Cultura sem fim

Por Rodrigo Martins

Fotos: Henk Nieman

A morte da velha indústria cultural pelos serviços de streaming desafia não apenas as antigas formas de distribuição e consumo de arte, mas também os rumos da produção independente e da própria estética cinematográfica

Era para ser só mais uma burocrática e enfadonha coletiva de imprensa. Às vésperas do Festival de Cannes, o júri presidido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar respondia a perguntas de repórteres do mundo todo e atendia àquela cobertura que lota as timelines do Instagram com fotos de red carpet e as do Facebook com polêmicas e gafes numa era que tudo acontece em tempo real. Até que resolveram questionar: por que os filmes lançados pela Netflix não poderiam mais concorrer à Palma de Ouro?

Este ano, 2017, foi o primeiro – e por ora último – em que o festival de cinema mais importante do mundo selecionou filmes lançados por uma plataforma de streaming, não nos cinemas. Okja, de Bong Joon-ho, e The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach, são produções da Netflix. Foi só a seleção ser divulgada que as salas de cinema francesas ficaram revoltadas. A sessão de Okja foi vaiada, inclusive. Não adiantou nem o próprio CEO da Netflix, Reed Hastings, protestar afirmando que “o establishment está se unindo contra nós”. Nada de Netflix no ano que vem. Cannes recuou.

Naquela coletiva de imprensa, quem vocalizou a insatisfação da indústria do cinema foi Almodóvar. “Netflix é uma nova plataforma para oferecer conteúdo pago, o que, em princípio, é bom e enriquecedor. No entanto, esta nova forma de consumo não pode tentar substituir as já existentes, não pode alterar o hábito de espectadores”, afirmou. “Parece um enorme paradoxo dar uma Palma de Ouro ou qualquer outro prêmio a um filme que não pode ser visto na tela grande. Respeito as novas tecnologias, mas enquanto continuar vivo vou defender algo que as novas gerações parecem não conhecer: a capacidade hipnótica de uma tela”.

O debate acalorado em Cannes dá o tom do momento em que estamos vivendo na cultura, em especial na música e no cinema. A Netflix, por exemplo, tem cerca de 100 milhões de assinantes em 130 países e sucessos e mais sucessos com suas produções próprias. A Amazon, a gigante dos livros na internet, é outra que aposta no filão. No fim do ano passado, foi ainda mais agressiva que a Netflix e expandiu seu serviço de streaming de vídeos, até então disponível em cinco países, para mais 200. A empresa não divulga a quantidade de assinantes, porém, segundo consultorias como a eMarketer, gira em torno de 76 milhões.

Há movimentações no mesmo sentido de HBO e Hulu, ambas ligadas a estúdios de cinema. No Brasil, empresas de TV por assinatura tentam competir com a febre e lançaram serviços como o Now, da Net. A própria Rede Globo tem seu próprio aplicativo de streaming, o Globo Play, que já teve mais de 10 milhões de downloads e onde chega a disponibilizar séries que só irão estrear na TV aberta no ano seguinte.

"Respeito as novas tecnologias, mas enquanto continuar vivo vou defender algo que as novas gerações parecem não conhecer: a capacidade hipnótica de uma tela" Pedro Almodóvar
Quem matou o cinema?

Alexandre Matias

À parte o exagero da pergunta, foi 'Twin Peaks' quem, nos anos 90, levou a estética do cinema para a TV, inaugurando a atual era de ouro das séries. E agora pode estar dando um salto ainda maior

Se hoje chamamos a atual produção televisiva norte-americana de “nova era de ouro da TV”, e se o formato seriado parece abrir níveis de complexidade difíceis de serem atingidos no cinema comercial, não há dúvida que estas duas vertentes foram inauguradas há um quarto de século, quando David Lynch e Mark Frost inseminaram em um formato tido como estéril e emburrecedor a semente para que ele se tornasse uma das principais expressões da cultura contemporânea. Twin Peaks, o seriado que criaram juntos no início dos anos 90, é o big bang da atual safra de seriados. E seu improvável retorno neste ano parece abalar as estruturas do meio da mesma forma que sua primeira vinda há um quarto de século.

Antes de Twin Peaks, seriados norte-americanos eram um formato raso. Produzidos em massa como passatempo para serem consumidos nas horas vagas, contavam histórias triviais em que todos seus contratempos eram resolvidos em um episódio. Você não precisava acompanhar o seriado para saber o que estava acontecendo, e as mudanças – casamentos, divórcios, novos personagens – ocorriam com o passar dos anos. A televisão não se misturava com o cinema – era um subproduto cinematográfico que Hollywood preferia evitar.

Foi quando David Lynch e Mark Frost foram convidados para contar a história de Marilyn Monroe em um filme feito para a televisão. Frost já havia feito história na TV com o seriado Hill Street Blues (1981-1987), que acompanhava o dia-a-dia de uma delegacia que não necessariamente seguia os mesmos personagens todos episódios. Foi a partir deste seriado que a TV começou a mudar sua noção de continuidade narrativa, com personagens que apareciam e desapareciam da série sem dar notícias. A série não era sobre personagens, mas sobre um ambiente em que aqueles personagens viviam.

Lynch, por sua vez, vinha aos poucos conseguindo se equilibrar como um diretor comercial. O estranhíssimo Eraserhead (1977) continuava um alienígena em sua filmografia, que aos poucos ia acomodando sua bizarrice em filmes sobre um homem deformado (O Homem Elefante, 1980) e uma ficção científica (Duna, 1984) até achar no quintal do white trash norte-americano o melhor ninho para suas alucinações surreais, primeiro em Veludo Azul (1986) e depois em Coração Selvagem (1990). Ele sabia que conseguiria desenvolver melhor aquilo se tivesse mais tempo.

Lynch e Frost abortaram o projeto sobre Marilyn quando começaram a pender demais para as teorias de conspiração que indicavam que sua morte estaria ligada ao caso que a atriz teria tido com os dois irmãos Kennedy. Mas a partir dessa premissa começaram a escrever uma história parecida só que em uma escala bem menor – como um assassinato em uma pequena cidade do interior dos EUA poderia esconder uma série de segredos sobre essa mesma cidade.

Assim eles criaram Twin Peaks, uma cidade fictícia no noroeste norte-americano que é abalada pela notícia da morte de uma de suas adolescentes mais populares, a perfeita Laura Palmer, vivida por Sheryl Lee. Quando seu corpo é retirado amarrado em um saco plástico de dentro de um rio, a garota dá origem a uma série de desdobramentos de diferentes naturezas, que se desenvolvem a partir da chegada do agente do FBI Dale Cooper, vivido por Kyle MacLachlan, à cidade.

Até aí, tudo bem, nada indicava que Twin Peaks poderia ser algo mais profundo do que uma série policial em busca do assassino de uma personagem carismática. Mas a estranheza de David Lynch começa a tomar conta quando, aos poucos, outros elementos começam a se misturar com a história principal. Aos poucos descobrimos que os moradores da cidade são bem esquisitos e têm manias improváveis. Ao arranhar a superfície da pequena cidade, Lynch aos poucos vai nos revelando um universo de perversões, maldades e desvios de caráter que misturam a pacata cidadezinha com sexo, drogas, violência, rock’n’roll e sobrenatural.

Cabe a Frost costurar os devaneios de Lynch, mostrando as amarras improváveis entre personagens distintos. E a usar Twin Peaks como uma espécie de paródia das telenovelas norte-americanas, os únicos seriados que tinham uma narrativa contínua e que, talvez justamente por isso, eram ridicularizados como pior que os seriados da época. A dupla mergulha no coração tradicional dos Estados Unidos para mostrar pessoas desvirtuadas, estranhas e malucas fazendo coisas sem o menor sentido, atendo-se a superstições e paranoias, enquanto um universo em outra dimensão – de cortinas vermelhas, chão de ziguezague, anões que falam de trás para frente, gigantes, anéis e creme de milho – parece observar tudo à distância, monitorando e eventualmente intervindo em nosso plano de realidade.

A série teve duas temporadas e foi um fenômeno de audiência, uma febre popular que nunca tinha alcançado aquele formato. Em tempos pré-internet, o boca a boca elevava a dúvida sobre o assassino de Laura Palmer para os estranhos caminhos traçados pelo seriado, que misturava os anos 80 aos 50, criando uma sociedade norte-americana ingênua mas ao mesmo tempo bizarra e suspeita.

Mitologias

O sucesso repentino do programa fez a emissora ABC intervir cada vez mais no seriado, querendo faturar em cima de algo que nem tinha ideia como fazia sucesso, e obrigou David Lynch e Mark Frost a revelar o assassino de Laura Palmer, algo que os dois não queriam fazer por achar que a resposta enfraqueceria o mistério. A revelação, no início da segunda temporada, fez Lynch abandonar a série no meio, retornando apenas para o último episódio, que terminou de um jeito ainda mais estranho e culminou com o cancelamento da série.

A decisão da emissora ABC fez Lynch buscar outro fio condutor para aquela história, criando o filme Fire Walk with Me (1992), em que contava a história dos últimos dias de Laura Palmer ao mesmo tempo em que se afundava ainda mais na estranheza da série. O filme até hoje divide opiniões – foi vaiado ao ser exibido em Cannes e fez muitos fãs torcerem o nariz. Mas aprofundou-se em questões que tornaram o seriado cult – como, por exemplo, ter Chris Isaak e David Bowie como integrantes do elenco.

Esse estranho caleidoscópio narrativo pariu praticamente todo o universo de seriado em que navegamos hoje. Não dá para imaginar séries como Lost, The Killing, Alias, Westworld, Fargo, Mr. Robot, True Detective, Buffy – A Caça-Vampiros, Arquivo X e Desperate Housewives sem a falsa ingenuidade white trash, a construção de mitologias, os personagens excêntricos, as investigações sobrenaturais e o suspense policial criados em Twin Peaks. Mesmo o hiperrealismo, a tensão paranoica, o surrealismo e a violência do seriado abriram brechas para a existência de Walking Dead, Breaking Bad, 24 Horas, The Wire e Sopranos. Fora o fato da série existir em nosso inconsciente de diversas formas.

O que Lynch e Frost fizeram foi levar a estética do cinema de arte para a televisão. Se assistidas hoje as duas primeiras temporadas de Twin Peaks não parecem tão bizarras, é porque elas mudaram completamente a paisagem da televisão no início dos anos 90. Borraram as fronteiras entre gêneros, ultrapassaram expectativas, apelaram para o surrealismo e a psicodelia e abandonaram a racionalização e o sentido, preferindo jogar os espectadores em um mar de imagens e sons que por si só já se bastava.

Foi esse movimento de levar o cinema para a televisão que proporcionou o movimento inverso. Antes de Twin Peaks apenas Michael J. Fox havia conseguido fazer a transição da televisão para o cinema. Depois da série, atores que hoje figuram entre os maiores de Hollywood – como Will Smith e George Clooney – puderam tentar o cinema comercial a partir de suas incursões na TV. Essa tendência aconteceu ao mesmo tempo em que Hollywood passou a apostar cada vez menos no risco e em desafios narrativos, resumindo suas principais produções a remakes, continuações ou adaptações de sucessos de outras mídias (livros, quadrinhos e TV, principalmente) para as grandes telas.

Não por acaso as temporadas das principais séries hoje em dia são vistas como filmes de algumas horas de duração – mesmo obras ousadas e ambiciosas, como Game of Thrones, True Detective e Westworld, até outras menos sérias, como Stranger Things. E não por acaso Lynch resolveu retomar Twin Peaks 25 anos depois com essa mesma premissa: é um filme de 18 horas (por ser uma temporada de dezoito episódios).

E até agora Lynch está superando o esperado. Se começou a terceira temporada de Twin Peaks confundindo todo mundo com cenas fora da cidade e esvaziando seu principal trunfo (o Agente Cooper, que voltou à série completamente fora de si), aos poucos foi juntando os pontos e entregando o ouro, concretizando expectativas que os fãs esperavam há décadas.

Mas com o episódio 8, batizado de Got a Light?, ele subverte mais uma vez os rumos da televisão, e pode ter iniciado uma revolução ainda maior que a que começou há um quarto de século, principalmente porque agora qualquer um com acesso à tecnologia digital consegue produzir seus próprios filmes e séries sem muito custo ou esforço, e pela série estar sendo exibida globalmente através do Netflix.

A revolução já pode estar acontecendo – e só vamos perceber seu impacto daqui uns anos.

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Em que pesem protestos como os de Cannes, o fato é que a internet tem sido muitas vezes a tábua de salvação para estúdios de cinema e das gravadoras de discos. Na música, Spotify, Deezer, Napster e outros sem-número de aplicativos de streaming já são responsáveis pelo maior lucro da indústria numa época em que o celular se tornou o walkman dos anos 2010. Enquanto a venda de CDs continua a despencar – queda de 21% no ano passado –, o streaming chegou pela primeira vez à posição de maior responsável pelo lucro da indústria fonográfica, com 51%.

No meio disso tudo, um velho conhecido nosso continua a fazer sucesso: o YouTube, que já pode ser considerado o vovô dos serviços de streaming, tem nada menos que 1,5 bilhão de usuários mensais, que passam em média uma hora por dia consumindo conteúdos, principalmente pelo celular.

Tamanha mudança parece apontar para uma oferta de conteúdo que tende ao infinito. No que se refere a conteúdo, serviços de música chegam a 40 milhões de faixas disponíveis e, no mundo todo, a Netflix tem 1 milhão de conteúdos audiovisuais para assinantes – no Brasil, estima-se que seja próximo de 25 mil. Se você pensar em YouTube, então, daí o negócio fica gigantesco. Há mais de 1 bilhão de vídeos, com 300 horas de conteúdo sendo publicadas a cada minuto. Segundo a empresa, nada menos que 1 bilhão de horas de vídeo são consumidas diariamente.

Admirável indústria nova

Adhemar Oliveira é diretor de programação dos circuitos Itaú Cinemas, Cinespaço e Cinearte. Quando fomos conversar, ele logo iniciou com uma frase melancólica: “Quando a morte é iminente, você sente mais a vida.” Segundo ele, a oferta de conteúdos ilimitados pela internet banalizou, sim, as salas de cinema. “Antes, você tinha de correr para ver os filmes, senão eles sairiam de cartaz. As pessoas perderam esta busca. Qual a diferença entre ver um quadro no museu ou pela tela do computador? Eu, pessoalmente, ainda vou a museus, mas daqui a 30 anos pode ser normal alguém fazer um trabalho acadêmico olhando as obras digitalmente”, provoca.

Defensor do que a indústria chama de janela de exibição, que é o lançamento antes no cinema para depois ir para outras plataformas, de streaming a TVs paga e aberta, Adhemar afirma que cada vez mais os filmes entram em mais salas ao mesmo tempo e ficam menos tempo em cartaz. “Você precisa lucrar o máximo possível em menor tempo possível, senão as pessoas vão preferir consumir de outras formas.” De toda forma, diz, a sua grande aposta é na curadoria, para ele o ponto fraco dos serviços de streaming.

“Hoje, já colocamos até em cartaz filmes feitos com celular. Há uma produção gigantesca, globalizada, que antes não circulava mundialmente como circula hoje. Filmes que você só conseguiria ver na Mostra de Cinema, por exemplo, estão disponíveis na rede. Antes, eu frequentava festivais pelo mundo e achava que estava informado. Hoje, você não consegue nem acompanhar a produção nacional. Minha aposta, cada vez mais, é procurar filmes diferentes. Não ir a festivais para trazer apenas aquilo que todos estão falando, mas frequentar sessões menores para descobrir coisas que só nós tenhamos. Esta é a forma como estamos vendo de nos diferenciar.”

Drama real

Por Edelcio Mostaço

Numa sociedade excitada pelo virtual, a sobrevivência do teatro está de fato ameaçada. Mas, fugindo dos padrões convencionais de encenação, já há bastante gente achando alternativas

O pulso acelera, os tuítes rolam em cascata, quem respondeu à hashstag que você fez ontem? A vida atual é regulada em micromilésimos de segundo, e o coração bate acelerado com a avalanche de novas informações cruzando os céus digitais. Não serei, nem terei sido, grita o Senhor do Tempo, recordando que a vida humana escoa através dele, implacável. A aceleração dos cronômetros há muito é investigada pelas ciências ligadas ao comportamento humano e suas conclusões não são nada favoráveis: a cada dia, perdemos mais tempo.

Sob o signo dessa sociedade excitada, que futuro aguarda o teatro? Ele é uma arte do tempo, decanta e toma corpo através de processos considerados lentos, especialmente pelos atuais padrões, quando múltiplos aceleradores projetam imagens em alta velocidade nas telas da sociedade global. Muitos já prognosticaram a falência da cena no embate com as novas tecnologias, mas, sobretudo, à essa sensação de pressa que domina a vida, de modo que ele não mais seria capaz de registrá-la. Por outro lado, a lógica de mercado avisa que um produto, para ser rentável, deve conter em seu próprio enunciado a possibilidade de sua reprodução.

São dilemas que parecem não ter fim.

Ao menos para aqueles que continuam pensando o teatro nos moldes consagrados – um texto levado à cena, num edifício tal e num horário qual –, onde você se senta para acompanhar flagrantes de personagens se entrechocando. Se a peça é boa, dá para aguentar 15 minutos sem conferir o smartphone, mas se ela ronrona, cria barriga, o desespero bate e a vontade de estar em outro lugar torna-se urgente. Além disso, é preciso prestar atenção. E esse parece ser o maior empecilho que os produtores teatrais encontram para retirar o público da circulação e acomodá-lo, mesmo que por meros 50 minutos, em cadeiras às escuras.  

Entre os jovens, a situação piora. Treinados em sacolejar na rave, a comerem dando cambalhotas, a namorarem saltando de paraquedas, eles não sabem ficar quietos, numa ensandecida necessidade de movimento. Não apenas a atenção vai para o brejo, como também a absorção das percepções, o registro dos acontecimentos, a causa e o efeito. Pois, se tudo é movimento, nada se liga a nada. Cento e quarenta caracteres são mais que suficientes para exprimir uma admiração ou uma recusa, diz a nova lógica instantaneísta implantada nas redes sociais. E um emoji não mente jamais.

É essa disparidade entre expectativas que parece afastar o público do teatro, como se vivessem em tempos distintos quando, em realidade, foram feitos um para o outro. Como produto coletivo, o teatro possui um tempo de produção dilatado: é preciso afinar a sensibilidade da equipe, sintonizar os mesmos referenciais, produzindo um circuito de vontades e efetivações conjuntas. E isso requer paciência, espírito de equipe e – principalmente – tempo. Mas a produção de um filme mediano leva entre dez e quinze meses, argumentam outros, tentando justificar que não é a preparação, mas o resultado, o fator decisivo na comunicação com a plateia. De fato, a grande diferença está nos objetivos a serem alcançados. E se o teatro continuar sendo encarado a partir de padrões convencionais, nada indica que vá sobreviver.

Avatares

O que se conhece como modo dramático, o entrechoque de personalidades envolvidas numa certa situação diante de uma plateia, constitui o cerne do problema. Até recentemente os embates eram ao vivo, hoje não são mais. A discussão da situação, estribada em argumentos, também não encontra respaldo na era da pós-verdade, onde ninguém tem segurança sobre as próprias ideias. E a construção de um dado perfil psicológico, como antes percebido, hoje não reflete a dura realidade das falsificações, engodos e dissimulações que qualquer página de Facebook pode colocar no ar. Tudo isso contribui para alterar nossas percepções não apenas do cotidiano, mas, sobretudo, dos outros. Avatares substituem almas.

E nada é mais carnal e corpóreo que um ator, à sua frente, suando e resfolegando para dizer um texto muitas vezes distante das palavras comuns que fazem o cotidiano dos supermercados. Essa lacuna, atestada não apenas pela brutal diminuição do vocabulário como, sobretudo, a defasagem entre significados densos e simples emanações de emoções baratas e repetitivas, é outro fator que atrapalha os entendimentos. Até mesmo num espetáculo musical, moldado para ser diversão, o conteúdo das canções indica estados, direções ou pensamentos que requerem alguma atenção. Caso contrário, se perde o conjunto e sobra apenas o visual.  Num mundo sem meganarrativas, os enredos tendem a se pulverizar, isolados em frações de ações, distantes das antigas relações entre lé com cré, embora acadêmicos continuem falando em visão em paralaxe, síndrome do espelho, máquina de guerra, primazia do objeto, e outras expressões que soam, para muitos, um dialeto usado em Marte.

Cada vez mais a sociedade excitada é vítima das TDAH, déficit da atenção com hiperatividade, o que implica falta de foco, incapacidade de fixar um objetivo, terminar um livro ou ver um filme completo, uma vez que o indivíduo salta, abrupta e inteiramente, de uma coisa à outra. Desorganizado, vive num mundo inóspito e sem ordem, capaz de realizar várias atividades simultaneamente, embora não conclua nenhuma. Se ele já era um consumidor voraz, torna-se agora obsessivo, intratável, em busca de novos estímulos cuja cadeia atinge o insuportável para a capacidade cerebral. As tecnologias digitais estão por trás do fenômeno e, nas grandes cidades, cada vez mais indivíduos são diagnosticados com a síndrome.

Alerta a essas mudanças sensíveis na esfera social, o teatro vem procurando se adaptar ao novo ambiente, seja fazendo tele transmissões interativas, em que a plateia pode, através de mensagens enviadas à central, alterar ou definir o final da trama. Outra estratégia é apresentar certo conjunto de alternativas no início e, de acordo com as aprovações ou desaprovações, montar o roteiro de ações. Christiane Jatahy criou com a Companhia Vértice uma trilogia dedicada a materializar tais mesclas de linguagem e em Corte Seco (2014), um ambiente de intervenção onde ela, como encenadora, interrompia ou deflagrava outra sequência de cenas, tornando o espetáculo sempre uma composição dramatúrgica inédita.

Também no Rio de Janeiro, o grupo Teatro Voador Não Identificado investe nessa direção. “Em Shuffle, por exemplo, cada cena do espetáculo é associada a uma música. Ligamos um iPod no modo aleatório e a ordem das cenas é definida pelo aparelho. Ou seja, o espetáculo tem uma ordem diferente a cada dia e esta condição pode/deve modificar o sentido da própria peça”, declara o encenador Leandro Romano.

Em outra criação da equipe, Tempo Real (2016), periodicamente novas informações são acrescentadas pelos atores que usam seus smartphones para acessar notícias à medida em que elas são despejadas pela mídia. “Desta forma, procuramos aliar a experiência teatral à experiência tecnológica, sem transformá-la no tema principal das peças. A ideia é levar ao teatro a mesma relação que o espectador tem com a tecnologia fora dele. Não queremos ignorá-la e fingir que o teatro é um mundo à parte. O teatro, pelo contrário, é parte do mundo, e se a tecnologia muda nossa forma de lidar com o mundo, muda também nossa forma de lidar com o teatro”, ele conclui.

Softwares

Mostras e festivais também buscam novos caminhos, através de sites ou aplicativos que favoreçam a interatividade com os espectadores, capazes de fazer sugestões, apontar alternativas ou se manifestarem criticamente sobre os trabalhos apresentados. Ambientes imersivos, mostras guiadas por monitoramento eletrônico, instalações complexas que permitem ao espectador entrar no virtual da imagem são outros caminhos que estão sendo tentados para fazer frente à dispersão da sociedade excitada.

Da parte da indústria, por outro lado, novos softwares não param de surgir, como o Virtual Light Lab, de 2010, um programa que permite criar toda a programação de luz para um espetáculo, oferecendo infinitas possibilidades de arranjos cênicos. Não serve apenas para profissionais do ramo, mas para qualquer um que queira fazer seu teatro doméstico.

Opening Night é bem mais sofisticado: ele parte de um palco e uma plateia básicos, onde o usuário, através de uma interface interativa, pode ir acrescentando dados particulares – o cenário, as personagens, a iluminação, os objetos de cena, as falas, os deslocamentos, escolher músicas e vozes –, criando virtualmente uma nova peça. Comandos para avançar e recuar, gravar e editar etc., permitem grande autonomia e variabilidade de emprego. O programa é muito útil para encenadores, dramaturgos, atores, cenógrafos e toda a equipe restante da produção, extremamente manejável em excursões ou montagens que utilizam recursos multinacionais, equipes em diferentes países ou regiões. Mas nada impede que amadores, refestelados em seus sofás, dele desfrutem para criar uma peça que podem assistir em qualquer hora do dia ou da noite.

Falta-lhe vida, é bem verdade, como nos hologramas ou no RPG. Mas a cada dia mais e mais adeptos dessas traquitanas virtuais engrossam a chusma de consumidores embevecidos com o desenvolvimento da tecnologia. Se tudo isso é um arremedo de teatro, perdido o ritual que interliga atores e espectadores num mesmo fluxo de energia, restam iniciativas como as de José Celso Martinez Correa e do Teatro Oficina –uma maratona de quatro ou cinco horas que a todos integra numa efusão de ações intermediadas por imagens em telas virtuais. Ou aquelas criadas pelo flamengo Jan Fabre, cuja última grande criação, denominada Olympus, em 2015, proporcionou 24 horas de cenas estruturadas com o auxílio de uma aparatosa equipe multimídia encarregada de não deixar a cena perder o pique. Quem não dormiu nas barracas especialmente montadas fora do recinto e teve fôlego, acompanhou uma poderosa demonstração de teatralidade engendrada por um coletivo de intérpretes que não poupa esforços para deixar o público aceso.

Como já aconteceu em outros momentos de crise, o teatro vai sobreviver.       


Edelcio Mostaço é pesquisador do CNPq e professor na Universidade do Estado de Santa Catarina

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É uma brava luta, em muitos sentidos, contra a corrente. “A velha indústria cultural agora está descobrindo o que as pessoas já queriam desde a década de 90: acesso barato e fácil a grandes quantidades de conteúdos”, afirma o Pesquisador e Professor da Uerj Leonardo de Marchi. Ele lembra do surgimento do Napster, serviço que permitia a troca de arquivos, principalmente músicas, pela internet, o qual colocou a indústria em polvorosa com a pirataria. “O Napster mostrou que havia uma enorme demanda e que não cabia mais o modelo de banca de jornal, livraria, loja de discos e DVDs, cinema. Só agora, estão criando um modelo de negócios para isso.”

Vale ressaltar que a tal guerra contra a pirataria na internet está longe de seu fim. Recentemente, majors do cinema como Fox, Disney e Sony se uniram a novos players do mercado como Netflix e Hulu e velhos conhecidos da TV como BBC, Televisa e até a Rede Globo para criar mais uma associação mundial contra a pirataria, desta vez chamada Aliança Para a Criatividade de Entretenimento. No passado, estúdios de cinema e gravadoras se meteram em polêmicas ao fazerem lobbies para tentar aprovar legislações hiper-restritivas mundo afora que permitiriam aos governos até vigiar o que o usuário estava fazendo na internet.

No Brasil, em 2009, um projeto apelidado de “Lei Azeredo” – por ser proposto pelo deputado tucano Eduardo Azeredo – era acusado de permitir não apenas vigiar, mas punir quem fosse pego baixando conteúdo ilegal. A luta de ativistas contra a tal Lei Azeredo foi o início da construção do Marco Civil da Internet, elogiado por especialistas no mundo todo como uma legislação que, ao contrário do que queriam os lobbies da indústria, protege a privacidade dos usuários de internet.

Nesse mesmo ano, durante a realização do Fórum de Software Livre, em Porto Alegre, entrevistei para o Estadão Peter Sunde, um dos criadores do PirateBay, comunidade gigantesca de troca de arquivos, logo após ele ser condenado a um ano de prisão mais multa de US$ 3 milhões por incitar a pirataria. Ironicamente, ele estava calmo. Nos corredores gaúchos, era tratado como rockstar. Com um discurso que criticava de forma pesada a indústria por atacar seus próprios consumidores, ele defendia o modelo de negócios que só agora a indústria entendeu: “O conteúdo em si, sozinho, não tem mais valor, o que não o impede de se tornar lucrativo. Pode ter um preço. Quando é físico, tem um preço, pois é um objeto. Quando é digital, ao invés de vender a unidade, você precisa espalhar quanto mais possível.”

“Hoje, a maioria das pessoas não quer mais possuir o álbum físico, o mercado mudou”. A frase não é de Peter, mas de Paulo Rosa, presidente da associação das grandes gravadoras no Brasil, a Pró-Música. Paulo enaltece o que a indústria combatia há oito anos, quando ainda brigava para vender CDs ou download legalizado em serviços como o iTunes, que custava US$ 0,99 por faixa, não menos de R$ 20 para acesso ilimitado, como ocorre hoje com serviços como Spotify e Deezer. “O streaming é a nossa receita mais importante hoje. E quem puxa o streaming é o smartphone. Temos 260 milhões de celulares no Brasil e só 35% são smartphones.”

10 grandes histórias curtas Selecionados por Guilherme Werneck

A Bravo! sescolheu cinco curtas de ficção nacionais e cinco filmes estrangeiros,  de diferentes estilos, como uma amostra de como curadoria faz diferença nos tempos de abundância.

Facebook da cultura

Serviços de streaming tentam copiar as redes sociais, ao oferecer conteúdo mais personalizado e atraente, para você ficar mais tempo conectado. É a famosa “bolha”. “Queremos que o usuário ligue e deixe tocando. A maioria não quer pensar”, explica o diretor-geral do Deezer no Brasil, Bruno Vieira. O serviço analisa o que cada usuário ouve e, com base nisso, sugere artistas semelhantes numa ferramenta que usa algoritmos muito semelhantes ao que escolhe os posts no Facebook que você vai ver. Chama-se flow. Também é possível seguir amigos para acompanhar as músicas prediletas deles. “É como quando você tinha uma fita cassete ou um pendrive e emprestava. A gente é uma rede social de música.”

Como qualquer rede social com algoritmo, entretanto, há o risco de se ficar viciado no mesmo assunto. Como descobrir novos conteúdos culturais e ser surpreendido quando o algoritmo é construído de fato para entregar aquilo que você já espera? Serviços como o Deezer e o Spotify contrataram curadores ao redor do mundo para produzir playlists diversas, que vão desde estilos musicais a momentos de vida. Celebridades divulgam suas playlists. O próprio Netflix contrata pessoas para assistir e classificar filmes, um emprego que é considerado dos sonhos.

O desenvolvimento destes algoritmos, entretanto, está aquém do que deveria, afirma o pesquisador da Uerj Leonardo de Marchi. E isso porque a indústria de entretenimento não abre mão de seu papel central no processo. “Gravadoras não são mais gravadoras, elas fecharam seus estúdios para virarem agenciadoras de grandes estrelas. Qualquer artista precisa hoje de uma delas. São muitos serviços de streaming, muitos relatórios. Não dá para lidar com isso sozinho.” Paulo Rosa, representante das majors, confirma o novo cenário. “Antes, a popularidade de um artista era medida por venda de discos. Hoje, é por quantidade de seguidores nas redes, visualizações no YouTube, quanto tocou no streaming. É assim que são contratados para shows.”

Aquela coisa de um artista de música independente colocar sua música no MySpace e ela começar a fazer grande sucesso é mais difícil hoje. Mesmo com o estouro recente de fenômenos de massa, como o Kondzilla, o maior canal do YouTube no Brasil (com espantosos 10 milhões de assinantes) e que fez explodir fenômenos de massa como os funks Baile de Favela e Deu Onda, o que restou na música para os independentes foi, como no cinema de rua, a curadoria.

Artistas de pequeno porte estão, sim, sendo procurados pelo streaming. Porém, por meio de festivais de música independente pelo Brasil, explica Bruno Nogueira, pesquisador da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). “O que aconteceu na música é que, hoje, você não precisa mais ter um público muito grande para conseguir trabalhar. Com estas plataformas, você conquista uma base de fãs de 200, 300 pessoas em cada cidade. É nicho. E o Spotify, por exemplo, está de olho nestes festivais, nesta curadoria, para agregar este público.”

O cinema vai no sentido contrário ao dos festivais. Ao contrário da música, há um espaço grande para filmes independentes virarem fenômenos na internet. E os festivais limitam isto, explica o pesquisador em cinema da UFSCar João Massolo. “A sala de cinema hoje é só mais uma alternativa, não é a única. As pessoas fazem filmes apenas pensando em festivais. Falo para meus alunos: ‘Hoje, os caminhos são outros’. Veja a série 3% do Netflix, por exemplo. Ela começou como um piloto no YouTube e foi comprada pela Netflix. É um sucesso mundial. Você faz filme para ser visto. Esta coisa de fazer filme apenas para festival acabou.”

O cineasta escocês fala sobre a sua experiência fazendo documentários e filmes de ficção, sobre o papel da TV e sobre como ficam o cinema e a música na era do streaming.


Daniel Ribeiro sentiu isso na pele. Em 2010, o cineasta queria produzir seu primeiro longa, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. E fez antes um curta com a história, que gira em torno de um garoto cego que tem o primeiro amor gay na adolescência. O curta rodou vários festivais no Brasil. Pelas regras dos festivais, filmes postados em plataformas de streaming não podem concorrer. Mas volta e meia o filme surgia no YouTube, publicado pelos próprios fãs que iam descobrindo. Daniel ia lá e tirava. Uma hora, vendo o sucesso, deixou. Foram mais de 4 milhões de visualizações no YouTube até agora. E 1 milhão só de cara.

Com o sucesso do curta, o diretor já estava com o edital aprovado para o longa, lançado em 2014, e conseguiu captar de forma mais fácil o dinheiro para filmagem e distribuição. “Não tinha mais como lutar contra isso. Colocaram o filme em baixa definição. Fui lá e coloquei em alta. E mostramos aos patrocinadores que havia público para o longa. Eram milhões de garotos adolescentes que nunca tinham visto uma história de amor entre meninos. Fizemos 200 mil espectadores no cinema. Antes mesmo de sair no Netflix, já havia sites piratas com mais de 1 milhão de downloads do longa. Não me importo nem um pouco. O importante é dar acesso a quem antes não tinha.”

É este mesmo o segredo de um filme fazer sucesso nos cinemas ou burlando os algoritmos não tão precisos e conservadores dos serviços de streaming em épocas de abundância de conteúdos: tem de criar seu público na internet antes mesmo de o filme existir, afirma Paulo Sérgio Almeida, do veículo especializado em cinema Filme B. “Antes, você filmava e depois ia pensar na distribuição. Agora, você coloca a distribuição antes. Não adianta reclamar que seu filme não entra em cartaz. Cineasta brasileiro tem muito disso. Quer fazer o que chama de cinema de autor e depois acha que terá espaço garantido para exibição. Você precisa engajar seu público antes. Tem de botar seu filme na praça ainda na fase da ideia, divulgar em blog, redes sociais, site, contar o dia a dia, até chegar no definitivo.”

Estética de smartphone

Numa época em que 70% dos conteúdos do YouTube são acessados pela telinha do smartphone, há toda uma mudança na forma como os filmes são feitos. Há uma diferença drástica em como uma mesma obra seria feita para uma tela grande e uma tela pequena. É, inclusive, uma das principais perguntas que se faz hoje quando vai se produzir: onde este filme será exibido primeiro?, questiona Paulo Almeida, do Filme B. Na música não é diferente. Pense que você antes comprava um disco, colocava no seu aparelho de som e ouvia faixa a faixa. Quando você é guiado por algoritmos e playlists, como fica o próprio conceito de álbum?

“Acabou o conceito de álbum como produto fechado que conhecemos nos anos 60 e 70 com Beatles, Beach Boys, The Who. Essa experiência se perdeu com as playlists nos serviços de streaming. Você ouve vários artistas, um seguido do outro, sem parar. É um conceito diferente que tínhamos de obra fechada”, afirma o pesquisador da Uerj Leonardo de Marchi. “Os artistas até podem continuar a querer lançar um disco fechado, mas não temos mais tempo para ouvir um álbum todo. Com tanto conteúdo disponível, na terceira música, o sujeito troca. E, mesmo se não trocar, quando acabar o disco, o próprio algoritmo do sistema vai começar a tocar outras músicas. Ou seja, a experiência do álbum fechado acabou.”

No cinema, a mesma coisa. Uma tela pequena do celular exige mais close, menos objetos de cena, diz o pesquisador Bruno Nogueira, da UFPE. “É uma simplicidade em tudo, de cenário a iluminação.” Da mesma forma com que a possibilidade de consumir conteúdo sem parar acabou com o conceito de álbum, o próprio conceito de filme, aquele de duas horas, está em xeque. Afinal, uma série da Netflix cujos episódios podem ser vistos de uma só vez é uma série ou é um filme? “Não faz mais sentido separar uma coisa da outra”, diz o professor de cinema da UFSCar João Massarolo. “Não temos mais intervalo publicitário, não há mais necessidade de relembrar o capítulo passado, não há mais abertura. Você tem um gancho final para convencer o usuário a ir para o próximo episódio. Só isso.”

Nós, sobreviventes

Por José Paulo Fiks

Dez grandes desafios clínicos para a psiquiatria no nosso tempo, ilustrados pelos mesmos filmes, séries e espetáculos que integram a vida hiper-estimulada que nos rodeia

Sigmund Freud é um gênio açoitado. Depois de muito tempo ter sido considerada a melhor forma de conhecer e tratar a mente humana, a psicanálise foi atacada pelos cientistas que privilegiaram o cérebro como a única torre de comando da mente. Freud, contudo, permanece imbatível seus escritos finais, ocasião de eclosão da Segunda Guerra Mundial. Segundo eles, o ser humano está permanentemente aterrorizado pela decadência física, pela guerra e pela ameaça de catástrofes naturais. Tem a tendência para se alienar nas drogas, consumo, sexo e religião. Mas o ser humano, ele também afirma, é um sobrevivente por definição.

É nessa atmosfera que o homem contemporâneo encontra seus maiores desafios, tais como os descritos por Freud: a ameaça ecológica, as doenças desconhecidas em sua forma de destruição e a injustiça social que ainda se impõe como violência. A tendência à alienação ainda é a mesma. E... sim, ainda somos meros sobreviventes. E, em tempos de hiper-estimulação sensorial, estamos ainda muito mais antenados para as adversidades!

A avaliação de Freud mais atual que nunca. O filme Força Maior (2014), de Ruben Östlund’s, por exemplo, mostra como um bom pai de família apanha imediatamente seu smartphone ao se ver em meio a uma avalanche. Esposa e filhos ficam para trás! Em horas de desespero somos automatizados para salvar tudo que nos remeta à sobrevivência. Mesmo que seja um telefone!

Mas a psiquiatria, a mesma que foi atacada pela contracultura nas décadas de 1960-70, foi curiosamente reabilitada pela própria cultura através de escritores, filmes e seriados. Essa especialidade médica tem apresentado algumas propostas de entendimento e intervenções para tais males. Seja via medicamentos, seja pela psicoterapia, ou até formas mais “disfarçadas” como o coaching. E ainda luta contra qualquer estigma que envolva o portador dos transtornos.

A seguir, dez aspectos da vida contemporânea que representam alguns dos principais desafios clínicos para a psiquiatria – cada um deles bem ilustrado por filmes, séries e espetáculos que, ironicamente, também compõem os elementos dessa mesma vida hiperstimulada que nos rodeia.

Doenças mentais

No caso das mais “tradicionais” (esquizofrenia, depressão e transtornos bipolar e de ansiedade), os achados científicos mais atuais indicam que os efeitos “tóxicos” dessas patologias são demenciais em longo prazo. Exigem estudos e intervenções imediatas nas áreas da imunologia, endocrinologia e genética. Não há mais espaço para o questionamento: “a doença mental realmente existe?”

Elena (2012), Petra Costa

Nesse documentário corajoso, a diretora refaz os passo da irmã Elena, uma promissora atriz que vai estudar em Nova York, mas é tragada por um transtorno bipolar com desenlace trágico. A participação da mãe e a busca de uma explicação pelo imponderável da doença mental fazem de Elena uma obra única da cultura moderna.

Drogas

Doença ou uma nova “classe social”? Com o amplo uso e o movimento mundial de liberação, o “direito à intoxicação” veio para ficar. A psiquiatria continuará tratando, pesquisando e divulgando dados sobre o uso crônico de tóxicos. A maioria dos trabalhos aponta para danos cerebrais. A psiquiatria também pode auxiliar no debate atual sobre descriminalização e legalização de psicoativos.

Breaking Bad (2008-), Vince Gilligan

A série já se tornou cult, mas no espaço que articula psiquiatria e cultura é uma peça-chave naquilo que poucas vezes nos damos conta: o convívio entre produtores, familiares, amigos, vendedores e consumidores de drogas ilícitas. O seriado passa de forma visceral por todos os aspectos morais, éticos, patológicos que envolvem o prazer decorrente dos tóxicos.

Trabalho

Os horários de trabalho se tornaram mais elásticos, mas de forma geral o mundo trabalha mais e com menos garantias de estabilidade. O estresse no ambiente de trabalho e as situações propícias ao assédio moral farão que o burn out seja um dos casos mais frequentes da clínica psiquiátrica.

O Que Você Faria? (2005), Marcelo Piñeyro

As disputas por uma contratação em clima de permanente desconfiança, em ambiente isolado e alienado de um mundo que desaba do lado de fora, fazem desse filme adaptado de uma peça de Jordi Galceran um exercício de claustrofobia e identificação. Na prática da clínica psiquiátrica o ambiente de trabalho que causa estresse ultrapassou a seleção para se transformar em cotidiano. Quem ainda acredita que um emprego é para sempre?

Sexualidade

A psiquiatria foi uma das “instituições” pioneiras, ainda na década de 1970, a defender que o exercício da sexualidade é muito mais amplo do que pensamos – ou seja, não é uma doença. A discussão sobre gênero – o que implica também em mudanças culturais – aponta para novas formações familiares e será um dos principais eixos de estudos e tratamentos da clínica psiquiátrica, com a responsabilidade de educar as populações.

Hedwig and the Angry (2014), John Cameron Mitchell e Michael Mayer

O filme de 2001 ganhou uma montagem antológica na Broadway. Como uma trilha surpreendentemente (para o tema) punk, o musical traz a história do que hoje seria um “trans” em matéria de gênero com todos os elementos: biologia, transformação e influência da sociedade na construção do desejo. Fundamental!

Infância e adolescência

Autismo, depressão e déficit de atenção têm sido os campos dos mais complexos estudos psiquiátricos nesse segmento. As novas tecnologias atraem a atenção dos mais jovens. Isso inverte o tradicional papel com os mais velhos: agora são os jovens que os ensinam. Os desafios para uma educação mais condizente com esse salto da humanidade fazem com que a psiquiatria tenha um papel fundamental na diferenciação entre o que é transtorno e o que é modificação (evolução) do cérebro.

13 Reasons Why (2017-), Brian Yorkey

Polêmico, criticado, cultuado, o seriado 13 Reasons Why, produzido pela Netflix, marca muito além da questão atual do suicídios entre jovens, por levantar elementos dessa etapa de vida em que predomina o isolamento em grupos, a impossibilidade de diálogo com adultos, a geração “perdida” dos pais e os desafios da escola que ainda titubeia em enfrentar as demandas psicológicas dos jovens. A psiquiatria ficou de fora da série, mas tem muito a contribuir na cena.

Violência

Embora em queda considerando em números absolutos, as situações de violência são vividas com maior intensidade e medo. Queremos mais segurança. Situações que envolvem a violência, desde o âmbito da família, passando pelo bullying, assédio, violência urbana, desastres naturais e terrorismo fazem com que esse item seja um dos mais efervescentes da psiquiatria, que foca as experiências traumáticas e suas implicações clínicas.

Relatos Selvagens (2014), Damián Szifron

A obra máxima sobre vingança com o olhar atual sobre a violência urbana. Entre as seis histórias em ritmo alucinante há espaço para a discussão do impacto da agressividade do cotidiano sobre o psiquismo – e como ainda lutamos para sobreviver em ambiente de aparente conforto.

Religião

Embora o ateísmo tenha crescido, o apego à religião ainda é um dos grandes mistérios da humanidade. A influência das crenças e sua articulação com alguns transtornos mentais, bem como o radicalismo e “a força da fé” para a cura do mal-estar psíquico é um fértil e crescente campo de pesquisa na psiquiatria.

O Jovem Papa (2016-), Paolo Sorrentino

Nem o papa escapa da reflexão sobre sua infância, nem de ligações involuntárias com o submundo. A série de Paolo Sorrentino para a HBO retoma uma fotografia esplendorosa de cinema e um discurso autoral típico deste autor: a angústia na modernidade em comparação a um passado nostálgico. O tema da fé e a estrutura da igreja católica, que poderiam ser adaptados para qualquer religião, provocam a reflexão em atmosfera psicanalítica.

Suicídio

Em termos estatísticos os índices de suicídio têm crescido. O debate na sociedade também é mais presente. Questões como vida solitária, impasses da adolescência, eutanásia e o direito de desistir de uma existência pautarão os estudos da psiquiatria nesse campo.

Penny Dreadfull (2014-2016), John Logan

A série de John Logan para a Showtime parecia inicialmente uma coleção das figuras monstruosas criadas pela cultura anglo-saxã no final do século 19. Mas o seriado terminou com um exercício absoluto – acompanhado pela fantástica psiquiatra feita por Patti Lupone – sobre o suicídio. Há razão para continuar vivendo quando não conseguimos nos libertar de nossos monstros interiores, aqueles que nos afastam da humanidade?

Movimentos migratórios

A abolição das fronteiras via tecnologia torna o debate sobre a movimentação entre as populações muito mais amplo do que a migração tradicional, a que envolve a locomoção. É pura ironia (ou apenas burrice) a imposição de leis restritivas, construção de cercas ou o impedimento que refugiados procurem locais mais acolhedores. A fuga de ambientes adversos é situação de risco propícia para traumas ou quadros adaptativos. A psiquiatria têm respostas e propostas para esses desafios que envolvem especialmente as minorias.

Lion (2016), Garth Davis

Retomando narrativa, fotografia e música típicas do neorrealismo italiano, esse filme retrata de maneira convincente a força do trauma migratório sobre o psiquismo e a responsabilidade de retomar um fio do passado que ficou solto na luta pela sobrevivência.

Modernidade

A articulação entre os campos dos avanços tecnológicos, preocupações ecológicas, privilégio do conceito de etnias no lugar de países (ou nações), delimitações mais precisas do que “faixas etárias” (infância, adolescência, vida adulta e velhice), a privação do sono, o impacto das redes sociais (vida pública, vigilância e cyber-ataques em detrimento da privacidade) e a busca de modificações corporais (que geram distúrbios como bulimia, dismorfofobia e anorexia) fazem com que a psiquiatria obrigatoriamente escute e componha com outras formas de conhecimento, especialmente as humanidades.

Pequenas Grandes Mentiras (2017), David E Kelley

Essa produção da HBO é um presente para aqueles que clamam pelo exame do universo feminino no mundo contemporâneo. Pequenas Grandes Mentiras examina muitos dos desafios para as mulheres que decidem tomar conta das próprias vidas: maternidade, vida doméstica, trabalho, amizade e, especialmente a violência conjugal (aqui com uma boa sustentação psiquiátrica na trama) fazem desse seriado um achado tendo como pano de fundo uma pequena comunidade americana que tem tudo para funcionar perfeitamente. Aparentemente.


José Paulo Fiks é professor da Unifesp, psiquiatra e psicoterapeuta, mestre em Semiótica, doutor em Comunicação e pós-doutor em Ciências da Saúde

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É como se as séries tivessem adotado um roteiro mais próximo da novela, explica a pesquisadora UERJ Marcelle Soares. Ela fez um estudo de caso sobre a série Arrested Development em sua tese de pós-graduação e constatou que aquele formato tradicional de sitcons norte-americanas, como Friends, Seinfeld e How I Met Your Mother, deu lugar a histórias “serializadas” que não tem começo, meio e fim no mesmo episódio, mas são tramas que ocorrem ao longo de todos os episódios. “É de fato feito para você ver todas de uma só vez. É uma forma também de convencer diretores que teriam preconceito em fazer TV a entrar em um produto fechado, que permite não ter nenhuma ponta solta.”

Tudo isso para se enquadrar a um novo tipo de público. O cinema sempre foi algo coletivo. Hoje, caminhamos no sentido inverso. “Esquece esse negócio de ver na TV grande. O público mais jovem vê no celular, trancado no quarto, viajando, no trânsito, no ônibus. Adolescente sempre está em movimento. Existe wi-fi em tudo quanto é canto. E, se não houver, você pode baixar o filme no celular, em casa”, explica Bruno, da UFBA. “O artista tem de perceber isso. Ele não tem mais controle sobre como a obra dele será consumida. Pode fazer a música com a melhor qualidade sonora ou o filme com as tomadas mais propícias para a telona. Porém, as pessoas vão consumir do jeito que quiserem. Se tiverem com conexão ruim, vão ouvir em qualidade baixa. Se tiverem com tela pequena, vão ver do mesmo jeito. E artista que temer isto vai continuar brigando e não chegará a lugar algum. As coisas mudaram.”

Ouviu, Almodóvar?