0/4

enquanto
o episódio
carrega...

(...e, claro, para a sua experiência ser mais legal)

1/4

qual
o seu nome?

2/4

eu compreendo
antes de reagir

(...quando aquele frio na barriga ou um inesperado cruza sua rotina.)

ir direto para o episódio
3/4

eu humanizo
antes de racionalizar

(...se alguém aje ou defende uma verdade muito fora do seu modelo mental.)

ir direto para o episódio
4/4

eu acolho antes de tentar solucionar

(...se alguém próximo está passando por um momento complicado por consequência de decisões pessoais diferentes das que você tomaria.)

ir direto para o episódio
0/4

obrigado
pelas
respostas :)

o episódio vai abrir em seguida.

Perspectiva
  • Feminino: livros e filmes
  • A utopia de Santiago
  • Uma lógica alternativa
  • Vozes esquecidas
  • Economia de afetos
  • Clarice x Clarice


_

Laforet ‘be noisy.’
Rikako Nagashima

o futuro é feminino{{vm.Quiz.getName(", ")}}?

_

Contra o dogma da razão numa tradição patriarcal, os valores
femininos podem desenhar um novo modelo de humanidade:
no lugar da competição, cooperação; no lugar da dominação,
o afeto.


texto por Renata Piza


“Se todo animal inspira sempre ternura, o que houve com os homens?”. A pergunta de Guimarães Rosa é a de um homem à antiga – diplomata, formado em Medicina, com serviços prestados ao Exército. Poliglota, cavucou as raízes da língua, criou verbos, inventou dialetos. Usou o cérebro, investiu no racional. Mas Rosa também era cercado de misticismos, crente na força da lua, na energia das gentes e dos bichos, no sexto sentido. Usou o coração, conectou-se com o emocional. Só assim se pode compreender o gênio de Grande Sertão: Veredas, com uma Diadorim escondida sob as vestes de um jagunço.

Emoção é sujeito feminino. Uma palavra recorrentemente associada a nós, mulheres. Desde pequenas, as meninas aprendem a extravasar suas emoções. Choram em público, acalentam as bonecas, se fantasiam de adultas, elfas, fadas. Emoção é sujeito feminino muitas vezes usado com cunho pejorativo. “Ela é muito emotiva”, “Só diz isso porque está de TPM”, “É histérica, descontrolada.” Controle é sujeito masculino.

Na narrativa não tão épica da modernidade, nos acostumamos a ver a razão (ou o controle) como a medida dos progressos éticos e materiais da civilização ocidental, uma visão indissociável do humanismo que brotou na Itália do século 14. Segundo essa visão de mundo, o emocional, o místico, o invisível, identificados com o universo feminino e do espiritual, não teriam mais espaço.

 

feminino: livros e filmes

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25















"Ainda não conseguimos
construir um mundo em
que as potências
do masculino e do
feminino estejam
equilibradas (...).
A revolução por meio
de valores tradicionalmente
associados ao feminino
propõe colocar mais
SER em nosso FAZER."

Leia o texto de Camila Holpert, para Nestlé Molico




Mas nem sempre foi assim. Muito milênios antes do humanismo dar as caras havia sociedades que não apenas eram dirigidas por mulheres, mas também guiadas por valores que ultrapassavam o racionalismo vulgar. Não são poucos os vestígios encontrados por arqueólogos, desde a chamada Era do Gelo (40.000-10.000 a.C,), que apontam para sociedades matriarcais, onde deusas símbolo da fertilidade eram veneradas. Sociedades inundadas por valores mais profundos, místicos, indecifráveis – crocodilos no rio São Francisco, como diria o nosso Guimarães Rosa.

“Dizer que a razão caracteriza o humano é um antolho, porque nos deixa cegos frentes à emoção, que fica desvalorizada como algo animal ou como algo que nega o racional”, escreve o biólogo chileno Humberto Maturana em Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Pai da teoria matrística, Maturana é um dos principais intelectuais a afirmar que somos regidos por uma biologia afetiva. “A cultura matrística europeia pré-patriarcal estava centrada no amor e na estética, na consciência da harmonia espontânea de todo ser vivo e do não-vivo, em seu fluxo contínuo de ciclos entrelaçados de transformação de vida e morte”, escreve em Amar e Brincar.

A utopia de Santiago

O cientista chileno Humberto Maturana prevê o advento da sociedade matrística, em que os valores do feminino seriam os responsáveis por quebrar as próprias hierarquias de gênero.
por Brenda Fucuta

Sou uma feminista-nova, uma feminista recém ou tardiamente convertida, depende do ponto de vista. É uma condição divertida, para dizer o mínimo. Daí que, por ser caloura, me dou o direito de fazer perguntas ingênuas. Do tipo: o que aconteceria com uma sociedade em que o gênero não determinasse privilégios?

Uma hipótese é de que as mulheres, tendo as mesmas oportunidades que os homens, ocupariam 50% de todos os postos de destaque na sociedade – no Congresso, na presidência das empresas, nos cargos de comando do Judiciário, nas universidades... A segunda hipótese é a de que elas, tendo as mesmas oportunidades que os homens, dariam uma banana aos espaços de poder do jeito que eles são constituídos, com sacrifícios impagáveis da vida pessoal. Iriam recusar os cargos de liderança. Esse modelo não as interessaria, não atenderia suas necessidades da maneira adequada.

Confesso: torço descaradamente pela segunda hipótese, pelo menos como uma etapa de transição para um futuro mais equilibrado e uma sociedade mais justa. Tendo acesso aos espaços de poder, será que não iríamos subvertê-los, moldá-los num desenho que nos favoreça? Por que motivo quereríamos perpetuar um sistema que privilegia o tempo e o talento que doamos às empresas em detrimento das outras esferas que, nesse momento de tantas rupturas, passamos a valorizar mais?

O debate derivado daí é bom porque há argumentos interessantes de todos os lados. Podemos, por exemplo, enxergar a questão do gênero dentro de uma visão revolucionária de futuro, mais sustentável, tanto em termos de utilização dos recursos naturais e humanos quanto em termos de relações sociais.

A palavra do biólogo

Uma resposta à minha questão sobre as mulheres vem do Instituto Matriztica, em Santiago, no Chile, onde o biólogo Humberto Maturana, 88 anos, defende a ideia de um futuro sem hierarquias, inclusive de gênero. É a chamada teoria matrística, cujo nome é inspirado em uma cultura que existiu em torno de 7 a.C. e 5 a.C. na Europa. De acordo com os registros arqueológicos que temos, tratava-se de uma sociedade nem patriarcal nem matriarcal, mas fundada essencialmente da ideia de equilíbrio e harmonia. Assim, a sociedade neomatrística não defende a superioridade feminina em oposição à superioridade masculina. Trata-se de uma ausência de superioridades, seja de gênero ou de outros tipos. Seria uma experiência que valorizaria a cooperação em vez da competição. E a participação, inclusão, colaboração, compreensão, acordo e respeito.

Não é fácil aderir à visão do porvir da sociedade neomatrística. A ideia parece boa demais, otimista demais. Mas, já nos anos 80, Maturana e um dos seus vários parceiros de estudo, o também biólogo Francisco Varela, falavam da exaustão. “Nós, humanos, estamos assustados e escravizados pelo presente que geramos”, escreveram no portentoso livro A Árvore do Conhecimento, que lançou as bases da famosa Biologia do Conhecimento – ou do Amor, outro nome pela qual é chamada.

Maturana defende, ainda, que o “presente” (a realidade), é uma construção, não um pressuposto. “O patriarcado como modo de vida não é uma característica do homem. É uma cultura e, portanto, um modo de viver totalmente viável para ambos os sexos. Homens e mulheres podem ser patriarcais assim como podem ser matrísticos”, diz Maturana no livro Amar E Brincar, escrito com outra parceira, a psicóloga alemã Gerda Verden-Zoller.

“Na cultura patriarcal valorizamos a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação...”, escrevem. “Falamos em lutar contra a pobreza... em combater a contaminação... em enfrentar agressões da natureza (desastres naturais). Vivemos como se todos os nossos atos requeressem o uso da força e como se cada ocasião para agir fosse um desafio.” Os verbos patriarcais são verbos de guerra. A sociedade matrística viria mexer fundo nessa cultura.

Em entrevista ao ensaísta chileno Hernan Dinamarca no site Sitiocero, o professor explica por que acredita que estamos num momento de transição: “Somos capazes de gestar cultura matrística ou neomatrística, na qual o foco não é a hierarquia, mas uma relação de aceitação e respeito mútuo. É neomatrística porque tem a ver com uma cultura não-patriarcal que existiu em algum momento. A própria democracia é uma cultura neomatrística ou, pelo menos, uma possibilidade que não está centrada na hierarquia ou dominação.”

Seria a cultura neomatrística uma ampliação da questão feminina e feminista? O neomatrístico envolve não apenas mulheres que buscam outro modelo de vida e de trabalho, mas homens também. Homens, que, inclusive, poderão responder mais intensamente ao grande desafio contemporâneo, o cuidado com os nossos filhos e pais idosos. “O que um ser humano faz, o outro é igualmente capaz de fazer”, acredita Maturana. Ou seja: homens também podem ser os adultos que cuidam das crianças.

Novas empreitadas

Talvez o neomatrístico envolva também empresas e organizações do século 21. “É muito mais fácil encontrar organizações matrísticas entre as jovens empresas do que entre as antigas”, diz Maria Fernanda T. Costa, ex-executiva da área do varejo que se transformou numa das mais disputadas consultoras de processos de transformação dentro de empresas. “Vemos jovens organizações mais colaborativas e menos competitivas. Menos preocupadas com o conceito da propriedade intelectual e mais focadas na coautoria.”

Maria Fernanda foi da primeira turma brasileira a se formar na versão estendida do curso de Biologia do Conhecimento, que leva espantosos três anos. “As empresas precisam de inovação, e inovação requer liberdade, humanidade, conversação. São ideias matrísticas, uma concepção muito nova de convivência, mesmo em empresas”, ela responde. “Existe muita gente envolvida na transição para um novo modelo desenvolvendo ideias e práticas muito parecidas com as teorias de Maturana no sentido de buscar formas diferentes e mais respeitosas de convivência.”

Uma das maiores forças por trás da onda de empoderamento feminino, por exemplo, tem origem na sustentação do atual modelo econômico. Segundo a consultoria PwC, as mulheres são um dos mercados mais promissores do mundo, o “terceiro bilhão” de emergentes do planeta, equivalente aos chineses e indianos como consumidores e produtores da nossa voraz economia. Mulheres que ganham mais, gastam mais. Por isso, não há incoerência em ver empresas tradicionalmente machistas investindo em programas de recrutamento e de promoção de mulheres. O empoderamento feminino se tornou um bom negócio. Isso tudo para concluir que são inúmeras (e às vezes até antagônicas) as forças que movimentam o mundo em direção a novas e femininas fronteiras.

Mudar para conservar

Se o legado de Maturana fosse uma caixinha de joias, a autopoiese seria sua peça mais charmosa – um delicado colar de intrincada ourivesaria que magnetiza muitos pensadores. De origem biológica, a autopoiese é um conceito científico, raramente compreendido pelos leigos, para explicar o funcionamento autônomo dos sistemas moleculares, que se organizam espontaneamente sem um agente ordenador externo. A ideia seduziu pensadores de várias áreas, da sociedade neurobiologia à sociologia e filosofia.

“A primeira coisa que você precisa saber é que cada um entende Maturana de seu jeito. Para mim, seu curso transforma conceitos e pessoas”, me avisou o consultor de empresas Arthur Anis, ex-aluno do chileno e que hoje o representa no Brasil. Como afirma o próprio Maturana: “Somos responsáveis pelo que dizemos. Mas maravilhosamente irresponsáveis pelo que o outro ouve.”

Assim, com a mesma liberdade poética de tantos outros alunos, elegi como a pedra mais preciosa da autopoiese a ideia de que nós só mudamos para conservar algo. “Tudo muda em torno daquilo que queremos conservar. Conservamos o essencial e excretamos o supérfluo”. A afirmação do cientista é disruptiva para quem, acostumado a Darwin, enxerga na mudança uma necessidade de adaptação. Maturana está dizendo que nos transformamos e mudamos não com o objetivo de se adaptar, mas primordialmente com o objetivo de conservar algo vital.

Só transformamos e nos transformamos para conservar algo muito importante. “Essa ideia exigiu um enorme esforço de compreensão durante o curso”, me conta Bete Saraiva, professora de Desenvolvimento Humano e Comunicação e ex-executiva de Recursos Humanos. Dos conceitos do curso, o da preservação gerada pela mudança foi o principal aprendizado, na avaliação de Bete. “Tenho procurado identificar o que, essencialmente, quero conservar em minha vida. Aprendi também que mudanças não necessariamente reposicionam um novo patamar; elas podem acontecer para reforçar o lugar onde estamos.”

Maturana acredita que nosso destino é arrumar um jeito de conviver. “Temos que nos perguntar se queremos fazer as coisas juntos”, diz ele. Se somos seres sociais, se vivemos em rede e não suportamos o isolamento, esta pergunta é necessária. Se queremos viver em harmonia, temos que querer viver em harmonia.”

Se é isso o que queremos conservar – a ética da convivência –, não parece tão estranha a iminência da cultura neomatrística. Podemos até passar por momentos de fagocitose (no qual um come o outro), mas sempre restará a esperança de que, no fundo, o que desejamos conservar é um ideal de convivência. Justa, acolhedora, confiante. Sem julgamento, sem abuso e sem submissão. Um diálogo amoroso. Como uma relação de mãe e seu bebê, uma relação matrística que, na visão de Maturana, está conservada e impressa em todos nós.

Brenda Fucuta, jornalista, fez o Curso de Inverno de Humberto Maturana em julho de 2015 em Santiago, no Chile.

Continuar lendo texto, de Brenda Fucuta

uma lógica alternativa

Uma das pedras de toque do humanismo, a valorização do racional em detrimento do emocional, contudo, evoca uma lógica muito mais primitiva: a de um mundo assentado em dualidades entre homem x mulher, macho x fêmea, casa x trabalho, forte x fraco. É a lógica da diferença, do confronto, da dominação do pater poder. Do patriarcado que não liga para sofisticações de pensamento para decretar que as mulheres eram simplesmente inferiores, que estavam no planeta Terra única e exclusivamente para servir aos homens, cujo papel era guerrear, prover, não chorar, não pedir para sair.

Hoje, pós o pós-tudo, o que cada vez mais está em pauta é pensar nas possibilidades de romper com o velho pensamento e com as velhas estruturas de poder; em pensar se os valores mais identificados com o feminino podem promover, de fato, uma revolução nas relações humanas.

Mas o que definem valores de gênero? “Nossa cultura tem características e valores que podem ser associados a um ou outro gênero. Em geral, o homem está mais associado ao público, e a mulher ao privado. É ela quem cuida mais da casa, dos filhos quando são pequenos ou dos pais quando envelhecem”, afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, que desde 1988 se dedica a pesquisas com homens e mulheres, na tentativa de decifrar e cruzar universos. “Não há valores absolutos”.

Absolutos talvez não, mas convencionalmente adotados, com certeza. Amar, acalentar, cuidar, abraçar, cooperar – verbos encharcados de valores femininos. Adotados por mulheres-mães, mulheres-alfa, mulheres que embaralham a dualidade habitual do mundo.

Como as mulheres-soldados retratadas pela ucraniana Svetlana Aleksiévitch no livro A Guerra Não tem Rosto de Mulher. Nas entrevistas que fez com as soviéticas que combateram na Segunda Guerra Mundial, a escritora e jornalista mostrou outra realidade – a de emoções enraizadas na condição humana, que precedem as da razão e as da defesa da pátria. “Não me interessa o próprio acontecimento, mas o acontecimento dos sentimentos. Digamos assim: a alma do acontecimento. Para mim, os sentimentos são a realidade”, escreve Svetlana logo no começo do livro.









vozes esquecidas

A atriz Débora Falabella interpreta russas que lutaram na Segunda Guerra Mundial e cujos depoimentos foram colhidos pela ucraniana Svetlana Aleksiévitch no livro A Guerra não tem Rosto de Mulher.
por Almir de Freitas


Foi no início dos anos 80 que a ucraniana Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura, finalizou sua primeira grande obra, A Guerra não tem Rosto de Mulher. O livro todo se apoiava nos depoimentos de mais de 200 russas que haviam combatido na Segunda Guerra Mundial – uma história tão ou mais surpreendente quando ficamos sabendo que o número de combatentes mulheres no Exército Vermelho chegou a 1 milhão.

Eram francoatiradoras, pilotos de tanque e avião, enfermeiras e cirurgiãs, operadoras de artilharia aérea e metralhadora, telegrafistas... Um mundo de vozes para contar uma história que, até então, era monopólio das crônicas militares masculinas. “A guerra ‘feminina’ tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental”, diz Svetlana. “Suas próprias palavras. Nela, não há heróis nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana.”

Publicar essa história “alternativa” não foi fácil. Finalizado em 1983, A Guerra não tem Rosto de Mulher foi ignorado por editoras e revistas, que viam nessa “história de sentimentos” (como Svetlana gosta de dizer) fortes elementos antissoviéticos. Onde está a menção à liderança e orientação do Partido Comunista? Disse-lhe um censor: “Sim, a Vitória foi dura para nós, mas você deve procurar exemplos heroicos. Há centenas. No entanto, você nos mostra a sujeira da guerra. A roupa íntima. Para você, nossa Vitória foi terrível... O que você está tentando alcançar?”

“A verdade”, replicou Svetlana. Mas ela não escondia, quando planejou seu livro, de que verdade estava falando. “Devia escrever um livro sobre a guerra que provoque náuseas e que faça a própria ideia da guerra parecer repugnante. Louca. Os próprios generais ficariam nauseados...”

Do que falavam suas mulheres? Da fome, do frio, do envelhecimento precoce, da violência sexual contra alemãs... ou das tranças cortadas, de como voltaram para casa mais altas (tão meninas que eram), de como pararam de menstruar e de ter desejo. Elas lembram de calçados de crianças na lama, de como os cavalos perderam o medo dos cadáveres, do sumiço de gatos e cachorros durante a guerra, restando apenas ratos.

A verdade teve de esperar mais dois anos, quando Michael Gorbachev chegou ao poder na União Soviética e iniciou a perestroika e a glasnost, as aberturas econômica e política. Mesmo que ainda com cortes, A Guerra não tem Rosto de Mulher foi finalmente publicado em 1985 – e foi um sucesso estrondoso, vendendo 2 milhões de exemplares no país. Os trechos censurados foram acrescidos na nova edição, em 2002.

A Bravo! selecionou alguns dos depoimentos reunidos por Svetlana no livro e convidou a atriz Débora Falabella para interpretar essas mulheres. No vídeo acima, escutamos essas vozes, antes anônimas, mostrando a força de suas palavras diante das memórias da barbárie, que, talvez por pertencerem às mulheres, inúmeras vezes nos surpreendem pela delicadeza na narração, pelos detalhes eleitos ou até pela dor silenciosa por trás das palavras.

Continuar lendo texto, de Almir de Freitas

“A afetividade, o não linear, o sem borda, o fazer pelo prazer de fazer são muito ligados ao feminino”, diz a coach e palestrante Karinna Forlenza, ex-aluna de Humberto Maturana. Valores cada vez mais buscados nas sociedades modernas, cuja estrutura e cultura patriarcal – homem não chora, badass é quem é durão – não dão mais conta de responder todas as nossas angústias, homens aí incluídos.

“Muitos homens também são dominados pela lógica da dominação masculina. E a maioria não alcança o que é tido como padrão. Fazem um esforço desesperado e patético para conseguir algo que nunca conseguirão”, acrescenta Mirian Goldenberg, citando o antropólogo francês Pierre Bourdieu.

E, claro, muitas mulheres acabam caindo nessa armadilha transvestida de normalidade e adotam posturas mais agressivas para conquistar o que querem. Tendem a acreditar que para ser bem sucedida é preciso ser menos sensível, não dar importância a “coisas de mulherzinha”.

Esta, a base do patriarcalismo. “Elas adotam a mesma lógica dos homens para conquistar seu espaço. Isso foi necessário nos anos 60, na revolução feminina, que trouxe vários ganhos às mulheres, mas talvez não seja mais hoje em dia”, diz Karinna. “Continuamos vivendo pautados pela ideia da escassez, de que não há para todos. Eu preciso excluir, ter mais, proteger os meus, minha posse, minha família, minha terra. Uma ideia falsa.”

economia de
afetos

O que se discute, em síntese, é a possibilidade de substituir a competição pela cooperação; o confronto pela construção do consenso; a racionalidade fria pelo acolhimento. Essa consciência ou despertar, acredite, não é conversa de hippie ou Alice no País das Maravilhas: há sinais claros dela na nova economia de um mundo mergulhado em transformações.

Pegue como exemplos o Uber e o Airbnb, duas empresas gigantes que mudaram os sistemas de transporte e hotelaria – e, com eles, nossa própria ideia de propriedade. O que predomina é o valor do compartilhamento, da confiança. Das relações pessoais aprimorando as relações de troca.

Da mesma forma, a economia criativa desafia os princípios econômicos de escassez; os co-workings, a estrutura hierárquica e exclusiva das grandes corporações. Algumas empresas, como a Mandalah, têm mostrado que lucro e missão social podem e devem caminhar juntos – utilising brands for good é o lema que conquistou gigantes como a Kimberly-Clark e Nike.

Até na indústria da moda, uma das mais competitivas, já há iniciativas disruptivas, humanizadas. A Brunello Cucinelli, uma das principais marcas de luxo made in Italy, incorporou responsabilidade social ao skill de seus funcionários e da própria empresa. “As pessoas precisam descansar. Se eu as faço trabalhar demais, estou roubando suas almas”, disse Cucinelli ao Business Of Fashion , sobre a política de não deixar ninguém trabalhar ou responder e-mails corporativos depois das 17h30, ter 90 minutos de almoço e poder reembolsar gastos com cultura e aprendizado – além de ele próprio reinvestir 20% dos lucros em Solomeo, o vilarejo onde a empresa está sediada.

Muitos nomes gravitam em torno desse fenômeno: sustentabilidade, responsabilidade social, cuidado ambiental. Olhar para as pessoas. “Estamos assistindo ao início da Revolução Afetiva. É, ao mesmo tempo, uma evolução e um retorno àquele ser humano em busca de uma conexão harmônica com o outro e com o espaço que habita”, acredita a pesquisadora Andrea Bisker.

Clarice
x
Clarice

Frases, versinhos e pensamentos da Lispector e da Falcão rondam as redes sociais em tempos de empoderamentos de fofices e zeitgeist pró-feminista
por Ronaldo Bressane

Um espectro ronda as redes sociais: as frases de Clarice. Não só a Lispector, mas outra artista também criada no Recife – Clarice Falcão, compositora, atriz e roteirista. É um fenômeno curioso, porque, tal como aconteceu com a escritora de Laços de Família, a cantora de Problema Meu tem contaminado as redes com frases, pensamentos e versinhos de sua autoria – e outros que ela jamais escreveu.

Saem, então, sentenças crípticas como “Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender: viver ultrapassa qualquer entendimento”. E empoderam-se fofices espertas como “Você vai ficar por quanto tempo? Preparo um café ou preparo minha vida?”, “Se o meu olhar cruzar com o seu, é só porque você tá no caminho”, “Se não desse errado, não seria eu” etc. Mas o que dizer das frases apócrifas que colocam nas bocas das pobres Clarices?

Debruçado sobre esse mistério clariceano, ou melhor, deitado mesmo (melhor jeito de divagar em uma pensata-playground), é fácil concluir que tudo tem a ver com o zeitgeist pró-feminista. Recortar e colar frases de autores famosos não é nada novo – nossas avós já faziam isso em seus caderninhos. É um comportamento adolescente, e tem seu tanto de auto-ajuda. Compartilhadas nas redes sociais, as frases ajudam tanto o ídolo copiado quanto o fã que copia. Têm algo de mágico, e de magia tanto a Lispector quanto a Falcão entendem.

Um dos maiores escritores da língua portuguesa, Clarice Lispector dispensa apresentações – e dispensar apresentações é um dos critérios para popularizar a frase de seu autor. Além da óbvia glória literária, Lispector era uma figura enigmática. Escreveu textos belos e inclassificáveis como o conto O Ovo e a Galinha e indevassáveis como Água Viva (Cazuza, outro eterno citado, teria lido o romance 111 vezes). Tinha manias excêntricas para seu tempo, como virar a noite escrevendo, fumar demais, ser reclusa, solteira convicta ou participar de convenções de bruxaria.

É protagonista de histórias saborosas: certa vez, ao ser internada em um hospital, quando viu os lençóis de sua cama empapados de sangue, tentou sair do quarto e foi contida; desesperada por não poder fugir, gritou para a enfermeira: “Você matou meu personagem!”. Mesmo desvirtuadas, suas frases mais famosas embutem raciocínios tortuosos e linguagem requintada. Sua arte trafega sob a luz de Lilith, a fêmea primordial críptica e inacessível.

Firme porém suave

A novíssima Clarice é em tudo diferente. Surgiu para o estrelato muito mais jovem, e como atriz global. Mas ao mesmo tempo, multitalentosa, lançou-se como roteirista e dramaturga. Ao lado do então namorado, Gregório Duvivier, criou e protagonizou esquetes humorísticos do grupo Porta dos Fundos que foram acessados milhões de vezes.

Como a Lispector, a Falcão também é dona de beleza não muito convencional. Mas não é a beleza quem põe sua mesa, e sim suas obras, sejam músicas, sejam dramas. Em um zeitgeist de crescente empoderamento feminino, ela se destaca pela militância feminista firme porém suave. O ex Duvivier lhe dedicou uma crônica carinhosa, contrariando a norma em que relacionamentos terminam mal. Tal como a Lispector nos anos 60, a Falcão é uma mulher moderna, que desafia convenções de modo original e ao mesmo tempo seguro. Bem mais singelas que as frases da Lispector, no entanto, as sentenças da Falcão primam pelo encanto nonsense, pelo soft power e pelo tom agridoce. É o arquétipo da companheira de viagem, a Louise que toda Thelma quer ter.

Contudo, acho que a disseminação de frases das Clarices tem muito mais a ver com o Enigma do Petisco, comportamento captado pelo cartunista Bruno Maron, e com o método de trabalho do ensaísta Walter Benjamin.

Maníacos do trechinho

Como se sabe, brasileiro tem preguiça da coisa inteira: gosta do petisco. Beliscar, tirar uma casquinha, bolinar, dar um pega, bicar resto de copo. Roubar uma batatinha do prato do vizinho é mais gostoso que pagar pela porção de fritas. O sarcástico Maron captou o comportamento na HQ O Enigma do Petisco .

Por este raciocínio, a citação é o petisco da arte. Pra que ler livros? Pra que escrever um textão que ninguém vai ler? Podem até curtir, mas ler, ler mesmo, ninguém vai, sejamos honestos. Em vez de ler livros, comentá-los, analisá-los, compará-los a outros, mais prático é citá-los. Recortar um trecho, colá-lo na página pessoal em uma rede qualquer, e voilà.

Um amigo autodenominado maníaco do trechinho faz sucesso com as mulheres ao citar em seus ouvidos bobagens que ele mesmo produz, só agregando à frase um “como diria Baudelaire”, “como diria Nelson Rodrigues”, “como diria Platão” etc. Afinal, a pessoa que ganha tais babadas citações talvez não tenha lido Baudelaire, Rodrigues ou Platão. Citar também é uma forma de teatro.

No ensaio O Autor como Apropriador (Serrote #23), o escritor carioca Leonardo Villa-Forte analisa uma obra do poeta Kenneth Goldsmith: a transposição de boletins radiofônicos de trânsito em livro, reivindicando a autoria do texto. A “escrita não-criativa” de Goldsmith lembra o conto Pierre Menard, autor do Quixote, em que Jorge Luis Borges fala de um sujeito que quer reescrever Cervantes sem mudar uma vírgula: “A autoria de Menard estaria precisamente na ideia de reproduzir o Quixote (...) O texto nem precisa ser diferente do original. O novo contexto gera o novo conteúdo”.

Assim, ao viralizar e memetizar os petiscos das Clarices, seus fãs tomam para si sua própria autoria. Se hoje, graças à acessibilidade universal da internet, qualquer um se justifica como artista, por que não se tornar artista justamente no ato de incorporar a arte de outrem? Editar e curar também é criar. “É fácil contagiar-se pela promessa de que a escrita não-criativa pode ser produzida por qualquer um”, diz Villa-Forte. “Ela é tão acessível e possível quanto a escrita de próprio punho (...) O que está em jogo é a construção de um sentido pessoal em meio ao excesso de fontes e possibilidades que a sociedade tecnológica nos oferece (...) A diferença entre os consumidores/leitores/autores é estabelecida pelo que uns e outros selecionam e deixam de fora”, analisa o escritor carioca.

O fast-food da auto-ajuda

Existe um teor prático por trás de tais frases. Elas não são escolhidas pelo prazer estético que suscitam – e sim por um suposto conselho, um ensinamento, uma lição de vida. Descontextualizadas da arte de que fizeram parte, as frases das Clarices se tornam aulas de auto-ajuda. São utilidades. Sequestradas do propósito primordial de entreter, narrar ou refletir, ao serem consumidas passam a ser produtos, cuja finalidade é trazer uma bússola moral para o seu consumidor.

Depois de editadas e consumidas, passa-se à fase da incorporação de frases dos fãs à suposta obra do ídolo. Daí ser comum a viralização de um texto apócrifo sob autoria de autor conhecido – e uma frase qualquer vai parar na pena de, por exemplo, Fernando Pessoa (como a hipercopiado “Pedras que colocam em meu caminho, recolho todas: servirão para construir meu castelo”, um texto horrível que nenhum dos cem heterônimos do poeta assinaria).

Para mergulhar nesse estranho fenômeno de falsificação de citações, ao qual não está infensa nem mesmo a jovem Clarice Falcão – o perfil fake @agridoceclarice, que tem quase 400 mil seguidores, junta frases dela a banalidades pueris –, precisamos recorrer a Walter Benjamin.

Hiper-reprodutibilidade técnica

No ensaio “Pescador de pérolas”, sobre Benjamin (Homens em Tempos Sombrios), a filósofa alemã Hannah Arendt conta que o autor de Magia e Técnica, Arte e Política somava uma coleção de 600 citações. Notório bibliófilo, Benjamin ansiava por um ideal de ensaística todo estruturado em citações – “montada com tanta maestria que dispensaria textos de acompanhamento”.

Este método de “perfurar” um texto para obter o essencial em forma de citação “é o equivalente moderno das invocações rituais, e os espíritos que agora surgem são aquelas essências espirituais de um passado que sofreram a ‘transformação marinha’ shakesperiana dos olhos vivos em pérolas, dos ossos vivos em coral”, diz Arendt, citando A Tempestade.

“Para Benjamin, citar é nomear (...), trazer a verdade à luz”. Citar, para Arendt, ou seja, falar através de vozes alheias, é a maneira como Benjamin escolhia para lidar com o passado. O pescador de pérolas desceria ao passado para trazer à superfície “fragmentos de pensamento”, que então ganham novo contexto.

O ídolo como avatar

O que os fãs citadores de Clarice fazem é o contrário. Ao transformar e supermultiplicar citações próprias em falsas aspas de Lispector e Falcão, não trazem nenhuma verdade à luz. Há o desejo de praticar a “invocação ritual”, conforme Arendt, de receber um espírito do passado sob o disfarce de um fragmento de sua voz. Mas a voz não é trazida como pensamento criativo, e sim como mercadoria: tem utilidade pragmática e multiplicável. Dentro da economia do compartilhamento de likes, a citação é uma moeda que se autocopia ao infinito.

As citações das Clarices são moedas-mercadorias funcionais. Pretendem invocar o espírito de suas autoras. Pode ser o espírito de uma gênia da literatura, dona de olhos estranhos, cuja aura misteriosa guarda-se em textos inclassificáveis como Água Viva. Pode ser o espírito de uma musa folk, dona de olhos doces, que tem coragem de expor em canções singelas seus descaminhos afetivos. Ao incorporar as vozes desses espíritos através da mera menção de suas assinaturas, os fã-clubes vampirizam um verniz autêntico para suas falsas apropriações.

Os fãs não criam arte, como propõe Kenneth Goldsmith com sua escrita não-criativa, ou Walter Benjamin com seus aquários de citações; mas flertam com a magia. A magia de transformar o fã no próprio ídolo. A narcísica conjuração do petisco das Clarices, uma magia fast food praticada através de frases surrupiadas ou inventadas, tem dupla função: consolo moral e projeção de sua identidade em outro. O ídolo, através da frase monetizada e memetizada, se torna um avatar do citador. “Eu sou ela”, uma vez me disse minha filha de cinco anos, apontando uma personagem que via em um desenho na TV, me dando uma dica do mecanismo.

Na frase roubada, o fã afasta-se da arte para petiscar um fragmento da vida do ídolo. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”, diria a Lispector – uma frase que serve para qualquer coisa, qualquer momento, qualquer lugar. Um feitiço infantil, de efeito rápido, que alimenta o ego menos do que um nugget mata a fome.

Continuar lendo texto, de Ronaldo Bressane

_

Para a doutora em Saúde Coletiva e Ciências, Ligia Moreiras Sena, que participou no fim do ano passado do I Congresso Internacional de Felicidade, em Curitiba, estamos presenciando um ponto de mutação, um resgate de valores que são humanos, independentemente de gênero. “A liberdade tecnológica nos deu o direito de disseminar ódio e intolerância. E entramos em crise. As pessoas estão cada vez mais reconhecendo que o homem é um ser gregário, que só vive em grupos, e que são os valores humanos, como a empatia, que nos manterão unidos. Não há felicidade se o outro não está incluído nela.”

Não à toa, a própria ciência se aproxima cada vez mais do imaterial, metafísico, e a geração millenium, tomada por conexões virtuais, faz um retorno ao lado espiritual. Buscam-se cada vez mais grupos de meditação, retiros espirituais ou experiências humanas – um dos criadores da Mandalah, Lourenço Bustani, eleito em 2012 pela Fast Company uma das 100 pessoas mais criativas do mundo, está à frente agora do projeto Human Experience Design (HED), desenhando projetos, workshops e festas matinais, como a Wake, com o intuito de reconectar o ser humano com ele mesmo e com os demais.

Sobre suas respostas:

Abraçar as diferenças, compartilhar, incluir, ajudar. Ações associadas ao espectro feminino, mas que na realidade são valores humanos. Que devem se fortalecer com um vindouro equilíbrio entre gêneros. “Ainda estamos vivendo uma guerra dos sexos, com polarizações muito fortes, mas a tendência é daqui a algum tempo ter um equilíbrio muito maior entre os gêneros. Muitas mulheres já estão muito poderosas e, ao mesmo tempo, muitos homens já cuidam da casa e até levam as filhas ao ginecologista, coisa que era impensável há um tempo atrás”, diz Mirian Goldenberg.

Se ainda sofremos com as diferenças e a dominação nas relações, os questionamentos não param de crescer – e o mundo começa a se adaptar, dando um passo para trás e dez para a frente.

“Voltar às primeiras sociedades é uma tentação impossível de eliminar”, diz a filósofa francesa Elisabeth Badinter em Um é o Outro. No livro, ela mostra como “do paleolítico à idade de ferro, homens e mulheres partilharam as tarefas com maior ou menor equidade, mas sem jamais dar a impressão de que Um era a pálida repetição do Outro, ou, pior ainda, o mal que devemos evitar”.

Embora, muitas vezes, a ruptura seja inevitável, romper com a tradição nunca é fácil. Em Grande Sertão, o outro jagunço, Riobaldo, não podia senão ficar confuso quando descobriu a paixão por aquela Diadorim escondida sobre a violência. “Ao perto de mim, minhas armas”, pensou o homem sertanejo lá pelas tantas. “Com aquelas, reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor?

Este é um site independente. Se você gostou desse artigo, compartilhe com os seus amigos.
{{vm.Galleries.images[vm.Galleries.index].title}}