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dá pra acreditar no que você pensa{{vm.Quiz.getName(", ")}}?

Na terceira grande onda do movimento, a internet, as redes sociais e a arte são poderosas ferramentas na afirmação da identidade e reivindicação de direitos dos diversos grupos de mulheres

por Livia Aguiar



Não é fácil ser mulher. Não somos donas dos nossos corpos, somos alvo de violência doméstica e de assédio, ganhamos menos, frequentemente não nos levam a sério – os adjetivos “loucas” ou “histéricas” são recorrentes, e a TPM sempre está na ponta da língua para lançar suspeição sobre nosso juízo. Se expomos nossos desejos, somos putas; se os escondemos, puritanas. E, claro, em quase todos os estratos e atuações, a sub-representação feminina é a regra diante da esmagadora maioria masculina.

Fácil não é, mas é preciso admitir que estamos em situação melhor do que no passado. Nascer mulher é menos difícil por causa de um movimento cujo nome ainda é considerado palavrão: o feminismo. Desde os seus primórdios, ainda no fim do século 19, a ideia essencial é uma luta pela “igualdade social, política e econômica dos sexos”, na definição da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma das principais referências do movimento hoje.

A linha geral é a mesma, mas o combate vem se ampliando ao longo dos anos. Maíra Kubík Mano, professora do departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), não gosta de falar em “ondas” do feminismo, que, segundo ela, obedecem a uma concepção “extremamente eurocêntrica e norte-americanizada”. Mas, ressalvas feitas, ela acredita que a divisão pode ajudar a compreender a trajetória de um dos movimentos mais importantes deste século.















"Em uma sociedade que tivesse superado os estereótipos de gênero seríamos capazes de nos ajudar a sustentar direitos fundamentais para todas as pessoas"

Leia entrevista com Márcia Tiburi



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Integrar pressupõe tanto intimidade e como respeito à individualidade, {{vm.Quiz.getName("")}}. Essa lista tem cinco canções de diferentes estilos, feitas a partir de grandes encontros criativos com integração perfeita. O mundo não é mais preto no branco, {{vm.Quiz.getName("")}}. Há muitas nuances e um caminho de mais dúvidas do que certezas, a balança é nosso poder de refletir e ponderar. Essas cinco canções exercitam as possibilidades. Acreditar é colocar em marcha o futuro do mundo, {{vm.Quiz.getName("")}}, é o que dá força para poder traçar novos caminhos. Cinco músicas sobre crença, êxtase, romance e utopias.



A Primeira Onda Feminista começou no fim do século 19 e começo do 20, na Europa e Estados Unidos, com reivindicações especialmente macropolíticas: tanto de mulheres lutando pelo direito a voto, com desejo de se integrarem ao modelo político vigente, quanto o de mulheres que se juntaram aos movimentos comunistas, socialistas e anarquistas com o desejo de romper com o status quo.

A Segunda Onda começou na década de 1960 nos Estados Unidos, com reivindicações por direitos sexuais, reprodutivos e por igualdade no mercado de trabalho. Mulheres queimaram sutiãs pela liberdade, colocaram em pauta o direito ao aborto, impulsionaram mudanças nas leis do divórcio e de guarda dos filhos, lutaram para afirmar a individualidade da mulher e a expor problemas de violência doméstica e estupro marital. O Pessoal é Político, texto-slogan de Carol Hanisch, foi o mote dessa fase, exortando mulheres a desnormatizar as violências que (ainda) sofrem.

Por fim, a Terceira Onda começou na década de 1980 e está sendo marcada pela expansão das reivindicações para além das questões das mulheres brancas heterossexuais. É o reconhecimento que “não somos uma mulher reivindicando pautas específicas. Cada uma tem o seu olhar a partir de seu ponto de vista, do seu lugar de fala, da sua situação de vida e de suas experiências”, explica Kubík Mano. A palavra chave é Identidade.


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Parte do projeto Carne, o espetáculo homônimo da Kiwi Companhia de Teatro (SP) faz um panorama da opressão de gênero no Brasil com texto baseado nas obras da escritora austríaca Elfriede Jelinek e da historiadora francesa Michelle Perrot


Mulheres negras sempre participaram do movimento feminista, mas suas questões específicas – advindas do racismo – acabaram em segundo plano. Desde os anos 1980, ainda bem, estamos vivendo o fortalecimento do movimento feminista negro, o desenvolvimento da Teoria Queer (que ilumina questões feministas relativas a identidade de gênero e diversidade sexual), o combate à gordofobia, a cunhagem do termo capacitismo para expor a discriminação contra pessoas com deficiência, entre outras questões caras a diferentes grupos de mulheres que não eram atendidas pelas reivindicações feministas das décadas anteriores.

E hoje? Estaríamos vivendo uma Quarta Onda do feminismo? E o tal pós-feminismo? Maíra Kubík Mano acredita que o feminismo, no que se refere a reivindicações, continua na Terceira Onda – na busca de reconhecimento e afirmação de nossas diferentes identidades. O que muda, certamente, é a forma com que o movimento se articula. Dessa perspectiva, não é possível pensar o feminismo contemporâneo sem levar em consideração a internet – e a propagação da informação dela decorrente.


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Parte do projeto Carne, o espetáculo homônimo da Kiwi Companhia de Teatro (SP) faz um panorama da opressão de gênero no Brasil com texto baseado nas obras da escritora austríaca Elfriede Jelinek e da historiadora francesa Michelle Perrot
 

iconografias do feminino

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Por Ana Paula Simioni

Curadora, doutora em Sociologia, professora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e autora de livros como Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Brasileiras, 1884-1922.

humor & informação

Como tudo nos últimos anos, a dimensão virtual de nossas vidas vem fazendo a diferença. Na internet, as ativistas encontraram novas formas de opressão – o machismo online sabe bem como ser agressivo. Mas a rede também oferece potenciais caminhos de libertação, cruzando experiências dos quatro cantos do mundo, alcançando os rincões mais distantes e abraçando realidades pessoais as mais distintas. E, a partir da articulação pela internet, vemos mais e mais mulheres na rua exigindo seus direitos.

“Graças à internet, sabemos que as mulheres na Argentina estão fazendo uma manifestação Nem Uma a Menos, contra a cultura do estupro, e podemos organizar manifestações no Brasil também”, diz a jornalista Juliana de Faria, que está à frente da Think Olga, organização não-governamental cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação. Em 2013, a ONG agitou a internet com a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio em lugares públicos. Uma enquete online com 7,762 mulheres, feita em parceria com a também jornalista Karin Hueck, revelou que a maioria esmagadora (99,6%) já sofreu assédio na rua e que 83% não gostam de receber cantadas. (confira a pesquisa completa).

A campanha e a pesquisa renderam alguma polêmica e muitos frutos: virou referência para as discussões fora do ambiente virtual, abasteceu cartilhas, motivou ações contra o assédio em espaços públicos e originou um documentário, ainda sem data de estreia, feito com dinheiro arrecadado online na plataforma de crowdfunding Catarse. “Iniciativas como essas acendem faíscas para o movimento feminista. É como alinhar peças de dominó: você derruba uma e vai derrubando todas as outras”, diz Juliana.


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A artista Evelyn Queiróz, a Negahamburguer, denuncia opressão e preconceito contra mulheres fora dos padrões estéticos – gordas ou magras, com peitos grandes ou pequenos... O objetivo é apoiar que as mulheres se apropriem e apreciem seu próprio corpo como ele é.


Outra característica dos movimentos feministas contemporâneos é a abordagem acessível de conceitos acadêmicos sobre questões de gênero e feminismo, além de uso do humor. São histórias em quadrinhos, cordéis, publicações independentes, canais de youtube e memes que expõem o machismo e expandem as ideias feministas. Para as redes sociais, é uma festa. Foi assim que a reportagem intitulada Bela, Recatada e do Lar, sobre a primeira-dama Marcela Temer, provocou uma reação irreverente a tais predicados. Centenas de mulheres publicaram fotos pessoais em situações nem sempre “belas”, nada “recatadas” e muito menos “do lar”. Várias foram reunidas em um Tumblr.

Campanhas e hashtags não faltam: #meuprimeiroassedio (mulheres contando suas próprias experiências nas redes sociais), #meuamigosecreto (histórias de machismo), #meucorpominhasregras etc.

Ainda que a internet seja uma ferramenta empolgante de ativismo, seu alcance precisa ser relativizado. “Quando vemos as pesquisas sobre o impacto das redes sociais por temas, constatamos que as pautas ficam limitadas a grupos isolados.” É a tal “bolha” do Facebook, que iludiu muita gente, por exemplo, nas eleições municipais no Brasil e na última disputa presidencial americana, quando nem os analistas políticos mais tradicionais perceberam o real poder de fogo de Donald Trump.





feminismo ou humanismo?

“Não sou feminista, sou humanista!” É provável que você, zanzando pelas esquinas das redes sociais, já tenha topado com variações dessa afirmação – há também quem oponha feminismo a “direitos humanos”. Trata-se, naturalmente, de uma falácia. “Feminismo é parte dos direitos humanos em geral – mas utilizar uma expressão tão vaga como ‘direitos humanos’ seria negar o problema específico do gênero”, escreveu Chimamanda no livro Sejamos Todos Feministas. “Seria um jeito de negar que o problema de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é sobre ser humano, mas especificamente sobre ser uma mulher.”

Para Kubík Mano, ainda é necessário se autodenominar mulher – tornar-se – e declarar-se feminista para reconhecer que, “se a nossa existência desigual é uma construção social, ao mesmo tempo ela tem vida material”, explica. Isso culmina, em grau máximo, em feminicídio, estupro, assédio e outras violências a que as mulheres são submetidas cotidianamente. E é preciso tratar dessas questões da maneira mais inclusiva possível – em certa medida, o feminismo é ele mesmo uma reafirmação do humanismo e dos direitos humanos, em especial as minorias.

 

artistas & o feminino

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A questão remete à própria característica da terceira onda do movimento. Em uma sociedade ideal, em que o homem branco cisgênero hétero não fosse o ser humano de referência que oprime e tenta conformar os demais, as mulheres não precisariam se afirmar como “os outros” – mulheres, negros, indígenas, asiáticos, LGBTs, pessoas com deficiência, gordos... classificações criadas indistintamente para diferenciar quem não se encaixa no padrão do que é ser humano.

Daí outra discussão comum: homem, devidamente encaixado no padrão de referência social, pode ser feminista? A vertente interseccional do feminismo admite a participação de homens cis na militância, enquanto outras ideologias feministas preferem que os homens fiquem de fora. A empatia masculina à causa não é proibida, claro, uma vez que essa separação entre homens e mulheres é uma construção social que também limita a forma masculina de expressar o mundo.

Por outro lado, é da natureza essencial do feminismo que o homem não tenha qualquer protagonismo nesse enfrentamento. Feminista radical, a artista plástica Alice Portos aproveitou a Marcha das Vadias – que luta contra a culpabilização das vítimas de estupro em razão do que vestem – para apontar como a participação dos homens pode até ser bem-intencionada, mas equivocada. A partir de fotos das manifestações, Alice Portos recorta, ilustra e evidencia esses equívocos, abusando da ironia nos comentários. Sua série de “homens feministos” circula online pelo tumblr e também virou um zine lançado em janeiro de 2016.








arte salvamento

O trabalho de Alice, junto com projetos como a da Kiwi Companhia de Teatro e de Negahamburguer, exibidos acima, estão em sintonia com um espírito do tempo em que a arte tem papel central na afirmação de identidades, propagando as novas ideias e as demandas do movimento, dentro e fora do ambiente virtual.

Na literatura brasileira, por exemplo, chama a atenção a poeta (poetisa) Angélica Freitas. Autora de livros como Rilke Shake (2007) e Um Útero é do Tamanho de um Punho (2013), a gaúcha integra também o coletivo Casa Cultural Las Vulvas, que prioriza o protagonismo de mulheres na produção cultural. Em seus poemas, rompe com o que se espera de um comportamento “de mulher”, tanto ao virá-lo do avesso quanto ao expô-lo incessantemente até que se revele ridículo, despropositado, impossível.



“(...) um útero é do tamanho de um punho/ num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas que não usam contraceptivos/ cabem as senhoras católicas/ militando diante das clínicas às 6h/ na cidade do México/ e cabem seus maridos/ em casa dormindo/ cabem cabem/ sim cabem/ e depois vão/ comprar pão (...)”

Sem pedir desculpas nem licença, Angélica Freitas expõe medos, inseguranças, desejos e a difícil busca pelo equilíbrio entre agradar-se e aos outros. Suas bem trabalhadas e concisas linhas passam a sensação de que elas retratam histórias reais, mulheres em múltiplos estereótipos – impossível não identificar-se em algum (ns) dele (s).

“a mulher é uma construção / deve ser/ a mulher basicamente é pra ser/ um conjunto habitacional/ tudo igual/ tudo rebocado/ só muda a cor (...) a mulher é uma construção/ maquiagem é camuflagem/ toda mulher tem um amigo gay/ como é bom ter amigos/ todos os amigos tem um amigo gay/ que tem uma mulher/ que o chama de fred astaire/ neste ponto, já é tarde/ as psicólogas do café freud/ se olham e sorriem/ nada vai mudar –/ nada nunca vai mudar –/ a mulher é uma construção”

mulheres gorilas

Desde 1985 o coletivo Guerrilla Girls usa faz da própria arte o mote para denunciar o desequilíbrio de gênero no mundo das artes visuais
por Livia Aguiar

Impossível falar de arte contemporânea feminista sem lembrar das Guerrilla Girls, o coletivo internacional de artistas mulheres cujas identidades ficam ocultas sob máscaras de gorila. Por meio de pôsteres, adesivos, outdoors, intervenções urbanas e até instalações e performances dentro de museus, as Guerrilla Girls querem o fim da desigualdade no mundo da arte.

O coletivo começou em 1985, quando o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York abriu uma exposição com 169 artistas e apenas 13 eram mulheres. Revoltadas, mas com humor, as artistas anônimas vestiram suas máscaras e foram às ruas para denunciar esse e outros desequilíbrios. “Quantas mulheres tiveram exposições individuais em algum museu de Nova York no ano passado?", perguntavam num pôster. Desta vez, só o MoMA se livrava – Guggenheim, Metropolitan e Whitney estavam entre aquelas sem rastro de presença feminina na programação.

Um outro momento memorável aconteceu em 1989, quando as mulheres gorilas produziram um cartaz apontando o dedo para o machismo do Metropolitan e, também, da tradição masculina na arte moderna refletida no acervo da instituição.

As mulheres precisam ficar peladas para entrar no Met? Menos de 5% dos artistas da seção de Arte Moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos”. Em 30 anos, essa representatividade mudou pouco… em 2012 as artistas recontaram as obras e averiguaram que apenas 4% das artistas nas seções de arte Moderna e Contemporânea eram mulheres, com 76% dos nus sendo femininos.

Liberdade

O coletivo pode até ter começado na rua, mas também foi ganhando espaço em museus e galerias. No segundo semestre de 2016, as artistas participam de cinco exposições nos Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Dentre elas, a instalação comissionada na Galeria Whitechapel, Londres, intitulada It’s Still even Worse in Europe (“Ainda é bem pior na Europa”) está em cartaz até março de 2017. A obra, que revisita um cartaz do movimento de 1986, traz as respostas a questionários enviados a 383 diretores de espaços expositivos europeus sobre diversidade em seu programa de exibições e coleções. Apenas 25% do total responderam às questões.

O uso de máscaras de gorila permite que as artistas eliminem o frequente escrutínio da aparência física das mulheres (não só na arte, mas em todas as esferas) e deem foco no que realmente interessa: sua arte e o que ela tem a dizer. Além do mais, “usar essa máscara dá um certo tipo de liberdade para dizer qualquer coisa que eu quiser. Se você está em uma situação em que você está com um pouco de medo de se pronunciar, coloque uma máscara! Você não vai acreditar no que vai sair”, disse uma das artistas-membro ao jornal The New York Times. Seu codinome: Frida Kahlo.

O coletivo teve uma variação flutuante de membros ao longo dos seus 31 anos de história, sendo que o máximo foram 30 artistas e hoje são apenas 5 – algumas saíram para buscar reconhecimento pessoal, deixaram de ser artistas ou continuaram atuando no anonimato, tendo se desvinculado por diferenças ideológicas. O coletivo também dá palestras e workshops em universidades e publicou livros com foco em história da arte (contada por mulheres) e estereótipos femininos.

Continuar lendo texto, de Livia Aguiar

De poema a poema, o universo das possibilidades para suas perfiladas vai se expandindo até termos certeza de que uma mulher pode ser quem ela quiser – se ainda não na vida real, pelo menos nas palavras.

Há expressões literárias mais heterodoxas – e mais diretas no engajamento feminista. Um caso é o da poesia slam – uma competição entre poetas cujos moldes nasceram em Chicago, nos Estados Unidos, na década de 1980. Performers que transbordam revolta, ritmo e confronto recitam seus anseios em disputas marginais, em locais públicos e privados, na periferia e no centrão – não por acaso, o rap tem origem nos slams.

Ainda que seja um meio com maioria masculina, as minas estão marcando seu espaço e encontros com disputas exclusivamente femininas estão crescendo, com destaque para o Slam das Minas do Distrito Federal, o primeiro slam brasileiro organizado por e para lésbicas. Nessa disputa entre artesãs das palavras faladas, ganha quem colocar mais pingos nos is na cara dos opressores. Entre as que mandam bem na rima está a paulista Mel Duarte, que fez sucesso no sarau da Flip deste ano com as poesias centradas na identidade da mulher negra e contra a cultura do estupro, uma das bandeiras mais fortes do feminismo contemporâneo no Brasil.

outras fronteiras

No Brasil e no mundo, as iniciativas se multiplicam na mesma medida das diferentes causas. Em São Paulo, o Mamana Foto Coletivo reúne quatro fotógrafas de rua com a intenção de “dominar o mundo com mulheres fotógrafas”; na Coreia do Sul, a também fotógrafa Ji Yeo denuncia a indústria da cirurgia plástica no país; no México, a artista plástica Elina Chauvet expõe em suas obras o drama de uma nação recordista em feminicídios; na Jamaica, Ebony Patterson também explora a violência e questiona a masculinidade (essa instituição frágil) em seus painéis, com tapeçarias que retratam cenas de rua mesclados a elementos femininos; no Irã, a fotógrafa e filmmaker Shirin Neshat busca desconstruir as expectativas da sociedade sobre a mulher, especialmente a mulher muçulmana; em Gana e Estados Unidos, a cineasta Akosua Adoma Owusu expõe a colisão de identidades da mulher negra africana que migra para os Estados Unidos; na Rússia, Victoria Lomasko documenta com seus desenhos diversos episódios de repressão à livre expressão, como sua série de reportagens gráficas sobre o processo jurídico que condenou a banda punk feminista Pussy Riot à prisão.

Causas específicas não faltam, o que é bem ilustrativo de como o machismo segue firme. “A gente faz o que pode, a partir do nosso lugar de fala, com o dinheiro e os braços que a gente tem, é um trabalho de formiguinha”, diz Juliana de Faria.

Aos poucos, com o aumento do poder das mulheres sobre seus próprios corpos, vontades e destinos através da arte, da difusão de conhecimento com foco nas questões femininas, das manifestações na rua e das discussões nos almoços de família e grupos de amigos, uma nova forma de pensamento e de organização social vai se delineando, preparando terreno para que as próximas gerações possam viver em um mundo mais livre.







Sobre suas respostas:

batendo laje

Há 88 anos, no livro Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf dizia que a falta de condições objetivas, financeiras, era o principal empecilho das mulheres na literatura. Hoje, o que mudou para elas no mundo da cultura e do entretenimento?
por Paula Carvalho

Em 1928, Virginia Woolf deu duas concorridas conferências na Newnham College e na Girton College, instituições dedicadas ao ensino feminino em Cambridge. O resultado, ampliado, se transformou no revolucionário livro Um Teto Todo Seu, em que a escritora inglesa discutia a necessidade de as mulheres terem condições objetivas, financeiras, para poder se destacar no meio literário como os homens. Só assim, ela dizia, poderíamos, quem sabe, ver o surgimento de uma “irmã de Shakespeare”.

Na época, a literatura britânica já contava com medalhões do porte de Jane Austen, George Eliot, as irmãs Charlotte e Emily Brontë, além da própria Virginia. Mas reconhecimento era outra história: naquele 1928, por exemplo, três escritoras haviam levado o Nobel de Literatura em 26 edições; hoje, 88 anos depois, foram mais 11 em 83 premiações. Proporcionalmente, mais. Mas pouco, muito pouco.

Se o século que passou não foi brilhante para que as mulheres achassem seu “teto” na literatura, outras expressões artísticas assistiram a um processo diferente. O crescimento da indústria cultural e do mercado de entretenimento tiveram o mérito de levar nomes femininos ao primeiro plano da cena. Num país como o Brasil, em que a música sempre contou com uma constelação de estrelas mulheres, é importante notar que hoje, além de estamparem capas de discos, elas cavaram seu espaço em searas em que o domínio masculino persistia.

É o caso, por exemplo, de cantoras Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Bruna Viola na cena do sertanejo universitário. Ou, exemplo melhor ainda, o das mulheres rappers. Karol Conká, rapper curitibana que foi uma das estrelas da abertura das Olimpíadas, no ano passado, diz que “é um acontecimento” ser mulher, negra e do rap neste momento histórico. “Na época em que comecei a cantar”, ela diz, “para uma mina subir no palco, tinha que ter transado com alguém”.

Com a carreira consolidada depois de reunir seu próprio grupo de produtores, Karol já não enfrenta as dificuldades do início – e o sucesso foi consequência natural. “Pessoas que criticavam o que eu fazia antes, hoje cederam. Falam: que lindo o que você faz. E eu enxergo isso como um amadurecimento. Todo mundo tem o direito de não gostar disso aqui. Só não tem o direito de me atacar, porque se me atacar, eu vou atacar.”

Mulheres com teto

Nos bastidores, aliás, há mulheres que possuem mais que o próprio teto: são verdadeiras empreiteiras. Paula Lavigne, da Uns Produções; Flora Gil, da Gege Produções; e Eliane Dias, sócia da Boogie Naipe, são mulheres poderosas da indústria cultural que, além de tudo, carregam o simbolismo de terem saído das sombras gigantes de maridos – respectivamente, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mano Brown.

A Gege, tocada por Flora, é responsável por mais de 45 turnês de lançamentos de discos em todos os continentes do mundo. Nos últimos dois anos, promoveu junto com a Uns o show Caetano & Gil - Dois Amigos, Um Século de Música, que viajou todo o mundo. A Uns, de Paula Lavigne, além de administrar a carreira de Caetano, já produziu shows de Baby do Brasil, Criolo e Emicida e Maria Gadú. Fora a música, forneceu munição para produções de cinema como Lisbela e o Prisioneiro, Ó Paí, Ó, Benjamin, entre outros.

Eliane Dias talvez seja o caso mais emblemático: casada com o rapper Mano Brown desde o início dos Racionais MC’s, tentou por diversas vezes convencer Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock a se tornar a produtora da banda. Rejeitada, foi cursar a faculdade de direito, trabalhou como assessora parlamentar e só em 2012 assumiu a produção dos Racionais MC’s. Em uma entrevista recente, ao lançar o disco solo, Mano Brown comentou que o ano em que os Racionais mais fizeram shows não foi o seguinte ao lançamento de Sobrevivendo no Inferno ou Nada Como um Dia Após o Outro Dia, seus discos de maior sucesso, e sim 2016, com a turnê de Cores e Valores, com Eliane à frente.

Poucas luzes

Mas há ambientes incrivelmente mais resistentes. A francesa Alice Guy Blache (1873-1968), por exemplo, está entre os pioneiros do cinema – seu currículo soma centenas de curtas desde 1896, muito deles experimentando inovações técnicas. Ela também teve com o marido, Herbert Blache, seu próprio estúdio, a The Solax Company, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Entre as ousadias, a adoção de elencos inter-raciais.

Diante disso, é quase inacreditável que pensar que o primeiro Oscar de Melhor Direção só tenha ido parar na mão de uma mulher apenas sete anos atrás – Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror, em 2010. Foi só a quarta a ser indicada ao principal prêmio do cinema mundial.

Antes dela, não faltaram nomes fortes – a italiana Lina Wertmüller, por exemplo, foi assistente de direção de Giorgio De Lullo e Fellini (em 8 e ½), até estrear como diretora com I Basilichi (1963). Foi a primeira a ser indicada à estatueta de Hollywood por Pasqualino Settebellezze, de 1975. Mas o caso mais emblemático – e infame – foi o de Barbra Streisand. Primeira mulher a receber um Globo de Ouro na categoria direção (por Yentl, de 1983), ela estrelou, produziu e dirigiu O Príncipe das Marés (1991) adaptado de um livro de Pat Conroy. O filme foi indicado ao Oscar – mas a diretora, inexplicavelmente, não.

No Brasil, teto – e independência, por consequência – para quem trabalha no cinema é um luxo. Que dirá para mulheres. Para Tata Amaral, diretora de filmes como Hoje e Trago Comigo, ter uma produtora foi a única maneira que encontrou de dirigir as suas próprias histórias. Ela cuida, com a filha, Caru Alves de Souza, da Tangerina Entretenimento.

Mas afirma que, como líder na equipe de filmagem, nunca sentiu uma oposição de gênero. O machismo no cinema, diz, está expresso de outras formas: “Certa vez, fui indicada pela diretoria da associação de cineastas da qual fazia parte para ser representante de uma instância consultiva no âmbito federal. Uma série de outros colegas, numa reunião extraordinária, se reuniu para impedir esta indicação. Um dos argumentos: é preciso entender de leis e de toda a complexidade das regras de investimento e incentivo fiscal brasileiras. Por que, na opinião daquelas pessoas, eu não seria capaz de entender a complexidade destes mecanismos, com os quais trabalho diariamente?”, diz.

A diretora, que atua também em fóruns de discussão de gênero e está escrevendo (em parceria com Caru Alves de Souza, Eliane Natividade e Henrique Figueiredo) uma série que conta a história do cinema brasileiro através dos filmes feitos por mulheres, lembra que as diretoras mulheres ainda são 19%, num país de maioria de mulheres na população. “Quem está contando nossas histórias, as histórias de mulheres? Qual imagem estes 80% de homens cineastas estão produzindo sobre nós mulheres?”

Na correnteza

Nas artes plásticas, a desproporção é escancarada desde pelo menos 1985, quando o coletivo Guerrilla Girls apontou a sub-representatividade feminina no MoMa de Nova York – na exposição de então, elas calcularam que apenas 5% dos artistas eram mulheres, contra 85% dos nus femininos (leia acima). Nada que pudesse achar justificativa na trajetória delas nos séculos 19 e 20. “As mulheres foram fundamentais em diversos movimentos de vanguarda, como Mary Cassatt e Berthe Morisot no Impressionismo; Lee Krasner, Helen Frankenthaler e Elaine de Kooning no Impressionismo abstrato; Miriam Schapiro e Judy Chicago moldaram o movimento artístico feminista nos anos 1960 e 1970; e artistas contemporâneas como Kara Walker, Catherine Opie, Mickalene Thomas e Alex Prager continuam a romper as barreiras da arte”, diz Virginia Treanor, curadora do National Museum of Women in the Arts de Chicago.

Ainda assim, ela destaca, há uma larga diferença entre gêneros no mundo da arte. A curadora lembra que cerca de 60% dos estudantes de arte hoje são mulheres, e esta fração ainda não é proporcional no número de exposições solo nas galerias. Treanor nota que mercado da arte é, talvez, um dos nichos em que a disparidade mais se revela claramente: “Em 2014, o trabalho Jimson Weed/White Flower no. 1, de Georgia O’Keefe’s, se tornou o quadro mais caro vendido por uma mulher, por US$ 44,4 milhões. Em contraste, o quadro mais caro pintado por um homem é de Picasso, Les Femmes d’Alger, que foi vendido por US$ 179.4 milhões – uma diferença de 135 milhões de dólares.”

No Brasil, neste quesito, os dados são mais animadores. Se Vaso de Flores (1930), de Guignard, ostenta o título de obra mais cara arrematada em um leilão (R$ 5,7 milhões), ela é acompanhado de perto por Superfície Modulada no 4 (1957), de Lygia Clark (R$ 5,3 milhões). Entre os artistas vivos, quem está na ponta é a carioca Beatriz Milhazes, cujo quadro Meu Limão (2000) saiu por US$ 2,1 milhões na Sotheby’s, em Londres, em 2012. O recorde anterior de um brasileiro em leilão internacional pertencia a Adriana Varejão, com Parede com incisões à Fontana II, vendido por US$ 1,52 milhão em 2011.

Muitas batalhas se passaram desde as palestras de Virginia – e as mulheres conquistaram diversas delas: hoje em dia, existem as condições sociais para que elas possam ter uma renda própria e uma porta para fechar e, atrás dela, criar. Mas a discrepância ainda é evidente. Vale, ainda, o que Virginia disse àquelas moças em 1928: “Eu pediria a vocês que escrevessem todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja. De qualquer maneira, espero que vocês tenham dinheiro suficiente para viajar e vagar, para contemplar o futuro ou o passado do mundo, para sonhar com livros, tardar em esquinas de ruas e deixar que a linha de pensamento mergulhe fundo na correnteza.”

Continuar lendo texto, de Paula Carvalho
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