O valor da beleza

Vênus ao Espelho

(1647-1651), 

Diego Velázquez

Por Helena Bagnoli

Associada desde a antiguidade à harmonia e à força, à natureza e ao sagrado, a “percepção do mundo pelos sentidos” já não ignora a experiência do feio, nem a riqueza da diversidade

As lentes de Kieslowski, os filmes de Fellini, as fotografias de Cartier-Bresson, as cerejeiras floridas na primavera japonesa, a tensão que precede a tempestade, lábios carnudos, a luz em Rembrandt, um sorriso largo, o David, um corpo que dança. A lista das imagens captadas pelo olhar que traçam uma espécie de consenso de beleza pode ser infinita.

Aqui só falamos do belo capturado pela visão, empanturrado de subjetividade individual, que atribui às coisas a qualidade do belo ou do feio. Não há precisão nessa experiência da percepção: existe uma ponte entre o que está visível e o que está escondido, uma harmonia de dentro que se expressa no exterior, um mistério íntimo que encanta. Um encontro com a beleza é um encontro sempre da ordem do transcendental.

Desde o começo da civilização, poetas, filósofos e artistas viram a experiência da beleza como uma aproximação com o divino e, nesse quesito, a natureza virou sua maior expressão por ser ela a beleza em si. Impacta porque nos retira do mundo das coisas e nos carrega para a esfera da contemplação, esta, sua aliada inseparável.

As primeiras ideias sobre o belo surgiram na Grécia antiga. No século 4 a.C., Platão associava o belo ao bem e à verdade, e afirmava que a beleza é o sinal de uma outra ordem, superior. Daí a crença, entre os gregos, de que a beleza era também uma questão moral: a beleza externa estava associada à interna e, mais que isso, a uma inteligência. Para eles, um rosto bonito era a expressão de um grande caráter.

Mestre de Platão, Sócrates (famoso por sua feiura, aliás) separava a aparente beleza externa, superficial, da beleza da alma – esta última, a verdadeira, ao mesmo tempo em que era também virtude e excelência: “uma concordância observada pelos olhos e ouvidos”. Já em Aristóteles, a beleza estava preferencialmente relacionada à grandiosidade, à ordem, proporção e harmonia das formas.

No conjunto, esse ideário refletia os valores de uma civilização que tinha, ela também, uma percepção “subjetiva” da beleza – expressão, naquele momento, de um modo de vida que incluía práticas de esporte, música e de cidadania. Nos séculos que se seguiram, os padrões de beleza vão refletir outras dinâmicas sociais e questões culturais. Portanto, mudam, se transformam, se reorganizam e criam novas convicções.

A beleza em 10 obras fundamentais .

Acompanhando a história, o olhar, as formas, as dinâmicas, os ritmos e as expressões mudam e inauguram novas categorias estéticas. Não é possível mais falar de um conceito universal de beleza. Falamos de uma beleza plural, ainda ligada ao invisível, ao surpreendente, à harmonia, em última instância, a uma epifania.

No século 18, beleza e estética passaram a ser inseparáveis, e seu campo privilegiado de estudo passou a ser a obra artística. Foi o alemão Alexander Baumgarten (1714-1762) quem, tomando emprestado dos gregos a palavra aisthetiké – que designava “o que pode ser apreendido pelos sentidos” – criou o termo estética. Em seu livro Teoria do Belo e suas Manifestações Através da Arte (1750), defende que a estética tem exigências próprias em termos de verdade, conciliando sensação e lógica.

No mesmo século, Kant retomou a questão: “Belo é o que apraz universalmente, sem conceito”. É como se fosse impossível definir racionalmente o belo. Mais: quando dizemos que algo é belo, pretendemos que isso seja uma voz universal.

"Belo é o que é sempre desejável" Eurípedes
O belo como artifício

Retrato de 

Luís XIV (1701), 

Hyacinthe Rigaud

Essa suposta voz universal tem algumas referências perenes no comportamento. No antigo Egito, o ideal de beleza era a juventude. Para tentar mantê-la, os egípcios que podiam cuidavam do corpo à exaustão e, para exibi-lo belo, investiam em cremes e no guarda-roupa.

Cosméticos, penteados, vestimentas, cremes, perucas, banhos foram temas no Egito desde as origens mais remotas. No período tardio, as máscaras de mel, os banhos de leite, as esfoliações com sal marinho e tantos outras práticas são associadas aos segredos de beleza de Cleópatra. Seus súditos, homens e mulheres, eram igualmente vaidosos e voltados aos cuidados com o corpo. Usavam cremes para rachaduras dos pés porque moravam no deserto, óleos de todos os tipos, banhos e cremes para a pele. A aparência física era um cartão de visita valioso.

Ovídio, poeta romano que viveu entre os anos 43 e 18 a.C., escreveu um texto sobre como as mulheres deveriam preservar e cuidar da sua beleza. Dá receitas de máscaras feita com grãos, farinhas, mel e por aí vai: "Toda mulher que cuidar do rosto com tal cosmético será mais brilhante e mais lisa do que seu espelho". Recomenda incensos, flores e outros odores para acalmar a pele e perfumar o corpo: "Vossas mães geraram jovens refinadas, quereis vossos corpos cobertos de roupas douradas, querei vossos cabelos perfumados e variar o penteado."

Como a beleza aparece na sua criação? Quem responde:

1. Dona Onete, cantora 2. Ronaldo Fraga, estilista 3. Daniela Thomas, diretora de cinema 4. Eduardo Srur, artísta plástico 5. Conceição Evaristo, escritora.

O código e o caráter

Andrei Reina

A antropóloga Paula Pinto e Silva explica como, na história do Brasil, a ideia de beleza variou de acordo com cada contexto histórico e os respectivos recortes sociais

Além de sofrer transformações de acordo com os contextos culturais, geográficos e históricos em que é observado, o conceito de beleza é enunciado de maneiras diferentes conforme muda o lugar de onde se fala — um lugar demarcado pelo gênero, pela raça e pela classe social. O argumento é de Paula Pinto e Silva, doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, com uma pesquisa voltada para as relações entre consumo, alimentação e antropologia. “Achamos que a beleza é simplesmente um padrão físico, mas o que eu tento mostrar é que a gente tem a beleza como um caráter moral, depois como manejo e aprendizado de códigos sociais”, ela diz na entrevista que se segue, concedida em seu escritório no bairro de Perdizes, em São Paulo.

O conceito de beleza já passou por várias transformações ao longo do tempo. Que contornos ele adquire no século 21?

O conceito de beleza é histórico e é local. Não dá para falar “o conceito de beleza”, porque ele muda não só de acordo com a época, mas também com o lugar de onde estou falando. A gente deveria falar sobre o conceito de beleza sempre a partir de uma perspectiva antropológica, buscando as nuances desse conceito. Eu falo beleza e as pessoas entendem padrões, talvez os padrões disseminados por determinada mídia, por uma determinada moda, mas isto não é um conceito de beleza—de uma forma mais ampla, existencial, filosófica. Dessa perspectiva mais ampla, deveríamos pensar sim que ele é contextual.

Pode dar um exemplo?

Eu, mulher branca de classe alta e escolarizada, entendo o conceito de beleza a partir de uma perspectiva e entendo quais são os esforços que eu preciso ter para chegar ou dialogar com esse conceito. Mas eu, negra, mulher, da periferia etc, entendo uma coisa radicalmente diferente. E acho que, de forma geral, a gente não fala sobre isso. Quando falamos em conceito de beleza, falamos de padrão: o estabelecimento de algumas regras ou alguns standards que explicita para as pessoas, de uma forma muito genérica, o que no contexto se entende por beleza. Em um trabalho que fiz sobre a beleza no Brasil do século 17, discutia como ali já havia um ideal que nada tem a ver com corpo ou traços, mas com caráter. Quando falo em uma mulher bela no século 17, no Brasil, estou falando sobre construção de caráter, sobre uma possibilidade de criação de família, sobre o entendimento de normas sociais. Não estamos falando que ela tem cabelo comprido e liso, se ela tem bunda ou não. Este tipo de desconhecimento histórico e sociológico ainda é muito chocante.

Neste momento a ideia de beleza é basicamente feminina?

Sim, outra perspectiva que está atrelada ao conceito de beleza de uma forma mais ampla é que quem carrega a ideia de beleza é a mulher. Para o homem, temos outros atributos e outras possibilidades. É a mulher quem carrega essa coisa de ter um bom caráter – e o que é um bom caráter nos séculos 17 e 18? É saber obedecer às normas sociais e aceitar o lugar que lhe foi reservado – é ficar em casa, é cuidar de um contexto doméstico, é parir, e consequentemente saber educar seus filhos. No contexto do Brasil colônia, estamos falando obviamente de um primeiro olhar para mulheres indígenas e tudo aquilo que elas representam em termos de imaginário. De novo, quando eu falo que o conceito de beleza é histórico, local, datado e depende de onde se fala, a gente tem de pensar em quem está construindo essa história. Neste primeiro movimento, no Brasil colônia, que eu chamo de “mulheres reclusas” ou “beleza reclusa”, os relatos são construídos a partir de uma perspectiva masculina. E por muito tempo os relatos são construídos por homens, porque as mulheres não eram alfabetizadas e não eram elas que contavam a história – seja ela qual fosse, desde história botânica até a história oficial.

Como era essa história?

É de um olhar masculino, espantado, sobre as índias, mulheres que estão o tempo inteiro peladas, sem pelos, limpas – o que aliás as pessoas confundem muito. Elas não tomavam banho, elas entravam no rio, é diferente. Tomar banho significa se esfregar conscientemente com essa perspectiva de que você vai tirar alguma coisa do seu corpo. As índias não faziam isso. E esses homens as contrapunham às mulheres de origem portuguesa, quando, em um contexto de final de Inquisição, elas estavam todas enclausuradas, cobertas, sem a água como prática higiênica e, pelos relatos, sempre desgrenhadas e carregando odores. Esta era a base de comparação que estes faziam. Está aí um primeiro encantamento, uma pincelada de um conceito de beleza, de um certo embevecimento estético. E é interessante que a ideia de beleza vai ser construída neste contexto a partir de uma mistura. Essa mulher portuguesa chega no Brasil e começa, de alguma maneira, a não a se misturar com as índias, mas a aprender coisas com elas – por exemplo, a limpeza da casa, essa coisa de deixar o sol entrar, que não era o hábito do interior português, o uso da água. E isso vai moldando as mulheres, se não fisicamente, também pelo seu caráter. Serão mulheres bonitas aquelas estão limpas – e “limpas” significa não só no corpo, mas limpa do pecado, da alma etc. Justamente por isso digo que esta é uma beleza que está reclusa, escondida – não é um padrão de beleza, mas um padrão de comportamento.

E no século 19?

No século 19 já há outra ideia de beleza, porque aqui ocorre a abertura dos portos, a chegada da Corte, o Rio de Janeiro sendo capital do Brasil, a falência dos engenhos. E aí tem o que eu chamo de uma primeira “revolução feminista”, que são as mulheres salvando as fazendas da falência por meio da economia doméstica – fazendo goiabada, marmelada, para exportação. É claro que no Brasil o pensamento feminista não pode se balizar pelo que aconteceu em outros contextos. Nós não tivemos revolução industrial, não tivemos revolução feminista, não queimamos sutiã – nós não fizemos isso. No entanto, fizemos outras coisas. É como se essas mulheres tivessem, a partir do lugar que lhes foi dado (a casa e, neste caso, a cozinha), descoberto formas possíveis de agir, de estar no mundo. Aqui já falamos, sim, num outro conceito de beleza. É claro, a ideia de retidão, caráter, moral permanece, mas tem de ser associado ao manejo de códigos. Se num contexto primeiro eu tenho uma beleza diretamente ligada ao caráter, no segundo soma-se ao caráter a capacidade de ler e manejar códigos novos, que estão chegando com as importações. Esses códigos de beleza, de novo, não estarão no traço, mas na capacidade de saber se pentear, se vestir, ler a moda francesa e usá-la no contexto brasileiro. Novamente, achamos que a beleza é simplesmente um padrão físico, mas o que eu tento mostrar é que a gente tem a beleza como um caráter moral, depois como manejo e aprendizado de códigos sociais. Então, eu posso ter nascido linda, mas se eu não souber me pentear e me portar socialmente, jamais terei reconhecimento como bela. E isso tem a ver com o lugar de onde se fala e com o contexto, porque de novo estou falando de elite. Eu posso olhar para as escravas e reconhecê-las como desejáveis sexualmente, mas jamais poderia dizer, neste contexto, que elas eram tidas como bonitas. A ideia de beleza não está associada imediatamente ao desejo sexual ou mesmo às feições da mulher. Ao contrário, eu posso olhar esta escrava como desejável porque ela é quase um animal.

Mesmo quando aparece com sinal positivo, ainda há uma violência, essa coisa do exótico.

Sim. Em outro projeto que fiz sobre pele negra discutíamos justamente isso. Como é que esta ideia sobre a pele negra está intrinsecamente ligada ao caráter – então, olhamos para uma mulher negra esperando que ela seja exótica, quente, linda, ostente cores brilhantes. No fundo, meu imaginário pressupõe uma coisa estonteante. Da mesma forma acontece com o imaginário sobre os homens: pressupõe que, com um homem negro, a mulher vai ter a melhor transa da sua vida. De novo a gente joga sobre eles um ideal que tem a ver com o lugar em que a gente achava que eles estavam. Afinal de contas, sendo escravo, você era quase animal – e isso era carregado para o ideal de beleza. Nesse trabalho, que é um dos mais tristes que eu já fiz na minha vida, pessoas brancas afirmam coisas como “negro nem precisa de produto de beleza, porque já tem a pele muito boa”. Na verdade, não, ele precisa de protetor solar, creme, maquiagem como qualquer um. Mas o pressuposto é que eles, por serem próximos da natureza, quase não precisam de civilização – sem perceber o quanto a gente é racista e coloca esta característica que aparece desde o século 17, com as índias, até o 19, com as negras. Encontramos relatos de desejos, mas que não colocam essas mulheres no patamar de beleza.

Como estas questões se desdobram no século 20?

A diferença é a presença maciça de imigração. É neste momento que há levas de imigração alemã, numa tentativa consciente de embranquecimento da população brasileira. Autores como Nina Rodrigues e Silvio Romero vão tentar entender esse processo de embranquecimento, mas é nessa chegada de outros padrões físicos e morais que surge o que o Gilberto Freyre vai chamar de um duplo padrão de beleza brasileira. Esse duplo padrão vai ser, por um lado, um olhar para mulheres brancas, loiras de olhos claros, que chegam com comportamentos muito diferentes, porque são mulheres que andam, caminham, fazem esporte, vão à praia. Pense nas alemãs. Agora pense nas portuguesas da Corte: elas não faziam nada disso. Aqui não estamos falando de um corpo sendo moldado para ser gostoso, mas de um corpo forte, saudável, ativo. Gilberto Freyre vai mostrar como a chegada desse modo de pensar o corpo impacta o contexto brasileiro, porque aí as mulheres vão pensar que também deviam fazer isso. Se elas vêm de fora (e portanto são melhores do que nós), se elas são loiras e brancas (e portanto melhores que nós), por que não tê-las como nosso paradigma? Aqui a ideia de beleza está pela primeira vez associada a uma coisa mais física. E o Gilberto Freyre fala em duplo padrão porque existe esse ideal de uma coisa que não somos – loiros, brancos, de olhos claros, esportistas – contraposto ao que vamos chamar de nossa beleza nativa, que vai ser a “moreninha”. A Sônia Braga e a Vera Fischer, a “moreninha” e a “louraça”. Uma é o mundo moderno, que é trazido ao Brasil à força e vai se contrapor ao padrão tradicional, que é o de mulheres morenas, baixinhas, bundudas, que ficam em casa, que nunca foram fazer esporte. Mas que não deixam de ser objetos de desejo e de beleza. E isso persiste ainda hoje.

Dá pra pensar a beleza separada do contexto?

Não dá. Você pode ler o Umberto Eco, História da Beleza e História da Feiúra – toda a história que ele constrói é europeia, ocidental – no Oriente é outra coisa, na América, outra. O belo, no sentido estético, da arte etc é diferente de quando falamos de beleza aplicada às pessoas e à sociedade. Aí temos de falar em contextos bem definidos, porque se não vamos falar numa abstração. E a tendência é grande de falar em abstração, porque ela faz com que a gente não tenha culpa. Por exemplo, quando dizem “ah, vamos acabar com o padrão de beleza”. Não, ninguém acaba com o padrão. O padrão existe em qualquer circunstância, ele orienta as pessoas. Você pode torná-lo mais flexível, ampliá-lo, mas não pode acabar com ele. Nós seres humanos precisamos de padrões, nós não existimos sem eles. A diferença é que você tem padrão estrito e valorado – então quem tem cabelo liso é melhor do que quem tem cabelo crespo – e outros – poderia ter cabelo liso e crespo, sem valorar. Quando eu valoro, eu reproduzo desigualdade pelo padrão. A desigualdade já estava dada. Eu olho para os índios e para os negros desde o começo e digo: “Isto não é bom”, portanto todas as características físicas associadas a isso também não vão ser boas.

A maior sensibilidade aparente ao lugar de fala tem tornado o padrão mais flexível? Ou isto precisa ser conferido lá na frente?

Eu acho que o discurso é mais forte do que a prática. E tudo bem, porque esse é o caminho, não é meu dever julgar. No discurso isso está lindo, mas na prática não se verifica. Eu conto nos dedos, nas minhas aulas de pós-graduação na ESPM, a quantidade de alunos negros que eu tenho. Até hoje eu tive três – e dou aula desde 2007. De novo, quando você tem esse discurso da mudança de padrão, esse padrão deveria refletir na própria mudança social. O padrão acompanha essa mudança. Quando eu digo “cabelo liso é bom, cabelo crespo é ruim”, eu também estou falando sobre as pessoas socialmente. Quando eu digo “todo mundo tem cabelo crespo, sociedade democrática”, eu quero ver essa democracia acontecendo. Não quero ver o cabelo crespo só na mulher lá da periferia ou no evento dos negros – eu gostaria de ver na minha sala de aula.

E em relação à internet? Estamos mais reféns ou exercemos mais controle sobre as imagens?

Temos hoje uma capacidade infinita de ter informação, nenhuma transformada em conhecimento. Com as imagens, é a mesma coisa. Não é que a proliferação de imagens me fez pensar sobre o processo de beleza. Se ela tivesse causado isso, seria positivo. Mas a proliferação de imagens me aprisiona, porque eu sinto que eu tenho que ter uma imagem para ser divulgada, e aí eu vou tentar corresponder a esse tipo de coisa. Com a realidade virtual do jeito que usamos, nós somos a mercadoria. Nós é que estamos à venda. Quando coloco uma foto no Facebook, eu a escolho com consciência. O mesmo acontece com o que escrevo, o que eu curto e não curto, porque aquilo é minha vitrine. Você pode estar me olhando para um relacionamento sexual, amoroso, profissional ou de seguidores – não importa, somos produtos. E eu não acho isso tão saudável assim. Pelo contrário, quando olho o Instagram, 90% colocam a sua própria imagem, e nunca numa situação ruim. A gente escolhe o melhor ângulo, a melhor cor, o melhor dia, a melhor fase – melhor tudo. Só que essa não é a vida. Essa coisa das imagens dificulta muito você se situar. Quem eu sou, que não imagem?

Continuar lendo texto de Andrei Reina

Dois mil anos depois, no ensaio O Pintor da Vida Moderna (1863), o poeta francês Charles Baudelaire analisa, entre os aspectos da sociedade moderna, a mulher. Faz um elogio à maquiagem, em contraposição à ideia da época, que considerava bonito apenas o que era natural. E se estende à beleza de todos os tipos de ornamentos que deixam os corpos e os seres mais atraentes, desde os adereços dos indígenas às roupas incríveis que cobriam os corpos femininos.

A maquiagem, na época malvista e associada às prostitutas, já era para ele “práticas para consolidar e divinizar a frágil beleza da mulher”. Contra esses valores, Baudelaire fala maravilhas do pó de arroz que "esconde as manchas colocadas pela natureza"; do lápis preto que ressalta os olhos – o rouge, blush nos dias atuais: "o rubro e o negro representam a vida, essa moldura negra torna o olhar profundo e mais singular, o rubro, que inflama as maçãs do rosto e realça ainda mais a claridade da pupila". Ele conclui dizendo que o artifício não serviria à feiura, apenas para ressaltar a beleza.

De maneira análoga, a moda se estabeleceu como instrumento da beleza em muitas civilizações e períodos históricos. Na Idade Média era um instrumento também de diferenciação social. Apesar de ser um mundo de parcos recursos, as joias e as roupas, coloridas com a utilização de minerais e vegetais, eram sinal de riqueza e de beleza. Aos pobres restavam apenas tecidos sem cor.

O maior atributo da moda é o de particularizar a identidade, criar uma individualidade para o usuário. Foi assim no século 18, quando os homens usavam perucas, salto alto, maquiagem e acessórios. Luís 14 foi o ícone da exuberância do período.

Não é de hoje que a civilização busca cúmplices para aprimorar a aparência pessoal. No Museu do Louvre, em Paris, encontram-se centenas de utensílios milenares para cuidados e embelezamento: taças de unguentos, colheres para pinturas de rosto e corpo, paletas de pigmentos, estiletes para delinear, jarras contendo produtos de maquiagem, tudo ainda intacto.

Em nome da beleza tudo parece fazer sentido, pelo prazer de se ver e pelo prazer de ser visto. Beleza sem plateia não tem a menor graça.

Força e encantamento

O Discóbulo 

(455 a.C.), 

Míron

Juventude também era um critério de beleza na Grécia Antiga. Os efebos, jovens atenienses que faziam o serviço militar, eram representados sempre nus e exibiam proporções e formas que buscavam uma perfeição quase matemática, simétrica. No homem, destacavam-se os músculos exuberantes, resultado da prática de atividade física intensa – os que tinham tempo ficavam até oito horas por dia nos ginásios.

A nudez masculina era para os gregos sinônimo de vitória, força e saúde boa. Um corpo bonito, como vimos no pensamento de Platão, atestava uma mente brilhante, e a beleza era uma espécie de dom, portanto sagrada, o que significava que ser bonito era contar com a benevolência dos deuses.

O ideal de beleza feminino, nesse ponto, não era tão considerado. A princípio apreciavam-se as mulheres de largas ancas e pele clara, como se vê nas divindades gregas femininas, ainda que as espartanas malhassem e buscassem abdomens definidos. O poeta Hesíodo dizia, no século 7 a.C., que “as mulheres eram perversas e belas, eram perversas porque eram belas e eram belas porque eram perversas”. Ser um homem bonito era essencial, ser uma mulher bonita poderia ser sinal de problema – vide a tragédia desencadeada por Helena de Troia.

Na arte grega clássica não se idealizava um corpo abstrato. A escultura tentava retratar uma beleza que traduzisse a alma e o corpo – na beleza como esplendor, o resultado tinha de ser um belo corpo, com um bom caráter e ligado ao divino. O que os gregos deixaram claro é que, ainda que os requisitos básicos para alcançar a beleza fossem fundados na proporção, estes sozinhos não davam conta de explicar o fascínio provocado pelo belo, a experiência dos sentidos que se atravessava rumo ao sagrado.

Grace Passô lê trecho de A Mulher de Pés Descalços, de Scholastique Mukasonga.

O dever da beleza

Lucia Helena de Oliveira

Não ser belo de acordo com os rigorosos padrões estéticos é motivo de culpa, como se vivêssemos em dívida com o nosso corpo. Quer custo emocional maior do que esse?

A moça, de rosto lavado e roupas confortáveis, ergueu um dos braços como se fosse uma Estátua da Liberdade. Logo se ouviu o zunzunzum ao redor. Cruzaram-se olhares incrédulos: ora, ela não se enxergava? A universitária, imediatamente isolada pelo gesto tão sincero quanto distraído, só tinha reagido ao chamado da professora Marle Alvarenga: “Levante a mão quem de vocês está completamente satisfeito com a imagem do seu corpo”. Pronto, pra quê! “Hoje, estar feliz com a própria imagem corporal é condenável, porque sempre tem algo para mudar e melhorar”, observa Marle, pós-doutora em Nutrição pela Universidade de São Paulo, onde leciona. “É considerado absolutamente normal, nesses tempos doidos, todo mundo ser insatisfeito com a sua beleza e ponto. Um descontentamento normativo", diz. Idealizadora do Instituto de Nutrição Comportamental, ela investiga há duas décadas transtornos alimentares, um dos problemas mais prevalentes entre aqueles que lidam mal com o que veem refletido no espelho e de mal a pior, muito pior, com o que sua mente guarda, fidedigno ou não, das formas, cores, texturas e tamanho do corpo, ou seja, a imagem corporal propriamente dita.

Essa imagem, dizem os especialistas, pode acabar distorcida por conceitos espalhados pela mídia (ah, a mídia…), comentários negativos vindos de qualquer direção, sexualização precoce, baixa autoestima e uma tendência a comparações sem fim. A figura usada como parâmetro sempre é o padrão vigente de beleza, claro. “Quando comecei a estudar essa área, o ideal era a mulher ser magra. Hoje, isso não basta. Ela deve ser magra e sarada”, diz Marle. Os homens, embora bem menos afetados por esses transtornos por razões culturais, não escapam: ser razoavelmente forte agora é para os fracos. Bonito mesmo, no caso especialmente dos mais jovens, é exibir músculos trincados, trincadíssimos. É, não está fácil… Mas o custo emocional da beleza não subiu porque ela se torna cada vez mais inatingível e, sim, muito pelo contrário, pela aparente convicção de que ela pode ser atingida. Isso faz toda a diferença no preço elevado que pagamos.

Se qualquer influenciadora digital criasse em seu blog uma versão de O Patinho Feio, do dinamarquês Hans Christian Andersen, o bichinho não precisaria ir tão longe nem aguardar tanto para virar um cisne real. Pois agora a gente cai no conto de que, para toda forma de “feiura", entre aspas mesmo, há um creme, um laser, um preenchimento, uma plástica, uma dieta, um spa, uma academia, um suplemento, um hormônio — ufa! —, um programa infalível para chapar a barriga. E aí é que está: quem não chega à altura do padrão estratosférico deixa de ser apenas “feio”, de novo entre aspas, por favor. A pessoa passa a ser também preguiçosa, indisciplinada, desmotivada… E tem mais: como não falta gente divulgando os padrões e os supostos caminhos do embelezamento, ela ainda por cima é uma criatura ignorante e desinformada. “Essa confusão explica em boa parte o estigma cruel do sobrepeso”, opina Marle. Resultado de suportar tantos rótulos negativos: além dos transtornos alimentares que vão da bulimia à anorexia, passando por carências nutricionais diversas provocadas por dietas malucas, surgem estresse, depressão, ansiedade e, em casos extremos, tentativas de suicídio. Fique claro que um problema aqui não exclui o outro. Eles podem conviver em um quadro pavoroso.

Nossos números, diga-se, não são nada bonitos. A depressão cresce ao redor do globo. Mas, se a prevalência do transtorno na população mundial é de 4,4%, aqui no Brasil ela chega a 5,8%. Sim, somos os campeões. Não se pode afirmar que a insatisfação com a beleza sempre esteja por trás dessa dor funda de alma que acomete cerca de 11,5 milhões, nem estimar com precisão o quanto os sintomas depressivos fazem essa gente achar que tudo seria melhor em outro corpo. Aliás, também somos recordistas em transtornos de ansiedade: mais de 9% da população sofre com o problema e, de novo, não há como contabilizar com precisão cirúrgica qual seria a parcela do custo emocional de tentar incessantemente ficar mais belo. Fato, por falar em precisão cirúrgica, é que somos o segundo país no ranking de número de plásticas e que a quantidade procedimentos saltou 23% no último ano, apesar de toda a crise lá fora. Permanecemos ainda como terceiro mercado global de beleza, atrás da China e dos Estados Unidos. Sim, somos um país dos mais vaidosos, o que significa que temos uma sociedade sob tremenda pressão. Ou opressão.

Não se pode perder de vista a questão econômica, ainda mais diante de profundas diferenças sociais como as nossas. "Quem tem menos dinheiro come pior e, se duvidar, exibe o corpo de medidas generosas como quase prova de que não passa fome”, lembra Marle Alvarenga. O corpo esquálido e firme, por sua vez, denota o status de quem pode investir no creme e na academia, no nutricionista e no suco verde. É para quem tem tempo e dinheiro. E, por isso mesmo, triste ironia, para quem está ainda mais à mercê da culpa.

“Deixamos de ter o direito à beleza para ter o dever. E um dever, eu diria, moral”, diz Joana de Vilhena Novaes, pós-doutora em Psicologia Médica e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza, criado há doze anos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. “Se não sigo os ditames da estética, passo a ser encarada como alguém inferior, sem qualquer força de espírito. Essa tirania curiosamente cria uma sociedade cheia de paradoxos no campo da estética, que é ao mesmo tempo lipofóbica e obesogênica”, exemplifica. Faz sentido: a partir do momento em que o indivíduo acima do peso é acuado por dedos em riste, reais e imaginários, a ansiedade aumenta e a comida traz, de bandeja, o alívio imediato. Portanto, a rigidez dos padrões estéticos mais favorece a obesidade do que pesa contra essa condição, presente em quase 19 em cada 100 brasileiros.

Nesse contexto, a comida passa a ser um dos principais agentes de transformação do corpo. “E o que mais ouvimos por aí é: ‘isso engorda ou não engorda?' ", nota Joana. Soma-se aos transtornos mais comuns a ortorexia, uma rigidez nos padrões alimentares que usa a desculpa da saúde para perseguir a beleza. “Uma sociedade em que as pessoas acham normal contar calorias o tempo inteiro e que reservam um dia para ‘pisar na jaca’ só pode estar adoentada’, observa. Outro problema em ascensão é a vigorexia, o exagero na atividade física, em geral acompanhado de suplementos e anabolizantes. “Esse já é um problema mais sazonal, observado com maior frequência nos homens. Os ambulatórios se enchem de fígados arrasados por essas substâncias no verão, a estação de exibir de vez a musculatura. Vale tudo nessa sociedade das imagens.” Segundo Joana, os estudos apontam que 30% da população tem alguma dessas doenças da beleza, em maior ou menor grau.

O psicólogo Esdras Guerreiro Vasconcellos, professor de pós-graduação, lembra que os sintomas podem ser muito sutis. “O fato de eu querer controlar tudo o que como cada vez que me sento à mesa já é indício de garfadas neuróticas, eu diria, embora a pessoa não se reconheça como portadora de um problema” Segundo ele, a beleza do corpo é uma necessidade desde sempre, um desejo de nos aproximarmos dos deuses. “A tentativa de nos tornamos semelhantes a eles gera uma angústia existencial que, nos dias de hoje, está exagerada. Perdemos a noção dos nossos limites. E, por isso, nem podemos afirmar que temos um corpo erotizado, porque, se pararmos para pensar, o erotismo depende de viver bem com essas limitações.”

O psiquiatra Táki Athanássios Cordás, coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas de São Paulo, chama ainda a atenção que os problemas emocionais relacionados à beleza vêm surgindo mais cedo nos serviços de saúde, antes mesmo da adolescência. “E isso tem a ver com a sexualização cada vez mais precoce”, lamenta. Outro fenômeno recente, segundo ele, é o aumento de casos de bulimia, anorexia e outros distúrbios de imagem em mulheres acima dos 40, 50 anos. Elas, por sinal, são o principal alvo de excesso de procedimentos estéticos, incluindo plásticas, capazes de levar à deformação dos traços originais.

O psiquiatra só vê saída pela educação e até mesmo pela valorização das artes. “Tudo isso, ao meu ver, é resultado de um empobrecimento dos sentidos e do conceito de beleza em si, que agora se reduz ao corpo, como se esse fosse o seu único lugar possível dentro da existência", analisa Cordás. Assim, eternizar a juventude é manter-se no jogo do belo, ainda que às custas de uma rotina de exercícios implacável, alimentação sem espaço para deslizes tão humanos e um procedimento estético atrás de outro. Porque não vemos outra possibilidade de a beleza existir. O discurso da juventude, vamos combinar, só alivia o seguinte mal-estar: um dia vamos embora. Se a arte, já dizia o escritor francês André Malraux, é a única coisa que resiste à morte, esculpimos o corpo, pintamos o rosto e teatralizamos a existência nas redes sociais. E o bonito ali, validando a razão de ser, ainda que com muito filtro na imagem, é o que ganha mais likes.


Continuar lendo texto de Lucia Helena de Oliveira

Na história da arte, a contemplação da beleza é uma espécie de culto, um trunfo contra o caos e a dor da existência. No mundo medieval, além da proporção física, buscava-se a integridade, a completude. Um corpo mutilado era um corpo feio. Tanto São Tomás de Aquino (aristotélico) quanto Santo Agostinho (platônico) identificavam a beleza com o Bem, menos com a corporeidade e mais com o espiritual. Era, também, uma beleza moral, a expressão de Deus. O Divino era o belo e tinha luz. A beleza era a revelação de Deus.

No Renascimento assumiu-se que a beleza surgia do mundo dos sentidos, um mundo de universalidades – de percepções, mais do que tudo. Nesse momento, foi-se além das regras matemáticas. O olhar e a observação viraram protagonistas, desvendando tudo, sem se apropriar, apenas sentindo. No vácuo deixado pela religião, a beleza pós-medieval trouxe a ideia de que o mundo é para ser contemplado, porque ele é em si mesmo coberto de encantamento.

Para o mundo artístico, como se sabe, foi uma revolução. Gradualmente, os artistas deixaram de ser os desenhistas da história a serviço da Igreja e passaram a descobrir a beleza da natureza e da vida cotidiana. As mulheres foram retratadas pelos homens de inúmeras formas e viraram a personificação da beleza.

O espírito hedonista colocou-se por inteiro na arte. Festas luxuriantes, deleite e seduções passaram a ser retratadas pelos mais célebres pincéis. Fora isso, pintores e escultores renascentistas desafiaram a Igreja e despiram santos, anjos e heróis e criaram as mais belas obras da humanidade.

"Para a beleza, de fato, exigem-se três dotes. Em primeiro lugar, integridade ou perfeição, pois as coisas incompletas, precisamente enquanto tais, são disformes" São Tomás de Aquino
O feio e o diverso

​Detalhe de

O Jardim das

Delícias Terrenas,

Hieronymus

Bosch

Mas não é possível falar do belo sem pensar no feio. A beleza é fruto do contraste do visível e do invisível, do imaginário e do real, do harmônico e da desconformidade. E se todo raciocínio sobre o belo leva em conta seu oposto, numa visão moral não é apenas a feiura que entra na conta, mas também o Mal. Toda cultura produz monstros, figuras fantásticas, diabos em contraposição à definição corrente de beleza. Foi assim que a arte, igualmente, retratou a feiura em toda a sua extensão.

De volta à Grécia: Aristóteles estabeleceu categorias para a beleza, algumas delas associadas ao feio, ao horrível e ao cômico. Para ele, a beleza do feio e do horrível eram singularidades da arte: “Somos capazes de sentir prazer também olhando imagens desagradáveis. Parte da beleza está ligada à desarmonia, à desordem, ao trágico”.

O feio, de fato, desperta outras sensações importantes para aprimorar o olhar, a perspectiva, a capacidade de sentir sem intolerância. Muitas vezes, a incompletude, a incorreção, a imperfeição das formas, gestos e cores nos tornam mais atentos para o despertar de uma sensibilidade nova, para a verdadeira experiência estética.

Há muitos exemplos. As caveiras, as máscaras e os esqueletos do pintor belga James Ensor apresentam a existência humana, a morte e até as questões religiosas por outros ângulos – terríveis, mas belos; os personagens fantásticos, diabólicos e satíricos do holandês Hieronymus Bosch descortinam um universo de pavor, mas rodeado de beleza e encantamento; os corpos semi-destruídos de Francis Bacon, ou as cenas grotescas que pintou, nos levam para um mundo de angústia, quase o dos pesadelos, mas também de deslumbre, essa outra face do belo.

"E como pode ser belo o que é diverso do belo?" Xenofonte
10 livros para pensar a beleza Por Christian Dunker

Psicanalista e professor da Universidade de São Paulo, Dunker é autor, entre outros livros, de "Reinvenção da Intimidade: Políticas do Sofrimento Cotidiano", lançado neste ano pela Ubu Editora.

Já na arte contemporânea não há mais nenhum compromisso com a estética formal, com a beleza idealizada. O caos é totalmente exposto, sem pudor. À medida que vamos percorrendo formas sem proporções, roteiros sem sequência lógica, abrimos uma ponte para o sublime. Ela desorganiza, mexe com nossa capacidade de compreensão e nos permitir entrever zonas indefinidas do nosso inconsciente, obras que podem nos provocar repulsa e que nos obrigar a entrar em contato com os nossos sentimentos mais profundos. Esse é um encontro com o sublime.

É uma arte que, em diferentes gradações, faz questão de confrontar a velha concepção de beleza que pauta o comportamento da sociedade. Nosso padrão de beleza ainda está associado à felicidade, ao sucesso, ao trabalho e ao parceiro perfeito e – claro – à eterna juventude. Uma das maiores angústias do mundo pós-moderno é não conseguir atingir essa régua, que deve começar pelo corpo perfeito, que supostamente pode ser alcançado pela ciência, pela tecnologia e, acreditam, pela força de vontade.

Essa é uma ideia do século 20, que, difundida pela mídia de massa, despejou padrões desenhados a partir de Hollywood, das passarelas de moda e até do physique du rôle dos super-heróis. O belo atual também está associado à utilidade, ao prazer – em última instância, ao individualismo, já que essa busca desenfreada pela perfeição tem afastado os seres do inaudito, da subjetividade, da jornada dos sentidos. A relação do homem com o mundo sempre se deu pelo corpo. Ele é o templo, mas à medida que serve à reprodução de paradigmas, deixa de ser diverso.

Felizmente, o mundo está descobrindo – por assim dizer – a beleza da diversidade. Cada cultura tem sua pauta e a beleza se ajusta a ela. Para os macondes, grupo étnico banto que vive na Tanzânia, o ideal de beleza está associado a lábios grandes, que são aumentados por alargadores cada vez maiores; na Mauritânia, as mulheres gordas são as mais bonitas, pois exalam riqueza, uma vez que o corpanzil indica que não precisam trabalhar pesado por que têm maridos ricos; as mulheres indianas se pintam com hena e usam piercings dourados no nariz; os maoris, tribo da Nova Zelândia, usam grandes tatuagens tribais, que cobrem o rosto de homens e mulheres.

Apesar de algumas fixações, estamos vivendo uma democracia estética, que se reflete cada vez mais nas manifestações artísticas. “Narciso acha feio o que não é espelho”, e por isso, durante muito tempo, a feiura esteve associada ao diferente. De muitos modos, caminhamos para mudar esse paradigma, encontrar nosso novo padrão de beleza.

O mundo realmente mudou, nada mais está no seu lugar de origem. A busca por novos conceitos é líquida, escorregadia e inconstante, como define o sociólogo polonês Zygmunt Bauman no livro Modernidade Líquida. O que não mudou, apesar dos tantos desafios que nos cercam, é a percepção de que a beleza é um estado de enlevo para a alma e para os olhos, e que ela é parte de tudo o que nos melhora. Ainda essencial para nos aproximar do sagrado.

"A imagem construída por cada um de seu próprio corpo teve poucas vezes, como agora, a oportunidade de ser tão densa e profunda; mas também, tão incerta e efêmera" Denise B. de Sant'Anna