Corpo sob Censura
  • Timeline do nu: algo mudou?
  • Exilados do clube social
  • 10 nus na arte por Fernanda Pitta
  • Erotismo ou pornografia?
  • Para toda ação uma reação
  • 10 cenas de filmes por José Geraldo Couto
  • Tenho pensado em Hugh Hefner
  • E do falo nem se fala
  • 10 fotografias por Eder Chiodetto

toda nudez será castigada

por Guilherme Werneck

Em março último, quando esta Bravo! estava em gestação, me juntei ao Estúdio Fluxo. Precisava de um canto para trabalhar, e fui acolhido pelo Bruno Torturra e pela Eliane Brum. Para comemorar o reencontro e essa nova fase da redação, nós três tiramos uma foto, e o Bruno postou no Facebook. Éramos três jornalistas sorridentes ao lado da mesa de trabalho da Eliane. O Fluxo sempre foi uma redação com cara de casa, com livros por todos os cantos e com as paredes forradas de quadros e pôsteres. Minutos depois, o post foi retirado do ar por conta de uma denúncia. Não éramos nós os denunciados, mas ao fundo, pequenina na foto, estava na parede entre tantas outras imagens uma reprodução de um dos quadros mais censurados do Facebook, A Origem do Mundo, de Gustave Courbet.

A pintura realista de Courbet, que hoje se encontra no Museu d’Orsay, em Paris, foi encomendada pelo diplomata turco Khalil-Bey. Colecionador de imagens eróticas, ele pediu ao pintor que retratasse o nu feminino da forma mais crua possível. E a maneira que Courbet encontrou foi fazer com que o olhar se direcionasse para uma linda e cabeluda vagina, a origem do mundo, vista em primeiro plano na pintura do corpo deitado de frente, lânguido, com as pernas sensualmente abertas.

Que essa crueza chocasse o olhar quando foi feita em 1866, é compreensível. Ao longo da história, porém, o quadro de Courbet saiu do campo do erotismo para o campo simbólico, sendo abraçada pela luta feminista pelo protagonismo óbvio da vulva. E em tempos de “manda nude”, de acesso irrestrito a todo tipo de pornografia, quem ainda se choca e se sente ofendido por ver um corpo nu?

Muita gente, levando-se em conta a perseguição a essa e a outras pinturas, esculturas e fotografias banidas nas redes sociais, principalmente nas que têm códigos mais estritos de puritanismo, como Facebook e Instagram. A paranoia censora não atinge apenas quadros com certo grau de erotismo. Em agosto deste ano, a patrulha do gigante das mídias sociais tirou do ar um estudo da mão de Erasmo de Roterdã, feito pelo renascentista Holbein. Foram apenas algumas horas de bloqueio, mas o suficiente para uma chuva de posts de protesto com mãos desenhadas por outros renascentistas, como Dürer e Da Vinci.

"Quem vive as redes
a fundo, o que inclui ir
além do Facebook,
está mais do que
familiarizado com a
frase ‘manda nudes’,
por vezes usada num
contexto de piada
(mas é sério)."

Leia texto de Matheus Pimentel

“Esse tipo de censura é de uma hipocrisia gigantesca”, comenta a artista plástica Christiana Moraes, que explorou o nu em performances, gravuras e desenhos. “O nu é um tema clássico, uma tradição com a qual gosto de dialogar, mas pensar nele como algo que choca, como algo desafiador em si, é bem careta. Tirando alguns recortes inovadores – o corpo obeso, o corpo do travesti – a nudez não diz mais nada. Mesmo na performance, hoje, é mais interessante o que se cobre do que o que se revela”, opina.

A despeito de essa discussão estar aberta, o nu guarda uma importância que não pode ser ignorada quando pensamos nas relações sociais, morais e históricas. O historiador da arte britânico Kenneth Clark defendia que o “nu não é um tema da arte, mas uma forma de arte”. Uma forma que ainda é explorada e revisitada. Neste semestre, duas mostras de peso têm o nu como temática.

A exposição Nude – From Modigliani to Currin, iniciada em setembro último na galeria Gagosian em Nova York, traz trabalhos que vão do modernismo até os dias de hoje. Apresenta obras clássicas como Les Baigneurs, de Paul Cèzanne, Nue Endormie, de Pablo Picasso, Nue Couché aux Bras Levés, de Amadeo Modigliani, passa por obras pop, como Walking Torso, de Andy Warhol, e Room Tarzana, de David Hockney, até chegar a artistas contemporâneos, com obras como Night Portrait, de Lucian Freud, Trace, de Jenny Saville, e Nude with Raised Arms, de John Currin.

Na Austrália, a galeria de arte NSW abre em 5 de novembro em Sydney a mostra Nude Art from the Tate Collection. A exposição trará mais de 100 representações do nu, incluindo pinturas, esculturas, fotografias e gravuras de artistas como Henri Matisse, Louise Bourgeois, Marlene Dumas, Sarah Lucas, Pablo Picasso e Lucien Freud.

Timeline do nu: algo mudou?

por Paula Carvalho

Corpos aparecem na arte como símbolos de divindade, de pecado, da culpabilidade atribuída à mulher, do poder de resistência histórica dos negros, da potência das diversas identidades sexuais e, sobretudo, como uma das formas mais sensíveis de se representar a intimidade, a proximidade, o contato com o outro.

A mítica Mulher de Willendorf, ou Vênus de Willendorf, é o primeiro registro de nu que se tem na história.. Essa estátua do período paleolítico representa uma possível deusa da fertilidade considerando-se a robustez do seu peito, barriga e órgão genital.

Posteriormente, a arte Greco-Romana também retratou o corpo nu ligado à condição sagrada. O nu feminino era bem menos representado do que o masculino, símbolo de virilidade, força para as guerras e vitalidade. Hermes, Príapo, Dionísio e Sátiro foram algumas das figuras cultuadas na arte Greco-Romana.

Nas ruínas de Pompeia, cidade do sul da Itália que sumiu do mapa no ano de 79 após uma erupção do Vesúvio, ainda é possível encontrar na entrada de algumas casas privadas ou de banhos, representações de Príapo, o deus da fertilidade, que era utilizado como uma espécie de símbolo de proteção.

Símbolo de fertilidade e sorte, o falo também era colocado por vezes nas hermas – pilares retangulares em que se punha a cabeça do deus Hermes (mesmo que fosse de base para uma outra escultura, em cima) e, como numa representação de um corpo, o pênis era posto na parte de baixo da herma. Havia a crença de que o esperma era o componente sagrado para transmitir a vida, enquanto os órgãos do corpo feminino eram ignorados como símbolo da reprodução.

Com a disseminação do cristianismo, a arte do nu deixou, aos poucos, a representação de formas humanas como divindades e passou a tratar do corpo como um objeto de vergonha e humilhação, com retratos de castigos e representações sádicas. Surgiram diversas representações de Eva, que se tornou o protótipo da figura feminina – algo que contribuiu bastante para a demonização da mulher. Ela tem aparições sendo a amante do diabo e existem até representações suas em ato sexual com a serpente.

Com o Renascimento houve uma libertação dessa ideia de pecado e deu-se um retorno às formas Greco-Romanas, mas sem o culto aos deuses. O propósito foi redescobrir a forma humana em sua naturalidade, ressaltando a beleza e perfeição do corpo num sentido hedonista e também ligado a estudos da anatomia. Leonardo Da Vinci, por exemplo, era conhecido por esses trabalhos, e foi um dos primeiros a detalhar anatomicamente os aparelhos reprodutores masculino e feminino.

No livro Ways of Seeing, o estudioso de arte John Berger apontou um fator essencial para entender a representação do corpo na arte: “Falando de gênero na arte nua ocidental, a maioria dos artistas e espectadores (proprietários de obras) foram homens, enquanto as mulheres eram tratadas como objeto. Essa relação foi levada ao extremo na cultura ocidental, já que a maior parte da consciência feminina consiste em seu caráter objetual”.

Por isso, diz Berger, lembrando também o historiador da arte Lord Clark, a maior parte das representações do corpo de mulheres na arte europeia as mostra como conscientes de estarem sendo vistas por um observador (seja ele o próprio pintor, o mecenas ou o público, todos em grande parte homens).

Ele também lembra que o uso de espelhos próximos a mulheres nuas (como as Vênus ao Espelho de Velázquez e de Ticiano) podem ser vistos como uma forma de culpabilizar ou dotar as mulheres de um aspecto vão, ao aparecerem como fúteis ou vaidosas, escondendo que, na verdade, a responsabilidade pela encomenda, produção e posterior fruição daquelas obras era feita por homens.

Goya (com A Maja Nua), Degas (com pinturas sobre os bordéis), Toulouse-Lautrec (com retratos de lésbicas), Courbet (com os clássicos Sleep e A Origem do Mundo) e Manet (Olympia e Le Déjeuner sur l’herbe) são alguns dos artistas do século 19 que mostraram corpos nus, a maioria de mulheres, de maneira mais marcante. Seguindo exemplos da literatura de Zola e Flaubert, os realistas franceses revelaram a vida das prostitutas e dos bordéis daquele período, com muitas representações de amor lésbico.

Novas representações

No século 20, com as vanguardas européias, toda a representação artística passou a ser repensada, e com o nu não foi diferente. No Cubismo, em obras de Picasso como Banhistas (1937), As Senhoritas de Avignon (1907) ou Drawing (1927), apresentava-se a proposta cubista também em relação ao corpo. Como afirma Giulio Carlo Argan no livro Arte Moderna, o cubismo propunha “várias visões simultâneas do mesmo objeto, segundo diferentes pontos de vista”. Assim, o corpo era fragmentado, apresentado com ênfase em suas formas mais redondas, ou mais retangulares, mas deixava de ser uma representação pictórica tradicional.

No Surrealismo, com a obsessão em deixar de lado o objetivismo da realidade, os corpos são recriados no formato de um rosto (como em The Rape, de 1934, de Magritte) ou com a mulher no lugar do pênis ereto (The Ocean, também de Magritte, de 1943). Note-se, como em The Rape (em português, O Estupro) e também em obras de Dalí (Young Virgin Autosodomized by her own chastity, de 1954) e Max Ernst (The Robing of the Bride, de 1939), que a proclamada liberação do inconsciente para a criação artística criou uma linhagem de obras que chocaram o público por tratar abertamente de tabus e representações violentas, especialmente em relação às mulheres.

Até entre dadaístas, como Duchamp, o corpo nu foi retratado – e também de forma bastante inovadora. O quadro Nu Descendo uma Escada nº 2, de 1912, foi rejeitado por cubistas e futuristas e acabou contribuindo para o artista aprofundar a sua crítica à condição mercadológica da arte – que só foi percebido como uma escola de vanguarda posteriormente, com Fonte, a famosa privada de Duchamp de 1917.

No fim dos anos 1960, com as lutas que marcaram o que alguns intelectuais chamam de “pós-modernidade”, modernidade tardia, ou pós-modernismo, novos projetos ganharam força: as artistas feministas, a body art, performances artísticas com o uso do corpo, além de novas ênfases em trabalhos que tratam da questão homoerótica, do racismo, das deficiências corporais, entre outros.

O jeito como o corpo é visto foi drasticamente alterado pelo surgimento da fotografia, é claro – a ponto de apreciadores de arte, como Bernardo Paz, do Inhotim, dizerem que não vêem graça na arte moderna pós-fotografia. A pintura figurativa, no entanto, continuou a ter uma certa importância, em trabalhos como o de Sylvia Sleigh, The Turkish Bath – referência ao quadro de Igres, Le Bain turc, a partir de uma visão feminista, que reuniu um grupo de homens nus.

Após os anos 1970 e 1980, a arte feminista passou a questionar bastante os modelos de representação de corpos de mulheres. Outra perspectiva importante é a de Judy Chicago, uma das principais artistas feministas dos Estados Unidos, que fazia representações de corpos não como um objeto de fantasias e erotismos, mas com um propósito político (vide The Birth Project).

O nu masculino, a partir dos anos 1970, passou a ocupar um lugar mais próximo da arte homoerótica – também acompanhando as lutas contraculturais dos anos 1960, e aproximando corpos masculinos de lutas por representatividade como as de negros, portadores de deficiências físicas, etc.

Trabalhos de fotógrafos como Robert Mapplethorpe, Jeff Koons e George Dureau enveredaram por esse caminho. Na arte figurativa, Delmas Howe, de New Mexico, nos Estados Unidos, e David Wojnarowicz também retrataram corpos masculinos de forma homoerótica em temas como a cultura machista dos rodeios de búfalos e dos veteranos da Guerra do Vietnã.

Com a fotografia, as performances artísticas e as redes sociais, a representação dos corpos tem mudado bastante na arte contemporânea. O nu na arte, diferentemente do que é ditado pelos algoritimos pudicos dos conglomerados da internet, já não é tabu há muito tempo. Pelo contrário: artistas inclusive deixaram de retratar o nu para viver o nu publicamente, em performances como as selfies nuas de Milo Moiré (2015), a representação da mortalidade em Incorruptible Flesh, de Ron Athey (2006) ou a anárquica orgia do grupo de artistas de rua russos Voina num museu de biologia (2008).

A mensagem parece ter sido captada já nos anos 1970, na performance Imponderabilia, de Marina Abramovic e Ulay: ao entrar no museu de Bolonha, na Itália, os visitantes tinham que passar por um corredor em que estavam Marina e Ulay nus, encostados nas paredes, formando uma espécie de mini corredor polonês. O espaço era tão estreito que era preciso passar de lado, e, consequentemente, encarar um dos dois artistas, além de encostar neles. Mais do que um “manda nudes”, foi uma forma de dizer, em 1977: veja nudes, esbarre nos nudes, lide com os nudes.

Texto com apoio dos livros e trabalhos:

Sexuality in Westen Art - Edward Lucie-Smith

Arte moderna - Giulio Carlo Argan

Michiko Totoki - Estética erótica: lenguaje y significados hasta el arte actual

John Berger - Ways of Seing (BBC, 1972) https://www.youtube.com/watch?v=0pDE4VX_9Kk

Continuar lendo texto de Paula Carvalho

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Vênus de Willendorf, o
primeiro registro de nu
que se tem na história

exilados do clube social

Quando olhamos para as novas formas de comunicação nas redes sociais, a discussão sobre o nu está mais viva do que nunca. São incontáveis os casos de artistas e críticos que tiveram suas contas suspensas ou banidas nos últimos anos. Um dos episódios mais notáveis aconteceu ano passado com o crítico norte-americano Jerry Saltz, da New York Magazine.

Saltz vê as mídias sociais como um espaço onde é possível criar seu secto – seriam a atualização de espaços como o Cedar Tavern e o Max’s Kansas City, em Nova York. E Saltz gostava de incomodar seus seguidores, usando deliberadamente esse espaço de forma provocadora. “Foi uma coisa cumulativa”, disse ao New York Times, “os posts foram chamados de sexistas, misóginos e abusivos. Eu fui chamado de misógino sexista e abusivo”. Para Salz, essa dinâmica da rede está afinada a tempos mais obscurantistas e moralistas. “Muita gente está colocando energia em policiar a energia dos outros, e penso que isso é meio pervertido – forçar a sua moral aos outros”, diz.

O crítico de arte Agnaldo Farias vê esse fenômeno da censura ao nu nas redes dentro de um contexto maior. “Estamos vivendo um momento obscuro sobre vários aspectos”. Em relação à censura ao nu, é enfático: “É ridícula, fora de esquadro. O corpo sempre se afigurou como fonte de pesquisa, de assunto, desde a representação do nu na arte até a dramaturgia, a performance, no qual ele é protagonista de modo real, no qual ele se revela. É um assunto inesgotável. John Coplans, que foi editor da Art Forum, tinha um trabalho exclusivamente sobre o seu corpo. Não era um corpo bonito, mas ao desvelá-lo, nos fazia pensar sobre ele.

A função da representação do corpo na arte é diminuir a vergonha, o pudor, discutir a moral. A arte busca uma relação natural com o corpo – mais saudável, que ele seja amado, respeitado. Claro que hoje temos também a indústria do corpo, o corpo ultrassarado da propaganda, mas a verdade é que ele nunca deixou de estar na ordem do dia. Tentar escondê-lo equivale àquela medida de um ex-presidente da OAB-SP [Luiz Flávio Borges D’Urso], que quis proibir um retrato do Gil Vicente matando líderes políticos porque incitava a violência”, argumenta.














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Banner de 5x3 metros no espaço Kampnagel,
em Hamburgo, feito por Daniel Lie e Os
Maquaquinhos, que rendeu bloqueios
quando postado no Facebook
 

10 nus na arte por Fernanda Pitta

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Esse tipo de censura e moralismo não é privilégio apenas da relação com as artes. A jornalista Elizabeth Lorenzotti, autora de O Jornalismo no Século XXI: O Modelo #Midianinja, acompanha o tema da censura há alguns anos. Em relação ao Facebook, que tem uma penetração em um terço da população brasileira e já atinge 1 bilhão de pessoas no mundo, ela dá um registro preciso da escalada da vigilância e da punição nos últimos anos.

“A censura intensificou-se na Europa a partir dos movimentos Occupy e, no Brasil, a partir de 2012. Em 2013, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, internautas em geral, por sofrerem muita censura, promoveram, num total de 2 mil pessoas, o Dia da Livre Expressão do Nu contra a censura no Facebook. O protesto consistiu na postagem de nus na rede escancarando o preconceito em relação ao nu artístico, de protesto ou cultural – como o das tribos indígenas.

O movimento foi puxado pela censura sofrida pelos poetas Claudio Willer e Floriano Martins, que haviam postado a foto da cantora negra norte-americana Nina Simone nua. O protesto resultou em inúmeras suspensões de internautas. Verificava-se a censura a imagens em maior número, mas começamos a notar que também nossos textos eram censurados, e geralmente textos políticos. Isso acontecia em vários outros países. As normas do Facebook continuaram e continuam, e igualmente as punições”, explica.

Em maio e junho deste ano, o artista Daniel Lie participou do Projeto Brasil, uma mostra que integrava artes visuais, artes cênicas, música, performance e dança, e acontecia em cinco cidades alemãs. O festival começou na época do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Daniel e Os Macaquinhos fizeram um banner de 5x3 metros, que ficava na via pública, no espaço Kampnagel, em Hamburgo, com uma pergunta inglês: “você sabe que há um golpe no Brasil?”.

"Será que a Santa
Inquisição foi
substituída pela
Cyber Inquisição?"

Leia texto de Elizabeth Lorenzotti


Seria mais uma manifestação como a da equipe do filme Aquarius em Cannes, não fosse por um detalhe: parte do texto estava escrito sobre seis bundas, dispostas numa posição explícita o suficiente para que uma pessoa que conheça o português encontre sem dificuldades uma palavra semelhante a “coup” foneticamente. Quando foi postar a imagem e uma reportagem de um jornal alemão que a continha, ambas foram removidas, e Daniel suspenso por sete dias.

Mais de um mês depois, Daniel postou um manifesto anarquista Black Bloc. Foi bloqueado novamente e precisou apresentar documento de identidade para poder voltar à rede. Segundo o artista, o Facebook alegou que a nova suspensão tinha a ver com as imagens que já haviam sido excluídas um mês antes, e pela qual ele já havia sido suspenso, e que não as havia postado novamente. “De qualquer maneira, a vigilância é superforte. Me sinto no livro 1984, só que agora as pessoas se autovigiam. As máquinas que usamos estão sempre conectadas, cada vez tem mais e mais textos falando da captação de dados sem autorização. Pode ser que agora as câmeras do meu computador estejam me filmando sem que eu saiba. Mas fora essas teorias, meu celular sabe sempre onde estou, mesmo quando estou na rua, sem 3G, ele me localiza pelo GPS.”

Erotismo ou pornografia?

por Helena Bagnoli

O corpo humano e a sexualidade sempre foram altamente representados, seja por histórias, palavras ou imagens e isso desde a pré-história. O que não falta são exemplos. A partir do século 18 essas representações começaram a ser categorizadas entre erótico e pornográfico. Estava estabelecida a censura.

Ligações Perigosas, de Pierre de Laclos, publicado em 1782, narra com riqueza de detalhes as aventuras de dois nobres amantes. Coubert em 1866 pintou a Origem do Mundo, uma pintura realista da vagina, Madame Bovary, de Gustave Flaubert causou e muito, rendendo ao seu autor um julgamento público. A fotografia de nu até o século 20 era considerada pornografia e ficava circunscrita a círculos clandestinos e por aí vai. Trabalhos sobre o corpo renderam muita conversa e chocaram os puritanos do séculos 18 e 19, mas sobreviveram e entraram para a história como obras de arte fundamentais.

Existem muitas definições para pornografia, as mais populares relacionam-na com a representaçaão explícita da sexualidade ou com o sexo ligado a interesses mercantis. Mas nem sempre foi assim. As gravuras eróticas japonesas com alguns séculos de idade retratam explicitamente genitálias e relações sexuais e foram guardadas a sete chaves por vários museus espalhados pelo mundo por serem obras de arte.

A pornografia ganhou o status de crueza absoluta a partir da década de 1970, com os filmes de sexo de baixo orçamento que criaram uma indústria altamente rentável, que ligava seus atores à prostituição, já que esses se prestavam a transar e expor seus corpos sob todos os ângulos, mediante pagamento. Do lado do consumidor o que estava em jogo também era o pagamento para obtenção do prazer fosse ele da ordem que fosse. E, sob o ponto de vista artístico, esses filmes não tinham uma criação elaborada, não tinham nada além da pele. Umberto Eco disse uma vez em uma entrevista que a diferença entre um filme erótico e um filme pornográfico era que em filmes pornográficos tudo era explícito, não apenas o sexo.

A partir daí a pornografia virou uma espécie de estética do tédio com a possibilidade da compra e venda. E, diga-se de passagem, não só por produtores e artistas do time B.

A escritora Anais Nin, precisando de dinheiro, resolveu escrever pornografia e declarou que esta atividade tornou-se para ela um caminho para a santidade e não para a luxúria. “ O sexo perde seu poder quando se torna explícito, mecanicista, quando se torna uma obsessão”.

Hilda Hilst flertou bastante com o abjeto. Depois de ter escrito nos anos 80, “ A Obscena Senhora D”, que não era exatamente obsceno, na década seguinte ela resolveu ir fundo no segmento e abraçar a literatura pornográfica para ver se conseguia vender mais e ganhar algum dinheiro. Lançou cadernos de poesia , contos, e mesmo o festejado “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, que não chegaram a arranhar sua imagem por completo e nem puderam ser classificadas como obras menores ou pornográficas tal a qualidade da escrita . Só o dinheiro que não veio.

Ao gosto do freguês

Definir o que é erótico e, portanto, artístico, e o que é pornográfico pode acabar sendo um exercício de retórica. Ainda que os limites pareçam óbvios, a definição fica muito ao gosto do freguês. Ou seja, o que é erótico para um pode ser – e quase sempre é - pornográfico para outro.

Pela etimologia os conceitos parecem adquirir clareza. Erotismo deriva do deus grego do amor, Eros ( o Cupido na mitologia romana) e, portanto, relaciona tudo o que é sexual ao amor, ao divino, há aqui uma certa transcendência, um mistério. A pornografia, que também vem do grego, está ligada à prostituição, portanto, à venda do prazer, às relações humanas baseadas no comércio dos corpos, deixando pouca margem para a imaginação, para o sublime.

O erotismo ganhou a corrida quando se fala em arte porque aqui o corpo humano passou a ter um compromisso estético, um simbolismo erótico multidimensional . A ideia é o encantamento, baseado na visão de equilíbrio e na percepção da harmonia.

Para a pornografia restou um conteúdo simbólico mínino e unidemensional, restou a demonização da sexualidade. A questão é que, imoral ou vulgar, não dá para esvaziar o erótico que também frequenta essas paragens e nem negar que esse caminho pode resultar num exercício artístico grandioso.

No catolicismo, por exemplo, os textos místicos de Sao João da Cruz têm uma linguagem erótica tão forte que é quase pornográfica. Na Grécia Clássica, deuses e deusas tinham a volúpia solta e incensada, os enredos eram tão lascivos que sugeriam uma sorte de prostituição sagrada. Sem esquecer do Kama Sutra.

Obviamente nem toda pornografia é arte, assim como nem toda obra erótica é arte, mas existe sim arte pornográfica, gostemos ou não.

Proibir a pornografia, portanto, deveria ser impensável, primeiro porque proibir nunca foi a resposta, muito antes, é sempre uma maneira de promover a difusão. Isso não torna o mundo um lugar mais seguro.

Agora, proibir no século 21 a expressão de qualquer forma de representação do corpo nas redes sociais é absolutamente obsceno, principalmente porque esse controle é feito por algoritimos moralistas e censores mal pagos, que não levam em conta matizes, subjetividade e a arte em suas múltiplas manifestações.

Como e por quê as redes sociais se dão ao direito de censurar a exibição de seios de mães amamentando, índios tomando banho nos rios, bebês pelados e obras de arte de mais de três séculos sem critérios claros?

A lista de artistas de todas as áreas que tiveram suas obras censuradas e suas contas bloqueadas pelo Facebook e Instagram é infindável, o que é uma afronta à liberdade de expressão e à arte e é uma prática muito mais obscurantista que a censura puritana do século 19.

Continuar lendo texto de Helena Bagnoli

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para toda ação uma reação

Incomodados pela censura no Facebook, a historiadora da arte Kathy Schnapper, junto com os artistas Stephen Pusey e Grace Graupe-Pillard, lançaram uma contraofensiva. Em 14 de janeiro deste ano eles instituíram o “Dia da Nudez no Facebook”, em que conclamavam as pessoas a postar obras de arte que trouxessem o corpo nu, em protesto contra a contínua censura a artistas, críticos e curadores que haviam sido penalizados por postar obras com nudez. Usuários da rede, em sua maioria artistas, passaram o dia postando imagens como a pintura de Egon Schiele se masturbando, fotos fálicas de Robert Mapplethorpe, gravuras eróticas japonesas, e, claro, A Origem do Mundo. Desnecessário dizer que hoje a página está fora do ar e que boa parte dos posts foi retirada pela rede social no mesmo dia.

No campo político, o movimento Free the Nipple (libere os mamilos), que nasceu como uma luta a favor do topless em alguns estados norte-americanos, ganhou impulso extra ao confrontar redes como o Instagram, que, em seus termos de uso, proíbe todo o “conteúdo gráfico” que mostre as aréolas femininas, deixando as masculinas livres. Usando serviços como Twitter, Facebook e Instagram, o movimento tenta mudar a política de dentro, usando a capacidade das redes de espalhar a mensagem exponencialmente, enquanto lutam contra a censura.

Mas quando voltamos para a realidade brasileira, Elizabeth Lorenzotti argumenta que ainda temos uma questão extra, o fato de essas redes seguirem a moral da sociedade onde nasceram. “No caso, a dos Estados Unidos, anglo-saxônica, protestante. Os ‘padrões de conduta’ do Facebook não têm nada a ver com as leis do nosso país. Mas como uma corporação que lucra dentro do nosso país – com conteúdo fornecido por nós, nossos dados utilizados para fins de comércio etc. – se atreve a censurar os brasileiros?”, indaga.

O Facebook emitiu um comunicado sobre a retirada do ar de conteúdo postado por usuários, do qual destacamos dois trechos. O primeiro esclarece como se dá a verificação das denúncias: “Não removemos conteúdos com base no número de denúncias recebidas: temos uma infraestrutura robusta de denúncia que inclui links para reportar páginas que estão no Facebook e também um time de revisores altamente treinado para avaliar esses casos. Quando um conteúdo é denunciado, ele só é removido se violar nossos Termos de Uso. É importante esclarecer que não retiramos conteúdos com base no número de pessoas que reportaram algo.”







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"Alluring Hell" (2014),
obra de Araki Nobuyoshi




 

10 cenas de filmes por José Geraldo Couto

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"Great American Nude"
(1967), de Tom Wesselmann




O segundo fala de seus sistemas automatizados: “Em quase todos os casos, revisamos manualmente todas as denúncias e não temos sistemas automatizados que removem discursos políticos: para proteger milhões de pessoas que se conectam e compartilham informações diariamente no Facebook, a esmagadora maioria do conteúdo é revisada manualmente. Utilizamos sistemas automatizados apenas para um número muito limitado de casos, como, por exemplo, spam. Nestas situações, a automação é usada com mais frequência para que possamos priorizar os casos que precisam de revisão manual, mas isto não substitui a revisão manual.”

“Fico imaginando os milhares de censores, lendo centenas de milhares de posts no mundo todo, em alta rotatividade”, diz Elizabeth. “Seus vigilantes ‘revisores altamente treinados’ costumam avaliar com base em que padrões? Porque estes que o Facebook alega – incitação à violência, pornografia e qualquer tipo de assédio – são para boi dormir. Nus artísticos não são pornografia”, completa.

Em 2012, o blog Gawker conseguiu entrevistar um membro desse “exército de censores”. Armine Dakaoui, então com 21 anos, disse que recebia cerca de US$ 1 por hora para fazer a triagem dos posts. Entre os vetos que constavam da cartilha do Facebook a seus censores estavam: imagem clara de órgãos sexuais, mesmo que sob roupas; brinquedos sexuais ou outros objetos, mas apenas no contexto da atividade sexual e representação de fetiches sexuais de qualquer forma. A Bravo! procurou o Facebook para tratar da questão do nu artístico, mas até o fechamento desta edição não tivemos resposta.

Tenho pensado em Hugh Hefner

por Pedro Doria

Não o velho meio decadente e um tanto kitsch que circula por sua mansão vestindo robe de seda vinho enquanto toma viagra para as longas noites com aquelas moças voluptuosas e louras, fabricadas para serem todas iguais.

O Hugh Hefner no qual penso é outro. Ele tem 27 anos recém-completos. Sua primeira filha não completou dois anos de idade. E o casamento não vai bem. Sua mulher teve um amante. E Hugh, que trabalha como redator júnior para a revista Esquire, sonha com uma vida de solteiro. Uma vida em que possa ouvir jazz, beber martinis, conhecer moças diferentes e, sim, transar com elas. Mas ele não sonha com prostitutas. As mulheres de suas fantasias são normais e, portanto, impossíveis. A secretária do escritório vizinho ao seu, a moça da mesa ao lado na hora do almoço.

Faz tanto tempo que saiu aquela primeira edição da revista Playboy, em dezembro de 1953, que é difícil imaginar o mundo do jovem Hugh Hefner e seu sonho de mulheres comuns nuas. Uns sessenta anos depois, a revista que criou está em busca de sentido. Ainda haverá mistério na nudez, seus editores se perguntam em versões que circulam em tantas línguas.

“Você ter um Facebook, um Instagram, dizendo o que eles consideram conteúdo sexual é muito perigoso”, diz Ana Paula Nogueira do outro lado do Skype. Ana foi jornalista de finanças, hoje trabalha captando recursos para cinema. Uma morena simpática com aquele corpo bonito de quem curte se cuidar. Ela posa nua. Publica as fotos nas redes sociais. Todo dia. E a toda hora um ou outro de seus tantos perfis termina bloqueado. É por isso que ela tem muitos: para persistir. “Eu tento vencer pelo cansaço”, conta. Sua esperança é de que tantos vão vê-la nua, e com tanta frequência, que vai bater uma hora em que ninguém ligará mais. Sua outra esperança é de que as próprias redes vão parar de censurar mamilos. Até lá, com seu poder de alcançar tantos bilhões, a política do Facebook para nudez dá a ela uma aura de proibido.

Sim, ainda há mistério na nudez.

As primeiras edições da Playboy, ao longo dos anos 1950, tinham um quê de improviso. As modelos não eram profissionais ou mesmo perfeitas. Eram realmente a secretária ou a moça da mesa ao lado. As mulheres que mexiam com a imaginação do jovem Hugh. Não eram diferentes só porque o padrão de beleza mudou ao longo das décadas, mas também porque muitas eram amadoras. E ousadas. Posar nua para a revista era como um jorro de adrenalina, um desafio, uma exposição.

A Segunda Guerra Mundial trouxe as mulheres para o mercado de trabalho e, depois, elas não quiseram sair. A pílula e o antibiótico, num mundo sem Aids, lhes deram autonomia de fazer sexo sem medo. A Revolução Sexual, de certa forma, foi inevitável.

Olivia Nachle chega para a conversa em sua bicicleta, de short e camiseta com aquele jeito de quem parece viver na praia. Tem um sorriso fácil e uma animação que não parece ceder. Típica garota de Ipanema até o momento em que fala. Aí entrega que é migrante no Rio de Janeiro, uma quase carioca de sotaque paulistano. Nos conhecemos da internet faz tempo. Olivia estudou ciência política e jornalismo, mas se descobriu fotógrafa. Uma fotógrafa de mulheres nuas. Uma vez, registrou uma moça que conheço. É uma surpresa encontrar na rede, assim de forma inesperada, alguém que você conhece. Uma surpresa que causa fascínio tanto quanto o deixa sem jeito.

“Cada ensaio desses é uma religiãozinha”, ela diz. Busca palavras. “Eu foco nela.” Antes de fotografar, conversa. “O que me importa é o que motivou aquela mulher a fazer o ensaio.” E o que faz uma mulher comum desejar posar nua e levar o registro à rede? “Ficar pelada tira as camadas que você colocou através do seu olhar”, diz Olivia, que hesita. A explicação que tem é sentida mais do que estruturada em frases e argumentos. Aí se torna assertiva: “nas fotos, você se vê com o olhar do outro.” A fotógrafa faz uma pausa. “Elas se fortalecem umas às outras, sabe?” Olivia sorri. “As fotos naturalizam a nudez.”

O jovem Hugh me vem à mente. Este era seu sonho. Naturalizar a nudez. Um sonho que, em algum momento entre meados dos anos 1960 e princípios dos 80, ganhou maquiagem excessiva, tratamento de imagem, tornou a mulher nua inatingível e, por fim, artificial.

Mas o problema é o mesmo.

“A gente devia pensar um pouco sobre essa nudez”, elabora Ana Paula. “Essas regras sobre o que é proibido não são questionadas. Para as meninas que tiram fotos, é uma libertação.”

Ela não pensa apenas em si. Há uma onda em curso. No Rio, o fotógrafo Jorge Bispo retrata mulheres comuns em sua casa e publica na internet. Aí retrata atrizes globais e faz revistas elaboradas e elegantes, de tiragem limitada, que vende a preço de arte. Famosas e anônimas posam de graça num exercício que mistura vaidade e libertação. Em São Paulo, a fotógrafa Allê Manzano está em busca de erotismo e intimidade, de algo que seja posado mas, ao mesmo tempo, caseiro. Junto a Olivia, o fotógrafo Pedrinho Fonseca construiu o site A Olho Nu para que as imagens se misturassem com texto, para que as fotos tivessem uma história, um significado, por que cada uma delas se despe, se mostra, se assume perante o mundo.

E a palavra naturalização se repete. Porque se, de certa forma, era a mesma intenção de Hugh Hefner, há uma inevitável diferença. O olhar pode até ser masculino, mas a intenção inicial é feminina. Há um movimento de mulheres que escolheu se despir. “É uma forma de masturbação”, diz Ana Paula. “A gente quer fazer o que quiser com o próprio corpo”, segue Olivia.

Não é que a nudez cause espanto. Há tanta pela internet. O que causa espanto é a nudez não industrial. A de uma escolha pessoal. O Facebook encerrou a página profissional que Olivia criou. Ali, perdeu contatos, comentários, diálogos que lhe valiam tanto. A estrutura que se firmou como o principal local de conversas da internet mundial decidiu que, ao mesmo ali, esta conversa, a que mostra corpos, é proibida. Como se dissesse: não é natural.

Pois há uma nova revolução sexual em curso.

Continuar lendo texto de Pedro Doria

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Interferência da artista
Hattie Stewert sobre capa
da revista Playboy americana.

e do falo nem se fala




Se a briga por mamilos, polêmicos ou não, já é grande, tudo fica pior quando o alvo é o órgão sexual masculino. O artista Diego Navarro, ou Hovsky, usa as redes como parte de seu trabalho, que inclui sempre a ilustração do genital de uma pessoa junto com um depoimento sobre a relação que ela tem com o corpo e que o corpo tem com o mundo, além de narrar casos de violência sexual, bullying. Texto não vive sem a ilustração, nem a ilustração sem as palavras que dão o contexto da narrativa. “Minha principal rede era o Instagram. Fui excluído no dia em que completei 7 mil seguidores”, conta. “Após a exclusão do Instagram, precisei focar a divulgação no Facebook. Mas quando retornei as regras tinham mudado, e todas as denúncias que recebi desde então foram acatadas, causando a exclusão da ilustração e bloqueios temporários. Primeiro 8 dias, depois 30, depois 60. Hoje tenho duas contas. Não deixo de postar a minha arte porque todo tipo de reação do público serve como ativação ou experiência estética do que faço. Posso me sentir mal no começo, mas pouco tempo depois me sinto OK com as denúncias”, completa.

Artistas cujo trabalho se pauta no nu acabam tendo de se adaptar às redes para dar vazão a suas obras. Se Facebook e Instagram têm políticas mais draconianas e controles mais rígidos, redes como Pinterest, Ello e Twitter são um pouco mais liberais ao praticar o controle sobre o conteúdo postado nelas. No Ello, por exemplo, conteúdo sensível é marcado com a sigla NSFW (Not Safe for Work, Não é seguro para o trabalho, em inglês) e só é aberto se o usuário quiser vê-la. Já no Twitter, fotos sensuais e explícitas vêm fechadas, e o usuário pode escolher mantê-las dessa forma ou recebê-las abertas. Por fim, temos o Tumblr, onde vale tudo, menos, obviamente, imagens que configuram crime, como pornografia infantil.

O artista André Martins trabalha com nu e sexualidade desde 2010 e já se valeu de várias plataformas para expor sua produção: publicação impressa, exposição, apresentações performáticas e teatrais. “Mas sempre insisti em criar também uma rede de diálogos sobre o tema nas redes sociais. Achamos que esses espaços são nossos, mas não são. Existem proprietários e eles colocam suas regras. Neste jogo com as mídias sempre tentei driblar e criar brechas, sabendo das impossibilidade com este tema”, diz.

 

10 fotografias por Eder Chiodetto

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Post de Diego Navarro,
que usa o Facebook como
suporte para suas obras.

André já foi excluído, bloqueado, banido, mas sempre foi encontrando novas formas de publicar. “Tento entender as relações sociais e exposições que as redes permitem, e entendo como funciona o sistema operacional, com seus grupos, subgrupos, páginas. Então separo meu material em diferentes espaços.” André mantém duas páginas abertas no Facebook, Feminices, em que retrata com o celular homens explorando seu lado feminino, e Ele Quer um Nome, voltada para a performance e o teatro. E o lado mais hardcore, explícito, está no Tumblr Pelados em Flexões: nudez lúdica e pornografia barata.

Também testa o material explícito em um grupo secreto no Facebook, mas, mesmo dentro desse ambiente controlado, foi denunciado. “Muitos artistas ficam putos quando são censurados, eu não. Quando posto uma foto de nu nesse espaço, ela gera uma infinidade de questões, dependendo de onde a outra pessoa vê aquilo. Aquela imagem pode irritar a pessoa, dar tesão, incomodar, não é como uma vernissage em que a pessoa foi condicionada a não destruir a obra. No Facebook ela pode não só não ver mais aquele conteúdo, mas pode tirar aquele estímulo do ar”, diz.

O problema com a censura das redes sociais ou qualquer outro tipo de censura é que nunca é possível esconder nada. E, quando se tenta calar as vozes, não existe nada mais eficaz do que a arte para furar o bloqueio, incomodar, fazer pensar, com ou sem roupa. E todo banimento baseado na moral está sempre condenado viver em desacordo com seu tempo. É sempre possível banir esse ou aquele conteúdo, esse ou aquele pensamento, mas como Stephen King nos ensina sobre a sociedade moderna, às vezes eles voltam.

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