dias
melhores
virão?

Chemin de Chair

Mathilde Giron

Camila Holpert Numa cultura em que a palavra “homem” é sinônimo de “humanidade”, o desafio do futuro é criar uma semântica que melhor traduza as complexidades de ser humano.

Você já deu uma olhada no dicionário para ver a definição de feminino? Pois então, segundo o Michaelis, feminino é “1. Relativo a ou próprio de mulher./ 2. Relativo a ou próprio de fêmea./ 3. Relativo ao sexo que se caracteriza pelo ovário nos animais e nas plantas; fêmeo.” Ou seja, é aquilo que pertence ou está associado às mulheres.

É certo que toda palavra carrega um significado primário e muitos outros associados no modo como ela vai sendo empregada ao longo do tempo. Não raro, a língua normativa não consegue acompanhar as transformações impostas pela realidade. E o feminino, “relativo a ou próprio de mulher”, é um desses conceitos que atravessa uma das revoluções mais agudas do nosso tempo.

Se feminino é uma palavra em movimento acelerado, há outra bastante cristalizada: o androcentrismo, que significa, de acordo com o mesmo Michaelis, “Propensão a estabelecer o paradigma masculino como exclusivo representante do geral”. Cunhada pelo sociólogo americano Lester F. Ward (1841-1913), a palavra diz respeito não apenas a uma postura de valorização da visão masculina do mundo, mas também toma essa visão, diríamos “relativo a ou próprio de homem”, como referência para a totalidade das pessoas, inclusive para as mulheres. Não é por acaso que, até hoje, é comum usar a palavra “homem” como sinônimo de humanidade.

A origem desse equívoco linguístico é antiga. No século 4 a.C., o filósofo grego Aristóteles lançou mão, em sua Política, da ideia da “natureza das coisas” para montar a estrutura social e de poder na pólis. A cidadania plena estava reservada, segundo a tal ordem natural, para os aner-andros, os “homens feitos”. Excluía as mulheres, mas também os escravos homens – ou seja, Aristóteles não fazia uma distinção de gênero.

Na tradição filosófica que se seguiu, os papéis sociais ficaram amarrados a uma interpretação equivocada, em que o masculino acabou associado a um universal abstrato, supostamente neutro, do ser humano. E se “homem” era sinônimo de humanidade, seus valores correspondentes deveriam espelhar o modelo de humanidade ideal: “viril, combativa, dominadora e possuidora de propriedade”, na expressão da filósofa portuguesa Fernanda Henriques.

Não surpreende que todo esse arcabouço filosófico – distorcido – tenha colocado inúmeros obstáculos às mulheres na vida pública ao longo da história. Era, na letra maleável da hermenêutica, um lugar incompatível com a “natureza das coisas”, com a natureza das mulheres – inapta para a política, para o comando, relegada ao espaço privado. Daí a consolidação daquela outra palavrinha: patriarcado.

e se?

E SE...

...aquela obra de arte famosa tivesse sido feita na leitura de uma mulher?

Quatro artistas brasileiras mostram o resultado desse exercício de imaginação

civilização é
performance?

Chemin de Chair

Mathilde Giron

É o que sabemos: por muito tempo as mulheres vêm sendo tratadas como cidadãs de segunda classe. Durante a maior parte da história da humanidade seu papel se restringiu, com raríssimas exceções, ao espaço privado. Foi só por meio do ingresso em massa no mercado de trabalho, na metade do século passado, que a presença feminina se consolidou no espaço público. Mas a mulher não abriu mão de uma esfera para passar à outra. Ao contrário, ela acumulou papéis.

Chefiando lares ou nações, criando filhos ou empresas, alimentando sonhos e projetos pessoais ou coletivos, a mulher ainda vive numa realidade em que a igualdade de gênero está muito distante. Se de um lado existe a necessária luta feminista, de outro é preciso construir um cenário teórico que seja capaz de transformar o ser humano verdadeiramente, livrando-o das ideias tradicionais e preconcebidas.

A história oprimiu as mulheres, e o sentir foi massacrado junto com elas. Ao menos uma parte dele. Sentimentos e valores como compaixão, empatia, acolhimento, tolerância, generosidade, delicadeza foram chamados de valores femininos – e consequentemente, tratados como algo menor.

o próximo
intuitivo
Beatriz Goulart Considerado valor feminino, frequentemente associada à maternidade, a escuta intuitiva é também o meio de ouvir a voz de quem sofre violência – inclusive de gênero.

Intuição é conhecimento? Para Henri Bergson (1859-1941), sim. “A intuição está fundamentada na noção inicial que se tem sobre algo, que nasce da experiência sensorial, da apreensão imediata da realidade por coincidência com o objeto”, escreveu o filósofo francês.

Um exemplo bastante apreciado desse conhecimento é o da mãe que “escuta” o filho. Ela o faz intuitivamente, com o seu físico, aprimorando a escuta óssea, visceral. Poderosa e polissêmica, a mulher-mãe está aparelhada para ouvir as solicitações, atenta ao balbucio, ao gemido, discernindo a escuta do oco, da fome, do alimento percorrendo cavidades, a escuta seletiva do choro, da saciedade, da expulsão.

No entanto, se a mulher escolhe outra coisa que não ser mãe, ainda está sujeita a ser execrada como alguém que rejeita sua própria natureza. Que nega o papel a que estava destinada.

Da intolerância de gênero e suas respectivas “naturezas” não escapam nem os homens: quem quer que busque outras possibilidades de se relacionar, ou apenas negue o papel social da tríade pai-mãe-filho, esteio político da demarcação de gêneros, é alvo de abuso e morte. Nesse mundo em que a visão binária do mundo persiste, há ainda muitos tabus a serem quebrados, sujeições a serem rompidas, histórias a serem reescritas.

Escuta, uma arte

O fato é que a escuta intuitiva não é valor exclusivo das mulheres – nem, consequentemente, algo que pertença à “natureza” de qualquer gênero. Matriz de conhecimento e “apreensão da realidade”, nas palavras de Bergson, ela encontra terreno fértil inclusive no campo artístico.

Um exemplo é a performance Rolezinho Oficiante, da mineira Marta Neves. Trata-se de uma missa queer dividida em sete partes, oficiada por ela junto com o artista Marc Davi: Saudação Inicial; Textos Sagrados; Meditatio; Oratio; Oferendas; Oração Centrante da Contemplatio Final; e Despedida.

Para montar o texto, centrado nos abusos contra mulheres, bissexuais e trans, Marta Neves mesclou suas palavras com textos de terceiros numa poderosa encenação autoral. Entre os autores usados, Hilda Hilst, Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Nelson Rodrigues. Em Lectio Divina 1, uma das elegias de seus Textos Sagrados, conta a história de um hermafrodita de Santa Luzia, que foi registrado e criado como mulher, mas que luta pelo direito de usar um nome masculino, Luan.

Aos cinco anos, ele teve o órgão retirado cirurgicamente e, aos 18 anos, foi preso por falsidade ideológica ao mostrar a própria certidão de nascimento para policiais. Atualmente, Luan trabalha como pedreiro e vive com sua mulher e um filho. Sonha em constituir uma família formalmente: “Quero casar, registrar meu filho, trabalhar registrado para financiar um lote”.

Já na Lectio Divina 3, a história é contada pela mãe de uma pessoa que, na adolescência, trocou a identidade feminina pela masculina. “Troco os pronomes em alguns momentos”, diz a mãe. “Sofremos juntos durante o período de menstruação, apertamos todos os dias os seus seios em faixas e elásticos para não aparecer na roupa, compramos cuecas e falamos das meninas pelas quais se interessa.”

E, assim, as cantilenas vão revelando um misto de situações delicadas e terríveis, invisíveis até para quem aposta no transbordamento das fronteiras de gênero. São histórias que humanizam não só as causas, mas também seus protagonistas.

Silêncio, uma voz

Outro exemplo, diverso por contraste, é o de Nina Caetano. Dramaturga, atriz e professora, ela é autora da performance Espaço do Silêncio (2013), manifesto-denúncia contra o feminicídio já apresentado nas ruas de Belo Horizonte, São Paulo e Ouro Preto. Em um pano branco estendido no chão, ela pinta cruzes vermelhas, que funcionam como pequenas lápides de mulheres mortas – não raro por namorados e maridos, como informam histórias que ela coleta em jornais e exibe ao público.

Nesse ritual, Nina faz uma cruz vermelha também em sua boca, tornando-se ela mesma lápide. Desse modo, celebra no silêncio obstinado o direito de vociferar. “O silêncio, gosto dele ... para que as pessoas possam chegar às suas próprias questões. Busco me comunicar pelo olhar. O silêncio solicita a palavra... Procuro fazer a memória do crime e até, provavelmente, de sua impunidade e esquecimento”, escreve a artista.

Nos dois casos, trata-se de “ouvir” o que tem a dizer quem está à margem – e transformar isso em conhecimento num discurso que constrói com valores que não aplicam apenas à maternidade. Discurso político, mas fundamentalmente humano: atentos precisamos estar às solicitações de quem tem sua voz negada na sociedade.

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Para atender aos indicadores de performance que nortearam os rumos da humanidade até aqui, fragilidade e leveza deram lugar à força e à agressividade, por exemplo. Mas fragilidade e força não são características excludentes, tampouco a razão é própria dos homens, e a emoção, das mulheres. Aliás, feminino e masculino não são, para o ser o humano, o que fêmea e macho são para os animais. A vida é mais complexa que isso. E negar a complexidade humana não tornou as coisas mais fáceis.

“Não concordo com a divisão binária do mundo entre feminino e masculino. Mas eliminar fronteiras e interdições não é não é a mesma coisa que eliminar diferenças”, diz a psicanalista Maria Rita Kehl. “O desafio progressista não é o de abolir diferenças (a não ser as diferenças de direitos e de dignidade), mas o convívio pacífico e respeitoso com o diferente.”

Até porque o que vem pela frente é desconhecido. O que será do trabalho? Das profissões? E da maternidade? Dos relacionamentos então, o que dizer? Quantos gêneros existem e quantos existirão?

Legenda: As Meninas (1656), de Diego Velázquez, na releitura de Estela Sokol. “Se Velásquez Fosse Rrose Sélavy, o primeiro plano seria feminino.”

A própria economia, em sua tradição matemática, precisará reinventar seus indicadores. “Valores relacionais são imprescindíveis para se manter vivo na nova economia, mesmo que seja por razões econômicas”, afirma Ana Lavaquial, consultora em economia colaborativa. “Essas empresas que compõem a chamada economia colaborativa já são mais aderentes a esses valores emergentes. Para estar nela é preciso exercitar empatia, estar focado no entendimento do outro.”

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Mathilde Giron

o nobel
feminino
Almir de Freitas Nos últimos dez anos, o Nobel de Literatura quadruplicou o número de mulheres premiadas – um avanço que busca não apenas refletir os avanços sociais nesse período, mas também contribuir com eles.

Por sua própria natureza, instituições tradicionais dificilmente se livram da fama de conservadoras, lentas na adaptação às demandas a novos tempos. É um mal, por exemplo, que atinge as academias nacionais de letras, quase todas fundadas no século 19, sacudidas nas suas convicções beletristas no século 20, desorientadas num 21 que vai enterrando todas as antigas referências. Mas há exceções e trajetórias que escapam desse envelhecimento, quase tão natural quanto a vida.

A Academia Sueca, responsável pela escolha do Nobel de Literatura, é um desses casos que ilustra ao mesmo tempo essa natureza passadista e os movimentos em busca da própria superação. A escolha de Bob Dylan, no ano passado, é de todos os gestos o mais emblemático dessa tendência de buscar sintonia com os novos tempos.

Há outros sinais, contudo. Como se pode supor, o Nobel de Literatura atravessou a maior parte da sua história espelhando a pouca representação feminina na arte e na sociedade. Olhando friamente os números: desde 1901, quando o prêmio começou, até dez anos atrás, a proporção de mulheres indicadas era de cerca de 10% (10 entre 103 premiados no total); na última década, o número saltou para 40% (4 escritoras em 10 edições). Quase meio a meio.

Um avanço que indica não apenas uma tentativa de ecoar os avanços sociais, mas de contribuir com eles. Nesse sentido, vale tentar vislumbrar o que exatamente os 18 integrantes da Academia Sueca estabeleceram como critérios para fazer a ponte entre a tradição por ela construída e as obras dessas escritoras mulheres nos últimos dez anos. Em outras palavras: que tipo de diálogo essa instituição “masculina” vem fazendo com o universo “feminino”, e o que isso sinaliza para o futuro.

Pesos na balança

Braço literário da Fundação Nobel, cuja vocação é essencialmente humanista, a Academia Sueca sempre teve as causas sociais e políticas – além das técnicas e estéticas – como um dos componentes importantes nas suas escolhas, para o bem e para o mal. Isso já era verificável em autoras anteriormente premiadas – caso, por exemplo, da sul-africana Nadine Gordimer (1991), durante os anos de luta contra o apartheid, e da americana Toni Morrison (1993), na primeira onda do politicamente correto nas questões de gênero e etnia.

O que se disse, então, das quatro escritoras que equilibraram a balança de gênero nesses dez anos – a britânica Doris Lessing (2007), a romena Herta Müller (2009), a canadense Alice Munro (2013) e bielorussa Svetlana Aleksiévitch (2015)?

Destas, a mais conhecida por ocasião do anúncio era a primeira, Doris Lessing (1919-2013). Filha de pais britânicos, nascida no Irã e criada no Zimbábue, a escritora também foi a única que a Academia achou por bem destacar os aspectos femininos da sua obra. “Por transmitir a épica da experiência feminina e pelo ceticismo, ardor e força visionária com que escrutinou uma civilização dividida”, foi a justificativa para a outorga.

Boa parte dessa “experiência feminina” advém da leitura do livro The Golden Notebook (1960), em que a autora interliga conflitos emocionais e políticos da jovem escritora Anna Wulf. Na narrativa, Lessing perpassa os quatro diferentes cadernos de reflexões da personagem, cada um dedicado a um aspecto da sua vida, criando o quinto caderno, o tal “de ouro”.

O livro é tido como a obra-prima da escritora e um dos marcos da literatura feminista – coisa que ela própria rejeitava. Uma pista do inconsciente coletivo da academia estava dado: militantes e ideólogas dedicadas à causa estavam, provavelmente, fora dos planos. Mas trata-se, no fundo, apenas de uma questão de discurso: porque a exploração do imaginário feminino que Doris Lessing promoveu nos anos do pós-guerra foi, de fato, revolucionário para a construção das referências feministas.

Relações e tensões entre o masculino e feminino povoam o repertório de suas narrativas – um exercício que ecoa dobradinha pessoal-político de Golden Notebook. Lessing combinava perfeitamente com a tal da vocação da Academia: ao lado do registro individual, consciente da força do feminino na época, a visão abrangente de uma intelectual preocupada com as contradições do socialismo real, a corrida nuclear, o complexo mundo britânico pós-colonial e as tensões raciais daí advindas.

Questão de minorias

Dois anos depois de Lessing, mais política. Romena pertencente à minoria alemã do país, Herta Müller foi uma surpresa até a véspera do anúncio. “A densidade da poesia e a franqueza da prosa de Müller ilustram o panorama dos despossuídos”, anotou a academia.

Na trajetória de Müller, outros dramas: o pai havia pertencido à SS nazista na Romênia durante a Segunda Guerra Mundial; depois do conflito, com o país ocupado pelos soviéticos, a mãe foi deportada para um gulag, onde passou cinco anos prestando trabalhos forçados “para reconstruir a União Soviética”. Adulta já, Müller teve suas obras censuradas pelo regime ditatorial de Nicolau Ceaușescu.

Essa linha do tempo trágica perpassa uma obra que inclui romances como A Raposa já Era Caçador (1992); contos como os do livro de estreia, Depressões (1982); e ensaios. E não faltam episódios em suas histórias que revelam a tradição patriarcal encravada naquela verdadeira zona de crise – tanto dos costumes tradicionais da região em que nasceu (Banato) quanto no exercício cínico da misoginia por parte dos agentes do serviço secreto na “igualitária” Romênia comunista.

A mãe, conta, nunca falou sobre o período no gulag, para onde Stalin deportou 30 mil alemães romenos. Mas Herta relembrou o período no romance Tudo o que Tenho Levo Comigo (2009), em que ela usou depoimentos do poeta Oskar Pastior (1927-2006)para narrar a história de Leo Auberg, não por coincidência, durante cinco anos no campo de trabalhos forçados. Auberg não é mulher, mas – minoria das minorias – é um homossexual oprimido por um regime intolerante.

Epifanias

Daí foi uma boa mudança para Alice Munro, quatro anos depois. Em vez da política, o cotidiano; em vez da guerra, os conflitos morais. “Mestre da narrativa breve contemporânea”, destacou a academia, que também chamou a atenção para as “descrições de acontecimentos cotidianos mas decisivos, uma espécie de epifanias, que esclarecem a história e iluminam as questões existenciais.”

Essencialmente uma contista, a canadense é outra que não se sente confortável com sua associação ao feminismo. “Nunca penso se sou ou não”, afirmou certa vez. Mas Munro sabe perfeitamente que é dona de uma galeria de personagens femininos impactantes.

Entre elas está Sophia Kovalevsky, de Felicidade Demais (2009), conto que dá título a um dos seus principais títulos. Na narrativa, Munro recria ficcionalmente um episódio da vida de russa Kovalevsky (1850-1891), terceira mulher a se tornar professora de matemática na Suécia, no fim do século 19. O foco, entretanto, não é sobre uma pioneira que cavou seu espaço num mundo masculino: pela narrativa, espalham-se memórias e sonhos de uma mulher de 41 anos que, logo, estaria morta.

Numa viagem de trem até Estocolmo, Kovalevsky repassa amores, sonha com ela e a irmã na juventude em São Petersburgo, cruza referências literárias e políticas, de Dostoiévski à Comuna de Paris.

Às vezes, questões especificamente femininas surgem – e com um toque de sofisticação russa. “Como é terrível, pensa Sophia”, quando uma mulher, muito machucada, sobe no trem acompanhada de uma criança. “Como é terrível a sina das mulheres. E o que essa mulher poderia dizer se Sophia lhe contasse sobre as novas lutas, a batalha das mulheres pelo voto e postos na universidade? Ela talvez dissesse: Mas não é a vontade de Deus. E se Sophia a incitasse a se se livrar desse Deus e aguçasse sua mente, será que não olharia para ela – Sophia – com uma pena obstinada, e diria: Como aguentar viver esta vida sem Deus?”

História oral

E, finalmente, há a bielorrussa Svetlana Alexiévitch. “Por sua obra polifônica, um monumento do sofrimento e da coragem em nosso tempo”, nas palavras do júri. Nada é mais ilustrativo desse aspecto que os depoimentos de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial, reunidos no livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1985). Vale ver de novo, aliás, alguns desses depoimentos interpretados por Débora Falabella em um vídeo que abriu esta série da Bravo! sobre o feminino.

Primeira jornalista ser premiada com o Nobel, Svetlana construiu sua obra apoiada na história oral – buscando resgatar as opressões mais recônditas da antiga União Soviética. Foi com essa mesma proposta que escreveu também Zinky Boys (1992), em torno das histórias dos soldados suas famílias após o pesadelo da ocupação no Afeganistão; e Vozes de Tchernóbil (1997), com depoimentos de gente comum arrasada pelo acidente nuclear de 1986 na Ucrânia.

Na contabilidade final, a polifonia de vozes anônimas de Svetlana se junta aos conflitos de uma civilização dividida de Lessing; ao reiterado grito das minorias de Müller; à história iluminada na vida discretamente banal e trágica de Munro. Todas, cada uma a sua maneira, enxergando os dramas do passado e os desafios do futuro pela lente de um feminino que – como a Academia Sueca – não abdica da sua vocação humanista.

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novo
jogo

Chemin de Chair

Mathilde Giron

O fato é, aos poucos, os velhos conceitos estão ruindo. Não basta só mudar as regras, é preciso propor um novo jogo. Os valores que foram menosprezados junto com as mulheres e sufocados por tantos anos, abraçam essa complexidade. Eles, ao contrário da produtividade, não são classificáveis numa tabela.

Entra em cena o direito a se emocionar. E a colocar mais afeto nas relações. A cuidar melhor de si e dos outros, criando novos espelhos para as novas gerações.

Esses valores, tão negligenciados, ajudam a resgatar o mundo da ditadura da produção e da performance, valorizando o comprometimento emocional. Para que o jogo seja outro, mais justo para todos, é preciso um novo padrão de sucesso, cuja medida passa pelo bem-estar e pela realização. Um padrão em que a exaustão deixa de ser considerada um sinal de progresso na vida, e a abdicação do convívio familiar e do ambiente doméstico, um pré-requisito para se dar bem profissionalmente.

Se a condição da vida é impermanência, o que sabemos é que tudo certamente vai mudar. Para avançar é preciso que assertividade, pragmatismo, perspicácia, coragem andem de mãos dadas com delicadeza, generosidade, empatia, compaixão. E que o nosso farto repertório de valores possa ser expresso nas suas múltiplas e melhores versões. Dentro e fora de casa.

Num mundo que luta para não ser binário, o futuro não pode ser feminino ou masculino. Ele merece ser mais humano.