O espaço do esquecimento

Por Alvaro Puntoni*

Meros detalhes na discussão política, nossas cidades são desprovidas do senso público que caracteriza as experiências urbanas mais bem-sucedidas no mundo

“A felicidade de um povo se mede pela beleza de sua cidade”, afirmava o arquiteto Vilanova Artigas. Segundo essa perspectiva, dificilmente podemos dizer que somos felizes: contam-se nos dedos das mãos as cidades exemplares (ou apenas belas) em nosso país. O que mais temos são municípios estruturalmente pobres, sem urbanidade em todos os sentidos, desprovidos de qualquer cuidado – basta olhar para fora ou prestar atenção onde pisamos. Com problemas e déficits enormes, São Paulo, por exemplo, mostra como o debate sobre o nosso futuro ainda está distante das experiências mais bem-sucedidas no mundo.

Na capital paulista, a polêmica atual gira em torno das ações de zeladoria pública implementadas pelo prefeito, João Doria, no sentido de obter melhorias no aspectos visuais da cidade. São medidas importantes, mas paliativas, insuficientes para melhorar o ambiente urbano de forma perene. Um exemplo, já antigo, dos limites de ações de zeladoria é a pintura de guias e postes com cal, tão comuns em nossas cidades. Elas sugerem uma ação saneadora, mas são mera maquiagem de péssimas calçadas. Isso porque o domínio do passeio não é decididamente público, mas de responsabilidade do proprietário contíguo. É uma cidade descontínua, desprovida de senso coletivo e privada no pior sentido da palavra.

Voltemos no tempo. Na campanha eleitoral, os candidatos falavam e prometiam sobre saúde, educação, segurança pública, transporte, assistência social, emprego e habitação – sem dúvida, serviços que são parte constituinte da polis em seu sentido mais amplo e humano. Mas nunca apareciam palavras sobre o espaço físico da cidade em si, este lugar em que vivemos. Nada de parques, calçadas, árvores, poste e fios elétricos, iluminação, rampas, mobiliário urbano...

No vídeo, o artista visual Paulo von Poser fala da relação entre arte e arquitetura.

O discurso mostra como a cidade é tratada apenas como um detalhe. Nós, que vivemos nela, somente a vemos quando precisamos: para não tropeçar na rampa do vizinho construída na calçada; para percebermos horrorizados a grama pisoteada dos nossos parques e seus canteiros cercados por improvisados vergalhões metálicos; para darmos falta de mobiliário urbano, como bancos gentis para nos sentarmos publicamente.

Também aqueles que costumam e podem viajar veem a cidade, mas apenas, melancolicamente, em outros países. Nesse ponto é importante salientar que nenhuma cidade da América Latina, todas bem menos ricas que São Paulo, possui um Centro tão deteriorado, com prédios abandonados desintegrando-se de forma agressiva, parques descoloridos e gradeados, calçadas esburacadas e descontínuas e árvores minguadas.

Vejam que interessante: a cidade é uma das bases materiais da construção da riqueza, mas não existe retorno gentil da sua generosa plêiade de possibilidades oferecidas. Ou seja, aqueles que construíram e detém a riqueza não se dedicam em ofertar alguma forma de retribuição para sua própria cidade, seu espaço de vida cotidiana. Pior, vão aproveitar ou oferecer essa gentileza em outras cidades, em países centrais, onde essa retribuição é clara e evidente.

A cidade como suporte Um diálogo urbano

Helena Bagnoli selecionou 10 obras que levam a arte para a cidade.

Outro poder

Renato de Cara

Já que políticas para a arte pública são escassas em nosso país tropical, vale o 'do it yourself' para criar poesia

“(...) situações de deslocamentos forçados, migrações, especulação, gentrificação e outros conflitos urbanos e humanos... Em que medida a arte pode estabelecer um papel de mediador social? Pode a arte colaborar em um processo de construção/resgate da memória e identidade das populações afetadas por estes conflitos?”  

(Lilian Amaral em Cartografias Artísticas e Territórios Poéticos)

Fatos e heróis consagrados, homenageados em bronze – tudo eternizado pelo poder. A história contada na visão dos vencedores sempre foi sedimentada através dos grandes monumentos. Figuras importantes estão muito bem representadas em espaços públicos por todo o mundo.

Porém, cada vez mais, manifestações populares não oficiais, e até clandestinas, vêm adotando vias, muros, fachadas e o que mais puder ser encontrado nas ruas para aplicação das palavras de ordem do momento, seja com pixos ou em grafites já validados no mercado de arte.

De fato, as efemeridades contemporâneas – interferências ocasionais em mídias pré-existentes – traduzem muito daquilo que estamos vivendo. Se antes os muralistas interpretavam os grandes feitos com pinturas e mosaicos gigantes, hoje grafites, pixos, estêncil, performances, cartazes, lambe-lambes, tudo junto e misturado, sobrepostos às ações do tempo, nos dizem bastante sobre a política do estado em questão.

A chamada arte urbana não cabe mais fechada em suportes tradicionais dos monumentos oficiais. Toda expressão artística deve dialogar com nosso momento. Por isso olhar para as intervenções pode ser saudável, tentando enxergar nas sobreposições e interferências, aquilo que vem para transformar nosso dia-a-dia.

Já que políticas para a arte pública são escassas em nosso país tropical, vale o do it yourself para criar poesia. Sinônimo mundial para contestações, o pixo grita e suja a cidade, porém se coloca como voz para aqueles que sobrevivem nas periferias sociais e geográficas dos grandes centros.

Governos, comunidades artísticas e instituições internacionais se viram e se posicionam, oferecendo aos indivíduos pensamento e vislumbres estéticos em ocupações variadas. De bienais às mostras e festivais periódicos importantes, as ocupações dos espaços públicos são pensadas a partir das relações que cada obra/ação terá junto ao transeunte desinformado e ocasional, comunicando o estado de alerta e permanecendo por mais tempo.

Locais com grande concentração de interferências viram pontos turísticos, e o pastiche já se sobrepõem a algumas belas pinturas de artistas codificados para o mercado.

O fato é que, por mais saturados que os grandes centros urbanos estejam, é aqui que as experiências de convívio e cultura se intensificam e proliferam. Por isso toda manifestação artística, pacífica e criativa, deve ser respeitada e incentivada. Do bronze às derivas, a arte salva e precisa ser incentivada e apoiada.

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Mas, retomando: a cidade e sua infraestrutura pública não é em momento algum o ponto nerval da discussão política, onde o que está em jogo é apenas a questão assistencialista da prefeitura. Como nos lembra o psicanalista Thales Ab’Saber somos experts, aqui no Brasil, na “produção mais comum da cidade ruim de todos os dias”. E isso, vale lembrar, não se aplica apenas a São Paulo.

Soma-se a este déficit de cuidado um dado interessante: poucos ou nenhum dos cerca de 400 cursos de arquitetura e urbanismo em nosso país tratam de temas relacionados ao desenho urbano. Temos, verdade, muito planejamento urbano, mas pouco de desenho efetivo (e afetivo) da cidade. Dificilmente um estudante de arquitetura se dedica a estudar, analisar e ensaiar projetos de infraestrutura urbana como calçadas, mobiliário público, estares urbanos... Dessa forma, é possível aferir em nossas cidades a ausência total de qualquer desvelo mínimo para com os espaços públicos. Enquanto isso, tudo aquilo que fica dentro, fora do alcance de nossos olhos, é feito com o maior esmero possível.

Podemos dizer que vivemos em cidades invertidas.

Inexiste por aqui o conceito da gentileza urbana. Se andamos em Amsterdam, por exemplo, vemos que os vasos de flores nas janelas dos apartamentos no nível da rua estão ofertados para o pedestre que transita na calçada, e não para a sala para qual a janela se volta. Em nossas cidades, temos invariavelmente um muro cego, coroados por cercas elétricas ou cacos cortantes de vidro, que blindam os olhares. Ou, no máximo, uma planta espinhenta, pouco amistosa. Nossas ruas são o espaço do esquecimento.

A felicidade mora ao lado

Enquanto estamos tentando abrir clareiras em nosso inferno, destacam-se experiências bem-sucedidas em outras cidades do mundo, sejam nos países centrais, ou mesmo em nosso continente americano.

São encantadoras, por exemplo as experiências realizadas pela Agência de Ecologia Urbana de Barcelona (BCNecologia ), coordenada pelo biólogo e psicólogo – mas não por isso menos urbanista – Salvador Rueda. Desta, podemos destacar a Supermanzana, ou “superquadra”, no bairro de Gracia, em Barcelona. Assim como as de Brasília (sua provável inspiração), a superquadra  catalã seria constituída por nove quadras típicas (do distrito de Eixample) da cidade, perfazendo um quadrado de 400 x 400 metros. A partir de uma hierarquização do trânsito, os carros podem apenas circunvalar este espaço, não cruzá-lo. No interior, ingressam apenas os veículos de moradores e serviços a uma velocidade máxima de 10 km/h. Desta forma as ruas se transformam integralmente em calçadas, voltando aos pedestres e ciclistas, reduzindo os níveis de ruído, ampliando as possibilidades de atividades comerciais e culturais, permitindo uma nova arborização e o redesenho do chão urbano.

Também para Barcelona, o BCNecologia redesenhou o sistema de transporte público de ônibus, a partir da adoção de uma rede ortogonal, evitando com que os veículos tenham de passar necessariamente pelo centro da cidade, homogeneizando o território urbano com um sistema integrado, muito similar ao de Nova York.

A partir destas experiências, a prefeitura de Quito, no Equador, convidou a agência de Rueda para fazer um estudo visando a revitalização do centro histórico da cidade, que já é um caso à parte em todo nosso continente. A ideia era mesclar ali tanto a questão da rede ortogonal de ônibus como os conceitos da superquadra, redesenhando a mobilidade urbana neste espaço singular da urbe andina.

Embora patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, o centro histórico da capital do Equador estava com suas ruas tomadas por comerciantes informais  – foram contabilizados mais de 7000 nos levantamentos realizados. As ruas eram literalmente cobertas por telhados, eclipsando toda a arquitetura colonial, assim como o céu, transformado a cidade em um edifício caótico.

Fábula de Brasília

Mariza Werneck*

Degenerado em um reino de opróbrio e desonra, o sonho idílico de Dom Bosco de uma cidade de grandeza terá de esperar gerações

Os personagens destas histórias são todos santos, loucos ou adivinhos. Partilham aqui suas existências como se juntam os cacos de um mosaico, e como todos os loucos, santos e adivinhos, se tocam e se assemelham. Viveram em diferentes tempos e espaços, e sonharam cidades.

A primeira história trata de um santo, nascido no norte da Itália, no começo do século 19, em uma cidade que, em seu nome, promete ser uma terra de fantasia: Castelnuevo d’Asti. Talvez pela promessa contida nesse nome ele tenha desenvolvido o gosto de sonhar terras e cidades imaginárias. Dom Bosco era seu nome e, por insondáveis mistérios, tinha o dom da profecia.

No Ano da Graça de 1883, na noite que precede a festa de Santa Rosa de Lima, Dom Bosco sonhou com um jovem belo como os anjos do Senhor, do qual irradiava uma luz viva e mais clara que a do sol, que o conduziu a um magnífico salão, no meio do qual havia uma mesa. Sobre a mesa, uma corda marcada com linhas e números.

Penetrando, pouco a pouco, nos mistérios do seu sonho, Dom Bosco percebeu que o salão, na verdade, estava situado em um imenso continente, e suas terras se estendiam desde a cordilheira dos Andes até o oceano Atlântico. O jovem então anunciou ao santo que os habitantes daquelas terras aguardavam pela fé.

No início a visão de Dom Bosco percebia tudo sob a forma de miniatura, mas seu olhar foi se tornando cada vez mais agudo e capaz de enxergar aquele lugar em sua real dimensão. Viu então bosques, montanhas, planícies, imensos rios e grandes florestas inexploradas. Seus olhos clarividentes penetraram nas profundezas da terra e vislumbraram minas de pedras preciosas, riquezas e maravilhas de tal grandeza como só poderiam existir no paraíso terrestre.

A voz do anjo lhe disse, então, que entre o paralelo 15º e 20º, em uma planície junto a um lago, seria criada uma cidade, onde correria o leite e o mel. Depois disso o corpo de Dom Bosco foi sacudido por intenso tremor, e ele despertou com o som dos sinos que anunciavam as Ave-Marias matinais.

O sonho de Dom Bosco continha grandes promessas, pois cidades assim, repletas de frutos e de bem-aventuranças já foram sonhadas por muitos, fossem eles santos, loucos ou adivinhos.

Uma delas foi imaginada por um magnífico inventor de cidades, italiano como Dom Bosco, chamado Calvino. De alguma forma ele também pode ser considerado um mago, pois as cidades que inventa são invisíveis aos comuns mortais, e só existem dentro de um livro, narradas pelo viajante veneziano Marco Polo, o mesmo que contou as histórias do Livro das Maravilhas.

Ândria, 15º e 20º

Pois bem – e aqui se inicia uma nova história –, conta Marco Polo que existiu certa vez uma cidade chamada Ândria, planejada por astrônomos de acordo com a ordem das constelações e dos astros mais luminosos. A terra e o céu, a noite e o dia em Ândria se espelhavam mutuamente, e todas as ações humanas eram ditadas pelo singular desenho que os astros realizavam no céu. Ali reinava a calma e a harmonia, e a principal virtude dos habitantes de Ândria era a prudência, relata Calvino, pois eles sabiam que o que tornava possível a existência da cidade era esse acordo permanente realizado entre céu e terra, a correspondência matemática entre a órbita dos planetas e o mapa da cidade, a medida calculada com exatidão pelos astrônomos em seu planejamento.

Se é possível imaginar – e criar – uma cidade como Ândria, a cidade de Dom Bosco torna-se perfeitamente exequível, basta usar de prudência, como ensina Calvino, e edificá-la, sem medo de errar, entre os paralelos 15º e 20º.

Algum tempo se passou desde o sonho do santo, e eis que um herói civilizador, nascido nas montanhas das gerais, quis tornar seu o sonho de Dom Bosco. Como todos os personagens destas histórias, foi considerado um visionário. Místicos e esotéricos asseguraram ser ele a encarnação do faraó Akhenaton – sacerdote e profeta – que fez erguer uma nova capital no antigo Egito, batizada com seu nome. Outros sussurraram em segredo que este novo herói, anunciador da boa-nova do progresso e da civilização, era descendente de mágicos ciganos.

Assim que ouviu falar do sonho de Dom Bosco, assombrado com tamanhas maravilhas, nosso herói resolveu criar Brasília. Tendo se tornado presidente do país, convocou engenheiros, arquitetos, paisagistas e artistas de renome e, como um novo demiurgo, ordenou que fizessem erguer uma cidade entre os paralelos 15º e 20º, na qual correria o leite e o mel. E assim foi feito.

A cidade foi planejada em forma de cruz, como devia ser. Para lá acorreu uma raça miúda de gente, vinda do Nordeste, que recebeu o nome de candangos. Domaram o aço e o concreto, trabalharam dia e noite na construção de esplanadas e eixos monumentais. O cimento e os tijolos chegavam do céu, transportados por aviões. Em homenagem ao santo foi erguida uma ermida no paralelo 15º e, para não contrariar a profecia, construiu-se um lago artificial em suas proximidades. Dom Bosco foi proclamado patrono de Brasília, juntamente com Nossa Senhora Aparecida.

Terminada a obra, o herói civilizador viu que o que fizera era bom. Sob a proteção de Deus declarou inaugurada Brasília, a capital da esperança, cidade de profusa e radiosa luz. E profetizou: deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã de meu país, e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável em seu destino.

Poucos anos depois da criação da cidade uma nova história se inicia, e com ela, nova bruxa, e das mais altas, se anuncia. Esta se chama Clarice que, desavisada, dispôs-se a conhecer Brasília. Assim que ali pôs os pés descobriu que a cidade tinha sido construída sob o signo do espanto. Os arquitetos que a conceberam, disse ela, não pensaram em construir beleza, o que seria fácil. Eles ergueram o espanto deles, sem nada explicar. A criação nada explica, apenas cria novos mistérios.

Clarice soube também que estava diante de um mundo novo, mas, de tão nova a cidade, ainda não havia sido criado o homem de Brasília, à sua imagem e semelhança, tal como havia sido criado Adão no paraíso. Conhecedora de mistérios e de lendas, refugiou-se então na antiga Grécia, e lá foi buscar o primeiro homem de Brasília, e o criou à imagem e semelhança de Hesíodo, o que sabia a origem das raças e dos deuses

Teogonia do crime

Os primeiros homens e mulheres de Brasília passaram a chamar-se – na história de Clarice – brasiliários, eram louros e altíssimos, e faiscavam ao sol como o anjo do sonho de Dom Bosco. Eram belos e cegos, tamanha a luz que deles emanava. Viviam cerca de 300 anos, e vestiam-se de ouro branco. Mas não se reproduziam, o que determinou sua extinção. É aí então que, na visão de Clarice, chegam os candangos: raça, degenerada, composta de fugitivos, menores e morenos, que tinha muitos filhos. Estes homens acenderam o fogo, armaram tendas, reconstruíram a cidade.

Quando a noite chegou, Clarice descobriu com horror que não tinha onde se esconder, em Brasília não havia porões, e nem lugar para ratos. Poderia ser vista de qualquer lugar. E mais: a assepsia das construções de Brasília, seus espaços calculados, não deixava emergir a pior parte de nós, a mais obscura. Onde não há lugar para tentações. Brasília é assexuada. Eles quiseram negar que a gente não presta, disse ela. Brasília é uma prisão ao ar livre, e dela não há como fugir.

Mas – é sempre bom lembrar – Clarice era bruxa. A limpeza e a clara luz de Brasília não a convenceram. Com medo e lucidez quase mediúnica, profetiza o futuro da cidade: suas construções são a de um Estado totalitário. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, outra coisa terrível irá habitá-la. E será tarde demais. Como uma Cassandra a anunciar pelos muros a eminente destruição de Troia, Clarice profetiza que se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será inaugurado em Brasília.

E, com efeito, deu-se a entrada dos demônios. A cidade foi invadida por ratos, o tempo todo à espreita. Homens fardados povoaram os eixos monumentais e as esplanadas. Ao invés do leite e do mel, correu ali sangue e lágrimas, e a morte revelou sua face mais escura. Passados 20 anos esta raça foi extinta por bravos guerreiros, uma raça de heróis, também cantada em versos por Hesíodo.

Mais um pouco de tempo se passou, e surgiu em Brasília uma raça ainda mais degenerada. Ávidos de poder e riqueza, estes homens imprudentes saquearam cofres, apoderaram-se das minas de pedras preciosas, mentiram e enganaram, embora, como todos os falsos profetas, continuassem anunciando a terra prometida, e o reino das bem-aventuranças. Ao contrário do que anunciara a profecia de Dom Bosco, instalara-se ali o reino do opróbrio e da desonra. Enganara-se Clarice: em Brasília aqueles homens revelaram a pior parte de nós, a mais obscura, e a que não presta.

Onde buscar, então, os rios de leite e mel, os frutos suculentos e as fontes de água pura? Teria sido um sonho mau, o do santo? Um anjo decaído, o belo jovem radiante de luz que lhe anunciara a boa nova?

Talvez não. É que, homens e mulheres comuns, perecíveis e sujeitos a todas as provações como a raça de ferro vislumbrada por Hesíodo, não somos capazes de compreender bem as profecias, nem sabemos ouvir, como devíamos, as histórias narradas pelos santos, loucos ou adivinhos. Com efeito, no sonho de Dom Bosco uma passagem obscura e pouco conhecida afirma que será necessário que se passem algumas gerações para que se cumpra a profecia: a presente não conta. Será uma outra, depois outra... Como as raças anunciadas por Hesíodo, e por Clarice, é preciso que algumas se extingam, para que outras surjam, resplandecentes, de seus escombros.

Para buscar entender estes mistérios, resta-nos outra possibilidade, ainda que sinistra: a de ler com atenção, e mais uma vez, o livro de Calvino e tentar entender ali o que está verdadeiramente anunciado. Assim como a cidade de Ândria foi planejada segundo a rota dos planetas, outra cidade, Perínzia, foi edificada cuidadosamente a partir do cálculo dos astrônomos. Eles estabeleceram com exatidão a localização e o dia, de acordo com a posição das estrelas. Diversas raças viriam povoá-la. E assim como Ândria, Perínzia espelharia a harmonia do firmamento e a graça dos deuses.

Contrariamente a isso, no entanto, a humanidade que habitou Perínzia era pura expressão da mais degenerada das raças. Quem passa por ali ouve gritos pavorosos que irrompem de seus porões e seus celeiros, onde as famílias escondem os filhos nascidos com três cabeças ou seis pernas. Por um ínfimo erro de cálculo, um ponto perdido entre um paralelo e outro, os astrônomos edificaram ali a cidade dos monstros.

E aqui põe-se a fábula em ata.

Mas como deixar jamais de sonhar com os cavalos brancos soltos em Brasília, desejados por Clarice, que à noite seriam verdes ao luar?

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Este texto é uma colagem realizada a partir da adaptação livre dos seguintes textos: Excertos de Memórias Biográficas de Dom Bosco, reunidos por Cecília Romero em Os sonhos de Dom Bosco; As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino; Brasília: Cinco Dias, em A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector; Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo.

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Outra cidade da América do Sul que vem adotando boas práticas urbanas é nossa vizinha Buenos Aires. Em 2016 foi lançado o Manual de Desenho Urbano do espaço público da cidade. Trata-se de um instrumento de uniformização de projetos e padronização dos equipamentos urbanos capazes de urdir a transformação do espaço urbano da cidade a partir de procedimentos e tipologias que sejam capazes de urdir a transformação do espaço público e da imagem urbana. Já faz algum tempo que a cidade platina vem cuidando de forma comprometida e gradual com as melhorias dos espaços de todos os cidadãos, fazendo de sua cidade uma referência para nosso continente.

Impossível ainda não destacar as transformações urbanas nas cidades colombianas, pautadas pela inteligência e sensibilidade frente às limitações e a escassez de recursos. Se Bogotá no início deste século se sobressaiu com as sucessivas administrações municipais que modificaram a cidade com a implantação do Transmilênio, retirada do estacionamento de veículos nas ruas, ampliação das ciclovias, construção de bibliotecas...é a cidade de Medelín que definitivamente vem se tomar em uma referência global de transformação urbana.

Marcada por uma ocupação informal em ambas encostas do vale do rio Medellin que atravessa longitudinalmente toda a cidade e por guerras travadas por paramilitares e traficantes que geravam um clima de enorme insegurança urbana, a cidade sofre um profundo processo de pacificação e transformação que se consolidam com a bem-sucedida fusão das instituições públicas e a universidade, gerando polos de pensamentos que vão redesenhar e reconectar as fissuras sociais e urbanas deste lugar.

Experiências como as bibliotecas–parques, verdadeiros monumentos da cidadania e da inteligência coletiva, aliados a equipamentos de infraestrutura urbana e mobilidade, que aproximam os cidadãos e revelam o prazer em vivenciar os espaços públicos, tornam esta cidade na capital da esperança deste continente marcado pela injustiça social e desigualdades que fazem de nossas cidades desertos de ideias razoáveis e minimamente urbanas.

Enquanto todas as mais importantes cidades do mundo discutem e implementam a redução da velocidade dos veículos automotores individuais – geradores de poluição sonora e ambiental, além de acidentes fatais – estamos aqui, na cidade de São Paulo, por exemplo, celebrando a elevação da velocidade nas marginais.

Movimentos notáveis como o 20’s Plenty for Us, que surgiu no Reino Unido em 2007, trabalham arduamente em campanhas públicas para sensibilizar governos e a sociedade pela adoção da velocidade máxima de 20 milhas ou aproximadamente 30km/h nas cidades, para melhora de forma absoluta a vida de todos. Atualmente mais de 40 cidades britânicas adotam esta velocidade em áreas específicas ou em toda  a cidade, como o centro de Londres, que além desta medida civilizatória discute agora a implantação do pedágio urbano para toda a cidade.

Ocupar e renovar

Finalmente vale a pena destacar o trabalho da Design Trust for Public Space de Nova York, responsável pela condução do processo que culminou na implantação do High Line, por exemplo. Trata-se de uma incubadora de ideias que tem por objetivo transformar e desenvolver a paisagem urbana em todos os níveis e setores possíveis a partir da sensibilização comunitária e de um desenho inteligente.

Da mesma forma que foram feitos os estudos (em parceria com o Friends of the High Line) para convencer a manutenção do elevado abandonado (destinado originalmente a circulação de trens) e a adoção do projeto pelo prefeito Bloomberg, o Design Trust está levando a cabo neste momento um estudo das áreas residuais situadas sobre os elevados rodoviários e ferroviários da cidade de Nova York que somam mais de 1.000 quilômetros. O projeto denominado Sob o Elevado (Under the Elevated: Reclaiming Space, Connecting Communities) visa transformar estes espaços desqualificados em espaços públicos dotados de sentido e animados pela vida urbana. Alguns protótipos de ocupação e renovação foram realizados e agora o projeto pretende ingressar em uma segunda fase mais decisiva e ambiciosa de efetiva transformação destes espaços.

Curiosa e altruisticamente, o Design Trust fala em repensar estes espaços no mundo todo. Duas boas lembranças para as nossas cidades que ainda insistem em manter estas estruturas aéreas (apesar do corajoso e notável exemplo carioca de remoção do elevado que desfigurava a área portuária e principalmente o centro da cidade) e se olvidam de que a questão é tanto no plano superior como, principalmente, no plano inferior, onde a cidade submerge  na sombra gerada pela ausência contínua do sol, das árvores e pela fuligem advinda dos veículos.

Os insubordinados

Andrei Reina

Sergio Ferro ataca a arquitetura que “ajuda a sustentar a miséria humana” e defende iniciativas de construção junto a movimentos sociais – para ele, um triunfo do trabalho livre

É a partir da prática, com a mão na massa, que Sergio Ferro desenvolve sua crítica da arquitetura e das artes plásticas. Pintor, historiador da arte e arquiteto formado pela USP, onde lecionou de 1962 e 1971, integrou ao lado de Flávio Império e Rodrigo Lefèvre o Grupo Arquitetura Nova, que criticava as relações hierárquicas de trabalho no canteiro de obras e propunha o uso de materiais e técnicas acessíveis na construção. O objetivo do grupo era democratizar a arquitetura e superar, com mutirões, as promessas descumpridas pelo modernismo e adiadas pela ditadura.

Preso pelo regime militar em 1970, Ferro se exilou dois anos depois na França, onde lecionou na Escola de Arquitetura de Grenoble e vive até hoje. No país, o contato íntimo com a arte europeia de diferentes escolas e períodos foi decisivo para estudos sobre o Renascimento – sobre o qual se debruçou nos recém-publicados Artes Plásticas e Trabalho Livre (2015) e Michelangelo: Arquiteto e Escultor da Capela dos Médici (2016) – e sobre a arte moderna, objeto de seu próximo livro, em fase de edição.

Comum a todas essas atividades – que inclui um original trabalho plástico – está uma crítica ao trabalho alienado. É a partir desta que, em conversa com a Bravo! por videoconferência, Sergio Ferro avalia o legado do modernismo brasileiro na arquitetura, discute o mercado da arte contemporânea, diz que o programa Minha Casa Minha Vida é “lastimável” e defende o trabalho de grupos como a Usina-Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado, que desenvolve processos autogestionários de construção junto a movimentos sociais.

O que você pensa sobre o legado do modernismo brasileiro na arquitetura das cidades brasileiras? Penso na posição da Otília Arantes, que diz que o modernismo era um projeto contraditório já quando nasceu e prometia algo que não poderia ser cumprido. Já o Roberto Schwarz acredita que os edifícios modernistas ainda podem oferecer a nós, num momento de baixa social, alguma promessa, mesmo que pequena.

Sem querer ser mineiro, como gosto muito dos dois vou tentar traçar uma mediação entre o que disseram. Otília tem razão. O modernismo começou com uma enorme empulhação – inconsciente, creio. Prometeu atender às necessidades básicas de toda a população – sem ter nenhuma possibilidade de garantir sua promessa. Em pouco tempo tornou-se mais cauteloso. Adotou a palavra de ordem dos partidos comunistas nos anos 20 – a qual, em suas grandes linhas, coincidia com a da burguesia avançada: temos primeiro que promover o avanço das forças produtivas (indústria etc) para depois distribuir e atender às necessidades populares. E estamos esperando o dia da distribuição que nunca chega. Mas o Roberto tem razão também. No começo do modernismo, houve um empenho em acompanhar a “racionalidade” produtiva. Basta pensar, para ficarmos entre nós, no Oscar Niemeyer de Pampulha e de sua casa no Rio de Janeiro. Dentro do sistema, foi o máximo do que poderia ser feito. Mas logo a arquitetura ficou no fio da navalha, cai não cai.

E hoje?

Hoje em dia o que foi feito em nome do pós-modernismo, da correção dos desvios do modernismo, é uma vergonha, é um escárnio com relação aos trabalhadores. O que ocorre em Dubai e cia, infelizmente, confirma minhas críticas à arquitetura num nível de medonha caricatura. A extrema miséria humana sustentando o ouro desavergonhado – com a ajuda da arquitetura. Felizmente, em contrapartida, surgem movimentos ainda modestos como o da Usina (Usina Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado) em São Paulo e outras unidades de produção semelhantes que merecem o maior respeito. Eles voltam às esperanças do começo do modernismo – mas corrigindo seus defeitos. Eles constroem bolsões contra hegemonia do capital, como propunha Gramsci. Evidentemente fala-se mais por aí de Frank Gehry, um cretino. Mas a experiência realmente luminosa é a da Usina e semelhantes.

E projetos como o Minha Casa Minha Vida? Eles ainda são insuficientes?

Não somente insuficientes, mas péssimos. Respeito muito a presidenta Dilma – ela deveria estar ainda na presidência, e não o bandido que está lá. Mas o projeto Minha Casa Minha Vida é lastimável. Se tivesse chamado gente como o Pedro Fiori Arantes ou o João Marcos Lopes ou a Usina o projeto certamente teria outro significado. Há no Brasil um potencial enorme. O Minha Casa Minha Vida foi (é?) um grande negócio para as construtoras. Para os trabalhadores, foi (é) um desastre. Compram uma porcaria que em alguns anos apodrece em acampamentos talvez piores que os que a ONU oferece a refugiados. E pensar que todo este atraso preservado servirá para acumular capitais que sustentarão os setores ditos avançados de nossa economia. Ao contrário da crença, não são os setores mais avançados que empurram a economia, mas os mais atrasados que alimentam as taxas de lucro destes setores avançados. A lei da queda tendencial da taxa de lucro com o desenvolvimento industrial, lei que Marx considerava como uma de suas principais descobertas, torna-se cada dia mais evidente com o colapso do capitalismo senil. Minha Casa Minha Vida serve, sobretudo, para isto. Entretanto já existem no Brasil ensaios que poderiam conduzir, com o mesmo financiamento, a realizações dignas e felizes.

São Paulo tem sido cenário de um debate sobre a ocupação do espaço público, desde as pichações e o grafite até ocupações com atividades culturais. Na França, houve o Nuit Debout, com a ocupação de praças. Há algo de interessante nessas manifestações ou ainda estamos girando em falso?

Eu acho que por aí vem uma espécie de levante, de tremor da terra. É a arte reclamando, se debatendo para ser ouvida como trabalho livre, como manifestação de independência, da capacidade de trabalhar sem guia, elmo ou fórceps. Por que a gurizada vai pra rua de noite, arriscando muita coisa, pra pintar? Dentro disso está implícito que ela é contra o sistema, contra a lei que está ali. Esse movimento, a meu ver, tem que ser lido em duas etapas. A primeira é reconhecer que há nele artistas de rua fabulosos, geniais. Mas há sobretudo um movimento de gente que quer ser ouvida, como o rap antes de ser comercializado. Gente que quer falar, ser ouvida, ocupar o espaço da cidade, ter o direito de ocupar e que não tem outra maneira senão essa – de pintar a parede. Isso tem que ser traduzido em termos de revolta social, de expressão de uma vontade das pessoas de viver numa outra realidade. Que em alguns lugares isso tenha se transformado em atividade comercial... bem, é inevitável. Acontece com todo movimento autêntico. É muito difícil manter a coerência, sobretudo eles, tentados todo dia por fortunas que são oferecidas pelos quadros. São raros os resistentes.

Essa é ideia da arte como “trabalho livre” que você apresenta no livro Artes Plásticas e Trabalho Livre, por oposição ao “trabalho subordinado”.

Sim. Na saída da Idade Média, o trabalho em geral é uma atividade relativamente livre, bastante independente. Falo somente da prática de um métier qualquer na dispersão feudal. Depois, com o desenvolvimento das cidades, surgem as corporações: o trabalho é regulamentado e passa a obedecer a inúmeras regras. Mas entre estas regras está a que obriga alto nível de qualidade do que é produzido. Quando começa o Renascimento o sistema das corporações encontra-se profundamente abalado e decadente. O capital produtivo, tal como o compreendemos hoje a partir de Marx, emerge com força neste período. Seu objetivo maior é dominar este mundo do trabalho, acentuar sua degradação já começada, subordiná-lo. As corporações, quando não se transformam em empresas capitalistas, não sobrevivem. Isto ocorre inclusive com a corporação dos artistas plásticos. Alguns artistas tentaram escapar desta decadência programada. Na primeira etapa, eles tomam o caminho inverso: tentam preservar a qualidade, a maestria ameaçada. É o tempo do virtuosismo, do qual Dürer é o melhor representante. Ele é mais mestre que todos os outros mestres. Examinando seus trabalhos de pintura ou gravura com uma lupa, ficamos embasbacados com a dança insuperável de seu pincel ou buril. Seu traçado maravilhoso quer demonstrar que esta excelência desapareceria se ele se submetesse às condições de produção que o capital procura impor às corporações. Tornar-se um artista com sua virtuosidade custa um trabalho enorme. São anos de treino da mão. Entretanto, a tática de combate do virtuosismo, tem um defeito grave; ela não sai do mundo em decadência das corporações. Esta foi a primeira etapa. A segunda muda de rumo. Adota a tática do “liso”: a pintura como espelho perfeito do mundo. Mas um espelho total, refletindo cada coisa com total precisão, mesmo as ideias. Leonardo é o herói desta etapa. Tentou ser o homem enciclopédico para dar conta da ambição absoluta; observação extremada de plantas, tecidos, voos de pássaros, pele, músculos veias, mais ainda de sentimentos, desejos, posições políticas, crenças... uma tarefa infinita. Deixou pouquíssimas obras, quase todas inacabadas. Outro beco sem saída. Finalmente na terceira etapa, a chave da saída é encontrada. E é ultra simples: basta pintar, gravar, desenhar ou esculpir como nenhum dos mestres que estão sendo engolidos pelo capital pode pintar, têm mais licença para pintar. Quando o capital modela os ateliers à sua imagem, seu propósito é fazer quadrinhos vendáveis, uma produção de massa, diríamos hoje. Muitos quadrinhos – o que implica em qualidade reduzida.

Mas parece que ao mesmo tempo que os artistas se diferenciem socialmente, existe aí também uma possibilidade de crítica a esse tipo de exploração.

Aí é a maravilha do jogo. A coisa que está sendo usada para que o trabalho continue massacrado, que é o trabalho livre, no fundo está dando uma outra mensagem que a gente escuta mal, que a gente escuta pouco ou que a gente tem tendência a não escutar. Repetindo: arte é trabalho livre. E se liberarmos todos os trabalhos, todo mundo vai fazer arte. A humanidade vai ser outra.

Como é esta relação entre artes plásticas e trabalho livre hoje, quer dizer, em um momento que alguns chamam de capitalismo tardio, outros de sociedade pós-trabalho?

A situação está muito difícil. Eu acho que você está sendo gentil em chamá-lo de capital tardio – o capital hoje apodreceu com a hegemonia do capital especulativo. Este capital não se interessa mais em produzir coisa nenhuma – mas somente em explorar, sugar. Seu ideal seria não se ocupar com nenhuma produção, terceirizar tudo. As artes plásticas, sobretudo a partir de 1968, foram engolidas pelo dinheiro. Foram engolidas pelo “mercado” de arte – o qual é completamente manipulado. Evidentemente existem muitos artistas de valor que são tragados pela voracidade do mercado administrado. Só que não é mais possível separar o joio do trigo. O mais grave é que a verdadeira arte, edulcorada por este processo, perde sua força revolucionária de provocação a favor da generalização absoluta do trabalho livre – seu próprio fundamento. Sou otimista e creio que tudo isto mudará um dia. Mas hoje as coisas vão mal. Você sabe que as artes plásticas hoje constituem o único campo profissional dirigido por outro? Os escritores têm instituições dirigidas por escritores, músicos por músicos, gente de teatro por gente de teatro e até bandidos são orientados por bandidos como políticos por políticos. Para nós, artistas plásticos, inventaram uma profissão de controle chamada curadoria. Curador é indispensável para montar exposições de Van Gogh ou Ticiano. Mas curador para organizar exposições de artista vivo... Curador é uma figura jurídica nomeada por um juiz para defender os interesses de quem não pode defender-se sozinho. Ou seja, defender os interesses de drogados, débeis mentais, loucos... e artistas plásticos. Mas o que é defendido na verdade é a dominação do dinheiro.

Você acha que tem alguma relação que se possa fazer entre aquela atividade autodeterminada do artista e o trabalho comunitário que se faz nos canteiros de obra de um projeto como o da Usina? Haveria em ambos um mesmo exercício de liberdade?

A palavra liberdade esconde várias armadilhas. Hoje virou quase sinônimo de sem-vergonhice. Tout est permis, posso fazer tudo e qualquer coisa. Em Kant ou Hegel seu conceito é outro: a liberdade é o outro da necessidade; portanto contém também em si a necessidade. A razão, a lógica e a inteligência não se opõem à liberdade. Nos canteiros da Usina, por exemplo, eles são obrigados a uma espécie de racionalidade máxima por economia. Mas, ao mesmo tempo, os que trabalham nestes canteiros trabalham com um empenho que ultrapassa de longe o empenho que teriam num emprego habitual. Sabem que o que fazem em comum beneficiará à comunidade e a eles mesmos. Este diferencial de empenho e carinho, na situação extrema em que estão, corresponde ao suplemento de liberdade que juntam à crua necessidade. A responsabilidade coletiva e solidária e o respeito de todos por todos são manifestações da real liberdade. A maioria das oposições conceituais tem que ser desfeitas: liberdade x necessidade, sujeito x objeto, trabalho coletivo livre x realização individual, etc.

Roberto Schwarz argumenta que a desalienação do trabalho estaria no centro do seu materialismo. O senhor concorda? Por que o senhor acha este tipo de materialismo ainda é a melhor maneira de analisar e criticar a sociedade?

O Roberto tem razão. Eu me formei no tempo da construção de Brasília. Imperava no Brasil a ideologia desenvolvimentista – aquela que pregava ficar rico primeiro para depois distribuir saúde e sorvete para todo mundo. Essa promessa nunca se efetivará enquanto o capital estiver no comando. A União Soviética ou a China, cujo “socialismo” é um enigma, também adotaram discursos semelhantes. Enquanto esperamos, evidentemente as coisas ficam como estão. Stakhanovismo lá, Toyotismo aqui, as relações de produção, os modos de produção autoritários, centralizados e inteiramente subordinadores continuam liberticidas e indutores de miséria. Então, no tempo em que me formei, esta ideologia sob suas diferentes versões foi bastante denunciada. O Andre Gorz publicou aqui na Europa a coletânea de Crítica da Divisão do Trabalho. No Brasil tivemos contatos com o Andre Gunder Franck, hoje pouco frequentado, mas que escreveu um livro de impacto naquela hora, o Desenvolvimento do Subdesenvolvimento. Nele explica que o subdesenvolvimento é parte integrante do que parece independer dele, do desenvolvimento. Pregar desenvolvimentismo capitalista para combater o subdesenvolvimento é quimera. Na França, alguns sindicatos reivindicavam a auto-gestão. As maiores revoluções do século “saltaram” etapas e a maioria das inúmeras lutas de libertação dos países colonizados desta época visava diretamente o socialismo. Em resumo: o esquema das etapas e o do avanço isolado das forças produtivas para o bem geral pareciam sem saída. Nossa posição – do Rodrigo Lefèvre, do Flávio Império e minha – discordava tanto do esquema das etapas como do desenvolvimentismo. Pensávamos que, na impossibilidade de prever etapas e aceleradores, a transformação social poderia ocorrer a qualquer momento, dependendo de condições imprevisíveis. Entretanto tínhamos uma certeza: nenhuma revolução vingaria, qualquer que fosse a etapa de desenvolvimento do capitalismo, sem a imediata transformação das relações de produção. Em vez de perseguir o fantasma desenvolvimentista, deveríamos imediatamente começar a transformar as relações de produção. Ora, isto sim poderia ser preparado já. Primeiro, iniciando um processo radical de crítica, se possível prática, da atual situação produtiva. Separar radicalmente sempre a técnica de dominação da técnica de produção, intimamente misturadas. Depois procurando possíveis bolsões de experimentação de novas relações de produção Estas duas coisas são possíveis – já! Nossa sociedade está inteiramente ancorada na subordinação do trabalho, tanto formal como real. Portanto analisar miudamente os mecanismos da subordinação é contribuir um pouco para o advento do trabalho livre. Compreender verdadeiramente é começar a transformar.

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Existem muitas outras experiências e manifestações da inteligência num universo marcado pela leniência e falta de clareza – afinal de contas, a cidade “é apenas um detalhe”, apesar de ser tudo o que nos resta. Mas definitivamente parece que ingressamos num processo que deverá ser inexorável de necessária transformação de nosso habitat neste mundo.

Deveremos todos ser mais responsáveis por isso, para que seja possível ainda vivermos esta transformação. Mas é também necessário cobrar continuamente que estas questões sejam objeto do debate político e forma integrante dos programas de governo para nossas cidades. Caso não sejamos capazes disso, não o seremos de mais nada, pois a manutenção de nossas cidades significará nossa manutenção no plano da inteligência deste universo.

Alvaro Puntoni é professor de Projeto da FAU-USP e da Escola da Cidade, da qual é sócio-fundador. Desde 2004 participa do GRUPO SP.