O elogio do sublime

Por Guilherme Werneck

Existe uma beleza imaterial que é combustível, catalisador e produto da arte, que reside tanto na inspiração do artista quanto na percepção de sua obra

Em 1871, Arthur Rimbaud escreve ao também poeta Paul Denemy uma carta em que discorria sobre o futuro da poesia. “O poeta se faz vidente por um longo, imenso e pensado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, ele exaure em si mesmo todos os venenos, para então guardar apenas as quintessências. Inefável tortura na qual necessita de toda a fé, toda a força sobre-humana, onde ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, – e o supremo Sábio! – pois ele chega ao desconhecido!”

Para além da linguagem exuberante de Rimbaud, sua carta é uma síntese muito interessante de um pensamento sobre a beleza que perpassa diferentes manifestações artísticas ao longo da história. A de que a beleza não está apenas no que é visível, no conhecido. Existe uma beleza imaterial e ela é combustível, catalisador e produto da arte. Às vezes se encontra na inspiração do artista, como uma musa difusa, em outras, se deixa capturar nas obras ou, para além do registro, se torna palpável apenas àqueles que se abrem para experimentar uma obra de arte.

Talvez essa percepção seja mais facilmente atingida no contato com obras que deixem mais espaço para imaginação como a música e a literatura, mas esse estado imaterial da beleza pode rondar o cinema, as artes visuais, o teatro. Onde há arte, há também sua aura, belezas.

Ilustrações de Marina Quintanilha

Beleza e transcendência em 10 filmes Testemunha do efêmero

Mariza Werneck

Jamais estaremos preparados para a experiência do “luto de si” diante do espelho, mas, se evitarmos o rancor, quem sabe não tenhamos também a promessa de alguma beleza

A feiura tem algo de superior à beleza: ela dura. A crueldade e o sarcasmo contidos nesta frase ecoam ainda, tantos anos depois da morte de seu autor, o cantor e compositor francês Serge Gainsbourg (1928-1991), notório por sua feiura, e por ter amado as mais belas mulheres. Muito poderíamos dizer sobre esta atração de contrários, da fascinação mútua, às vezes fatal, relatada em tantas histórias, nascida do encontro entre belas e feras.

Mas, se é de beleza que se trata, convém antes falarmos de espelhos, estas mudas testemunhas da finitude do belo, que, por estranha ironia, foram criados por Hefesto, considerado o mais feio dos deuses. Filho de Zeus e de Hera, o deus dos espelhos, ao nascer, foi precipitado do Olimpo por sua mãe, horrorizada com sua feiura. Aprendeu o segredo do fogo e dos metais preciosos, e criou a superfície cristalina capaz de refletir os homens.

Nosso tête-à-tête com o espelho se inicia cedo, por volta dos seis ou oito meses de idade, quando somos confrontados com o limiar estreito que separa o real do imaginário. Nesse momento – ensina o psicanalista Jacques Lacan –, ao nos contemplarmos no espelho, tomamos a imagem pela realidade. Aos poucos vamos nos apercebendo do engano, até que, finalmente, em um terceiro momento, entendemos que a imagem refletida é a nossa.

A partir daí o espelho passa a ser o companheiro incontornável, muda testemunha de acontecimentos bons e maus, de olhos brilhantes ou enevoados de tristeza, de choros e de risos, e de cada uma das marcas deixadas pela vida em nossa pele. Embora esteja presente em todos os momentos vividos, é destituído de memória, a tudo assiste, sem nada registrar.

O espelho é aqui e agora: não nos devolve rostos mais antigos, talvez mais belos, que tivemos um dia. Não nos devolve o verão em que nos apaixonamos, nem o desespero profundo que experimentamos, certa vez, ao mergulharmos os olhos em sua superfície calma.

“Eu não tinha este rosto de hoje, / Assim calmo, assim triste, assim magro, / Nem estes olhos tão vazios, / Nem o lábio amargo. (…) Eu não dei por esta mudança, / Tão simples, tão certa, tão fácil: / – Em que espelho ficou perdida a minha face?”

A queixa e a busca inútil de Cecília Meireles são feitas, ainda assim, e mais uma vez, diante de um espelho, que nada diz, e apenas reflete sua angustiada procura.

Talvez por isso seja impossível imaginar uma autobiografia especular, um arquivo de imagens que desse conta do embate diário que travamos com o espelho. Como se pudéssemos atravessar para o outro lado, e encontrar nossas faces perdidas, e jamais reencontradas.

“Vamos fazer de conta”, diz Alice, “que o espelho ficou todo macio, como gaze, para podermos atravessá-lo. Ora veja, ele está virando uma espécie de bruma agora. E, sem dúvida, o espelho estava começando a se desfazer, lentamente, como se fosse uma névoa prateada e luminosa.”

Espelhos assim só existem nas histórias. Histórias que habitam nosso imaginário da beleza, repleto de implacáveis espelhos. Uma delas, e das mais antigas, conta a história de um belo jovem, tomado pelo amor e pela contemplação de si. Sua beleza refletida nas águas de um lago levou-o à morte, e transformou-o em flor. Seu nome, Narciso, hoje nomeia uma condição contemporânea, pesada e triste, porque condenada para sempre à autoimagem refletida no espelho, e depois em outro, e em outro ainda.

“Dizei, espelho meu…”   

A contundência dessa frase – e sua dor, e sua violência velada – acompanharam nossa infância e nos fazem tomar definitivamente partido da belíssima e inocente Branca de Neve contra a madrasta impiedosa e má.

O psicanalista Bruno Bettelheim preferiu ver as coisas de outro ponto de vista, ao analisar o drama edípico encenado pela história de Branca de Neve. Vejamos:

“Como o ouvinte se identifica com Branca de Neve, enxerga os acontecimentos como ela os vê, e não como são vistos pela rainha. Para a menina, o amor pelo pai é a coisa mais natural do mundo, e o mesmo vale para o amor que ele sente por ela. A menina não acha que isso seja um problema – exceto pelo fato dele não a amar o bastante, preferindo-a a todos os demais. Por mais que deseje que o pai a ame mais do que à mãe, a criança não aceita que isto produza ciúmes dela na mãe. (…) Quando este ciúme – como no caso da rainha em Branca de Neve – não pode ser ignorado, então é preciso encontrar alguma outra razão que o explique, o que na história é atribuído à beleza da menina.”

A rainha tá certa?

Tentemos então, uma única vez, nos identificarmos com a rainha, e ver os acontecimentos a partir dela. Enxergar seu narcisismo, claro, como bem aponta Betthelheim, mas também a imensa dor contida nele.

“Eu não tinha este rosto de hoje”, poderia dizer a rainha, evocando Cecília. “Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Seu espelho é mágico, por certo, mas não pode devolver-lhe sua antiga beleza, bem ao contrário disso, revela-lhe apenas a certeza de sua decrepitude. Mais do que isso, devolve-lhe a imagem luminosa e ofuscante emanada de Branca de Neve, e coloca-a diante do insuportável peso de sua beleza.

É aí, então, que a madrasta revela sua face mais cruel: veste-se de negro, transforma-se em velha (como todas as bruxas) e vai ao encontro de Branca de Neve, com a famosa maçã envenenada.

Nesse momento, é preciso dizer, reverbera nessa história outra história, que se passa no Olimpo:

A deusa Discórdia (mãe das Dores, do Esquecimento e da Fome), não tendo sido convidada para uma festa de casamento na morada dos deuses, para lá se dirige, levando nas mãos um pomo de ouro, colhido no Jardim das Hespérides. Oferece-o à deusa, àquela que fosse a mais bela.

Pelo título de Miss, não do Universo, mas do Olimpo, de superior importância, engalfinham-se três deusas: Atena, Hera e Afrodite. Zeus decide então que o árbitro de tão inusitado concurso seria Páris, belo pastor de ovelhas. Incitado por Afrodite, que lhe promete o amor de Helena, bela entre belas, Páris decide: a mais bela é Afrodite. A mais bela, entre todas as belas. “Belo belo belo / Tenho tudo quanto quero”, ecoa o poeta Manuel Bandeira. Por que perseguirmos assim, de forma tão inclemente e desesperada a beleza? Por que este desejo do belo, acima de todas as coisas? "É que a beleza”, ensina Flaubert, “é uma promessa de felicidade.”

O final da história é conhecido: Páris rapta Helena, casada com Menelau, e desencadeia a guerra de Troia. E felizes para sempre somos nós que, devido a todos esses trágicos acontecimentos, recebemos como troféu não o pomo de ouro, mas a Ilíada.

Voltemos à madrasta, e a seu envenenado rancor contra Branca de Neve. Ela também vai levar a maçã à mais bela. Mas por que disfarçar-se de velha, por que cobrir-se de luto, por que enfear-se de forma tão cruel diante da princesa,  mas sobretudo diante de si mesma?

Podemos pensar esta cena da história como um momento de rendição. Ao oferecer-lhe a maçã, a madrasta reconhece, enfim, que Branca de Neve é a mais bela. Quer envenená-la, é certo, mas o luto com o qual se veste é por si mesma, não pela princesa. Nesse momento a rainha aceita, finalmente, envelhecer.

Se a história, a partir daí não se deslocasse para a princesa e seu príncipe, com direito a final feliz, poderíamos encontrar a madrasta mais uma vez diante do espelho: “Dizei, espelho meu... eu não tinha este rosto de hoje…"

O que ela realiza ali é o cerimonial secreto e inapelável que o psiquiatra suíço Jean-Claude Métraux denomina o luto de si. Experiência mais ou menos dolorosa, mas sempre inexorável, que fazemos diante do espelho, e ao longo do resto de nossas vidas, desde o momento em que percebemos, pela primeira vez, que começamos a envelhecer. O espelho não muda jamais, seu reflexo não é cambiante nem ilusório, nós é que nos transformamos seguidamente diante dele.

Esta constatação faz de nós, mais uma vez, a criança de oito meses que tenta reconciliar a imagem que vê no espelho com a imagem que tem de si. Reconciliação feita desta vez a duras penas, e não em um passe de mágica, da imagem que vemos com a que nos olha. Dura experiência essa, a do luto de si, para a qual jamais estamos suficientemente preparados, mas que, se não nos envenenarmos muito, nem nos enchermos de tamanho rancor, talvez também possa conter, quem sabe, a promessa de alguma beleza.

Continuar lendo texto de Mariza Werneck

Uma experiência dupla, que sintetiza essa imaterialidade tanto do lado de quem produz quanto de quem observa é relatada pelo escritor Bernardo Carvalho, 57 anos. Em 2006, o autor de Reprodução se envolveu na criação do espetáculo BR3 com a companhia Teatro da Vertigem, conhecida pelos trabalhos em espaços não convencionais.

O percurso de três gerações de uma família pela selvagem realidade social brasileira entre os anos 1950 e 1990 seria encenado no rio Tietê, em São Paulo. De logística complexa, para dizer o mínimo, a produção se arrastou por longos meses até a fase dos ensaios abertos ao público, pouco antes da estreia oficial. Bernardo conta: “Era um negócio hercúleo, meio impossível, como se fosse um desafio a deus – ou ao diabo, eu não sei” diz o escritor  sobre a peça que encenada no rio poluído, em diferentes barcos, com a plateia em uma embarcação maior navegavam pelo Tietê. As cenas iam acontecendo nas margens, nas pontes e em outros barcos que iam se cruzando pelo rio.

“Independentemente da qualidade do espetáculo, se deu certo ou não [BR3 levou o Prêmio Shell de melhor direção e melhor iluminação, e em categoria especial pelo projeto], foi um processo incrível”, lembra Carvalho. “Meses ensaiando ali, com gente afundando no rio, ator contracenando com ratazana, pedaço de corpo de animal morto embolando no motor... Enfim, tudo indicando um desastre absoluto.”

O momento mais belo de todo o processo não ocorreu durante uma apresentação regular, mas em um ensaio aberto. “Em pleno verão, um puta calor, aquele cheiro horrível, começou uma tempestade tropical, daquelas torrenciais. Sabe um demônio? E os caras resolveram que eles iam chegar até o final da peça, com a maquiagem escorrendo, os figurinos todos desmilinguindo. Aqueles microfones grudados no rosto começaram a explodir no meio das falas. De repente não saia mais nada, a menina gritando sem voz. E a plateia assistindo de dentro do barco com essa cortina de água em cima de tudo. Foi incrível, a coisa mais linda que eu já vi em teatro em toda minha vida. Foi um episódio único que tinha a ver com desafiar a natureza, desafiar a morte – e sobre como tudo isso pode dar um sentido para a vida.”

Na natureza selvagem

Muito da ideia de sublime imaterial vem de uma conexão com a natureza. Em sua História da Beleza, o escritor italiano Umberto Eco fala da construção da ideia de sublime a partir da natureza. Uma construção, no pensamento ocidental, que parte dos gregos e vai se moldando às diferentes especulações filosóficas ao longo da história da arte. Uma relação que passa tanto pela catarse como pelo sentimento “estupefaciente” diante da beleza que emana do natural.

Para o designer Hugo França, 63 anos, conhecido pelo trabalho monumental com a madeira de troncos e raízes descartados como resíduos florestais, só a natureza tem o poder de aterramento nesse momento em que a polarização fundamentalista – de direita e de esquerda, ele diz – eletrifica as discussões em torno do tema. “A arte, principalmente a moderna e a contemporânea, não tem o objetivo maior de mostrar o belo, mas sim de levar as pessoas à reflexão”, se exaltava ele em seu ateliê em São Paulo, pouco antes de seguir para a noite de abertura da mostra Histórias da Sexualidade,, em que se exibiria uma obra de seu irmão, Rafael França (1957-1991), um dos pioneiros da videoarte no Brasil.

“Nada justifica, nesse momento em que estamos questionando o seu conceito, que se exija da arte que ela seja bonita, seja elegante, seja puritana.” Por um momento, ele se enfurece: “Por exemplo, tem uma coisa que acham bonito e que eu acho completamente agressiva – a imagem de Cristo crucificado. Que me desculpem as pessoas que andam por aí com aquele crucifixo agonizante no pescoço! Não conheço nada mais feio e trágico.”

O apaziguamento viria com a lembrança da viagem que fez em julho passado pelo rio Negro, no Amazonas. “Para mim não existe nada mais bonito que a natureza. Eu nunca vi nada tão lindo na vida como esses oito dias em que viajei pelo rio Negro”, conta Hugo.

O espelho em 10 obras de arte Agnaldo Farias

é professor da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo da USP, crítico de arte e curador

A verdade do espelho

Almir de Freitas

Da lenda de Narciso aos pesadelos de Borges, os espelhos fascinam e causam horror – entre as razões, porque eles nunca mentem

“Os livros talvez não sejam necessários: a princípio bastavam os mitos; poderiam encerrar toda uma religião”, escreveu André Gide na abertura do pequeno O Tratado de Narciso (1891), em que fazia uma leitura da história daquele rapaz grego apaixonado pela própria imagem. Em torno desse mesmo tema, e de maneira semelhante, é possível dizer também que existem sabedorias e temores que nos contemplam a todos, sejamos ilustrados, lidos, ou não. Tem a ver com os mitos – ou, dizendo de outra maneira, com o nosso inconsciente, modelado por um aprendizado ao longo das gerações.

Espelhos desde sempre nos fascinam, uma sensação que carrega também a ideia – bastante familiar e prosaica para nós – de que esse objeto que nos devolve nossa própria imagem pode ser também um inimigo. Ou, no mínimo um chato que insiste em mostrar nossas imperfeições: aquelas olheiras com que nos deparamos de manhã, aquela calvície que se pronuncia, aquela ruga na testa que não estava lá. Nesse mundo prosaico vivido em nossos banheiros de manhã, é o oposto da balança, sempre difamada – errada, quebrada, desregulada, mentirosa.

O espelho, não: ele não deixa margem de dúvida. Como a rainha má de Branca de Neve e os Sete Anões, nós sabemos que ele não mente. Voltando ao começo deste texto e de toda essa história: Narciso enganou-se quando achou que sua imagem refletida nas águas cristalinas da fonte Téspias era de outra pessoa. Mas o erro não foi provocado por uma ilusão: foi a verdadeira imagem da sua beleza que fez com que ele, perdidamente apaixonado, definhasse até a morte na beira da água.

Alguém pode objetar que não é bem assim: que os espelhos, ao contrário, invertem a realidade, trocando, por exemplo, mãos direitas por esquerdas, fazendo noivos de alianças virarem casados, e vice-versa – coisa que pode se muito séria a depender do contexto. No entanto, em um ensaio de semiótica notável, Sobre os Espelhos, o filósofo italiano Umberto Eco demonstra com como isso não passa de um erro, ainda que persistente.

“O espelho reflete a direita exatamente onde está a direita, e a esquerda exatamente onde está a esquerda”, ele escreve. “É o observador ingênuo que, por identificação, imagina ser o homem dentro do espelho. “ Podemos não ser tolos como Narciso, que confunde a si mesmo com um outro, mas não estamos livres de enganos: a simetria inversa que percebemos é uma antiga ilusão, em que mundo real e virtual se confundem. Ressalte-se: imaginamo-nos dentro do espelho, coisa que não existe. Entramos, por assim dizer, nele. Como Alice, rumo ao país das maravilhas.

Fora do mundo fantástico, resta a sinceridade do espelho, que “nem mesmo se preocupa em reverter a imagem como faz uma fotografia, que quer dar-nos uma ilusão de realidade”, observa Eco. Nem falemos aqui das selfies no Instagram e suas muitas mentirinhas. “O espelho registra aquilo que o atinge da forma como o atinge. Ele diz a verdade de modo desumano, como bem sabe quem – diante do espelho – perde toda e qualquer ilusão sobre a própria juventude”.

É essa mesma verdade que sustenta uma miríade de mitologias sobre espelhos em várias culturas ao longo da história, dotados quase sempre de poderes divinatórios, capazes de relevar passado e o futuro. Ou, ainda, os segredos mais recônditos de nossa alma, o que vai em nosso coração – coisas que (pense bem) não gostaríamos que viessem, literalmente, à luz.

Outro eu

Talvez a soma de todas essas questões explique, pelo menos em parte, a mescla de atração e temor que os espelhos acompanham a humanidade: uma verdade terrível prestes a ser revelada, independentemente da nossa vontade. Que não é apenas a que diz respeito a nossa aparência física, cujo reflexo a física explica tranquilamente. Há temores mais antigos em jogo, e têm muito a ver com esse “outro eu” que nos encara do “lado de lá”.

De todos os escritores, nenhum explorou tão extensivamente esses medos quanto Jorge Luis Borges. Mas há um detalhe físico fundamental aí: portador de uma doença hereditária, o argentino foi perdendo a visão ao longo de toda a vida adulta, até ficar quase que completamente cego, por volta dos 60 anos. Daí em diante, os espelhos, que desde sempre tinham sido uma das suas obsessões, passaram a ser também um campo de memória e imaginação.

Na sua poesia, os versos sobre o tema se multiplicam como imagens de espelhos intercambiados. Em Um Cego: “não sei qual é o rosto que me mira / Quando miro o rosto no espelho; / Não sei que velho espreita em seu reflexo / Com silenciosa e cansada ira. (...)”. Em O Espelho: “(...) Agora temo que o espelho encerre / O verdadeiro rosto de minha alma, / Lastimada de sombras e de culpas, / O que Deus vê e talvez vejam os homens.”. Em Os Espelhos: “O vidro nos espreita. Se entre as quatro paredes do quarto/ existe um espelho, / já não estou sozinho. Há outro. (...)”. Em Ao Espelho: “És o outro eu sobre o qual fala o grego/ E desde sempre espreitas. Na brunidura/ Da água incerta ou do cristal que dura/ Me buscas e é inútil estar cego. / O fato de não te ver e saber-te/ Te agrega horror (...)”.

Na conferência O Pesadelo, publicada no livro Borges Oral & Sete Noites, ele conta que seus pesadelos recorrentes incluíam labirintos, máscaras e... espelhos. Elementos que podiam, inclusive, convergir para um mesmo sonho. “Bastam dois espelhos opostos para criar um labirinto”, lembra. Em outro trecho, vai ao ponto: “Às vezes me vejo refletido num espelho, mas me vejo refletido usando uma máscara. Tenho medo de arrancar a máscara porque tenho medo de ver meu verdadeiro rosto, que imagino atroz.”.

Verdade, sempre a verdade. Seguindo a trilha das mitologias, vale lembrar que os cegos muitas vezes foram tidos como capazes de enxergar o que ninguém mais podia – entre eles os adivinhos que, como os espelhos mágicos mencionados, podiam revelar o futuro. Entre eles está o vidente Tirésias – que (amarrando várias pontas do que se falou até aqui) bem avisou a mãe de Narciso que ele nunca deveria ver a própria imagem.

Inimigo, inimigo meu

Claro está que, apesar de hoje compreendermos razoavelmente as leis da catóptrica (depois de consultarmos o significado dessa palavra no Google), não nos livramos totalmente do mundo fantástico.

A respeito disso, é o mesmo Borges quem nos conduz por outro mito. Em O Livro dos Seres Imaginários, fala de uma suposta lenda do povo do Cantão – suposta porque, é preciso dizer, o argentino se divertia com o jogo de criar histórias ficcionais dando-lhes a aparência de verdade. Certamente, discordava de Gide sobre a não necessidade dos livros: medos como os dos cantoneses podiam bem vocalizar seus próprios medos, que, por sua vez, podiam dar forma literária a mudas mitologias:

“[Na lendária época do Imperador Amarelo], o mundo dos espelhos e o mundo dos homens não estavam, como agora, incomunicáveis. Eram, aliás, muito diferentes; nem os seres, nem as cores, nem as formas coincidiam. Os dois reinos, o especular e o humano, viviam em paz, entrava-se e saía-se pelos espelhos. Uma noite, as pessoas do espelho invadiram a Terra. A sua força era grande, mas ao fim de batalhas sangrentas prevaleceram as artes mágicas do Imperador Amarelo. Este repeliu os invasores, aprisionou-os nos espelhos e impôs-lhes a tarefa de repetirem, como numa espécie de sonho, todos os atos dos homens. Privou-os da sua força e da sua figura e reduziu-os a meros reflexos servis. Um dia, porém, sacudirão esse torpor mágico. (...) Gradualmente divergirão de nós, gradualmente não nos imitarão. Partirão as barreiras de vidro ou de metal e desta vez não serão vencidas.”

Se falamos em mitologia, fatalmente voltamos à psicanálise. A mesma disciplina que cunhou o termo narcisismo tem outra palavra para esse medo atávico de espelhos: eisoptrofobia. Um distúrbio que inclui o medo de os espelhos serem uma porta para o sobrenatural – para o desconhecido. Ou de ver a própria imagem adquirir uma autonomia hostil – um truque muito frequente nos filmes de terror.

Sob outras formas, a literatura também se fartou com a ideia de uma cópia invertida nossa – um duplo maligno, capaz de revelar nosso lado mais obscuro, a terrível verdade sobre esse “outro eu” que nosso ego oculta. Pode ser um gêmeo, um clone, um sósia. Uma imagem nossa: algo que nos é profundamente familiar e, ao mesmo tempo, estranho – unheimliche, no idioma original de Freud.

Alemã também é a palavra doppelgänger, que os românticos do século 18 criaram para designar esse ser que nos ameaça com a verdade sobre nós mesmos. É o William Wilson de Edgar Allan Poe, o Mr. Hide de Stevenson, o Dorian Grey de Oscar Wilde, o Horla de Maupassant, o Sombra de Andersen, o Golyádkin de Dostoievski – e tantos outros, espalhados em obras de Marcel Schwob, Machado de Assis, Hoffmann, Saramago...

Em todos, uma verdade terrível, uma feiura de nossa alma que nos espreita – símbolo daquela com que eventualmente nos confrontamos na tal manhã solitária no banheiro. Olheiras, calvície, ruga. Naquele momento em que, mais do que nossa aparência, somos informados sobre a nossa verdadeira natureza.

Continuar lendo texto de Almir de Freitas

Ele se diz espantado com a indisfarçável indiferença com a Amazônia, vítima de um extrativismo irresponsável como o que levou a Mata Atlântica à quase extinção – “isso, sim, um escândalo”. “É uma beleza ver a força e a energia que tem aquela mata e aquela água, mas só indo lá para entender como tudo aquilo é frágil. A gente tem o lugar mais importante e bonito do mundo, mas vai perguntar quantos brasileiros têm o desejo de ir lá conhecer. As pessoas continuam levando seus filhos para a Disneylândia! Em vez dessa turma ficar olhando para cima, em busca de um deus, deveria olhar aqui para baixo, para a Amazônia.”   

O poeta Fabrício Corsaletti, 40 anos, segue na mesma toada. Autor de Esquimó, diz que vê mais beleza, mais poesia, nas coisas hoje do que via antes, “seja na natureza, seja na obra dos grandes criadores”, escreveu ele em entrevista por e-mail. “Talvez ela seja uma construção, ou um desenvolvimento, do olhar. Lembro que quando eu tinha 15, 16 anos eu lia um poema e pensava: como esse cara tirou tanta poesia da realidade, que é tão chata? Havia um descompasso entre o mundo interior e o exterior. Hoje não é mais assim. Mas, sim, às vezes é preciso meter a mão como uma parteira e arrancar a luz das trevas. Viajar ajuda. Ir a bairros desconhecidos ajuda. Encontrar pessoas que você não vê há anos ajuda (ou atrapalha). Enfim, quebrar a rotina, desautomatizar a inteligência.”

Hoje, contudo, nem a beleza natural é ponto pacífico. Bernardo Carvalho admite que a beleza pode estar em todas as coisas, na natureza, mas não está dada, ela demanda um esforço. “Todas as coisas de que eu mais gostei na vida, que eu achei mais belas, têm a ver com um ato antinatural”, observa ele. “Quando você olha para uma paisagem, naturalmente vem a impressão ‘isso é bonito’, mas eu acho que tem um problema aí. Esse estado já é uma vontade de atribuir um sentido à natureza porque, na verdade, se você se embrenhar naquela paisagem, provavelmente você vai se ferrar”, diz o romancista, observando com ironia que pode haver aí uma certa paranoia.

A beleza, então, depende desse recorte particular que o olhar confere à paisagem, atribuindo sentido a ela quase como uma coautoria. “O que me dá a sensação de que acabei [de escrever] um livro é justamente essa ideia de produção de sentido, de conseguir criar um universo que tem uma autonomia. A autonomia do sentido. A beleza, para mim, está aí.”

Palco Digital: o ator Eduardo Moreira, do grupo Galpão, lê poemas sobre a beleza


“A beleza é a salvação”, diz o ex-diplomata e colecionador de fotografias Joaquim Paiva, 71 anos, transformado em hiperlink no portal do MAM do Rio de Janeiro, a quem cedeu seu acervo de mais de 2 mil imagens. Ele mesmo um fotógrafo, atento às miudezas da condição humana, Joaquim demonstra um certo desencanto com a contemporaneidade, a afastar as pessoas das coisas simples. “Gosto sobretudo da beleza que a gente vê mais facilmente todos os dias, como as nuvens no céu azul”, aponta. “Uma das coisa que acho mais lindas é uma mulher jovem carregando um bebê no colo – nesses tempos tão opressores, parece até que não haveria mais espaço para uma mulher simplesmente andar pela rua carregando seu bebê pequeno.”

Desde um pequeno conjunto de fotografias da americana Diane Arbus e outro do brasileiro Miguel Rio Branco, as primeiras aquisições no final dos anos 1970, sua coleção – a maior do gênero no Brasil –obedece um único critério: fazer Joaquim feliz ao saciar a vontade de seus olhos. “[A coleção] Tem tudo a ver [com a busca da beleza]”, diz ele, que serviu à diplomacia brasileira na Venezuela e no Peru, em Portugal e na Espanha, entre outros países. “Por mais que uma crítica marxista da arte e da fotografia a torpedeie em prol de uma arte utilitária, que se justifica única e exclusivamente pela revolução social, eu acho que a beleza na arte nunca deixará de existir.”

O jogo dos sentidos

No mundo contemporâneo, a beleza inefável da arte ganha um novo sentido, já que uma obra pode ser um conceito apenas, ou uma vida ou algo que escapa à materialidade.. Nesse sentido, chega-se a uma ideia metafísica por caminhos que não necessariamente passam pela religião, pelo divino. O intelecto pode também ocupar o lugar da transcendência.

“O engenho humano e sua capacidade de inventar, de imaginar, de criar, revela o tempo todo a busca da beleza – não de uma beleza vazia, que se esvai na observação, mas de uma beleza produtiva, uma beleza que propõe, que discute, que aponta, que mostra um caminho novo”, diz o diretor do Sesc de São Paulo Danilo Miranda, 74 anos. Para o ex-seminarista com formação em filosofia e ciências sociais, é dessa “convivência permanente entre a barbárie e o processo civilizatório” que a beleza nasce.

Autor de O Drible, romance em que o futebol fracassa na tentativa de restituir o sentido a uma relação em frangalhos entre pai e filho, o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, 55 anos, acredita que a beleza seguirá resistindo a tudo e a todos graças ao jogo de corpo. “A beleza é bem resistente a tentativas de domesticá-la com algoritmos, serialização, engenharia psicossocial, comercialismo, tudo o que vive tentando empacotá-la como produto”, diz. “Se a entendermos como aquilo que provoca uma exaltação estética, que nos reconecta momentaneamente com algum profundo princípio vital, é claro que a beleza definha em ambientes muito formatadinhos. Mas é claro também que ela vai dar sempre um jeito de ressurgir nas brechas, nas falhas, no imprevisto. Para usar um exemplo bem óbvio: o futebol nunca foi tão industrializado, racionalizado, ‘produtificado’, mas uma jogada genial de Messi ou Neymar continua capaz de fugir do esquadro e brilhar.”

O corpo datou

Ronaldo Bressane

Se não existe mais corpo natural e todo corpo é ciborgue, onde mora a beleza do corpo modificado?

Como é linda a tua cicatriz suturada. Como é linda a tua bengala, como são belos os teus óculos, como é gloriosa a tua dentadura. Eu amo o teu olho de vidro. Tua perna de pau. Amo tuas muletas, tuas lentes de contato. Amo teu implante capilar, teu bigode e tua barba falsos, teus cílios e unhas postiços. Amo o teu aparelho auditivo, a tua cadeira de rodas. Morro de tesão nos teus piercings, tuas tatuagens, teus alargadores, teus implantes estéticos. Teus seios de silicone, teus ossos de titânio. Tua mão biônica, teu exoesqueleto. Tua prótese peniana, tua prótese testicular. Teu marcapasso. Não existe nada mais belo no mundo do que a tua bolsa de colostomia. Eu amo a tua tela sensível ao toque, por onde você fala, por onde você me lê, por onde nós nos vemos e nos ouvimos – e onde nós gozamos.

Onde está meu corpo?, às vezes me pergunto. É sempre divertido fazer perguntas tolas e banais para chegar a algum lugar, mesmo que seja o lugar tolo e banal de onde se partiu. Meu corpo ocupa todo o espaço dentro dos dois metros quadrados da minha pele ou está também fora de mim, enquanto dança o balé esquisito que postei no Instagram no inverno? Este que sou eu está só aqui escrevendo este texto ou é o texto que ainda nem terminei de escrever? Meu corpo está mais vivo nesta roupa ou quando se intersecciona com outro corpo? Quando durmo, este corpo continua sendo meu? Estarei somente nos meus 5 milhões de pêlos, nos 97 mil quilômetros de veias, artérias e vasos capilares, nos dez metros de tubo digestivo, nos 220 bilhões de células (25 bilhões só de neurônios) e nos 350 trilhões de espermatozóides que já produzi? Ou também serei meus óculos escuros, meus ossos de titânio, meus posts nas redes sociais?

Sou fascinado pelas pessoas que gritam e riem e conversam pelas ruas através de seus headsets umbilicalmente conectados ao celular. Por pudor ou excesso de idade sou incapaz de comungar dessa porosidade entre fala privada e escracho público: falo no celular com a mão em concha, habitando uma invisível cabine telefônica. Acho coisa de louco furioso esse troço de falar sozinho na rua. Uma vez vi o que achei ser um homeless gritando para a sua mão: na verdade era só um homem muito sujo berrando com seu celular (mais um quadro da pegadinha urbana “Hipster ou mendigo?”). Comentei essa gafe com uma amiga escritora, octogenária, que me contou algo parecido: estava num ônibus, e ao seu lado um homem ao celular não parava de gritar “Cancela, cancela tudo!”. Minha amiga cutucou o vizinho: “Desculpe, senhor, mas seus gritos estão me deixando nervosa!”. Ele olhou-a como quem visse um ET e prosseguiu: “Cancela tudo, porra!”. Então minha amiga concluiu: estamos onde não estamos.

Estamos onde não estamos porque não estamos mais em corpos naturais. Somos ciborgues: nossos corpos foram alterados para suprir nossas deficiências ou para realçar nossas potencialidades – e essas alterações já fazem parte de nossos organismos. O corpo datou. Desde quando não existe um corpo natural, quando foi que fomos expulsos do Paraíso… na Revolução Industrial, talvez? Quem sabe o corpo natural nunca tenha existido, sempre tenha sido uma idealização? Hoje, quando as diferenças entre online e offline, virtual e real parecem se dissolver, se sobrepor ou mesmo se cancelar mutuamente, soa cada vez mais simplista a divisão corpo-espírito – a ser confinada aos domínios das religiosidades e crenças.

Pós-feminismo

A pesquisadora californiana Donna Haraway, em seu revolucionário Manifesto Ciborgue (1984), demonstra que o ciborgue é o ser que atravessa fronteiras. Em sua fusão entre o orgânico e o artificial, o ciborgue invalida a noção de que o corpo é sagrado. “O ciborgue não reconheceria o Jardim do Éden; não é feito de barro nem pode sonhar em retornar ao pó”, afirma. Haraway entende que o corpo ciborgue, ao atravessar os litorais entre orgânico e artificial, verdadeiro e falso, não-ficção e ficção, também cruza os limiares entre gêneros. Daí o corpo ciborgue ser um tema fundamental nos estudos do pós-feminismo.

A visão de Haraway de um futuro ciborgue imagina a desintegração entre fronteiras de gênero e a reconstituição do corpo enquanto máquina orgânica. Ela argumenta que a figura do ciborgue destrói a tradicional associação judaico-cristã da Mulher com a Natureza, o que liberta as mulheres de preconceitos de gênero impostos pela sociedade. As mulheres ciborgues são por definição um assalto ao nosso código cultural. Introduzem a possibilidade da mulher não como pura e inocente criatura de Deus, mas como entidade híbrida. Para Haraway, o futuro é uma utopia pós-gênero. Algo já proposto em livros de ficção científica como A Mão Esquerda da Escuridão, clássico de Ursula K. Leguin.

Bem, se não sabemos onde está nosso corpo, onde estará nosso desejo? Onde viverá nossa noção de belo, de atraente, de necessário para nossa felicidade? A noção de beleza na cultura é mutante, vejam-se os magrelos de Giacometti e Botticelli, as obesas de Botero ou Renoir ou o Cristo restaurado pela imortal Cecilia Gimenez. Os corpos modificados são a tônica da multiplataforma Suicide Girls, que mostra garotas sensuais hipertatuadas para milhões de onanistas. O corpo trans deixou de ser tendência para se tornar um segmento da moda planetária, com modelos como Lea T e Valentina Sampaio habitando as revistas e marcas mais estelares. As transformações nos padrões de beleza obedecem à lógica voraz de mercado, ansioso por novidades: talvez o próximo passo do mundo do glamour seja a sexualização dos corpos ciborgues. Um caminho apontado pelo escritor mexicano Mario Bellatin, dos grandes nomes da literatura contemporânea hispânica, que nasceu sem o antebraço direito. Hoje ele tem uma coleção de dezenas de próteses, esculpidas por diversos artistas, e afirma: seu não-braço se tornou uma obra de arte de domínio público.

Belo como o encontro entre um guarda-chuva e uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação”, descrevia Lautréamont em 1870 nos Cantos de Maldoror. Por sua esquisitice, o inclassificável livro escrito por Isidore Ducasse, um franco-uruguaio que morreu aos 24 anos, foi uma das obras mais influentes sobre as vanguardas europeias do começo do século 20 – catalisou especialmente as imaginações da turma surrealista. No romance Nadja, André Breton prefigurava: “A beleza será convulsiva ou não será”. Impunha uma revolucionária ideia de beleza não como algo “bom” ou “harmonioso”, e sim como processo, transformação, mutação, permanente assombro (e “revolução permanente” é um lema que simboliza certa noção de beleza política). Recheado de citações apócrifas e roubos de textos, os Cantos de Lautréamont hoje são vistos não como último respiro do romantismo, e sim como o primeiro aceno ao pós-modernismo. Por ser um texto frankenstein que usa a colagem tanto como técnica quanto como perspectiva da realidade. E por ser um texto trans: não se define entre prosa e poesia. É um texto que está onde não está; um texto que vê beleza no que a máquina tem de humano.

200 mil novos ciborgues por ano

A beleza vista não como metáfora, mas como metonímia, ou seja, quando a parte é mais importante que o todo, é o eixo de uma parafilia determinante da nossa era: o fetichismo. Substantivo com origem no termo francês fétiche, que significa “objeto enfeitiçado”, designa um comportamento, uma parte do corpo ou um objeto que desperta excitação sexual. Podendo ser sinônimo de feitiço, o fetiche se relaciona com o misticismo, representando um amuleto ou um ídolo, com origem obscura e com poderes mágicos ou sobrenaturais, como os usados por algumas tribos africanas. Na psicanálise, o fetiche tem conotação sexual, representando um comportamento que encontra prazer em atividades específicas, objetos ou partes do corpo. Fetiche comum é a pedolatria, que pode avançar para tesão por sapatos, chulé ou as obras completas do poeta paulista Glauco Mattoso. Outro fetiche metonímico é a apotemnofilia, desejo por ser amputado – parafilia relacionada à acrotomofilia, tesão por pessoas que têm uma parte do corpo amputada.

Conceito crucial do sistema econômico criado por Karl Marx, o fetichismo da mercadoria é um fenômeno em que produtos ganham vontade própria, deixando de ser objetos para passar a ser alvo de adoração: assim, os indivíduos se comportam como objetos e os objetos se comportam como gente (aí naturalizamos o fato de que há entes queridos que atravessam madrugadas numa fila para comprar um telefone de oito mil reais). Antes do espertofone adorado por bilhões de otários, outra mercadoria foi o fetiche central de nossa civilização: o automóvel. No romance Crash, de 1973, o escritor britânico JG Ballard – um pós-surrealista fã do Maldoror – vai ao extremo no tesão por velocidade, carros, estradas, acidentes automobilísticos e suas sequelas. Em uma cena, o protagonista transa em um carro com uma mulher que, após uma batida violenta, teve o corpo desfigurado e só anda com o auxílio de muletas (objetos de fetiche). Ao longo do livro, o narrador cria uma dependência por um sujeito fissurado em desastres, que chega a tatuar um volante no peito, mexendo violentamente com a libido do protagonista.

Ballard antecipa um novo mundo de possibilidades sexuais com os acidentes de automóvel, onde colidem “sangue, sêmen e óleo de motor” (pense: em 2015, no Brasil, morreram 37 mil pessoas em desastres de trânsito, e 200 mil ficaram feridas. São 200 mil novos ciborgues por ano). Ele acreditava em uma superposição de tecnologia, comunicação, design e comércio em que cada aspecto da vida se remodela: sonhos, experiências, fantasias. Então o carro era a metáfora da sociedade. Um dos profetas do nosso tempo, Ballard foi um otimista lírico e irônico que buscava, apoiado na crítica política, uma utopia pervertida que apaziguasse corpo natural e corpo artificial. Em No que Acredito, poema em prosa de 1984, ele escreve:

“Eu acredito no triunfo da imaginação para refazer o mundo, para lançar a verdade que mora dentro de nós, para ralentar a noite, para transcender a morte, para tornar charmosas as rodovias, para fazer amizade com os pássaros, para listar as confissões de um louco. Acredito nas minhas próprias obsessões, na beleza dos acidentes de automóvel, na paz da floresta submersa, nas emoções de uma praia deserta num feriado, na elegância dos cemitérios de automóveis, no mistério dos grandes estacionamentos de carros, na poesia dos hotéis abandonados. Acredito na beleza de todas as mulheres, na deslealdade de suas imaginações, tão próxima ao coração; na junção de seus corpos desencantados com os encantadores trilhos de cromo das gôndolas de supermercado; em sua cálida tolerância por minhas perversões.”

Onde está meu corpo?, às vezes me pergunto, sentindo na perna a Síndrome da Vibração Fantasma, ao notar a súbita ausência do meu celular no bolso. No incrível clip de All is Full of Love, de Björk (1997), Chris Cunningham aborda a crise de identidade causada pela perda do corpo mostrando uma terna cena de amor entre dois ciborgues. Não vemos máquinas estéreis em ação, mas corpos férteis emocionados.

Eles estão lá.

Disse Haraway: “Um mundo ciborgue pode ser aquele em que as realidades físicas e sociais são protagonizadas por pessoas que não temem seu parentesco com animais ou com máquinas”. Ao descobrirmos nossa atração sexual pela beleza dos corpos ciborgues, nos inclinamos por um futuro protagonizado pela sociedade pós-corpo que eventualmente abandonará os determinismos biológicos. Ver a beleza no corpo ciborgue, diria Ballard, é um passo rumo ao triunfo da imaginação.

Continuar lendo texto de Ronaldo Bressane

Mais adiante, de alguma forma ecoando o colega Bernardo Carvalho, o colunista da Folha de S.Paulo vaticina ao concordar que, sim, a beleza está em todo lugar: “Talvez porque ela, como diz aquele velho clichê, esteja de fato nos olhos de quem vê, quer dizer, numa disponibilidade, numa certa abertura do espírito. Acredito mesmo que seja uma necessidade humana básica. Quando deixamos de ver beleza nas coisas, e reconheço que tem andado difícil à beça manter essa disponibilidade, o problema está mais em nós do que no mundo.”

Em Respirar Sem Oxigênio, mostra que organizou há um mês na galeria Millan, em São Paulo, a artista plástica Regina Parra, 36 anos, propunha uma reflexão a partir corpo humano que tem a ver também com o que entendemos por beleza: e se deixarmos de mirar o ideal atlético para ouvir o corpo em sua dor e sua fraqueza? E se o que entendemos por fragilidade tiver sua potência própria? Quem disse que não? “É uma ideia do filósofo francês Gilles Deleuze, no livro Lógica do Sentido (1969), em que ele escreve que ‘é preciso chegar a respirar um ar rarefeito num céu necessidade’. Acho lindo”, diz a mestre em teoria e crítica da arte pela Faculdade Santa Marcelina. “A gente precisa respirar sem oxigênio se quiser chegar a esse outro lugar.”

É o que Regina vem tentando fazer com o seu trabalho, contemplado este ano com o Prêmio de Residência Artística da SP-Arte. “Quando eu faço uma pintura, não estou tentando criar uma coisa bonita, sabe? O que me motiva a pintar é a necessidade de criar um certo incômodo”, ela se arrisca a se explicar. “Eu uso a beleza como uma porta para esse outro lugar. Mas depois de um tempo olhando, eu quero que ela machuque, que ela perturbe. É quase como se fosse uma armadilha, que seduz primeiro para depois jogar um veneninho.” E alucinar os sentidos. “Tudo hoje leva ao mercado, a um só jeito de pensar. Eu acredito muito, fazendo pintura, que é possível criar um imaginário que liberte, onde seja possível pensar de outro jeito.” E a beleza seja diversa.

Tempos sombrios

Porém quanto menos concreta é uma definição, quando mais possibilidades ela tem de trafegar pelo imaterial, maiores as possibilidades de ela desencadear veios reacionários. O poeta e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900) já alertava, em fins do século 19, para os riscos que a falta de imaginação do pensamento conservador oferecia ao exercício da sensibilidade. Encarcerado por dois anos pela sua homossexualidade na Londres vitoriana, Wilde leria ainda na prisão a primeira edição em livro de seu ensaio A Alma do Homem sob o Socialismo (1895), em que defendia que os artistas jamais deveriam se submeter à autoridade “da ignorância geral da comunidade”:

“Uma nova forma do Belo desagrada sobremaneira o público, o qual fica, a cada vez que ela surge, tão irritado e confuso que acaba por empregar duas expressões estultas – uma, que a obra é completamente ininteligível; outra, que a obra é completamente imoral. O sentido que dá a essas palavras parece ser o seguinte. Quando afirma que uma obra é ininteligível, entende com isso que o artista disse ou fez algo de belo e novo; quando descreve uma obra como imoral, entende com isso que o artista disse ou fez algo de belo e verdadeiro. A expressão anterior refere-se ao estilo; a segunda, ao tema. Mas é provável que o público empregue indiscriminadamente ambos esses atributos, à maneira da plebe que atira pedras do calçamento.”

Mais de cem anos depois da prisão de Wilde, há menos pedras arremessadas mas não menos estultices a congestionar o espaço de circulação de ideias, alargado superficialmente pelas tribunas digitais. No episódio mais rumoroso do atual cerco às manifestações artísticas, em setembro passado, o pânico moral capitaneado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) em suas redes sociais levou ao cancelamento da mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira pelo Santander Cultural, em Porto Alegre. No mais recente, em fins de outubro, a noite de abertura para convidados da exposição Histórias da Sexualidade, no Masp, em São Paulo, se transformou em ato político em defesa da liberdade de expressão na contraofensiva ao patrulhamento que ameaçava se lançar outra vez em cruzada pela moralidade e os bons costumes.

Especialista em economia criativa e colaborativa, Lala Deheinzelin fala sobre o futuro e os novos padrões da beleza

A insuportável beleza do feio

Fernanda Fazzio

Lado a lado com monstros, máscaras e demônios, nos aproximamos daquilo que pode se revelar o mais verdadeiro em nós

O que na realidade chamamos de “feio”, em arte pode tornar-se grande beleza. Chamamos de “feio” o que é informe, insano, que sugere doença, sofrimento, destruição, o que é contrário à regularidade – o sinal da saúde... Chamamos também de feio o imoral, o vicioso, o criminoso e toda a anormalidade que produz o mal – a alma do parricida, o traidor, o egoísta... Mas deixe que um grande artista consiga apropriar-se dessa feiura. Imediatamente ele a transfigura – com um toque de sua varinha mágica ele a transforma em beleza”. (Rodin)

O feio é uma palavra difícil na arte. Falar da beleza e do feio ou, ainda, sobre a beleza do feio, é adentrar em perspectivas não estáveis, linhas que pouco definem os padrões que se constroem e se (re)constroem com o passar do tempo. Não raro, somos incapazes de distinguir o belo do feio. Afinal, há quem diga que a fascinação da arte estaria, justamente, no indizível desse encanto. Por vezes, como mágica, um se torna o outro, nos aproximando daquilo que pode se revelar o mais verdadeiro, íntimo e sinistro em nós.

Aqui, não se pensa o Feio em oposição ao Belo, mas, sim, em suas características peculiares, considerando conceitos próprios, relativos aos vários períodos históricos e às diversas culturas. Na arte clássica, por exemplo, o mundo grego não era de todo belo. Basta lembrar que pela sua mitologia vagam seres horripilantes, cruéis e estranhos. É o caso de Saturno, que devora os próprios filhos; de Medeia, que mata os seus para vingar-se do marido infiel; de Agamêmnon, que oferece o sacrifício de sua filha Ifigênia aos deuses; e de Édipo, que mata seu pai e casa-se com sua mãe.

Vale lembrar, ainda, que esse território também é dominado por seres híbridos e horripilantes, como a assustadora Medusa, as sereias, o Ciclope, a Quimera e o Minotauro, que são apenas alguns exemplos dessa vasta categoria monstruosa. Mas eram os deuses, vistos como modelo de beleza suprema, que os artistas mais buscavam representar, como sugere o filósofo italiano Umberto Eco em História da Feiura (2007).

Nessa tradição também encontramos as máscaras, compreendidas como arte mágica de produzir metamorfoses não somente de caráter divino, como também obscuro e secreto.

Na Grécia, a aparência monstruosa de algumas máscaras serviam para conferir um aspecto terrificante ao guerreiro em batalha. As máscaras trágicas e cômicas carregam em si opostos que se alternam, possuindo “a energia da espontaneidade popular, porque derivam diretamente das máscaras rústicas de demônios da vegetação, de criaturas monstruosas ou de animais”, diz o crítico teatral italiano Giovanni Calendoli no texto As Origens no Mundo Grego e Romano. Assim, as máscaras eram usadas nos cultos e procissões dionisíacas, na potência do cômico e do grotesco, o que não deixa de ser uma das faces metafóricas da beleza do feio.

O feio ingressa na Idade Média, com peso, nas representações visuais do Apocalipse de São João, com descrições dos tormentos infernais, materializados em esculturas e, sobretudo, nas pinturas acerca do feio diabólico, em que nenhum detalhe terrível é poupado. As inspirações artísticas vieram da representação literal da narrativa, tidas como predições das ações violentamente assustadoras do Diabo. Vieram à tona, nesse momento, representações de imagens do Diabo, do Inferno, das torturas incessantes e dos monstros terríveis.

O Diabo possuía uma função importante nas relações entre os homens na Idade Média. Era o temido Diabo, não raro transfigurado em outras formas e criaturas, que despertava os sentimentos ruins, comportamentos violentos e a loucura. O Diabo, assim, era a figura que responsável pelas manifestações do feio nos homens, possibilitando maior tolerância nas relações sociais.

As máscaras, por isso, também representavam uma questão complicada para a Igreja. No momento em que a pessoa coloca a máscara, perde a sua aparência de homem (semblante de Deus) para transformar-se em uma outra criatura (serpente, sapo, cervos, javalis, lebres), fazendo ecoar pelo seu corpo bestialidades (bestialitas), aproximando o homem do irracional e do monstruoso, como o historiador francês Jean-Claude Schmitt sugere no artigo As Máscaras, o Diabo, os Mortos.

 A dor de ser

O encantamento das máscaras mais inquietantes, pinturas horripilantes e poemas e contos fascinantes não escaparam dos estudos de Freud. As aproximações entre a psicanálise e o sinistro se encontram na sua potência no emblemático texto O Estranho (1919). O fenômeno do “estranho” (unheimlich) é um chamado para sentimentos de angústia e espanto diante do oculto que se revela em nós. Quando falha nossa capacidade de discriminar o familiar do estranho, o morto do vivo ou o feio do belo, sentimentos dos mais estranhos (e familiares) surgem. Por isso, alguns estudiosos da psicanálise percebem a denominação “sinistro” como mais apropriada para unheimlich, fazendo referência a aspectos mais funestos do termo alemão. Tal experiência estranha não deixa de ser um paralelo metafórico com a morte, no momento em que aquilo que deveria se manter oculto, escapa.

A morte ganha condição de beleza sinistra para os românticos que se maravilham no exausto abandono dos sujeitos diante da iminência da morte, da doença e outros sofrimentos avassaladores. O sujeito romântico oscila entre as fendas das antíteses: paixão e razão, beleza e melancolia, reflexão e impulso, finito e infinito, inteiro e fragmento, interpenetradas pelo azul de oceanos profundos e o negro das sombras da morte.

Os romances nascidos nos salões parisienses marcam uma presença bem particular do amor romântico: heróis que não resistem às encruzilhadas avassaladoras das paixões, emoções essas elevadas às últimas potências (como o personagem do romance de Goethe Os Sofrimentos do Jovem Werther). A trágica beleza romântica esmaga o protagonista inerte e frágil, imerso na melancolia, que percebe na beleza da morte a sua fascinação. Quanto a essa beleza tão particular, Umberto Eco aponta: “Exatamente por sua negação das regras da razão, é por si mesmo livre e despótica ao mesmo tempo: o homem romântico vive a própria vida como um romance, arrastado pela potência de sentimentos aos quais não pode resistir.”

O romantismo ainda enlaça a beleza ao feio da doença, manifestada, por exemplo, nos estados febris em que o adoecer confere ao convalescente um aspecto etéreo, potencializado no seu estado de morte. Umberto Eco ainda comenta que, nesse contexto, doenças que deformam o corpo não perdem o caráter do feio, mas conseguem fascinar pelo seu caráter devastador. O artista romântico também representa belamente, de forma objetiva, os indigentes, excluídos socialmente, vítimas dos males da pobreza e velhice.

Antes de se tornar pintura, poesia ou peça teatral, os artistas românticos adentram em zonas incertas de um prazer inquieto, que é belo, feio e também é dor. A arte nasce, assim, tão forte desses sinistros demônios interiores, que intensidade parece ser, no romantismo, mais uma das palavras para beleza.

Qualidades inseparáveis na arte e do ato de criar, o Belo e o Feio são espanto, fascinação e assombro. Em uma tentativa de aproximar um do outro, preciosas chaves de leitura do mundo (externo e interno), afinadas em tempos e contextos culturais próprios, puderam ser encontradas. A experiência de encontro com o feio é impacto. Lado a lado com monstros, máscaras, demônios e morte, desaguamos, enfim, na beleza do feio. Desse modo, mergulhar nas águas profundas e turvas do feio é um exercício de (re)abertura no campo dos possíveis entre estética e existência. Como diria Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”

_______

Fernanda Fazzio é psicóloga, psicanalista, bacharel em teatro e autora de A Inquietante Beleza do Feio: Ensaios Poéticos sobre as Máscaras, o Feio e a Criação Artística (editora Patuá, 2014).

Continuar lendo texto de Fernanda Fazzio

Talvez por isso a crítica literária e psicanalista Maria Rita Kehl, 65 anos, tenha se recusado em um primeiro momento a responder a pergunta que estenderia aos outros entrevistados ao longo desta reportagem – “De onde se pode esperar que a beleza brote, inesperadamente, nesses tempos tão sombrios?”.  

“Assim que eu desliguei, pensei em uma coisa óbvia que eu não tinha falado”, diria ela no recado que deixou gravado no celular pouco depois de breve conversa com a reportagem da Bravo!. Integrante da Comissão Nacional da Verdade, que investigou as violações dos direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985), Maria Rita se opôs inicialmente à pergunta por inoportuna: “O perigo está justamente aí – a estética que obscurece a razão”. Mas depois concederia uma luz, no recado que se segue: “De onde pode vir a beleza em tempos sombrios? [o tom é retórico]. De onde começou a vir a beleza em um certo momento da ditadura? Veio da revolta. Essa beleza vale a pena. Basta pensar nas músicas de protesto, por exemplo, que não são o melhor que a nossa música produziu, mas naquele momento era a beleza. Era a beleza e vinha da revolta. Nesse momento, se vem alguma beleza, não é da primavera, não é das flores, nada – é dos momentos em que as pessoas se revoltam contra os tempos sombrios. Isso você pode escrever.”

Um dos participantes do seminário internacional 1917: o Ano que Abalou o Mundo, organizado em setembro pelo Sesc São Paulo e a editora Boitempo para discutir o legado da Revolução Russa em seu centenário, o sociólogo Michael Löwy, 79 anos, reforça a ideia da beleza no necessário ato de resistir. “Não há nada mais belo do que uma barricada libertadora”, diz à Bravo! o marxista franco-brasileiro, organizador de Revoluções, coletânea de fotografias e ensaios sobre os movimentos populares que ajudaram a redefinir o mundo entre o final do século 19 e a segunda metade do século 20.

“A beleza, o maravilhoso e o encantamento estão presentes em toda ação humana que escapa ao reino totalitário da mercadoria, desde um beijo sensual entre amantes até a insurreição revolucionária. Max Weber escreveu que o capitalismo tem por resultado o desencantamento do mundo, mas a resistência nunca cessa porque cada ser humano é um poeta e um artista virtual, com aspirações que não têm preço no mercado”, arrisca o sociólogo, que arremata: “A beleza não se cultiva. É uma flor selvagem que cresce de repente, de onde menos se espera”.


Com reportagem de Bartleby, o escrivão