O fim do mundo binário
  • Do corpo e suas incertezas
  • Crash comportamental
  • Sem crachá, sem salário, com propósito
  • A questão de gênero
  • Novas conexões no mundo hiperconectado

trinta lados da mesma moeda


texto por Renata Piza
fotos por Hick Duarte

2016. Eleições. Crise partidária. Movimentos apartidários. Feminismo. Transgenêro. Cisgênero. Genderless. Visão sistemática da vida versus visão mecanicista da vida. Comunicação em tempo real. Fim da oligarquia dos grandes grupos de mídia. Fim das certezas. Fim dos modelos verticais de trabalho e da vida longa de empresas. Relacionamentos em xeque. Relacionamentos abertos. Pluralismo. Imponderabilidade. Estações sem tempo definido. Inverno no verão, verão no inverno. Analógico e digital. Ciência e espiritualidade.

Bem-vindo ao admirável mundo novo. Embora, por vezes, tenhamos a sensação de que o mundo está mais dividido, muito por conta das polêmicas nas redes sociais, nunca antes na história da humanidade as instituições, a sociedade e a própria vida puderam conviver com conceitos tão díspares, com a quebra de paradigmas impostos como verdades absolutas, em um maniqueísmo que data do século III, quando o filósofo cristão Maniqueu dividiu o mundo entre bem e mau, mocinhos e bandidos, reduzindo todas nuances da vida humana a um Fla Flu irreal.

Não é de hoje que esse novo roteiro, que contempla a complexidade humana, tal qual a da natureza, começa a ser desenhado. Desde o começo do século passado, cientistas questionam mais veementemente os modelos impostos por René Descartes e Isaac Newton, dois gigantes da matemática e física, que pautaram os rumos e modelos sociais por pelo menos 300 anos.

Para Descartes, que fundamentou sua teoria no século XVII, o funcionamento do corpo humano poderia ser comparado ao de um relógio, sendo assim o corpo uma máquina, provida de um motor para funcionar. Teoria que foi fundamental para o pensamento científico da época e o desenvolvimento de projetos tecnológicos complexos. Mas, do outro lado da moeda, um pensamento estanque, que inacreditavelmente influencia até hoje parte da nossa vida cotidiana, com escolas, por exemplo, que ensinam conhecimento por disciplinas separadas, conteúdos dos mais simples aos complexos e hierarquia arbitrária, de cima para baixo – modelo que vem sendo fortemente combatido pelos secundaristas brasileiros, em manifestações em São Paulo, numa das provas quase punk de que as gerações atuais não se sentem mais representadas por modelos antigos e usam a voz e o próprio corpo para remar contra o sistema.














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Luta política de cara nova

Do corpo e suas incertezas

por Mariza Werneck

O corpo é uma invenção recente. E ganha, a cada dia, novos nomes de batismo. Fala-se em corpo polifônico, polissêmico, pós-orgânico, ou, até mesmo, pós-humano. Especialistas do tema lançam um olhar retrospectivo para o passado, a partir do século 20, e redescobrem o corpo grego, o medievo, o renascentista, o barroco, o vitoriano, e assim sucessivamente, até chegar à contemporaneidade, onde o pensamento sobre o corpo constitui uma forma de conhecimento específica e especializada. Pensados em sua singularidade e autonomia, relidos em perspectivas e práticas diferenciadas, os corpos e suas nomeações parecem emergir de uma humanidade outra, diferente daquela em que fomos plasmados, do barro adâmico, ou de uma improvável costela.

No entanto, ele sempre esteve aqui. Houve um tempo em que não se distinguia do universo. Macro e microcosmo espelhavam-se um no outro, assemelhando-se, reproduzindo suas marcas, estabelecendo correspondências mútuas. A mancha da pele corresponde à mancha da lua, as revoluções dos planetas assemelham-se às nossas convulsões intestinas. Quem quiser ser um bom médico, ensina Paracelso, médico e mago renascentista, que estude primeiro os astros.

A concepção de corpo mais duradoura, que atravessou os séculos e que, talvez, perdure ainda, foi aquela – não apenas religiosa, mas também filosófica – em que o corpo era pensado em oposição ao espírito, ou, melhor dizendo, à alma. A humanidade cindida em uma polaridade incontornável obrigava-se a travar uma luta feroz contra a materialidade da carne e suas mazelas, luta tanto mais vã porque desde sempre perdida: não há como vencer tantos vícios, tantos desejos obscuros, tantas fraquezas que encontram no corpo sua morada.

Para David Le Breton, que dedicou diversos livros ao tema, um novo imaginário do corpo começa a ser construído a partir dos anos 1960. Muito mais do que um imaginário, no entanto, pode-se falar, sem medo de errar, em políticas dos corpos, que passam a ser afirmadas com veemência. Utilizada como palavra de ordem, a expressão “liberação do corpo” transforma-se rapidamente em clichê, e é invocada em toda e qualquer circunstância. Em alguns momentos, vale ressaltar, por motivos bastante legítimos. O movimento feminista, entre outros, proclamou “o direito ao corpo”, ao reivindicar a descriminalização do aborto. A situação precária dos corpos dos loucos, dos deficientes físicos, e dos velhos, também é colocada em cena, enquanto que, por outro lado, cresce o culto à juventude, à beleza física, e às práticas esportivas.

Uma explosão de livros sobre o assunto abarrota as livrarias até que, enfim, entre 2005 e 2006, escreve-se a História do Corpo, contada em três grossos volumes por mestres franceses como Georges Vigarello, Alain Corbin e Jean-Jacques Courtine. Ao lançarmos um olhar distraído sobre o sumário desses volumes, e escolhermos ao acaso os títulos de alguns capítulos poderemos entender facilmente o que está em questão. Vejamos: O corpo diante da medicina, O corpo e a guerra, O corpo dançante, O corpo e as artes visuais, o corpo trabalhado... Nesta e em outras obras sobre o tema – e sem querer de forma alguma reduzir a importância e a seriedade das pesquisas que surgem, a toda hora, sobre a dimensão corporal humana – parece que estamos no extremo oposto do que constituiu, durante séculos, o binômio corpo/alma. Um pouco como se estes corpos se apresentassem sem sujeitos, desabitados, como se pudessem existir sem o homem, ou a mulher (para citar apenas dois gêneros dos mais improváveis...) que o constituem. Mais ainda, é como se o corpo tivesse perdido sua unidade essencial, e se dispersado em um sem-número de possibilidades.

Como acontece tantas vezes na história da cultura, a arte se antecipou, e realizou esta fragmentação do corpo humano antes mesmo que a ciência tivesse se dado conta disso. Eliane Robert Moraes demonstra em seu belo livro O Corpo Impossível que a decomposição do corpo humano pela arte já se inicia no final do século 19 e atravessa todo o modernismo francês. Corpos acéfalos, multifacetados, deformados, informes, transformados em simples engrenagens, parecem lembrar “que o corpo humano pode operar sem um espírito humano, que o corpo pode existir sem alma”.

Se, como bem atestam os estudos de antropologia, o corpo é uma construção cultural e social, hoje esta ideia de construção parece remeter-se de forma inequívoca ao indivíduo. O corpo não é mais determinado pela genética, (ou apenas): nós o modelamos, o transformamos, mudamos sua biologia e sua sexualidade. O corpo pode ser colorido por tatuagens, marcado por cicatrizes, perfurado por piercings, ter seus ossos e órgãos substituídos por próteses e transplantes, tornar-se um body-art, resistir à velhice e à morte, superar, enfim, sua matéria bruta.

Mais do que nunca transitório, permanece um lugar de incertezas, e exige, para compreendê-lo, que sejamos capazes de criar novas formas de sensibilidade. Formas essas sensivelmente diferentes, talvez, da bela promessa feita por Clarice Lispector a uma criança: “em tudo, em tudo, você terá a seu favor o corpo. O corpo está sempre ao lado da gente. É o único que, até o fim, não nos abandona”.

Promessa fugaz diante de corpos em mutação, de estranhos corpos que atestam nossa própria estranheza, mas que ainda assim permanecem corpos, inquietante presença de alguma coisa que ainda pode ser chamada de humana.

Continuar lendo texto de Mariza Werneck

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Obra do escocês Andy
Goldsworthy, um dos maiores
representantes da Land Art




Newton evolui o raciocínio cartesiano, com uma formulação matemática da concepção mecanicista da natureza, que comprovava o raciocínio cartesiano, tirando-o da esfera teórica. A imagem do mundo como uma máquina perfeita pode finalmente ser comprovada pelo físico inglês e gerou avanços enormes na astronomia e na teoria do calor. Na visão newtoniana, o universo, posto em funcionamento por Deus, era o mesmo desde o princípio, sendo governado por leis imutáveis. Pensamento que penetrou em camadas profundas e influenciou desde os modelos econômicos de demanda versus oferta, escassez, até a hierarquia de trabalho, com “células” independentes que quase não se comunicavam – departamento de marketing, financeiro, recursos humanos e assim por diante, cada um no seu quadrado.

Cenário que começou a ser posto em xeque graças à biologia e à teoria evolucionista iniciada por Lamarck e finalizada por Darwin, em sua A Origem das Espécies. O universo não seria mais programado, imutável, mas, sim, um sistema vivo e atuante, em desenvolvimento e constante mudança. Ainda assim, um terreno que previa uma certa ordem, a adaptação pela sobrevivência.

Curiosamente, na física, a descoberta significou o extremo oposto: um movimento rumo à desordem crescente, embasado pelas descobertas de Albert Einstein, que enterraram de vez o modelo cartesiano nas ciências.

Diz Fritjof Capra, em O Ponto de Mutação (1983): “Duas descobertas no campo da física, culminando na teoria da relatividade e na teoria quântica, pulverizaram todos os principais conceitos de visão de mundo cartesiana e da mecânica newtoniana. A noção de espaço e tempo absolutos, as partículas sólidas elementares, a substância material fundamental, a natureza estritamente casual dos fenômenos físicos e a descrição objetiva da natureza – nenhum desses conceitos pode ser estendido aos novos domínios em que a física agora penetrava”.

"A arte funciona
como farol que
ilumina as
determinações do
presente na direção
do futuro"

Leia entrevista com Lucia Santaella

Em Visão Sistemática da Vida (2014), Capra e Pier Luigi Luisi dão seguimento às ideias, defendendo a vida como uma rede conectada, com interconexões, multiplicidade, complexidade. Diferente de Newton, a parte não influenciaria o todo, ao contrário: o todo influencia a parte.

Parece familiar? Sim, é praticamente um espelho do funcionamento da internet. Uma teia de eventos inter-relacionados, onde a vida só existe graças a conexões. O verdadeiro bug do milênio não foi um erro de código nos computadores, mas, sim, a possibilidade de se abraçar a complexidade e dar cabo a várias barreiras - geográficas, científicas e comportamentais.

“Há já algumas décadas, as distinções outrora confortáveis entre natureza/cultura, masculino/feminino, vivo/morto, natural/artificial, corpo/descorporificação, eu/outro, autônomo/controlado, orgânico/inorgânico etc. estão sendo crescentemente erodidas”, diz a pesquisadora e professora brasileira Lucia Santaella, autora de mais de 40 livros e uma das principais estudiosas de semiótica no país.

Até mesmo o princípio elementar da física – dois corpos não ocupam o mesmo espaço – não funciona no ambiente virtual, onde milhões de corpos podem de fato estar ao mesmo tempo em um mesmo local. O que é real, o que é virtual? No futuro, estaremos todos fisicamente conectados, como os personagens de Sense8? A mente humana vai evoluir no embalo da tecnologia?

“As tecnologias digitais são tecnologias da inteligência. Não são meras ferramentas, mas expansões da mente humana. A inteligência é como a vida: não pode parar de crescer. Por isso, vai ocupando todos os espaços disponíveis nas suas atividades expansionistas”, completa Santaella.


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Sense 8, série americana
de ficção, segunda temporada




crash comportamental

Para o escritor e documentarista americano Douglas Rushkoff, apontado pelo MIT como um dos maiores dez intelectuais da atualidade, esse ser humano evoluído, meio ciborgue, meio roteiro de ficção científica, já existe. A geração que nasceu e está se desenvolvendo via uma tela de computador, smartphone, tablet, seria, para Rushkoff, a evolução da espécie humana.

Batizada por ele de screenagers, esses jovens que nasceram conectados no mundo virtual não têm dificuldades em lidar com o emaranhado de fios que levam a inúmeros caminhos pela internet e pela vida. Na verdade, eles aceitam e reconhecem as mudanças pelas quais a sociedade está passando, mas não se preocupam com um final determinístico ou com respostas precisas para as incertezas; encaram as tecnologias e a confusão que se estabelece na comunicação como ampliadoras de horizontes.

Nas palavras de Rushkoff, a vida online reproduz sistemas dinâmicos, como o tempo, que não têm contornos definidos, mas uma estabilidade fundamentada na auto-semelhança. “Os screenagers são sujeitos da sua realidade e constroem suas personalidades da forma como desejam”, pontua Rushkoff. É o meu filho, de 10 anos, que é um jogador da Fifa em uma tarde ou um lutador de WWE em outra. Sai o papel de mero receptor para o de criador da sua própria história.

Não à toa, um dos maiores impactos desse tsunami foi sentido, claro, na hoje denominada mídia convencional. O terceiro poder até a década de 90 – leia-se grandes conglomerados de jornais, revistas e TVs, com seus críticos célebres – deixou de ser a voz dominante e foi, pouco a pouco, sendo substituído por discursos, debates, barulho, virais. Mais do que isso, deixou de ser visto como detentor da verdade, uma vez que sabemos atualmente que a verdade é um prisma, diamante de múltiplas facetas; aproximação, não certeza.


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“Scorpion”, Fractal
Art por Sven Geier




sem crachá, sem salário, com propósito

Na era do pós-emprego, o trabalho formal se precariza, muda de natureza e adquire novo sentido associado a causas, ao prazer e ao empreendedorismo social

por Claudia Giudice

Há exatos 20 anos, o economista Jeremy Rifkin e o consultor William Brigdes, ambos norte-americanos, lançaram dois livros gêmeos: O Fim dos Empregos e Um mundo sem empregos. O assunto era moda nos Estados Unidos, porque uma crise econômica lambia o mundo. À época, a crítica considerou Rifkin excessivamente pessimista e apocalíptico. Bridges foi chamado de marqueteiro porque oferecia um guia de auto-ajuda para executivos fadados a sobreviver sem crachá.

No Brasil de FHC, com o início da estabilidade econômica e o fim da inflação, a conversa era outra. Renato Russo, do Legião Urbana, cantava Música de Trabalho, sucesso do disco A Tempestade, para protestar contra os empregos (abundantes) com salários miseráveis e o trabalho como falsa identidade do indivíduo.

O tempo correu e todos tinham razão. O trabalho na forma de emprego e crachá corporativo se tornou identidade das gerações Coca-Cola, yuppie e geração X. Hoje, o mundo sombrio desenhado pelos autores norte-americanos é um pouco mais cinza. O último Fórum Econômico Mundial (WEF), realizado em janeiro deste ano em Davos, na Suíça, teve como tema “A Quarta Revolução Industrial”. A partir dela, a expansão das tecnologias emergentes no setor produtivo fará com que 5 milhões de empregos sejam extintos em 2020, em quinze economias, que correspondem a 67% da força de trabalho global.

O processo já está em curso e é mais intenso em algumas áreas do conhecimento. Se você é amigo de jornalistas, administradores, prestadores de serviço, deve estar acompanhando o desespero da turma. Dessa vez, é diferente do que ocorreu nas revoluções anteriores. Antes, quando uma inovação tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo segmento surgia para absorver a mão-de-obra excedente. Hoje a conta não fecha. O menos é maior que o mais. Estima-se que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. E o que existe, não existirá mais.

O sistema segue sendo capitalista e a lógica do lucro mantém-se acima de todas as coisas. O que mudou? Na época do trabalho clássico, dos tempos do capitalismo fordista, as relações eram opressoras e muito claras. Patrão x empregado. Lucro e mais-valia. Quem trabalhava recebia salário e contava com seus direitos trabalhistas, defendidos pelo sindicato da categoria. Havia hora para entrar e hora para sair. O que passasse disso, virava hora extra, remunerada com um valor superior ao da hora normal. As regras eram claras. Uma vez por ano, campanha salarial por aumento. Podia ser ruim como na música do Legião Urbana, mas era certo, seguro e combinado.

Hoje tudo mudou. A fábrica está na metrópole. A fábrica está em nossa casa. Os bancários ficaram em greve por mais de um mês e ninguém ligou. A grita foi dos velhinhos que não sabem mexer no computador e de quem precisava fazer uma transação presencial. No mais, tudo está na nuvem. “A metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro em um trabalho precário, mal-remunerado e, às vezes, sequer reconhecido como trabalho”, descreve Giuseppe Cocco, cientista político italiano radicado no Brasil e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele abordou o tema em uma palestra ministrada no ciclo Metrópoles: Territórios, Governamento da Vida e o Comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (http://uninomade.net/tenda/da-fabrica-a-metropole/). Trabalhar para poder trabalhar é a condição da precariedade. A quarta revolução industrial impôs o precário como modo de vida para a maioria.

A precariedade é um modo de subjetivação, afirma o professor Cocco. Se antes educação e saúde eram direitos universais, que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que, constantemente, invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. “Isso nos torna precários, e o precário é um sujeito endividado”, afirma Cocco.

Tem saída? Acho que tem. A minha crença não se baseia apenas em meu otimismo. Existe um novo processo de subjetivação em curso.

O termo subjetivação para o filósofo Alain Touraine define “a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito”. Essa é uma das marcas da sociedade contemporânea. Quando o “estabelecido”, os sistemas e as instituições começam a ruir surge um espaço para o novo, para o diverso e para o diferente. Jeremy Rifkin estava certo quando previu que nada seria como antes na hora em que o “emprego”, enquanto forma de normatização do trabalho, estivesse se decompondo.

O trabalho com propósito deve proporcionar sustento para quem o realiza, mas essa não é a sua razão primordial. Prazer e felicidade superam em relevância o modelo tradicional do “bom emprego” das pessoas “bem-sucedidas”. Os jovens milennials, nascidos entre 1980 e 2000, foram os primeiros a reivindicar atividades produtivas que proporcionassem diversão, bem estar e realização pessoal. Ao grupo, a cada dia, se juntam ex-yuppies, ex-executivos e ex-bambambãs filhos das gerações X e Coca Cola, nascidos entre 1960 e 1980, que foram cuspidos de suas companhias. Gente como eu, que desfrutou de todas as mordomias e de todos as pressões do mundo corporativo e percebeu que era hora de mudar.

O trabalho com propósito precisa ser completamente diferente do tradicional. Uma das chaves do sucesso dos empreendedores com causa é deixar tudo da outra encarnação para trás.

Propósito e Menos. Anote essas duas palavras em seu smartphone. Você irá ouvi-las muitas vezes nos próximos anos. O mundo precisará de pessoas sensíveis, lógicas e com capacidade de se moldar às mudanças no presente e futuro.

A adaptação ao “desconhecido” (o que está por vir) será a única forma de superar as incertezas do mercado. “O amanhã será governado por ambientes caórdicos (caos + ordem), subversivos, divertidos, fluidos, flexíveis, em que prevalece a inteligência coletiva, as lideranças rotativas, conduzido por algoritmos e plataformas e que têm como base a ampla conectividade e o propósito

A vida com plano B

A jornalista norte-americana Jessica Stillman, do site Inc.com, defende que este é o momento de assumirmos “carreiras slashes”. Slash é o termo em inglês que define a barra de separação. “Por muito tempo eu tinha vergonha de usar a “/” , porque ela fazia a minha carreira parecer híbrida. Eu era atriz/autora teatral/escritora free-lancer/colunista/jornalista. Eu me sentia pouco séria, indefinida e inconsistente”, escreve Jessica. Ela mudou de ideia quando olhou ao redor e percebeu que a carreira “monocromática” é que era a exceção. “A economia mudou e o trabalho tornou-se fluido. Explorar diferentes possibilidades de atuação profissional e pessoal é o que nos fará crescer”.

O cientista norte-americano Ray Kurzweil, um especialista em tendências e futurologia, é otimista quando o assunto é trabalho + propósito. Ele acredita que no futuro próximo vamos trabalhar menos e com prazer. Que precisaremos de menos e que tudo custará menos dinheiro também. Ele justifica sua tese a partir do desenvolvimento da tecnologia, que barateia os bens de consumo e faz o trabalho chato pelos humanos.

Para sustentar esse modelo, ele defende uma política efetiva de bem-estar, que batizou de “renda básica universal”. Parece muito com o projeto do “Renda Mínima” do vereador eleito por São Paulo e ex-senador Eduardo Suplicy. A equação, segundo Ray, é simples. A renda universal básica é uma forma de seguro social, no qual cidadãos e residentes de um país recebem, de forma regular e incondicional, uma quantia de dinheiro do governo ou de alguma instituição pública, independente de qualquer outra renda que por acaso recebam. “Realmente temos de repensar o que devemos fazer de nossas vidas. Temos um modelo econômico em que as pessoas trabalham, ganham seu dinheiro, e então podem comprar as coisas que precisam. Mas, nós vamos chegar a um ponto em que não vamos precisar de muito dinheiro. Teremos impressoras 3D que, por centavos, podem imprimir todas as coisas físicas de que você precisa. Não vamos precisar trabalhar para produzir estes produtos…”, defende Kurzweil “No futuro, manteremos o trabalho, mas num conceito movido para o modelo onde você faz algo por paixão e de que você gosta e que lhe permita mover-se na hierarquia de Maslow e ter satisfação. É possível que a gente trabalhe menos mesmo.”

A chef de cozinha paulista Bel Coelho, 37 anos, bate panela pelo “menos”. Depois de estudar em grandes escolas de gastronomia, como o americano Culinary Institute of America (CIA) e o espanhol El Celler de Can Roca, brilhar à frente de várias casas badaladas da capital paulistana, ficar famosa na TV e ganhar muitos prêmios, ela disse: chega, basta, fim. Decidiu lutar por menos. Viver com menos.

Bel é dona do restaurante Clandestino, aberto em 2014, na Vila Madalena. O negócio começou com um propósito simples. Ela queria, apenas, ser feliz, se sustentar, e ter uma vida boa, razoável, de classe média, normal. Na prática, significava não trabalhar insanamente, não ter metas extraordinárias de faturamento e fugir da badalação. Por isso, o lugar funciona apenas uma semana por mês, de segunda a sábado, e oferece um cardápio pré-montado, o menu degustação, para apenas 24 pessoas por noite. Para ser uma delas, é preciso fazer reserva, momento no qual se determinam quantos lugares haverá em cada mesa e em que se esclarecem possíveis restrições alimentares. O pagamento também é feito antecipadamente.

Nesse modelo existem vários drives de inovação, que funcionam porque a Bel é a Bel e porque existe um conhecimento por trás da regra. Ao subverter a lógica e criar um serviço em data móvel (a semana em que ele será aberto só é definida um mês antes), ela evita desperdício de comida, porque a quantidade de pessoas por noite é fixa e ela compra exatamente o que vai preparar. A equipe de trabalho pode ser enxuta, excelente e formada por frilas, reduzindo os custos fixos. “A grande diferença é que estou crescendo organicamente. Não é como quando você abre um restaurante para 100 pessoas e, de cara, tem que bancar os custos para receber 100 pessoas”, diz.

Eu vivo sem crachá, às custas do meu plano B que virou A, há dois anos e um mês. No começo foi sofrido. Não pelo trabalho, nem pela redução de custos, menos ainda pela mudança de rotina. Doeu o pé na bunda. A rejeição. A mudança feita a ferro e fogo. Feridas curadas, juro que não sinto nada. Nem saudades. Descobri que posso criar sem parar para mim mesma. Minha inspiração para incontáveis planos B brotam do meu patrimônio pessoal. O que é isso? Tudo o que fiz, vivi e aprendi em meus 51 anos de vida. É fascinante. Tem meu DNA, minha história, meu conhecimento e minha experiência na parada. Tem todos os meus fracassos e sucessos.

Meus ingredientes secretos? fazer o que gosto, sentir prazer, inventar moda, ousar, aprender, não sossegar o facho, ouvir a intuição, ouvir a opinião alheia, colocar a mão na massa. Simples, não é?

Continuar lendo texto de Claudia Giudice

Além disso, a internet, o twitter, o snapchat, o periscope etc etc etc, deu voz a todos sem exigir diploma, estágio, emprego dos sonhos. E a facilidade cada vez maior para se produzir um conteúdo, transmiti-lo e replicá-lo em poucos segundos formou uma nova e desafiadora rede de comunicação, onde qualquer indivíduo está apto a relatar algo, opinar sobre algo, mostrar uma história a partir do seu ponto de vista. Sozinhos ou em grupos – blogueiros, jornalistas independentes, mídia ninja etc – pequenos periódicos vão se formando e desafiando o establishment.

O resultado mais visível desse crack comportamental pode ser mensurado em números. De um lado a proliferação de canais no YouTube (plataforma criada em 2005 e hoje vista por mais de um bilhão de usuários), de outro, a queda da circulação de veículos institucionalizados. Nos últimos três anos, a circulação da Folha de S. Paulo caiu um terço, segundo o IVC (Instituto Verificador de Circulação). Neste ritmo, dentro de dez, o jornal poderá deixar de existir. E a Folha, obviamente, não é a única impactada. O Globo, o Zero Hora e o Estado de S.Paulo são outros veículos afetados pela crise papel versus digital – ainda que tenham migrado também para a internet. Indo direto à raiz do problema, pouquíssimas pessoas estão interessadas em ler apenas um lado da história, seja no Brasil ou no mundo.

“O teatro na sala
de espetáculo,
ao contrário da
farsa político-social,
necessita ser o
oposto da realidade"

Leia texto de Ruy Filho

“Na economia de informação em rede, cada indivíduo é livre para observar, responder, questionar e debater. Não precisamos limitar-nos a apenas ler, ouvir e assistir, podemos participar do debate. Como mídia alternativa, a internet e a economia da informação em rede permite-nos uma participação maior, não encontrada na mídia de massa”, analisa Yochai Benkler, professor da Universidade Harvard e autor dos livros The Wealth of Networks – How social production transforms markets and freedom e Penguin and the Leviathan – How Cooperation Triumphs over Self-Interest.

Essa comunicação múltipla, caótica, diversificada, ecoa no comportamento humano, derrubando não só muros de Berlim geográficos, como se pensou no início da popularização da web. Nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “a cultura no mundo líquido exige de nós a aptidão para mudar de identidade e não se apegar às coisas do passado”.

O que nos leva aos atuais debates sobre identidade de gênero, domínio do próprio corpo, feminismo, mercado de trabalho, mulheres cuidando sozinhas dos filhos, homens provendo a casa. Em suma, ao fim das caixas. Ao less is more, quando se trata de menos certezas, mais questionamentos.


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Solaris, espetáculo
do diretor ucraniano
Andriy Zholdak
(Foto: Daniel Zholdak)




a questão de gênero

Se olharmos para a questão do gênero, para começo de conversa, podemos voltar à década de 80, quando os primeiros estudos da Teoria Queer começaram a ser desenvolvidos nos Estados Unidos. De difícil tradução para a língua portuguesa, Queer poderia ser o equivalente à estranho, excêntrico, raro. Palavras que foram usadas constantemente para tratar de forma pejorativa a comunidade LGTB e que poderiam ser usadas agora para colocar um ponto final à ideia de heteronormalidade, invertendo a semântica da palavra, usando a pedra jogada para combater quem a jogava. Normal, no século XXI, é ser quem você acredita que é. E o anormal, portanto, é ter uma sociedade e um sistema de políticas públicas que não abrace essas diferenças. Um cenário artístico que chacoalhe o status quo de dentro para fora. Que seja atuante, não contemplativo.

Mais uma vez, o debate acendeu feito pólvora na virada do milênio, em grande parte pela rapidez em se conectar e postar diferentes opiniões, proporcionada pela vida em rede. Ativistas e estudiosos ganharam voz e espaço para pulverizar a classificação binária entre homens e mulheres, gay e héteros, meninas de rosa, meninos de azul, sem nenhum tom de cinza no meio. Somos uma multidão, como diria Nietzche. Somos o velho, a criança, o sábio e o tolo. Somos todas as personas de Fernando Pessoa e mais.

Em 2016, lésbicas podem ser heterossexuais no momento em que quiserem, homens trans podem gostar de mulheres, o transgênero pode conviver em harmonia com o cisgênero, um casamento pode não significar monogamia. Assim como o genderless, o fim da identificação social pelo gênero, é uma das tendências mais fortes, reverberando na moda, nas escolas, nos museus, no design e na política. Tudo está mais fluido, água entre os dedos.

Pegue como exemplo a Egalia, pré-escola sueca, sediada em Estocolmo. Em 2011, ela anunciou uma medida aparentemente simples, mas muito eficaz, que ganhou manchetes e repercussão em todo o mundo: eliminar clichês da educação, deixando as crianças livres de referências. Na prática, isso significou o fim da divisão tacanha carrinhos para meninos, bonecas para meninas, pias para meninas, armas para meninos, um gesto quase inconsciente que permeou a infância de gerações e gerações, incluindo a minha, parecendo inocente, sem que muita gente se desse conta do que estava por trás dessa brincadeira: a ideia de que homens são fortes e aventureiros, enquanto meninas são frágeis e cuidadoras.






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Caitlyn Jener, o
ex-atleta olímpico
de declato Bruce Jenner

Na Egalia, todos brincam com bonecos sem sexo definido, batizados de emotion dolls. Indo além, os professores passaram a usar um pronome neutro (algo como o it, em inglês) para se referir aos alunos, evitando o reducionismo do ele ou ela – vale lembrar que vários países, incluindo a Alemanha, a Índia e a Nova Zelândia reconheceram recentemente a existência do terceiro sexo, uma das maiores reivindicações dos ativistas, uma vez que o reconhecimento legal (em documentos) é fundamental para aqueles que não se enquadram nem em um gênero nem em outro.

Ainda que a escola sueca possa parecer um exemplo fácil – Estocolmo tem como característica o respeito à individualidade –, a Egalia não está sozinha. Nos Estados Unidos, terra onde a guerra democratas e republicanos, Hillary e Trump, tem sido o foco das atenções, numa dualidade liberais versus conservadores, a Miraloma Elementary, em São Francisco, adotou no ano passado o banheiro gender-neutral, outra medida que pode parecer simples à primeira vista, mas que é um avanço e tanto em termos de inclusão e signos visuais (vivemos na era da imagem). O mesmo aconteceu no New Museum, em Nova York, um dos mais modernos da cidade, cujos banheiros são um só para todos, com a frase All Gender Restroom, escrita em inglês e braile na porta.

Vale rebobinar e lembrar que o debate sobre a questão do gênero nos Estados Unidos, embora não seja novo, ganhou força em 2015. A ponta do iceberg? A capa da Vanity Fair com Caitlyn Jenner, que ganhou elogios até do presidente Barack Obama – e que prova mais uma vez a força dos símbolos visuais. Se você não viveu em Marte nos últimos meses, deve saber a história de cor: o ex-atleta americano Bruce Jenner, medalhista olímpico, casado, pai de seis filhos (Kendall e Kylie Jenner, entre eles), bem-sucedido, mundo margarina, trocou de sexo e renasceu como Caitlyn, a mulher que aparece na capa da revista. Outro ato que parece simples, sem manifestações, sem brigas, sem discussões. Mas é aqui que está o X da questão: quanto mais o genderless, o trans e todas as variações possíveis forem assimilados pela mídia, mais normatizados, menos freak show, eles vão parecer.





"Não somos mulheres,
nem somos homens,
nós somos gente"
(Dzi Croquetes)

Leia texto de Marcelo Kuna

No Brasil, embora o machismo seja notório, assim como a clássica formação de família, com pai, mãe, filhos e talvez cachorro, o cenário também tem se mostrado promissor. A revista ELLE, por exemplo, estampou sua capa de dezembro de 2011 com a modelo Léa T., a primeira transexual a aparecer em uma capa de revista no Brasil. Neste ano, outro avanço foi sentido. O colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, acabou com a diferenciação de uniformes por sexo, deixando os alunos livres, leves e soltos para optarem sobre o que e quando querem vestir determinada peça de roupa. Ato comemorado pelos estudantes com um “saiaço”, à la Experência número 3 de Flávio de Carvalho nos anos 50. “A tradição não importa em anacronia, mas pode e deve significar nossa capacidade de evoluir e inovar”, escreveu o reitor Oscar Hallack no site da escola.

Uniformes, que remetem ao exército, são símbolos visuais extremamente fortes e eficazes na colocação de pessoas em caixas, na não individualidade, portanto, a postura do colégio não poderia ter sido mais certeira.

Mas não são os únicos enquadradores oficiais de personalidade. A história da indumentária é repleta de amor à separação por classes – sociais, de gênero etc. Não à toa, é uma das mais fortes formas de comunicação não verbal e foi a maneira encontrada por Flavio de Carvalho para criar sua performance em prol do traje tropical. Felizmente, a moda também é o terreno do efêmero, do avant-garde e da sede dos consumidores por novidades. O resultado desse mix fértil? O genderless, ainda que despolitizado, saiu dos guetos e ganhou o mainstream mundial.



Um dos estilistas mais incessado do momento, o italiano Alessandro Michele, que assumiu a Gucci em janeiro de 2015, é o responsável por trazer à superfície uma estética com perfume vintage, clima paz e amor e troca dos signos femininos e masculinos: homens aparecem com ternos rosas, estampas florais e vários acessórios, enquanto as mulheres são mais geek, mais Wes Anderson. Isso em uma maison quase centenária, sinônimo do luxo made in Italy, e que ficou reconhecida durante anos pelas mulheres femme fatale da era Tom Ford, quando a mulher era completamente objetificada – e nem faz tanto tempo assim.

Grifes mais jovens nem têm mais esse tipo de questionamento em mente. A nova-iorquina Hood by Air, por exemplo, extrapola o conceito de unissex e faz roupas para quem quiser usá-las, independente da preferência sexual ou do gênero impresso na certidão de nascimento. “Como designer, não tenho qualquer barreira em relação a gêneros. Meus amigos usam sutiã e são homens. As roupas masculinas não são glamourosas, enquanto as femininas são. Por que não misturá-las?”, indaga Shayne Oliver na W Magazine. Detalhe: o estilista ganhou em 2015 o prêmio do CFDA (Council of Fashion Designers of America), o mais importante da moda americana, de melhor designer masculino.

Outro sinal dos tempos? A tradicional rede de departamentos inglesa Selfridges montou em 2015 uma pop-up store genderless, sem qualquer sinalização do que seria para homem ou para mulher.


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Universo Queer,
direção de Priscilla
Bertucci



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Universo Trans,
idealizado por
Alessandro Bender


Além moda, o design começa a fazer sua parte nesse mundo em transição. Can design be genderless? foi o tema de um seminário no National Museum of Woman in Arts, que contou com a participação de Gabriel Ann Maher, designer australiano radicado na Holanda, que se reconhece com uma identidade de gênero fluida, e que estampa isso em seu discurso, suas criações e seu visual: tem o cabelo curto de um lado e comprido de outro, se veste com roupas que tendem para o masculino, tem rosto feminino e cria obras como a instalação Transformation Marathon em que questiona o papel do corpo e da sexualidade no sistema de comunicação. “Por que um perfume, que é um líquido com cheiro, tem que ser definido em masculino e feminino?”, questinou durante sua apresentação.

Outro designer que segue na mesma linha é a sueca Chris L. Halstrom, que trabalha com uma cartela de cores neutras e móveis muito mais sensoriais, com texturas, do que tendenciosos a um ou outro gênero. “Meus objetos podem não fazer muito barulho, mas eles são o que são. E é dessa maneira que cada um deveria ser permitido a se sentir, independentemente do sexo”, disse em entrevista ao The New York Times.

Faz mais do que sentido. Se no ambiente virtual, podemos ser o que ou quem quisermos, por que seria diferente no mundo físico, quando essas barreiras estão cada vez mais frágeis, realidade aumentada, inteligência artificial à vista? O Facebook, por exemplo, não só conecta pessoas por todo o mundo, como proporciona 71 opções de gênero, incluindo assexual, polygender ou two-spirit person, para seus usuários se identificarem no Reino Unido. “As novas mídias são como uma página em branco”, analisou a crítica do The New York Times Alice Rawsthorn durante o debate no Museum of Woman in Arts.

Novas conexões no mundo hiperconectado

por Wesley Oliveira e Gabriel Camargo

Como a revolução de comportamento e comunicação se expressa em nossos cérebros?

Há algumas décadas seria impensável o acesso tão fácil a tecnologias avançadas de conectividade e produtividade que temos hoje. O acesso, a velocidade de conexão e o volume de informação marcam uma série de mudanças no mundo atual. E claro, no meio disso o nosso comportamento humano, cada vez mais digital, também sofre mudanças.

Um estudo publicado ano passado por um grupo de suíços (Gindrat et al) foi realizado entre pessoas que utilizam smartphone com frequência e pessoas que não utilizam. Foi demonstrado que existem diferenças na atividade cerebral dos dois grupos. Os pesquisadores viram que usuários de smartphone possuem uma quantidade maior de áreas recrutadas no cérebro para a tarefa de toque na tela do celular em comparação com os demais. Podemos imaginar como o hábito de utilizar o celular com frequência já mudou a maneira de como cérebro funciona.

Essas mudanças cerebrais são exemplos de fenômenos que acontecem todo o tempo, para as diversas tarefas que realizamos no dia-a-dia. A neurociência descreve a neuroplasticidade como a incrível habilidade de células e áreas do encéfalo se reconectarem e mudarem fisiologicamente para se adaptar aos estímulos.

Diversos estudos de plasticidade observam músicos e seu padrão de atividade cerebral diferenciado. Um desses, do pesquisador Pascual-Leone, explorou há alguns anos como o pensamento poderia resultar em um impacto fisiológico no cérebro.

Neste estudo, um grupo de voluntários adultos foi exposto a tarefa de aprender a tocar piano. Nenhum deles havia tocado piano antes. Eles foram divididos em grupos. O primeiro foi levado a uma sala com piano e eles treinaram por 5 dias, praticando 2 horas por dia. O segundo foi levado a uma sala idêntica, mas passaram os mesmos 5 dias apenas imaginando que estavam praticando os exercícios no piano. No final de cada dia, eles foram submetidos a um teste que permite uma inferência de atividade do córtex. O fato surpreendente é que, comparando os dois grupos, resultados semelhantes foram obtidos entre os que tocaram e os que apenas imaginaram. Ou seja, apenas o ato de imaginar já pode provocar mudanças de atividade cerebral.

Se esses fenômenos parecem ser observados em períodos de uma semana de treinamento, o que dizer do nível de estímulos diários que recebemos hoje em dia?

Apesar da ciência possuir diversos indícios sobre como o cérebro se adapta aos estímulos, é difícil explicar como estas mudanças a nível micro-celular são traduzidas em mudanças de personalidade e comportamento.

Além disso, é visível que este novo mundo tecnológico e sua característica de maior fornecimento de estímulos e informações faz com que as próprias fronteiras tradicionais de conhecimento sejam questionadas.

O que vem acontecendo com nossa mente

Andy Clark e David Chalmers, dois cientistas cognitivos, propuseram em 1998 a hipótese da “Mente Estendida”. Segundo ela, uma parte qualquer do mundo externo que executa algo que poderia ser feito pelo nosso cérebro, promove um processo cognitivo e assim os dispositivos externos atuariam como extensões do nosso próprio corpo.

Hoje os sistemas de busca tem se tornado extensões da nossa memória. Em “In the era of ‘Google Effects’, Why Memory Matters’, Olga Khazan diz que jovens estudantes estão lembrando de menos informação do que eles eram capazes anos atrás. Afinal, se toda a informação que precisamos está disponível facilmente em nosso bolso, porque devemos guardá-la em nossa memória?

Em um estudo conduzido pela psicóloga Betsy Sparrow (Columbia University), os pesquisadores demonstraram que quando algumas pessoas são expostas a perguntas difíceis, elas são mais propícias a achar que a internet ajudará a encontrar as respostas. As pessoas tendem a memorizar mais as respostas apenas se acreditarem que será difícil acessar a informação no futuro.

A internet tem se tornado um meio de mente estendida, uma memória externa, onde a informação é armazenada fora do cérebro. A humanidade sempre armazenou conhecimento em meios externos, como desenhos, livros, músicas. O que mudou foi que agora a quantidade, velocidade e qualidade dessas informações está muito maior.

O consumo de informação hoje

Ler um livro requer bastante esforço cognitivo, mas e quanto a ler informações online? Inúmeros estudos mostram que até mesmo leitores tradicionais possuem um comportamento diferente quando online. Segundo pesquisas, apenas 28% das palavras em uma página da internet são lidas, com uma velocidade de leitura superior a de uma leitura convencional, o que leva à conclusão de que as pessoas não estão efetivamente lendo as páginas, mas apenas passando os olhos rapidamente.

Essa suspeita foi confirmada com estudos envolvendo eyetracking, dispositivo que mede os movimentos dos olhos. Os pesquisadores notaram um comportamento diferente do tradicional. Ao invés dos olhos se movendo da esquerda para a direita linearmente, os olhos pulam entre elementos gráficos. Além disso, o conteúdo se organiza entre diversas janelas e notificações. Isso cria um fluxo contínuo de informações e torna difícil escolher no que focar. A atenção é mais atraída pelo novo do que pelo mais importante.

A leitura profunda online é tão fácil quanto estudar Lacan numa mesa da boate. Todo o ruído do ambiente torna difícil focar. E a cognição é justamente influenciada pela nossa habilidade de selecionar a informação que precisamos, pensar, compreender e aprender.

Parece que a forma como lemos online desencoraja uma análise profunda dos assuntos que estamos lendo, dificultando a retenção de conhecimento. Se estamos constantemente distraídos e obtendo novas informações, dificultamos também o processo de memorização dos conceitos.

Por outro lado, análises de fMRI (Ressonância Magnética Funcional) mostram que a leitura online gera atividade cerebral muito maior em áreas como o córtex pré-frontal do que a leitura tradicional. Indícios de que a maneira como realizamos as leituras online pode estar nos auxiliando. O meio digital requer muito mais de estruturas relacionadas à tomada de decisão e pensamento complexo.

O que será daqui em diante?

A constatação é de que os avanços causam profundas transformações e nos exigem respostas adaptadas a uma nova realidade. Escolas pelo mundo já focam menos em memorização de fatos e mais em ensinar os alunos pensamento crítico, criação de soluções e interligação de conceitos. Em alguns casos, jovens gastam mais de um terço do dia utilizando a internet e dispositivos. Somos cada vez mais exigidos em versatilidade para lidar com o mundo tão dinâmico e veloz.

Nosso cérebro faz o que é treinado para fazer. Quando acessamos constantemente os dispositivos eletrônicos buscando por informações, estamos criando uma predisposição do cérebro a não precisar das informações. Estamos nos condicionando a ignorar o que temos em abundância e, no lugar disso, focar em outras tarefas.

Além do fato de que ao estarmos expostos a novas linguagens artísticas e culturais que só são permitidas pela atual conexão de diferentes pessoas, pensamentos e perspectivas, também trazemos um novo cenário com o qual nosso cérebro é obrigado a lidar.

A natureza constrói suas mudanças numa velocidade muito menor da que nós promovemos com as tecnologias. Lidamos agora com uma evolução que é essencialmente cognitiva, guiada pelos novos estímulos disponíveis e pela necessidade de compreender a infinita variedade de informações e seus significados. Construímos um repertório integrado e dinâmico, permitindo uma nova compreensão da realidade, exigindo repensar antigos padrões e estimulando adaptações para mundo tecnológico que está sempre em estágio transitório e em evolução.

Continuar lendo texto de Wesley Oliveira e Gabriel Camargo


Sim, a fluidez do mundo digital permite com que exerçamos múltiplos papeis – e interfere na nossa percepção de mundo e até mesmo no nosso cérebro. Embora os estudos ainda sejam recentes e em grande parte inconclusivos, é unanimidade entre os cientista que o cérebro, por ser plástico, é afetado por tudo que o circunda. Alguns estudos sugerem a formação de novas sinapses e ativação de determinadas áreas cerebrais por conta do uso contínuo de vídeo games e internet. O ser humano estaria ficando mais rápido e apto para diferentes situações. E até o QI pode ser maior nas futuras gerações por conta das diferentes táticas tomadas durante um jogo, por exemplo. Críticos, como o escritor americano Nicholas Carr, porém, defendem que estaríamos ficando mais repletos de informações, mas mais rasos, estúpidos – Is Google Making Us Stupid? é o título de um de seus livros.

Boa ou ruim, a mudança já aconteceu e abriu as portas da nova revolução que estamos vivendo em todas as áreas das nossas vidas: sociológicas, políticas, psicológicas e profissionais. A pirâmide vertical, com chefes mandando e subalternos executando, feito bois no pasto, vem ruindo e sendo substituída (ou no mínimo convivendo lado a lado) a outros modelos, mais horizontais, dinâmicos e participativos. Coworking, redes, projetos e associações têm se mostrado alternativas a quem não separa mais trabalho de prazer e não pensa a longo prazo – pouquíssimas pessoas querem hoje fazer carreira na mesma empresa, a exemplo do meu pai, que passou 35 anos no mesmo banco, se aposentou e um ano depois morreu. Aliás, a própria duração das empresas não é mais tão longa assim – no auge do crash da Bolsa de Nova York, em 1929, a média de vida de uma empresa era de 75 anos, hoje é de 17. Estamos em plena era da incerteza.

E ainda que muita gente ache que tudo está bagunçado, desorientado, sem prumo – como viver sem carteira assinada, sexo definido, casa comprada? – a boa notícia é que apenas nessa miscelânea, muitas vezes contraditória e com muitos caminhos, é possível encontrar harmonia.

Da mesma forma que apenas reconhecendo a imperfeição, a vulnerabilidade e a incapacidade de segurar a vida em rédeas, como prega a pesquisadora Brené Brown ou canta Leonard Cohen (There is a crack in everything, that’s how the light gets in) é possível reencontrar nossa humanidade. “A vida só é possível a partir de conexões. E, para que uma conexão aconteça, você tem que se mostrar como é, abraçar a vulnerabilidade e ter coragem de ser imperfeito, de ter compaixão por você mesmo e pelos outros”, diz Brown em uma palestra do TED Talks. “Tem de parar de tentar transformar incerteza em certeza e perceber que a capacidade de fazer algo sem garantias não é só linda, é necessária.”

Antes da maça de Adão e Eva, antes da maça cair na cabeça de Newton e bem antes da maça da Apple, no princípio, era o caos (cháos). Da Grécia antiga à Bíblia, o mundo se originou de uma forma anárquica, escura, dividida, Big Bang. “A falta de equilíbrio pode produzir coerência, estruturar padrões e nos permitir ver o mundo melhor”, afirmou o químico russo Ilya Prigogine (1917-2003), ganhador do Nobel de Química, a despeito da tentativa inútil de colocar deuses ordenadores no mundo.

Milênios depois, podemos estar voltando às nossas origens. Bem-vindo ao admirável mundo velho.

















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