamentos, o domingo era o único dia de sossego do barulho para quem habita a região.

Segue o fluxo

Se nos bairros de classe média há um descompasso entre quem quer festa e quem quer descanso, na periferia o passinho segue outro ritmo. “Eu vim de Perus e sempre achei caro pra caramba vir pra alguma balada aqui no centro de São Paulo”, conta David Carneiro, da festa Primavera, eu te amo. “Quando você vem da periferia e vai se inserir em outro círculo social, você tem medo de não ser aceito”. Essa é uma das explicações para a distância entre a cultura que se vive na periferia e o que acontece no centro. O jornalista carioca Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, que publica notícias sobre os morros do Rio de Janeiro, esteve na periferia de São Paulo para fazer um documentário sobre o Passinho do Romano (dança do funk criada no bairro Jardim Romano) e conheceu de perto o Fluxo – festas de funk que acontecem na rua e são divulgadas pelas redes sociais. “Diferente de qualquer festa de rua, o funk é uma parada que acontece na favela em que mistura gente que tem condição de sair para outro lugar, mas opta por curtir aquele espaço com uma galera que não tem uma grana pra sair e não precisa sair do seu território para poder curtir”, explica Raull. “É um lugar dentro da sua área onde você vai gastar menos. A bebida, o lanche vai ser mais barato, você não gasta com condução e nem tem que se preocupar se vai ter algum problema na entrada da favela quando voltar, alguma dura, uma revista, passar por uma situação vexatória”.

Raull usa sempre uma expressão quando fala da periferia: “o nós por nós”. O Fluxo é uma festa realizada para um público local que além de ser um encontro social tem impacto econômico. Um deles, e mais evidente, é ser uma plataforma para divulgação das músicas que são gravadas por MCs da periferia. O outro é gerar uma oportunidade econômica para comerciantes do local. “A partir do momento que você tem um baile, um cara que tá sem emprego bota um isopor e faz uma renda extra”, explica Raull. “No dia do fluxo, o salão de cabeleireiro tem uma clientela maior, uma loja de roupa vende um pouco a mais. Acaba gerando um movimento em torno do baile e isso que torna essa força do baile dentro da favela”.

Fervo pro bono

“Grana nunca vai rolar”, Pita Uchôa é categórico. “Quem fizer festa de rua esperando grana ou não vai fazer ou vai fazer de uma forma bem comercial que já foge do propósito do negócio. Aí é melhor ir fazer num clube”. A curva de popularidade das festas de rua começou sua ascendência em 2010 e teve o auge entre 2013 e 2015. Este ano, a frequência dos eventos sofreu uma queda, eles estão menos cheios. Seria uma crise? Na verdade, embora ocupar o espaço público seja um desejo de quem faz e de quem vai, esse formato tem o mesmo problema fundamental de qualquer empreendimento: como os organizadores podem fazer dinheiro com o evento para cobrir os custos? “O ambiente do espaço público não dá pra capitalizar”, afirma Akin Deckard, da Metanol. “Mas a gente nem tem a intenção de fazer dinheiro com festa de rua. Isso faz muito mais parte de nosso DNA ideológico e artístico do que do nosso DNA financeiro e capitalista. Quando eu toco na rua, consigo dialogar com um público muito maior, mais diversificado, menos elitista e muito mais cabeça aberta do que o público de clubes em geral”.

A Metanol FM usa um modelo replicado por muitos coletivos e realiza festas em outros espaços cobrando entrada. O coletivo ainda mantém um espaço, o S/A, que também abriga seus eventos. Sair da rua não significa um passo pra trás e voltar ao mesmo formato antigo dos clubes. A maioria das festas de rua buscou espaços alternativos para sediar suas edições pagas. Locais como a Casa da Luz, Casa das Caldeiras, Nos Trilhos, galpões abandonados, casas desocupadas. “Acho que esse foi o passo que todo mundo que tava na rua deu”, reflete Millos Kaiser, da Selvagem. “Achar esses lugares meio sem lei, fora do circuito de clubes, que não tem comanda, não tem segurança, nada disso. Acho que é justamente com esse objetivo de preservar essa aura que você tem na rua”.

“Percebi que esse era um processo irreversível”, avalia Facundo Guerra, que trabalha diretamente com o negócio dos clubes, “até porque essa estrutura do clube, da boate, já existe desde a década de 60, 70, e está obsoleta. A rua é uma resposta também à própria obsolescência do clube. Agora a gente tem um projeto que vai tentar atualizar a estrutura do clube pra não concorrer com a rua”. Facundo pretende resgatar o espírito dos clubes que tinham sócios e planeja começar o novo empreendimento captando os associados através de crowdfunding. Os apoiadores terão direito a frequentar o espaço pagando uma mensalidade. A diferença é que a estrutura acústica é desenhada por José Nepomuceno, da empresa Acústica e Sônica, que fez o projeto da Sala São Paulo. O resultado é um sistema de som de altíssima fidelidade para reproduzir áudio sem compressão, em formato digital ou em vinil. Além disso, Facundo mantém um olho na rua: “Estamos desenvolvendo um app pra estimular a música na rua chamado Gig. É um aplicativo que permite que as pessoas doem dinheiro diretamente pro artista. Já conseguimos juntar 800 mil reais de empresas.”
São mais de 20 milhões de pés nesta cidade e cada um tem seu passo. Se o trabalho dava o tom que guiava sempre o compasso da rua para uma mesma direção, o ritmo mecanizado que sai dos alto falantes injetou uma saudável dose de anarquia no free jazz que temos em São Paulo.
A noite da cidade ainda é a melhor do país e, se não tem um clube que seja seu símbolo, como Berlim tem o Berghain, ou Londres tem Fabric e Ministry of Sound, São Paulo tem mais: tem noite, tem dia, tem rua, tem balada, tem ocupação. Cada um no seu passo: pra um lado, pro outro, pra frente, pra trás.

O LÉXICO DA CAMINHADA URBANA

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Por Mauro Calliari

A

Alteridade  – A base da experiência do caminhar: ver pessoas diferentes. Reconhecer que somos diferentes, mas que somos capazes de compartilhar civilizadamente um mesmo espaço.

Andar a pé  – Em São Paulo e outras grandes cidades brasileiras, o meio de transporte mais utilizado é o pé. Só que a cidade é construída para quem anda de carro. Isso está mudando. Andar a pé é o melhor jeito de experimentar a cidade enquanto cobre pequenas distâncias. E é o melhor jeito de conhecer a cidade enquanto cobre grandes distâncias.

Arte na rua  – Na hora em que sumiram os letreiros com a Lei da Cidade Limpa, constatamos que havia paredes, muros e fachadas vazios. Foi a dica para os artistas de rua começaram a ocupar esses espaços com pinturas e grafites. Alguns são lindos. Outros são pouco melhores que pixações. Mas quem anda por aí adora ver arte e imaginar quem é que saiu de casa e passou horas pensando no que ia deixar de legado para os outros.

Árvores  – Quem não gosta de caminhar sob a sombra? Tem gente que acha que folha é sujeira, mas o caminhante agradece aos que cuidam das plantas. Elas limpam o ar, trazem aquela umidade gostosa e reduzem a temperatura nas ruas onde estão.

Avenidas  – Do ponto de vista do pedestre, avenidas são ruas mais demoradas de atravessar. Como nossa cidade foi moldada por um plano que se chama Plano de Avenidas, é fácil imaginar o tanto de travessias que teremos que fazer para chegar ao outro lado.

B

Baudelaire  – Muitos andaram pela cidade antes dele, mas ninguém influenciou caminhantes como ele. A caminhada deixa de ser uma questão de chegar do ponto A ao ponto B. Com Baudelaire, nasce o prazer de perder-se em meio à multidão, da errância, da observação da cidade.

Barulho  – Motoristas de ônibus: cada acelerada até o fim da marcha dói fundo no ouvido de quem está na calçada. Motociclistas: tirem a mão da buzina! Feirantes: sim, eu vou comprar a dúzia de maçãs a R$ 6,50!

Bolsões  – Nos bolsões cercados pelas grandes avenidas, ficam os bairros. Alguns são surpreendentemente calmos e são uma delícia para quem anda. O contraste entre uma avenida frenética e uma rua de bairro com bandeirinhas de São João é uma daquelas surpresas que aguardam o caminhante curioso.

Buracos  – Cada pequeno desvão na calçada pode significar um pé quebrado. A área de ortopedia do Hospital das Clínicas informa que quedas nas calçadas são uma das maiores causas de atendimento. Olhe bem antes de sair pisando firme por aí. Se cada passo tem 60 cm, a cada quilômetro, damos 1667 passos. Numa caminhada tranquila, de cinco quilômetros, portanto, terão sido 8335 as vezes em que temos que olhar cuidadosamente para o chão para ter certeza de estar pisando em terreno plano.

C

Calçada  – O item mais essencial numa caminhada. Se os romanos antigos já achavam importante separar as pessoas dos cavalos e das bigas, os parisienses modernos demoraram até 1780 para construir as primeiras calçadas. As nossas calçadas parecem perdidas em algum século no meio dessa história, mas é por elas que caminhamos. É por elas que chegamos à padaria, é ali que olhamos uma banca de jornal ou levamos o bebê para dar uma volta. É nelas que encontramos gente diferente.

Calçadões  – A idéia de separar pessoas e carros vai mais longe nos calçadões. Na década de 1970, em toda a parte do mundo, milhares de metros quadrados de ruas viraram calçadões. No Brasil, Curitiba teve a provável primazia. Em São Paulo, os calçadões ainda trazem a emoção adicional de achar seu caminho em meio à profusão de gente, pastores, agências de emprego, músicos, camelôs e vendedores.

Carros  – O inimigo número um do pedestre são os carros. Eles estão por toda parte e seus motoristas, apesar de serem pessoas como todas as outras, quando ganham o comando de um motor, mudam de comportamento. De um modo geral, quanto mais longe dos carros, melhor. Quem anda sofre com buzina, com fumaça e com a presença física dos carros, caminhões, ônibus e motos. Mas diante da inevitabilidade de sua presença, quanto menos velozes e menos barulhentos eles estiverem, melhor para quem anda.

Centro  – Caminhar pelo centro é sempre a oportunidade de entrar em contato com a identidade da cidade. A densidade aumenta, o número de pessoas aumenta, há mais prédios históricos, há uma vibração na rua. O centro da cidade conta a nossa história, instiga a observação, dá sentido à caminhada.

Comida  – Descobrir o lugarzinho que serve aquela coxinha, um pastel na feira, um café num boteco é parte do prazer de caminhar. Barracas de feira, botecos, bares, foodtrucks, restaurantes, cafés. Eles estão por toda a parte e encontrar o lugar certo para terminar a caminhada é uma arte.

D

Diversidade  – É difícil lidar com a diversidade quando se anda por aí. Mas que prazer observar situações de convivência entre pessoas diferentes! Numa mesma vizinhança, encontramos pessoas de idades diferentes conversando. Num bar, ouvimos gente falando línguas diferentes no mesmo balcão. Na Paulista, executivos e hipsters na mesma calçada. Bebês e skatistas na mesma praça? É difícil, mas pode dar certo, é só aprender o código da convivência em comum.

E

Espaço público  – Já se disse que, numa boa cidade, os espaços públicos são tratados com o mesmo cuidado que os espaços privados. Os largos, as praças, as ruas, as marquises, esses bens de uso público são o espelho de nossa sociedade. Também há os espaços que são chamados de semi-públicos. São aqueles que, apesar de serem privados, são de uso coletivo: lojas, shoppings, estádios. A diferença é que tem guarda na porta.

Escala humana  – As cidades construídas para serem vistas pelas pessoas são muito diferentes daquelas feitas para se andar de carro. Aliás, cidades para pessoas é o mote do urbanista dinamarquês Jan Gehl. Nelas, o caminhante olha para os prédios ao longo da rua e se sente acolhido. O segredo é a preocupação com os pequenos detalhes. Um jeito bom de entender a escala humana é se perguntar, diante um espaço público: “As pessoas têm a chance de se encontrar? E tem vontade de ficar mais tempo? Quer ver um exemplo de escala humana? Pense numa praça medieval!

F

Fachadas ativas  – Termo técnico para designar aquelas fachadas que se abrem para a rua. Vitrines, janelas, mesas, aberturas, tudo o que quebre a mesmice de um muro, de uma empena, de uma parede sem graça. Aliás, falando em coisas “ativas”, tecnicamente, caminhada é também chamada de “meio de transporte ativo”.

Faixa de pedestre  – Todo mundo sabe o que é. Mas nem todo mundo que dirige pára quando vê uma. A provável exceção é Brasília. Apesar de ser um lugar bem difícil para o pedestre, a cidade tem essa qualidade: lá, para-se na faixa para que o pedestre atravesse. Em outros lugares, olho vivo!

Flanar  – Em bom português, vagar, vagabundear, zigzaguear, perambular...O termo flâneur já existia na França desde o século XIX. Com Baudelaire, entretanto, ganhou status. Flanar é mais do que ir do ponto A ao ponto B. É ligar-se à cidade, observar as pessoas, devanear sobre os objetos, seguir um ritmo interior e deixar-se levar. Vários movimentos artísticos usaram o caminhar como forma de expressão, os dadaístas, os situacionistas.

Fruição  – Essa é a nossa capacidade de abrir o sentidos e deixar-se envolver pela cidade. Não é fácil, a cidade às vezes é insegura, mal-cheirosa, ameaçadora. Mas quando acontece… Veja o prazer da Clarissa Dalloway, personagem de Virginia Wolf, quando se “entrega” à sua Londres de 1925. “Nos olhos das pessoas, no bulício, na pressa ou lentidão dos transeuntes; na algazarra e no fragor; carruagens, automóveis, autocarros, caminhões, homens-sanduíche aos tropeções ou de passo arrastado; realejo e fanfarras; no triunfo, no tinido ou na estranha melodia de um aeroplano lá no alto estava aquilo que ela amava: Londres, a vida, este momento de junho.”

G

Garagem  – Cuidado! Não vá entregar-se à fruição urbana sem garantir que uma fração do seu olhar esteja dedicada a fugir dos carros que entram e saem das garagens pelas calçadas.

Gordon Cullen  – Escreveu um livro lindo que trata da paisagem urbana a partir do olhar do caminhante  – a visão serial. Cheio de fotos, ele demonstra como alguns lugares são agradáveis ao olhar e instigam a curiosidade sobre o que vem a seguir. Também mostrou como os detalhes são importantes para quem caminha.

H

Haussmann  – o Barão responsável pela administração de Paris em meados do século XIX não teve dúvidas em rasgar o tecido da cidade medieval da cidade. Desalojou milhares de pessoas. E criou os deliciosos boulevares e o estilo urbano que até hoje encanta o mundo. Contradições do urbanismo.

I

Identidade  – Uma criança sai de casa sozinha pela primeira vez. Ela leva um dinheirinho para comprar um pão na padaria. Encabulada, encontra coragem para conversar com a atendente. Espera ansiosa pelo troco, torcendo para não ser enganada. Contente, descobre que veio tudo certinho. Na volta, vê pessoas que não inspiram confiança e acelera o passo até chegar em casa. A nossa identidade surge de várias interações, mas muito do que somos é descoberto na rua através desse jogo de tentativa e erro com os desconhecidos, que o sociólogo Richard Sennett chama de “play-acting”.

J

Jane Jacobs  – A musa da diversidade, da segurança, da cidade humana, ativista que se opôs bravamente à destruição de bairros pelas vias expressas em NY nos anos 60. Inspirou até uma caminhada, que acontece em várias cidades do mundo anualmente: a “Jane´s walk”.

João do Rio  – o nosso Baudelaire. Explorou extasiado a modernidade do Rio de Janeiro do começo do Século XX. Seu palco é a cidade. Sua obsessão, o boulevar da Av. Central do Rio de Janeiro. “É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência”.

K

Kevin Lynch  – Pesquisou a forma urbana e a organização espacial das cidades americanas. A forma das ruas, os pontos nodais, espaços públicos, comércio, todas essas variáveis servem como referências importantes para sabermos onde estamos. Uma de suas conclusões: um ambiente legível pode reforçar “a profundidade e a intensidade potenciais da experiência humana.”

L

Lugar  – Um espaço que adquire significado se torna um lugar. A cidade não é imune aos nossos passos. Quando andamos, damos sentido aos espaços da cidade, transformando-os em lugares. De alguma maneira, andar nos permite “tomar posse da cidade”.

Lojas  – As lojas são aliadas do pedestre. Os comerciantes tomam conta de suas calçadas, ajudam na segurança e as vitrines atraem nosso olhar. Lojinhas de fachadas estreitas são melhores ainda. Elas trazem uma novidade a cada quatro ou cinco metros!

M

Mapa  – Em tempos de aplicativos, temos o impulso de saber onde estamos a cada segundo. Calma, a cidade também pode ser decifrada com paciência. Contemple a possibilidade de olhar para um mapa de papel. Ou então, deixe-se perder e, quando estiver realmente perdido, pergunte a um dono de banca de jornal em que bairro está. Você vai se achar, sem stress.

Multidão  – De vez em quando, é bom cruzar áreas muito densas. O burburinho dos desconhecidos traz a paz do anonimato.

Muros  – Longos muros repelem o olhar e geram uma sensação de desconforto. Experimente andar ao longo de uma linha férrea, como as tantas que cruzam as grandes cidades. Ou ao longo de um condomínio murado. O caminho fica sem graça, a falta de referências é cansativa e as calçadas se tornam mais inseguras.

N

Não-lugar  – É o espaço destituído das expressões simbólicas de identidade, relações e história. Marc Augé, o autor da expressão atribui essas características principalmente às estações de transporte e aeroportos, em que estamos apenas de passagem. Curiosamente, algumas estações de metrô começam a adquirir identidade própria e se tornam pontos de encontro e de permanência, mesmo sem ter sido planejadas para isso. Basta ir no entorno da estação Liberdade do metrô lotada de jovens num fim de semana para ver como isso está acontecendo.

O

Orientação no espaço  – “Tão mais confortável é a cidade quanto mais ela é reconhecível pelos seus habitantes”. Lynch, de novo.

Olhos da rua  – Linda expressão criada pela J.Jacobs para se referir às pessoas que estão em contato com a rua enquanto fazem suas atividades. São elas que garantem que um lugar seja seguro. Faça o teste. Vá a uma rua com prédios baixinhos, com lojas embaixo, e dê um berro. Várias pessoas vão botar a cara na janela. Se fosse um assalto, talvez chamassem a polícia. Faça o mesmo na frente de um condomínio de 35 andares com muros altos e veja se alguém está disposto a descobrir que berreiro é esse.

P

Parque  – Se uma praça representa a possibilidade de uma parada na cidade, um parque é a oportunidade de fugir dela durante um tempo.

Pedestre  – Palavra que ainda é usada às vezes como sinônimo de coisa pobre, rasteira. Na nossa cultura, pedestre era quem não conseguia comprar seu carro. Isso está mudando tanto que o culto ao carro vai parecer anacrônico em poucos anos. Assim como nos EUA, cresce o número de brasileiros que não fazem questão nenhuma de dirigir. Andamos a pé, sim senhor.

Patrimônio Histórico  – Um grande prazer é poder caminhar por lugares que fazem parte da história da cidade. É comum a gente se referir a eles com carinho e intimidade: “nos encontramos no Masp” ou “vamos andando até o Pátio do Colégio?”. Eles dão sentido à caminhada e dão sentido à cidade.

Praças  – Nada como um espaço de permanência para quem está de passagem. Uma parada num banco permite ao caminhante cansado contemplar a vizinhança, ver gente, pensar e aproveitar para não pensar em nada.

Q

Quadras longas e curtas  – Quando você tem que ir de um lugar a outro frequentemente, é bom ter a chance de fazer caminhos diferentes a cada vez. Jane Jacobs sugere que quadras curtas permitem que você mude a cada vez e torne seu trajeto muito mais interessante.

R

Rua  – Nossas cidades se organizam em ruas. Parece óbvio mas não foi sempre assim. Houve até cidades que cresceram sem ruas, como Çatalhoyuk, na Turquia de sete mil anos atrás, que, por incrível que pareça, tinha quase cinco mil habitantes e nenhuma rua. As pessoas passavam por dentro das casas uma das outras para passear por aí. Hoje, a rua é o espaço público por excelência. Algumas cidades têm essa malha quadradinha, como as cidades espanholas na América Latina ou Goiânia e Belo Horizonte, e outras são à portuguesa, com ruas que seguem o relevo. É um prazer passear pelas ruas e perceber que cada uma tem sua cara, ou várias caras. Como a Av. Sapopemba, com mais de 20 quilômetros, que ainda vai ser objeto de uma expedição científica.

S

Segurança  – Ninguém quer se sentir ameaçado num caminhada.Ruas vazias dão medo. Ruas que têm gente, lojas, bares, ajudam a garantir a segurança do caminhante. Existem urbanistas sábios que dizem que um bom indicador de segurança é a presença de mulheres e crianças nas ruas! A segurança também envolve o próprio ato de caminhar e a chance de sobreviver com dignidade a um passeio pela cidade  – faixas de travessia, sinais de pedestres, acessos, guias, calçadas sem buracos, tudo o que faz a gente pensar na cidade sem ter que ficar paranóico olhando para cada armadilha nas calçadas e travessias.

Sentar  – É paradoxal. Mas quem anda muito, precisa muito sentar de vez em quando. Para descansar, para apreciar, para fazer uma ligação, para esperar alguém. A cidade tem pouquíssimos bancos. Tem até um grupo no facebook chamado “Bancos com encosto para Sampa”, em que as pessoas falam disso. Faltam bancos nas praças. Faltam bancos nas estações. Faltam bancos nas ruas. Bancos que sejam confortáveis, com encosto e sombra.


Sinal de trânsito  – A sinalização é a chave da segurança do pedestre. Quando apertamos aquele botãozinho no poste, esperamos que alguma coisa aconteça. Alguns botões são apenas placebos para que o ser humano agüente esperar um, dois, três minutos enquanto os carros continuam passando. As associações de pedestres estão se mobilizando para mudar essa relação. Não faz sentido fazer alguém que está andando esperar mais do que alguém que está sentado num carro.

Solidão  – Em alguns momentos, é muito bom ficar sozinho. Nada melhor do que uma caminhada longa para deflagrar aquele cansaço bem vindo. A cabeça se abre para as novidades e alguns problemas talvez fiquem mais claros depois de um grande passeio.

T

Trânsito  – As rádios dão boletins frenéticos: “100 km de trânsito na marginal”, “acidente com vítima faz o motorista perder tempo na radial”. Nossa lógica está toda voltada para o carro. Um dia, ouviremos boletins voltados às pessoas: “Você que trabalha na Av. Paulista, hoje está um dia bom para uma passadinha no Parque Trianon antes de pegar o metrô de volta para casa. Cuidado com a fila em frente ao sorveteiro!”.

Transporte Público  – Quem toma ônibus, metrô, trem tem sempre que andar algum trecho a pé. Mas quem planejou as grandes estações provavelmente nunca andou até elas. As estações da CPTM obrigam o passageiro a subir a ponte desviando-se dos carros. As estações de metrô são grandes, sem graça, difíceis de acessar e sem nenhum lugar para sentar. Nos terminais de ônibus, ouve-se com freqüência alguém no auto-falante: “cuidado com os ônibus ao atravessar as faixas” ou  – pasme:”é proibido tirar fotos dentro da estação”. Hã?

Triangulação  – O pesquisador americano William Whyte filmava pessoas nos espaços públicos de N.York. Depois de analisar os filmes, ele descobriu que estranhos começavam a conversar entre si quando assistiam juntos a artistas de rua. Forma-se um triângulo: pessoa 1  – artista  – pessoa 2. É só lembrar do show do Elvis Presley em frente ao Center Três para querer sorrir para a pessoa ao seu lado…

U

Urbanidade  – A atitude que permite que pessoas desconhecidas possam conviver civilizadamente. O conflito vai sempre existir. A educação é que vai ajudar a resolvê-los.


Usos combinados  – É difícil só moradores ou só trabalhadores sustentarem negócios. As lojas ficam abertas o dia todo e alguns grupos só aparecem em períodos curtos. Por isso é importante ter gente e usos diversos no mesmo lugar. Em São Paulo, há várias ruas que abrigam apenas uma função, que provavelmente enfrentam esse tipo de problema. A Av. Berrini, por exemplo, tem trechos inteiros de escritórios sem residências nas imediações, o que gera um pico de movimento no comércio local durante o almoço e um vale após o fim do expediente. O oposto também acontece, em bairros que sofreram recente verticalização, como a Vila Leopoldina, por exemplo, onde há predominância de prédios residenciais (aliás, fechados para as ruas e ocupando quarteirões inteiros murados), o que provavelmente exemplifica a situação oposta em relação à dinâmica de ocupação das calçadas.

V

Veneza  – Provavelmente a melhor cidade do mundo para caminhar. O segredo: não há carros. A pior? Alguém se habilita?

Viaduto  – O pesadelo do caminhante. Os viadutos são construções feitas para os carros. Os pedestres sofrem para encontrar o acesso seguro

Vazios urbanos  – As áreas mais difíceis e perigosas na cidade estão na várzea dos rios, ao longo dos trilhos de trem. A vontade é de pular logo esses lugares e ir para longe dali.

X

X, faixa em.  – As faixas de pedestre em xis, popularizadas na movimentadíssima Tóquio, já estão chegando por aqui. Elas diminuem muito o tempo de cruzamento. Em vez de fazer duas paradas, você vai direto até o ponto diagonal.

Y
Yazigi, Eduardo  – Geógrafo brasileiro, autor do belo livro “O mundo das calçadas”, que explica através da historia e da legislação como chegamos até aqui.

W

Walter Benjamin  – Filósofo alemão que trouxe Baudelaire e sua “Les Fleures du Mal” para o centro da conversa sobre a modernidade. Um trechinho do seu “Infância berlinense” é um bom exemplo desse amor à rua: “Não há nada de especial em não nos orientarmos numa cidade. Mas perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa foresta, é coisa que precisa se aprender”.

Z

Zoneamento  – Nossas cidades cresceram sob a idéia de que usos diferentes têm que ficar em lugares diferentes. Na prática, o caminhante encontra várias cidades diferentes num mesmo trajeto. Talvez isso fizesse mais sentido antigamente, quando seu vizinho poderia ser um curtume ou um matadouro, mas hoje isso poderia ser suavizado. Se aprendermos as regras de convivência, dá para ter uma academia de ginástica na mesma rua em que há um prédio residencial e uma repartição pública. No nível da rua, quem caminha vai perceber a diferença e agradecer pela vitalidade.

Arqueologia afetiva

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Por Facundo Guerra

Muitas coisas que com o passar dos anos se mostram grandiosas (ou pelo menos grandiosas da perspectiva de um humano) têm origem mesquinha.

No meu caso, o fato de não me encaixar na identidade de brasileiro foi o motivador para o meu trabalho de redimensionar lugares que julgo importantes para São Paulo. Cheguei ao Brasil miúdo, com cinco anos, e fiquei completamente perdido com a mudança, a ponto de emudecer por anos e precisar destravar a língua com o auxílio de uma fonoaudióloga.

E anos passando e eu não conseguia me encaixar na identidade arquetípica do brasileiro: o ziriguidum, Pelé, o carro, vôlei, pelada e Senna, o sambinha na esquina, a breja e o parangolé todo. Tentei, cheguei a ir vestido de amarelo e verde na escola para ser aceito pelos meus cruéis amiguinhos, para tão somente acabar sendo usado de apagador humano de uma lousa repleta de garranchos da aula de inglês. Não era essa a minha identidade, e fiquei à deriva, sem desenvolver um sentimento de vínculo, por anos.

Quando cheguei da Argentina, fui direto pra Santa Cecília, bairro do centro expandido de São Paulo, e aqui fiquei toda a minha vida. O centro sempre foi meu território, onde cresci e onde minhas memórias de afeto se encontravam e aos poucos passei a me identificar com esse lugar e a partir dele minha identidade de pertencimento começou a se formar. Sequer me julgava paulistano, mas paulistano do Centro. Recordo-me da Santa Cecília dos anos 1980 e minha Caloi de dez marchas rasgando a Angélica às quartas-feiras – era o dia da acessível meia entrada do Belas Artes, o que deixava o ingresso ainda mais possível para um moleque de classe média como eu - o hábito de amarrar a bicicleta na amurada do Riviera com suas colunas de fumaça de cigarro, cheiro de conspiração e desejo que, para mim, a porta do lugar emanava.

Era assim que eu o via, como uma espécie de lugar interditado para meninos, onde a verdade morava e era para poucos, onde a vida adulta existia com toda sua carga de imponderável. Acorrentava meu transporte ali, na porta do inferno, e atravessava a Consolação para entrar no Belas Artes e me sentir um pouco adulto. E foi assim, com o Belas Artes e o Riviera que fui me transformando em adulto e paulistano. Mas afinal das contas, o que era ser paulistano em uma terra onde ninguém era paulistano? Que espécie de identidade emergia a partir da gente de São Paulo?

Eis uma questão subjetiva, porque São Paulo, com seu tamanho colossal, não permitia a emergência de uma identidade de cidade, mas de bairro, e isso faz total sentido: São Paulo, a cidade, não passa de uma abstração. Ela em si é um continente, uma colcha de retalhos criada a partir da fusão de diversos bairros que se sobrepõem e que colidem em suas fronteiras. Se para a emergência do nacionalismo é necessária uma bandeira, um hino e um inimigo, temos isso nos bairros paulistanos: cada qual com um time de futebol, um centro próprio e um inimigo, normalmente o bairro vizinho. Daí vem as hostilidades entre Mooca e Tatuapé, Higienópolis e Perdizes, Barra Funda e Santa Cecília, Santa Cecília e Higienópolis, Zona Sul e Zona Oeste, Zona Norte e Leste. Se São Paulo é muito descomunal pra ser entendida como uma cidade, cada bairro em si faz o papel de uma, com seu centro e sua identidade.

São Paulo se apreende a partir do bairro, é daí que a identidade dessa cidade-continente emergiu na lógica da compartimentação produtiva: o carro, o shopping center, o condomínio (no caso das elites), o trabalho, a escola, o consultório do analista para tratar das neuroses que surgiam a partir desta vida segregada, o dinheiro, todos fiapos de identidade que nos ligavam à ideia de ser paulistano.

Esta lógica começou a entrar em curto-circuito há alguns anos, mais ou menos quando o capitalismo em si começou a mostrar sinais de fadiga. Não à toa que para o capitalismo funcionar bem ele precisa de corpos dóceis e divididos. A retomada das ruas de que somos testemunha em São Paulo de alguns anos pra cá demonstra exatamente que o modelo de cômodos disciplinares que era típica de uma cidade que se via pelo viés do dinheiro começou a dar sinais de falha estrutural. Daí cinema, gastronomia, arte, festas na rua, espaços áridos como o Minhocão e a Paulista sendo retomados pela população: tudo isso são efeitos, além do plano do discurso, de fissuras no interior do capitalismo turbo tal como o conhecemos.

Pois, se a identidade do paulistano sempre foi pautada pelo dinheiro e a produção e as novas gerações não se ligavam mais à esta identidade, o que colocar no lugar? Algo difuso ainda, sem muito nome ou características porque nos falta o distanciamento histórico para compreender esta retomada em curso das ruas, mas na minha opinião o Centro, e sua representação simbólica, tomou este lugar.
Porque São Paulo tem uma característica que lhe é única: a falta de referenciais de navegação. Talvez somente nas megalópoles da Ásia você tenha a desorientação que São Paulo lhe proporciona, com sua falta de lógica urbanística e sua carência de mobilidade. Se o carioca dispõe de referências naturais e o mar para lhe servir de bússola, em São Paulo estar perdido é uma condição natural. Tente remeter a uma época onde sair de casa sem um guia de ruas impresso no porta-luvas do seu carro era quase implorar pelo Minotauro.

Em um mundo onde se sabe permanentemente onde se está, São Paulo é cheia de dobras, de locais escondidos, de descobertas. Não é uma cidade para turistas, e talvez isto explique a sua ausência nas ruas. É uma cidade para viajantes, para pessoas dispostas a se perder e se encontrar. Nas dobras paulistanas, especialmente as dobras do Centro da cidade, seu eixo de navegação é psíquico. Não temos paisagens naturais ou mesmo cartões postais, mas paisagens humanas. Eis o que faz São Paulo interessante, sua gente e sua produção intelectual.

Então, quando me perguntava o que me transformava em paulistano, não me encontrava na lógica da produção compartimentada. Sabia intuitivamente que São Paulo era feita de gente, e gente se encontra em aparelhos culturais: bares, cinemas, museus, praças e rua. A rua, os espaços públicos, são estes os lugares de contato com o outro, com uma existência completamente distinta da sua, e portanto, lugares de transformação através do conflito. Hoje muitos preferem a precariedade das ruas, com toda a sua potência, do que a experiência pautada e repisada dos espaços feitos para o consumo.

Quando um cinema de rua baixa suas suas portas pela última vez para dar lugar a um supermercado ou uma igreja pentecostal isso representa uma ferida narcisística para o paulistano: é como ver o mar comer pra sempre um pedaço de areia e praia. Uma possibilidade de transformação que se perde, um lugar de resistência à lógica do público-alvo que se vai. No limite, sentimos um golpe na nossa identidade como paulistanos.

Passei a buscar lugares que representavam muito para mim , um a um, investigar o que tinha sido feito deles e tentar redimensionar seu uso para o presente. Por isso quando encontrei o Cine Joia, sala de cinema no bairro da Liberdade que serviu para exibir filmes de diretores japoneses nas décadas de 1950 e 1960 para a comunidade daquele bairro e que havia se transformada em uma igreja pentecostal chamada “Ministério do Avivamento Contínuo” sabia que não adiantava trazer de volta o cinema. A nostalgia pode ser venenosa e representar uma armadilha. Uma sala de cinema de 1500 lugares não faz mais sentido no mundo de hoje, tinha que se respeitar sua história, mas ressignificá-la.

Ficou claro que não bastava encontrar estes lugares e recuperá-los do ponto de vista arquitetônico: toda a restauração é mentirosa e completamente inútil se não previr um projeto de uso para o espaço. Tampouco faz sentido recuperar o espaço em seu uso original, porque muitas vezes este uso já não dialoga mais com o espírito do tempo. Fica o desafio de encontrar o espaço, respeitar seu passado e projetá-lo no futuro e no presente, algo como um futuro do pretérito: se bem sucedido, o espaço ganha uma segunda chance e influenciará novas gerações de paulistanos. No pior dos casos, ele ganhou atenção pela última vez e as pessoas terão a chance de se despedir dele. Em qualquer um dos casos, aproveitar-se de uma história já existente, do ponto de vista do empreendedor, é uma maneira de recortar as inúmeras oportunidades que um projeto permite, além de ligá-lo com a memória afetiva de seus potencias fruidores.

Quando abri o Vegas, na Augusta de 2005, minha ideia não era gentrificar ou revitalizar nada, mesmo porque acredito que o termo revitalização tem algo de cruel, como se pessoas com menos privilégios fossem menos vivas também do que nós, da elite. Era mais uma investigação do que me fazia paulistano: me lembrava dos rolês de adolescente, subindo e descendo a Augusta dos anos 1990, sem dinheiro para entrar nos clubes e nas boites e me divertindo conversando com as putas e as travestis que trabalhavam na rua, às vezes mendigando um pouco de carinho no final da noite de labuta delas. Aquele era meu território, aquelas ruas existiam também dentro de mim. Era natural que depois de ter perdido meu empreguinho eu pra lá voltasse. Logo depois desci pra Sé, pra depois subir novamente pra Paulista, sempre me perguntando o que me fazia paulistano.

Só mais tarde os lugares viraram negócios. É um exercício caro de busca de identidade, minha e de tantos outros que pensavam como eu e que se encontravam perdidos em uma identidade obsoleta de paulistano que era definida pelo trabalho, pelo dinheiro e pelo muro e que, urgentemente, precisava ser redimensionada.

Não somos a São Paulo do Borba Gato ou do Maluf: somos os antropofágicos, a São Paulo do Modernismo e dos Buarque de Holanda. A São Paulo da Roda Viva e do cruzamento da Paulista com a Consolação, da Ipiranga e da São João.

Apropriação 1

imagens de @jugdar e @grecocabocla, editadas a partir do #ciclovianapaulista.

Por Didiana Prata Essa seleção apresenta uma pequena curadoria de imagens da paisagem de São Paulo, produzidas e mediadas por câmeras celulares, veiculadas na rede social Instagram. São imagens da minha coleção de imagerié de Didiana Prata, capturadas dentro do universo de superprodução de imagens nas redes. Essas narrativas visuais ganham novas potencialidades poéticas a partir do uso de estratégias tecnológicas e artísticas, como os “#” (hashtags), pins de geolocalização ou busca por nomes de autores (artistas amadores, desconhecidos ou profissionais). Os ensaios representam os rastros do nômade contemporâneo e sua apreensão estética da cidade. São aqui apresentadados de forma fragmentada e ressignificada por seus próprios autores, ou por mim, a partir de apropriações e novas associações semânticas, participando da partilha do sensível do “qualquer um”, como diz Rancière. É uma edição subjetiva da paisagem urbana mediada pelas novas interfaces da artemídia. Pretende levantar questões sobre a singularidade dessa nova linguagem imagética, além de provocar questões sobre o papel do autor, do editor e do curador e das novas formas de produzir e veicular arte. Aqui a cidade é representada pela poética das redes e revela o “ethos” do homem contemporâneo.

Apropriação 2

Ensaios realizados com imagens de Everton Ballardin

Apropriação 3

MASP X 2: ensaios realizados a partir do #MASP, pelo pin geolocalizador av. Paulista e pelo cruzamento com os nomes Miriam Homem de Mello e Danny Zappa.

Apropriação 4

Edição realizada a partir do pin geolocalizador “av. Paulista” e pelo nome do autor @dannyzappa

Apropriação 5

TIPOLOGIAS ARQUITETÔNICAS: imagens de @instaisnyc, @dinhobf, @marcelolsdias, @ felipemoronzoni e @lucascarrijo , editadas a partir do #parqueminhocao

Apropriação 6

Ensaio realizado com imagens de Roberto Wagner

#X

Edição de ensaios autorais nos quais os artistas personalizaram a série por meio de um # (hashtag) customizado. São narrativas visuais configuradas a partir de uma estratégia de uso do algoritmo

#X1

#campocego

Ivan Padovani
Neste primeiro, mapeamento das empenas de São Paulo. Esses monolitos brancos passam a ser os marcos referenciais no mapeamento cognitivo do fotógrafo. O Instagram foi utilizado como dispositivo de tagueamento dos locais das imagens, depois refotografados com uma câmera profissional para a produção de imagens em alta resolução para impressão fine-art e reprodução em um fotolivro.

#X3

#thewarishereserie (2012 - 2014)

Juan Esteves

#X2

#pela_rua_com_recortes (2014 - em andamento)

Zé Vicente
Infiltrações artísticas na cidade. Frestas e lugares ocupados e ressignificados.

Caio Reisewitz

Cássio Vasconcellos

Cris Bierrenbach

Edu Simões

cortesia Galeria Marcelo Guarnieri

Edu Marin

Felipe Hellmeister

Felipe Morozine

Klaus Mitteldorf

Nino Andrés

Marcos Villas-Boas

Roberto Setton

Simão, o Caolho – Alberto Cavalcanti – 95min

São Paulo, 1952

Sinopse:
São Paulo, 1942. Um corretor de negócios, velho e malandro, Simão, o Caolho, anda às voltas com sua mulher e um bando de amigos turbulentos, sempre à espera de um lance de sorte na vida. Um de seus amigos, metido a inventor, vivia prometendo um olho suplementar para Simão. Um dia, esse olho aparece e Simão torna-se milionário, pois ele tem a propriedade de torná-lo invisível. Simão decide então entrar na política, candidatando-se a Presidente da República. Sua trajetória acaba por acompanhar as transformações na cidade de São Paulo entre 1932 e 1950.

O Grande Momento – Roberto Santos – 80min

São Paulo, 1958

Sinopse:
No dia de seu casamento, as dificuldades financeiras de um jovem da baixa classe-média paulista atrapalham a realização da festa. Ele, então, se vê forçado a vender o que possuía de mais valor - uma bicicleta - para poder arcar com as despesas da festa, do alfaiate e da viagem de núpcias.

Bebel, Garota Propaganda – Maurice Capovilla – 103min

São Paulo, 1967

Sinopse:
Saída de bairro pobre de São Paulo, uma garota propaganda procura a fama na publicidade e na televisão através de ligações amorosas com um jornalista, um ricaço, um produtor de TV e um publicitário. Ela ascende na carreira, mas por pouco tempo. É renegada pela família e não consegue manter seu amor por um estudante politizado. Adaptação do livro Bebel que a Cidade Comeu, de Ignácio de Loyola Brandão.

O Quarto – Rubem Biáfora – 101min

São Paulo, 1968

Sinopse:
A solidão de um homem de meia idade em São Paulo, cidade grande e ameaçadora: a espoliação de que é vítima em seu local de trabalho, o caso amoroso com uma mulher velha, os parentes mórbidos, a procura de carinho com prostitutas e a ilusória ligação com uma burguesa fútil que alimenta seus desejos de ascensão social.

Hitler 3º Mundo – José Agrippino de Paula – 70min

São Paulo, 1968

Sinopse:
Paranóia, culpa, desejo frustrado, miséria e tecnologia no país subdesenvolvido. Narrativa fragmentária, enquadramentos distorcidos, gritos e ruídos. O nazismo toma conta da cidade de São Paulo: prisão e tortura de revolucionários, um samurai perdido no caos, amantes trancafiados, o ditador e sua corja de bárbaros conservadores.

O Bandido da Luz Vermelha – Rogério Sganzerla – 92min

São Paulo, 1968

Sinopse:
Marginal paulista coloca a população em polvorosa e desafia a polícia ao cometer os crimes mais requintados. Conhece a provocante Janete Jane, famosa em toda a Boca do Lixo, por quem se apaixona. Ela o delata, provocando o seu suicídio.

Filme Demência – Carlos Reichenbach – 90min

São Paulo, 1986

Sinopse:
Um pequeno industrial de cigarros, falido economicamente e em crise doméstica, é praticamente exilado da casa pela mulher e passa a refugiar-se em visões e alucinações. Como na lenda de Fausto, terá de encontrar seu correspondente Mefisto, que durante a história lhe aparecerá de várias formas e personalidades, ora como traficante noturno, ora como uma cândida velhinha.

As Bellas da Billings – Ozuado R. Candeias – 90min

São Paulo, 1986

Sinopse:
A vida de profissionais marginalizados que perambulam pelas ruas de São Paulo. O personagem principal é um cantor de música sertaneja em início de carreira, que se envolve com um rapaz pretensamente intelectualizado, cuja família é extremamente problemática.

Que Horas Ela Volta? – Anna Muylaert – 114min

São Paulo, 2015

Sinopse:
A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino (Michel Joelsas) vai prestar vestibular, Jéssica (Camila Márdila) lhe telefona, pedindo ajuda para ir a São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir os protocolos, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Anjos da Noite – Wilson Barros – 98min

São Paulo, 1987

Sinopse:
Um vasto painel fragmentado sobre uma noite da metrópole. Uma série de pessoas - uma ex-manequim negra, um diretor teatral, um homossexual, uma atriz decadente, um gigolô, um transformista, uma estudante de sociologia, um sujeito misto de gangster e delegado corrupto, entre outras - estão relacionadas com dois crimes aparentemente gratuitos e impunes até o amanhecer.

Agostinho Batista de Freitas

MASP 1971, óleo sobre tela 50 x 70 cm, no acervo do Museu.

Pela importância da arquitetura, assim como do acervo do próprio museu e por ser um representante da arte dita popular.

Painel histórico em azulejo, no bairro da Mooca. Tradição decorativa em edifícios e residências de época. Selecionado pela paisagem e ícone local.

Flávio de Carvalho

Uma das primeiras performances documentadas, a importância do artista atravessa as artes plásticas, com obras de design e ativismo cultural. Ícone.

Tarsila do Amaral.

São Paulo, 1924.

Óleo sobre tela. Acervo Pinacoteca do Estado de SP. Nome importante na cena local e internacional, foi uma das principais artistas da Semana de Arte Moderna de 1922. Seus traços, volumes e cores já eram pops antes mesmo de existir qualquer pensamento a respeito do termo.

Sergio Niculitcheff

S/T, acrílica sobre tela

Exímio pintor e desenhista, Niculitcheff pertence a geração 1980 da pintura local. Suas obras recortam o assunto em fundos indefinidos e manchados, retratando, qualquer que seja o tema, com perfeição pictórica em grandes e pequenos formatos.

Carla Caffé

Coreto do Parque da Luz, 1992. Desenho doado pela artista para a Pinacoteca do Estado de SP. Primeiro parque público da cidade, emblemático.

Evandro Carlos Jardim

A Tarde e a Sombra, 1976. Água-forte e água-tinta. Acervo Pinacoteca do Estado de SP.Mestre incondicional dos gravadores contemporâneos, Jardim produziu e ensinou para muitos que ainda hoje estão na ativa. Suas imagens do Pico do Jaraguá são referências para aqueles que apreciam e frequentam o universo da gravura.

Francisco Maringelli

Amar a Amata São Paulo, 2008/2015 , Xilogravura 200 x 160 cm

Excelente gravador, Maringelli tem extensa obra gráfica publicada e inserida em importantes coleções internacionais. Com um olhar característico para o urbano, seu traço tras referências do expressionismo alemão, dentro da temática contemporânea brasileira.

Filipe Jardim

Ilustrador carioca com currículo internacional, Filipe costuma desenhar os cenários pelos quais se encanta, apenas por observação . Da série de SP, destaco a arquitetura observada por ele, especialmente o Edifício Bretagne, ícone do bairro de Higienópolis, projetado pelo arquiteto Artacho Jurado.

Eduardo Srur

Jovem artista paulistano, reconhecido por suas intervenções urbanas de forte impacto, preocupado com o cuidado e preservação ecológica, Srur já apareceu com bóias salva-vidas, pets gigantes às margens do Rio Tietê e, mais recentemente, com bonecos em tamanhos naturais em trampolins suicidas por aí.

Luiz Ruffato

Eles eram muitos cavalos

Oswald de Andrade

Dia seguinte & outros dias

Roberto Piva

Paranoia

Lygia Fagundes Telles

Seminário dos Ratos

Paulo Emílio Salles Gomes

Três mulheres de três pppês

Oswald de Andrade

Um homem sem profissão

Vincent Katz

Partidas rápidas

Claude Lévi-Strauss

Saudades de São Paulo

João Antônio

Malagueta, perus e bacanaço

Ignácio de Loyola Brandão

Zero

A Nova Geração

Wagner de Almeida Caetano

Wagner Caetano, 26, ou W.G., como é conhecido pelo Centro da cidade, é vocalista e fundador do grupo Vertical Jungle, uma banda formada por artistas de rua. Com músicas como “São Paulo, Selva de Pedra”, “Cidade Seca” e “Mundo Novo”, eles fazem um som jovem e urbano que mistura rock, rap e groove.
A banda é multicultural, com integrantes daqui, da Amazônia e do Ceará. As letras, entretanto, passam sempre uma preocupação latente: a vida nas cidades, a desigualdade social e a relação das pessoas nos centros urbanos. Criado nas ruas do Centro, Wagner é vidrado no desenvolvimento urbano de São Paulo e no contato humano que uma cidade com essa estrutura permite – ou bloqueia.
Por isso, seu primeiro clipe, produzido por dois irmãos holandeses, os Des Gravensande, é todo filmado em lugares icônicos como o Minhocão e a Avenida Paulista. Não poderia ser mais ilustrativo: a música, Selva de Pedra, fala das dificuldades e belezas de se morar na maior cidade da América Latina.
No depoimento que deu para a Bravo, W.G. ressalta a importância da arte de rua e comenta como a atividade já virou banal em grandes cidades do mundo, comuns à vida urbana, mas que ainda é algo criminalizado em São Paulo: “A gente tem que liberar a arte nas ruas. Muitos artistas vivem disso, não estamos vendendo produto pirata, nem estragado. Vamos seguir o exemplo de outros metrôs, de outros países? A galera só está se divertindo e querendo sustentar a família!”, mandou o recado.

Rolê – Pedro Junqueira, 17

Pedro Junqueira

Pedro Junqueira, 17 anos, também usufrui da cidade, especialmente de seus muros. Grafiteiro, ele gosta de sair para fotografar e pintar lugares abandonados. Entende que a arte urbana está sendo cada mais discriminalizada, mas mesmo assim continua sofrendo com o policiamento e o preconceito da sociedade. “Acho que a cidade está sim mais receptiva pra esse tipo de arte, mas eu não quero ser hipócrita também. Eu sou um menino branco, privilegiado. Já fui enquadrado algumas vezes, mas o tratamento que recebo é bem diferente do tratamento que os garotos da periferia recebem”, explica.
Se o grafitti está sendo mais aceito, não é por causa da gestão Haddad, afirma. Para Pedro, a Prefeitura está incentivando a ocupação de espaços públicos, a programação cultural gratuita e o lazer em praças e parques na cidade. Mas as políticas públicas não têm caminhado para a área em que atua.
Mesmo assim, ele não fica resignado. Em parte porque vê, na sua geração, um belo exemplo de resistência e luta política. Citou o movimento feminista e sua representatividade jovem, inegável aos olhos de quem frequenta manifestações dessa causa. E, claro, o movimento secundarista, que o deixou muito bem impressionado: “Acho que eles estão conseguindo gerar mudanças de uma forma muito interessante e democrática”, conclui.

Maria do Carmo, Tchuca, 15

Maria do Carmo – Tchuca

Maria do Carmo, 15, tem uma rotina como a de muitos estudantes: de manhã frequenta suas aulas de espanhol, à tarde vai a escola e, de noite, faz dança. Tudo no Tremembé, bairro de periferia da Zona Norte de São Paulo, onde mora. Até o ano passado, Tchuca, como é conhecida entre família e amigos, dançava na Fábrica de Cultura, espaços do governo destinados à formação cultural e atividades artísticas na periferia. Recentemente a Poiesis, organização social que gerencia as Fábricas, aplicou cortes de verba em várias de suas unidades, o que foi muito prejudicial para a programação e manutenção desses espaços.
Por essas e outras, Maria começou a frequentar uma escola de dança chamada Obra Social, também pública e próxima de sua casa. Lá ela faz ballet, jazz, e danças de rua. À noite, quando sai, vai a casas noturnas para dançar hip hop, como na Delluri, também na Zona Norte de São Paulo.
Aos fins de semana, gosta de ir ao Centro da cidade para ver de perto os b-boy’s (como são chamados os dançarinos de break) que admira e quem sabe aprender seus passos. “Eu acho que a gente precisa de mais espaços públicos como esses, em que as pessoas dançam na rua. Ultimamente as pessoas não ligam para as danças urbanas, mas é uma parte importante da nossa cultura”, explica.

Daniel Gagliardi, 15

Daniel Gagliardi, 15, é estudante da ETEC de São Paulo e um exemplo da nova geração politizada. Ele, que estuda na Avenida Tiradentes e mora na Bela Vista, conta que começou a frequentar Centros Culturais por causa de suas programações audiovisuais e bibliotecas. É um habitué da gibiteca do CCSP, na Vergueiro, onde vai semanalmente.

Crítico e consciente, ele diz que adora São Paulo pelo seu leque de opções culturais e educativas, mas entende que essa oferta é muito maior nas áreas centrais da cidade, onde ele frequenta. “Eu acho que há uma desigualdade geográfica grande em São Paulo. Esse tipo de programação é mais escassa na periferia”.
Sabendo disso, Gagliardi é politicamente ativo e frequenta manifestações que militem pela democratização da cidade. “Eu defendo causas que lutem contra as opressões cotidianas. Essa semana, por exemplo, vou numa manifestação contra a 'Escola Sem Partido', na Praça Roosevelt”.

perder-se

Densidade

o Muro

árvores

Coexistência

largo da batata

Obstáculos

Paradas

Rua Barão de Itapetininga

Calçadas

Centro Vazio

Vale do Anhangabaú

Praça Antonio Prado

Edifício Martinelli

Rua Boa Vista

Páteo do Colégio

Praça da Sé

Reforma da Praça da Sé

Parklets

Rua Sete de Abril

Avenida São Luís

Praça Roosevelt

Parque Augusta

Rua Augusta

Avenida Paulista