Arte acovardada
Cena de Interior II, 
de Adriana Varejão

Por Fabio Cypriano

Em um período marcado por censura e intolerância, as instituições de arte têm pouco do que se orgulhar

As instituições de arte entram em 2018 mais fragilizadas e acovardadas do que começaram 2017. De certa forma, isso é consequência da polarização enlouquecida das redes sociais que também contaminou o mundo das artes visuais. O início desse percurso ocorreu em Porto Alegre, quando o Santander Cultural encerrou a mostra Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira em setembro, quase um mês antes do prazo previsto, por conta de denúncias nas redes sociais de apologia à pedofilia e zoofilia, apontadas em 3 das 264 obras expostas.

Não foi a primeira mostra dessa temática no país. A 31ª Bienal de São Paulo, Como Falar de Coisas Que Não Existem, em 2014, reuniu um segmento muito mais radical, em torno de três projetos: Deus é Bicha, do peruano Miguel López; o Museu Travesti do Peru, de Giuseppe Campuzano; e Zona de Tensão, uma homenagem a Hudinilson Jr. (1957-2013), organizada por Marcio Harum. Com muito mais visibilidade do que o Santander, a Bienal não passou por nenhum tipo de constrangimento, mesmo que polêmicas não sejam raras em sua história – é só lembrar dos urubus de Nuno Ramos, em 2012, e dos pichadores, em 2008.

Certo é que o Brasil de 2014 era muito mais tolerante e aprazível que o país surgido do golpe, em 2016, marcado pela quebra das regras democráticas e o fortalecimento de movimentos reacionários contra a liberdade de expressão. O posicionamento de censura do Santander certamente deu forças para o segundo ato dessa ópera bufa: os protestos contra a performance La Bête, de Wagner Schwartz, na abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Novamente, pelas redes sociais, criou-se uma enxurrada de falsas acusações, de que uma criança estaria interagindo com o artista nu e que, portanto, o museu estaria fazendo apologia da pedofilia.


'Hora de assumir lados'

Andrei Reina

Coordenador do projeto Política da Arte na Fundação Joaquim Nabuco, Moacir dos Anjos diz que a arte não pode mudar o mundo – mas sim nos indicar fissuras nos consensos que nos formaram como sociedade

“Não se pode esperar que arte possa mudar a sociedade". A frase do pesquisador e curador Moacir do Anjos, contudo, não invalida a ideia de que ela possa oferecer novas maneiras de compreender o mundo e nossa história. “Sem encarar as fissuras que nos fizeram o que somos nós – fissuras de raça, de classe, de gênero –, não seguiremos para lugar nenhum diferente deste onde estamos há tanto tempo”, diz. Em entrevista à Bravo!, Moacir – que coordena o projeto expositivo e pedagógico Política da Arte, na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife – avalia a produção artística brasileira em 2017 e defende que os ataques conservadores às artes exigem um posicionamento de artistas, curadores e gestores. “É hora de assumir lados.”

 Terminamos o ano de 2017 com a sensação de que as artes visuais no Brasil estão contra a parede. A que você atribui a onda de censura e ataques em exposições e mostras?

Estamos vivendo, como já foi inúmeras vezes dito e analisado, uma crise de representação. Crise que não alcança apenas o campo da chamada política partidária, mas que envolve todos os espaços de vida onde equivalentes simbólicos do mundo são criados e difundidos. Estamos em disputa aberta pelas imagens, discursos e gestos que supostamente representariam, no campo do sensível, nossa realidade. Representação que, por ser necessariamente um recorte da experiência vivida, tanto inclui quanto exclui aspectos dessa realidade. Essa onda de censura e de ataques a exposições é expressão violenta dessa disputa, onde se busca sufocar, à força, modos menos excludentes de representar o mundo.

Por que as exposições de arte foram alçadas a vilãs da moral do país?

As artes visuais não não se moldam, para o bem e para o mal, a um consumo massivo. É justamente essa característica que faz com que as artes visuais sejam agora alvo dos ataques conservadores, posto que constituem – ainda, ao menos – um espaço de reflexão crítica cada vez mais escasso na esfera criativa do país.

O filme The Square, Palma de Ouro em Cannes, critica  as mega-instituições de arte em sua distância da vida comum e em sua subserviência aos patrocinadores. Há um descompasso entre a experiência brasileira e a global? Ou os fenômenos estão relacionados?

A teia institucional artística brasileira é extremamente desigual. Enquanto a maior parte dos museus e centros culturais vive à míngua e luta para não fechar de vez as portas, alguns poucos se equivalem, em termos de poder simbólico, às instituições criticadas, direta ou indiretamente, em filmes como The Square. Poder simbólico que, muitas vezes, se ancora em associações com patrocinadores e patronos, que fazem parte de seus conselhos e direções. Esta associação ficou tristemente clara na decisão que o conselho e a direção do Masp – formado por representantes de algumas das maiores fortunas do país – tomaram de proibir a mostra Histórias da Sexualidade para menores de 18 anos, ecoando o receio de seus patrocinadores e patronos frente aos danos simbólicos e políticos que um eventual ataque conservador ao museu lhes causaria.

Com as eleições à frente, 2018 promete manter o clima de polarização do ano passado. Quais são suas expectativas para o ano nas artes?

Difícil de prever o que pode acontecer em ambiente de tamanha incerteza e insegurança política e jurídica. Parece-me que a reação firme de muitos artistas visuais aos ataques conservadores – usando seus corpos e também vias legais nessa defesa – conseguiu criar um obstáculo à fúria cega e ignorante dos que desejam um país sem espaços de reflexão crítica, seja nas escolas, seja nos museus. Mas é preciso estar sempre alerta e contrapor-se de imediato a qualquer novo ataque. Este é, a meu ver, um dever de todo artista, curador, crítico, educador ou gestor de museu que confie no poder que a arte tem de apontar para outras formas possíveis de entender o mundo. É hora de assumir lados.

Você coordena pesquisas sobre arte e política na Fundação Joaquim Nabuco. Quais relações entre os dois termos vocês têm observado? E o que esperar delas nos dias de hoje?

Coordeno um projeto de exposições, debates e cursos chamado Política da Arte. No âmbito desse projeto realizamos, nos últimos sete anos, cerca de 20 exposições com artistas de várias procedências e interesses, além de inúmeros eventos discursivos. Cada qual a seu modo, e em função de seu contexto de trabalho e de vida, apresentou trabalhos de grande contundência crítica. Apesar disso, não se pode esperar da arte aquilo que ela não pode entregar – mudar a sociedade. O que a arte pode oferecer são outras maneiras de entender aquilo que pensávamos já conhecer. Abrir fissuras nos consensos com os quais vamos levando nossas vidas através dos anos. Oferecer formas de entender o mundo mais inclusivas e complicadas. Mas a responsabilidade de fazer algo maior disso tudo não é da arte, é de cada um que entre em contato com ela, seja de que modo for. Uma coisa, contudo, é certa: quanto mais universidades, museus, centros culturais e galerias promovam um contato cada vez mais próximo com essa produção crítica e potencialmente emancipadora, mais chances existem de que algo novo floresça.

Os artistas têm sido felizes em responder às novas contradições da sociedade? Que horas são para as artes visuais no Brasil?

É difícil falar, de modo inequívoco, sobre qualidade de produção artística, quando os próprios valores e critérios para atestá-la têm sido postos à prova nas últimas décadas e, de modo mais radical, nos últimos anos. E não somente no Brasil. O que não é necessariamente ruim, pois nos põem em posição de alerta, levando-nos a questionar julgamentos supostamente assentados e resolvidos. É possível que cheguemos, em algum tempo, em novos acordos, em novos consensos sobre juízos de valor, mas creio que vivemos um intenso momento de disputa. Falando de um modo muito genérico, contudo, é patente que há hoje, no Brasil, muitos mais artistas confrontando as contradições do Brasil do que há dez ou mesmo cinco anos atrás. Confronto que nem sempre é temático ou didático, pois são muitas as maneiras de a arte fazer política no sentido que mencionei anteriormente. Quanto a isso, sou otimista. As artes visuais no Brasil se fazem, cada vez mais, contemporâneas de seu tempo.

Como você definiria o papel de um curador de arte hoje? Concorda com as críticas de que curadores por vezes ganham mais destaque do que as obras e os artistas?

Apesar de atuar como curador há muitos anos, não me importo muito com as discussões específicas do campo. Acho que há um tanto de frivolidade e de vaidade em muitas dessas discussões, associadas, claro, a disputas por um naco de poder. Um pequeno poder, embora haja quem se iluda com sua suposta grandeza. E, nesse sentido, concordo que muitas vezes os curadores terminam ganhando um destaque desproporcional frente ao que realmente importa nisso tudo, que é a arte e aqueles que a produzem. Prefiro entender o papel do curador de arte como o de um pesquisador que eventualmente traduz os seus “achados” na forma de uma exposição; ou de um seminário; ou de um ensaio; ou tudo isso junto. Também como alguém que pensa junto do artista sobre interesses e preocupações comuns e que participa, com sugestões críticas, na apresentação do trabalho daquele a uma audiência mais ampla.

Um assunto inevitável nos últimos anos é a sublevação promovida pelos movimentos identitários na sociedade. No ano passado, ao menos quatro mostras foram sensíveis a esse novo quadro: Modos de Ver o Brasil, Brasil por Multiplicação, São Paulo Não é uma Cidade e Agora Somos Todxs Negrxs?. O jogo está mudando?

Está mudando. Lentamente, mas de modo inexorável. E o mundo das artes, como parte disso tudo, segue mudando também. Às vezes com retardo, outras vezes se adiantando. Acho muito importante e salutar para nossa jovem e já combalida democracia que mais e mais mostras discutam as desigualdades históricas e atuais que fundamentam nosso país. Se no ano passado foram quatro mostras, que este ano sejam oito e depois mais. Estamos apenas engatinhando, e não somente nas artes.

Uma crítica que era comum de se ouvir, mas parece ter passado ao segundo plano, era a de que o eixo cultural brasileiro se restringe demais ao Rio de Janeiro e São Paulo. No caso das artes visuais, o quanto disso ainda é verdade?

Se o critério para definir eixos ou polaridades for o do mercado ou mesmo o do dinamismo institucional, é evidente que ainda há uma enorme concentração da produção artística brasileira nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. E isso tem consequências em termos de acesso diferenciado à produção que o chamado meio da arte pode promover. Mas o mundo e o Brasil ficaram mais complicados nas últimas décadas. E isso é muito bom. Globalização, internet, lutas de afirmação identitária ou mesmo de recusa a qualquer reducionismo identitário, associadas à criação de vários outros circuitos que ignoram ou ao menos não se submetem a galerias e museus tem criado um ambiente muito mais diverso, às vezes até inclassificável. Como ou se essa dinâmica vai se ancorar em novas instituições ou mesmo em nichos de mercado é algo que a incerteza em que vivemos hoje no Brasil torna impossível sequer considerar.

Continuar lendo texto de Andrei Reina
The Route (2006), 
de Chieh-Jen Chen, 
que integrou a 
mostra Levantes
O filósofo Georges Didi-Huberman, professor da Escola de Estudos Avançados 
em Ciências Sociais, fala da curadoria da mostra "Levantes", no Sesc Pinheiros

Por conta dos boatos e da má-fé dos detratores, a CPI dos maus-tratos às crianças, criada em julho de 2017 no Congresso Nacional para tratar de instituições que praticam violência contra crianças e adolescentes, passou também a investigar, em outubro, o museu paulistano e o instituto de Porto Alegre. É certo que esses ataques aos artistas e às instituições de arte miravam não a “defesa da família”, mas sim deslegitimar um dos segmentos mais ativos em denunciar os retrocessos sociais decorrentes do governo menos popular do mundo.

Todo esse contexto levou a um terceiro ato, o mais grave deles, quando o Museu de Arte de São Paulo (Masp), ao inaugurar a mostra Histórias das Sexualidades, antecipou-se a eventuais assédios e fez autocensura, proibindo a visita de menores de 18 anos, mesmo acompanhados de seus pais – o que contraria todas as normas classificatórias do país. Foi necessário que o Ministério Público Federal emitisse uma nota, cerca de um mês depois, para o museu liberar a entrada a todas as faixas etárias. Está no Masp a mesma pintura de Adriana Varejão, atacada pelos fundamentalistas da internet, que gerou as acusações de zoofilia em Porto Alegre. Aqui, não houve protestos.

Marketing como norte
Performance de Wagner
Schwartz no MAM-SP;
foto: Humberto Araújo

Nesses três atos, é preciso reconhecer que o MAM-SP foi o único a tomar partido em defesa da arte e do artista, em uma nota divulgada logo após a repercussão, como se pode observar no trecho da nota divulgada pela instituição: “O museu lamenta as interpretações açodadas e manifestações de ódio e de intimidação à liberdade de expressão que rapidamente se espalharam pelas redes sociais.”

O encerramento prematuro no Santander e a autocensura do Masp apontam, contudo, uma questão mais dramática e mais relevante, que diz respeito à falta de sintonia entre os dirigentes dessas instituições e as práticas artísticas. Com a importância que museus e centros culturais assumem na sociedade atual, cada vez mais tomam parte de seus corpos diretivos figuras mais interessadas em captação de recursos, marketing e eventos do que com arte.

É muito possível que a mostra Queermuseu tenha sido uma estratégia de aproximação com o Pink Money, como nos Estados Unidos é chamado o dinheiro que pertence à comunidade LGBTQ. Com o questionamento na internet e a ameaça de evangélicos em realizar campanhas contra o banco, a resposta mais pragmática foi cancelar a mostra. O perverso nessa história é que seu curador, Gaudêncio Fidelis, conhecido por atitudes egocêntricas (seu nome costuma aparecer maior que o dos artistas nas mostras que organiza) e exposições conceitualmente frágeis (o próprio Queermuseu foi questionado por militantes LGBTQ), se tornou ícone da liberdade de expressão por conta dos fundamentalistas virtuais.

10 exposições fundamentais de 2017

Já o Masp terminou o ano com mais uma confusão, desta vez a saída de três artistas – Caetano de Almeida, Iran do Espírito Santo e Sandra Cinto – e alguns estilistas, que fariam parte de um projeto previsto para ser realizado em 2020: a reencenação da coleção Masp Rhodia, composta por 78 peças, mostra liderada por Pietro Maria Bardi nos anos 60.

Primeiro, é digno de nota que a direção artística do Masp vem se especializando em ideias requentadas, repetindo projetos de Pietro e Lina Bo Bardi, ao invés de propor o que pode um museu realizar de inovador no século 21. A saída dos artistas, no entanto, se deve justamente por esse apreço inconteste pelo dinheiro e da falta de sensibilidade com a arte que vem caracterizando a gestão do museu. Gestão que levou ao seu conselho figuras nada representativas no circuito das artes, como o apresentador Luciano Huck, o ministro Henrique Meirelles e o empresário Flávio Rocha.

Foi por conta da empresa desse último, que patrocina a futura coleção Masp Riachuelo, que os artistas abandonaram o projeto, já que Rocha é envolvido com o MBL, o agrupamento que prega a defesa da livre iniciativa, mas é contra a liberdade de expressão – uma hipocrisia que apenas é a ponta do iceberg do movimento.

Contudo, como pode o Masp aliar-se a uma empresa que tem por liderança uma figura com essa ficha corrida? Cada vez mais artistas se preocupam em saber a origem do financiamento de suas mostras ou de museus. Em uma concorridíssima palestra, realizada no Instituto Tomie Ohtake, em novembro passado, Nan Goldin defendeu boicote a museus patrocinados pela família Sackler, proprietária de uma marca de remédios que tornaram e continuam fazendo vítimas de vício e morte milhares de norte-americanos. Enquanto isso, a direção do Masp ignora a questão e considera que qualquer dinheiro é bem-vindo. A própria decisão de autocensura foi atribuída pelo museu a consultores externos, todos advogados, e não à curadoria.

O senhor da razão
Autorretrato de Lasar Segall, 
dos anos 1920, 
que faz parte da exposição
 A Arte Degenerada de Lasar Segall

No futuro, tanto esses dirigentes de museus e instituições culturais quanto os difamadores raivosos serão lembrados por suas atitudes irresponsáveis, patéticas e oportunistas, algo como se vê na excelente mostra A ‘Arte Degenerada’ de Lasar Segall: Perseguição à Arte Moderna em Tempos de Guerra, em cartaz no Museu Lasar Segall até o fim de abril. Com curadoria de Helouise Costa e Daniel Rincon, a exposição faz um breve percurso da histórica exposição organizada pelos nazistas que combatia a arte moderna, denominada Mostra de Arte Degenerada, em 1937, que incluía obras de Segall, antes de ser radicado no Brasil.

Segundo documentação na mostra do museu dedicado a Lasar Segall, Arte Condenada pelo Terceiro Reich, organizada pelo galerista Miécio Askanazy em 1945, no Rio de Janeiro, também provocou reações semelhantes às atuais, gerando expressões que parecem com as que circularam na rede, em defesa da família e condenando a exposição carioca. Felizmente, aquelas figuras são hoje apenas notas patéticas de uma história superada.

Em suma, as instituições culturais têm poucas pessoas de fato especializadas em arte e mesmo as que são profissionais da arte não costumam ter a opinião decisiva sobre questões essenciais desses espaços. Se fosse assim, não teria sido encerrado prematuramente o Queermuseu e nem a censura para menores de 18 teria ocorrido no Masp.

Uma exceção nesse cenário é Inhotim, criado pelo empresário Bernardo Paz. Sempre cercado de curadores competentes, Paz adquiriu o melhor acervo de arte contemporânea no Brasil, tanto de artistas nacionais como internacionais, em meio a um jardim botânico quase sem precedentes. Com isso, criou um ambiente perfeito para toda a radicalidade da produção contemporânea, possibilitando um diálogo inusitado entre a estranheza das reflexões da arte atual com a natureza.

Com a derrocada do mecenas, que renunciou à presidência do instituto após ser condenado por lavagem de dinheiro, fica a dúvida sobre o futuro de Inhotim. Conseguirá manter sua qualidade, agora nas mãos de pessoas sem o mesmo poder financeiro de seu criador? Teria o Estado capacidade para dar continuidade a esse projeto? As respostas são difíceis, mas a inviabilização de Inhotim seria mais uma imensa perda para o país.


Registro da mesa redonda realizada na Pinacoteca de São Paulo, na qual
o diretor da Pinacoteca Jochen Volz, o curador Rodrigo Moura e
o fotógrafo Mauro Restife discutiram a exposição "Álbum". 
Pluralidade à vista
"À Procura do Quinto Elemento",
de Barbara Wagner,  que esteve
na exposição "Corpo a Corpo", no IMS
Foto: Pedro Vannucchi

Se museus e instituições culturais diminuíram em 2017 (enquanto alguns passaram quase em branco, como a Pinacoteca, que demonstrou algum arrojo apenas na mostra Álbum, de Mauro Restiffe), o Sesc solidificou-se como o espaço mais plural, democrático e antenado com a produção atual, acolhendo e organizando mostras significativas como Todo Poder ao Povo! Emory Douglas e os Panteras Negras, Levantes, o 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc-VideoBrasil e a Trienal Frestas, em Sorocaba, entre outras.

Não por acaso, a presença da filósofa Judith Butler foi também alvo de ataques nas redes e no próprio Sesc, onde participava de um seminário sobre democracia. A direção do Sesc manteve o evento, o que deu cara ao nível baixo dos fundamentalistas, que queimaram uma boneca de Butler, como se queimavam as bruxas na Inquisição da Idade Média. Aqui, de novo, o ataque não era à conhecida teórica do feminismo, mas ao próprio Sesc, por sua conduta de abrigar a produção de ponta no país.

Sob a direção de Danilo Miranda, mas com o apoio de uma rede de profissionais que têm na arte sua preocupação central, o Sesc é a referência fundamental da independência necessária das instituições culturais. Graças a seu apoio, a própria Bienal de São Paulo excursiona pelo Estado, aproximando o que as duas últimas edições experimentais produziram da população do interior.

A qualidade das exposições do Sesc na capital é inegável. Ele trouxe a excelente mostra organizada por Georges Didi-Huberman, originalmente vista no Jeu de Paume, em Paris, sobre a visualidade das manifestações e as insurgências como expressão artística e social. O catálogo da mostra, no qual um dos textos é de Butler, é sensacional. Contudo, e aí se vê a sensibilidade do curador e dos profissionais da instituição, não se trata de uma exposição simplesmente importada, mas que em São Paulo foi atualizada com artistas nacionais, como Clara Ianni, Jaime Lauriano e Rafael RG.

Mas, além das exposições já citadas, a inauguração da nova sede no centro, o Sesc 24 de Maio, com São Paulo Não é uma Cidade, curadoria de Paulo Herkenhoff, é outro feito notável. Primeiro pelo projeto de Paulo Mendes da Rocha, que verticaliza uma praça pública em uma região tão adensada e com tão poucos espaços de convivência. Em um momento caracterizado por limitações à cidadania, é um gesto fundamental. Já a mostra de Herkenhoff ao invés de exaltar a cultura paulistana, problematiza suas características e ainda centra na produção de afrodescendentes uma conquista importante do circuito.

Seguir pra onde?

Fernanda Pitta

Não será a ponderação, o bom senso, a nossa arma contra os cínicos. E não ajudam em nada as teorias conspiratórias dos apocalípticos

Tenho um amigo que é obcecado por listas dos “melhores”. É uma dessas raras almas que ainda acreditam em juízos de valor, em medida, em critérios. Admiro sua fé e tenho muito carinho por sua necessidade de organizar, classificar, separar o bom do mau. Penso que lhe dá paz de espírito e um sentido para suas compulsões. De minha parte, há muito me interessa mais compreender como as coisas são valoradas, e como esses valores mudam, do que emitir juízos. Mania de historiador, vão dizer. Também amor pelo que é secundário, quiçá malfeito, desimportante e olvidável. Ou uma espécie de religião que se recusa a achar que algo deva ser desprezado, que não mereça ter memória. Alguém, algum dia, há de achar graça, interesse ou uso naquilo que para você ou para mim hoje parece completamente descartável.

Seja quais forem os motivos, tenho dificuldade em fazer retrospectivas ou avaliações. Não por falta de coisas boas. Ao contrário, em 2017 tivemos exposições com pesquisa criteriosa como a de Cícero Dias, Di Cavalcanti e Toulouse Lautrec. Pudemos ver artistas poderosas como Terezinha Soares ou Leticia Parente. Artistas como Mauro Restiffe e Laercio Redondo abriram arquivos particulares e expuseram – sem traço de narcisismo – aquilo que há de mais poderoso na banalidade. Deixamo-nos envolver por completo pela narrativa sem narrativa de The Clock, de Christian Marclay. Por fim, a curadoria inteligente e discretíssima (por isso mesmo incrível e certeira) de Heloisa Espada nos mostrou outras duas exposições (ela também curou a montagem de Marclay) memoráveis, Ari Sala: o Momento Presente e Conflitos. Esta última, mais do que no território da arte, situou o poder da imagem como representação, mas também testemunho capaz de erodir as construções assentadas do discurso das palavras. (Eu disse que não sei fazer listas, então paro).

Mas, vamos admitir, foi um ano difícil – de piores, não de melhores – como de resto têm sido os últimos, com golpe atrás de golpe. Nesse em especial, assistimos a ataques contra as artes, as visuais em particular, que julgávamos impensáveis, para os quais não estávamos preparados.

Quem lida com imaginação, transgressão e utopia deveria estar melhor precavido? Em anos recentes, baixamos a guarda por nos acharmos do lado certo da história (como tantas outras vezes; por que não aprendemos?) e, talvez por perplexidade em ver as artes visuais no centro do debate político – logo elas, que são sempre a última na lista de prioridades, consideradas inúteis ou supérfluas – ficamos bestializados diante do cinismo de atores pornô e de supostos liberais que pregam o boicote a empresas. Estamos naquela posição em que o argumento não conta, já que aqui a velha tática de combate, o desmascaramento, é inútil.

Além do mais, fica difícil dizer que a arte e suas instituições estão do lado da verdade por detrás das aparências quando uma época vê uma das supostamente mais respeitadas casas de leilão vender uma obra absolutamente inverossímil (Salvator Mundi), por um valor igualmente inverossímil (US$ 450,3 milhões), atribuída a um dos “maiores” da arte (Leonardo da Vinci), sendo que tal obra vai parar nada menos do que na parede da sucursal de um dos “gigantes” do mundo dos museus (o Louvre Abu Dhabi. Se isso não é prova de que a crítica do cânone é mais do que necessária, não saberia dizer o que seria – Saravá! Bruno Moreschi e a turma do História da _rte).

Desse episódio, indigno de um filme de Orson Welles, só nos restou mesmo rir da tirada de Thomas Campbell (ex-diretor do Metropolitan Museum, escorraçado por colocar em prática aquilo que seu board mandou), que afirmou que a restauradora do quadro é a artista contemporânea mais cara de hoje.

Constatamos e seguimos? Mas para onde? Os reis estão nus, todos estão vendo e nada disso importa. Não será a ponderação, o bom senso, a nossa arma. Não adianta argumentar que nudez não é pornografia, que sexo é o que nos mantém vivos, que gênero é uma construção social, que a liberdade de expressão é direito de todos. Não com esse inimigo, pois a perversão é a forma erótica do seu ódio, e ele se nutre de sua fantasia de revanche por uma ofensa que supostamente lhe foi imputada. Nisso, sequestrou o discurso das minorias e mostrou o limite da política identitária.

Também não colabora a posição conspiratória, que mais uma vez vai acusar o conluio do capital com a cultura, com o mesmo ramerrão contra a falta de critério da arte contemporânea, a hegemonia do mercado ou o caráter conservador das instituições. Quero dizer, não dá para parar por aqui. Conservadores e apocalípticos são os que sempre dão as mãos ao primeiro aviso de incêndio.

Por fim, muito menos se trata da defesa incondicional da arte, como bastião de algum reino em que tudo é “luxo, calma e volúpia”. Arte não é salvação, ou melhor, só pode almejar alguma afinidade eletiva com a salvação, ou com a felicidade (seu outro nome), quanto mais conseguir se entranhar naquilo que é contraditório, e não por supor garantir alguma superioridade absoluta, além do bem e do mal.

Será possível então encontrar vocabulário, estratégia e tática pra prever, desviar ou contrapor isso que já chamaram de razão cínica, essa tal de pós-verdade, ou o que quer que descreva os ataques dessas novas versões escancaradas de fascismo? Estamos na retaguarda, é certo. Já se falou em algum lugar da necessidade, no momento atual, de distinguir o que se precisa combater daquilo que é preciso desarmar.

ColeraAlegria

Então, para voltar ao início, eu gostaria mesmo é de registrar a impressão causada por uma iniciativa que tem pipocado aqui e ali, em eventos e nas redes sociais da qual me dei conta somente no fim de 2017. São anônimas e se apresentam unicamente pelo belo nome ColeraAlegria; no espaço virtual, com a hashtag #coleraalegria. Aparecem na forma de cartazes, estandartes e mantos. Tais práticas tem origem remota nas formas de agit-prop, é evidente, e com elas creio que compartilhem sua eficácia. Fazem também referência livre à arte participativa e, desconfio, aos objetos de alguém como Bispo do Rosário (estes, produzidos não como arte, mas num ato de resistência a uma violência que a maior parte de nós nunca experimentou).

Na economia de seus suportes, essas manifestações de “afetos, ideias, gritos, sugestões, proposições, reações sobre urgências do tempo presente” (o trecho é do texto anônimo que apresenta ColeraAlegria) soam como pequenos sussurros capazes de preencher o mundo. A espontaneidade da forma desse “instalar-se, de novo e com poucos meios” (a expressão é do filósofo Walter Benjamin), sua fragilidade, efemeridade e incompletude estão em contradição com a força potencial dessas vozes em “número ilimitado de membros” (aqui, a citação é de E. P. Thompson). E, talvez, precisamente desse contraste surja a contundência de que tanto estamos precisando.

Fernanda Pitta é historiadora da arte e curadora na Pinacoteca de São Paulo

Continuar lendo texto de Fernanda Pitta
Imagem do #coleraalegria,
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Tão significativo quanto o novo Sesc é a nova sede do Instituto Moreira Salles (IMS), na avenida Paulista, projeto do escritório Andrade Morettin Arquitetos. Aí está outro importante exemplo de profissionalismo no circuito da arte. O IMS possui programa e publicações impecáveis, como a Zum e a Serrote, e sua sede paulista também cria um espaço público raramente visto na cidade, em um de seus mais nobres locais. É impressionante ver a ocupação do edifício em dias da semana, com todos os seus espaços ocupados, especialmente a biblioteca. Além do mais, a mostra inaugural, Corpo a Corpo, com curadoria de Thyago Nogueira e Valentina Tong, traz obras sobre o tempo presente, como as de Barbara Wagner ou Jonathas de Andrade, além de trabalhos atuais que não costumam ser vistos como do campo artístico, caso do coletivo Mídia Ninja, uma aproximação radical, mas necessária.

Finalmente, não dá para não falar da Bienal de São Paulo, afinal em torno dela o circuito se potencializa, e mostras com mais densidade costumam ser organizadas durante sua permanência, em parte por conta da natural sinergia que irradia do Ibirapuera, em parte para impressionar o público externo.

A Bienal só ocorre neste ano, mas como seu curador foi selecionado em 2017, já é possível antever o que vem por aí. No caso desta edição, realmente é possível pois, novamente, a Fundação Bienal se rende a curadores próximos da megacolecionadora Patricia Cisneros indicando Gabriel Pérez-Barreiro como responsável pela 33ª edição. Há três edições o curador foi Luís Perez-Oramas, que já foi curador da coleção Cisneros, cargo que atualmente é exercido por Pérez-Barreiro.

Ele defende que esta edição questione o papel do curador usando uma fórmula utilizada por ele mesmo há dez anos, na Bienal do Mercosul: convidando artistas para organizar mostras na bienal. O discurso para apresentar Afinidades Afetivas, o título da mostra, é bonito, mas vazio. Muitas bienais já foram organizadas por artistas. Agora mesmo em 2017, a dupla Elmgreen & Dragset foi responsável pela Bienal de Istambul, com uma edição política, em um país marcado pela censura.

O mais preocupante, contudo, é que em torno dos sete artistas escolhidos as temáticas apresentadas praticamente se resumem a temas particulares da arte: a pintura, a tradição, a tragédia, a abstração, a narrativa e assim por diante. Ou seja, enquanto o mundo está se dissolvendo em conflitos, a Bienal vai falar do umbigo das artes. Feliz 2018!