Fora dos eixos
Pintura naïf marroquina
de Mostafa Assadeddine

Por Priscilla Campos

Numa modernidade que se define pelo fim de todos os cânones, as manifestações literárias e artísticas vindas das periferias – das cidades, dos países e do mundo – ganham visibilidade e montam novas ordens criativas

“A literatura só pode ser literatura quando se questiona”. A afirmação do teórico argentino Alberto Giordano é um dos pontos centrais da ideia de que a modernidade nasce no instante em que o projeto literário se volta para si mesmo e, ato contínuo, expõe alguns limites da escrita. Ou seja, quando a literatura se volta para si mesma, ela caminha para a autodestruição. O que não é mau: é nessa hora que o literário questiona seus cânones, se abre e se reinventa.

Um movimento que, muitas vezes, tem direção certa. Daniel Link, também argentino, observa que a literatura moderna oscila entre as condições de centrífuga e limítrofe. É assim que ela se afasta do centro e ruma para as fronteiras, ao que não está posto ou legitimado pelo cânone e por padrões de linguagem. Ambas as premissas mostram que o moderno se realiza quando as escritas se relacionam com movimentos de diversidade, dos pioneiros em termos de rupturas históricas aos que são tidos pelo establishment como marginais.

Afastando-se do padrão eurocêntrico, em termos culturais e geográficos, e de temáticas que colocam o homem branco heterossexual como personagem cuja voz é o centro da narrativa, obras que surgem nas periferias brasileiras, latino-americanas e de países do leste europeu, por exemplo, conectam-se à ideia de modernidade no que diz respeito ao questionamento de seus autores que se escancara nas páginas: qual o meu lugar no mundo? E, por meio dele, do espaço que ocupo, como posso escrever?

Guerras simbólicas

Paula Carvalho

Apesar de a diversidade ter se tornado questão central no mundo literário, as instâncias decisivas ainda são controladas por países dominantes, diz a socióloga francesa Gisèle Sapiro

Para pensar diversidade e desigualdade na arte, a perspectiva do sociólogo francês Pierre Bourdieu ainda é paradigmática. Sua abordagem relacional de trabalhos, artistas, crítica, mercado e público propõe que nenhuma obra seja vista como fenômeno singular – nesse sentido, a "genialidade" é questionada até o limite. Bourdieu entendia os diversos mundos (artísticos, do poder, econômico) como campos, espaços de alianças e disputas por distinção econômica e simbólica. Ainda que tida por alguns como "objetivista", a visão sociológica nas artes faz entender, por exemplo, que o boom dos autores latino-americanos nos anos 70 foi conquistado em boa parte por conta de seus tratos com agentes literários espanhóis. Ou que, para autoras de países muçulmanos, se encoraja no mercado literário que falem sobre a dominação masculina em seus países, pois é um tema que vende mais e rende maior atenção internacional.

A socióloga francesa Gisèle Sapiro, professora da École des hautes études en sciences sociales (EHESS) e diretora do Centre national de la recherche scientifique (CNRS), falou à Bravo! sobre  sobre esse jogo entre editoras, agentes, prêmios, críticos, autores, obra e público no mundo literário. Ex-orientanda de Bourdieu, Sapiro tem dado continuidade a suas pesquisas na área da sociologia da literatura buscando entender o campo literário para além de suas perspectivas nacionais, como um sistema que pode relacionar autores de todo o mundo.

Temos visto uma profusão de novos escritores vindos de lugares periféricos, sejam em bairros afastados da capitais ou de países rebaixados na hierarquia global. Essa tendência pode ser considerada específica do nosso tempo ou casos como esses são comuns na história da literatura?

O mercado literário mundial foi construído por meio de traduções. No entanto, as condições de acesso a este mercado são desiguais. Primeiro, a linguagem central está super-representada. Em segundo lugar, a maioria das obras são de escritores brancos do sexo masculino de um país central por mais de uma geração. Foi somente a partir do fim da década de 1980 que a questão da diversidade veio à tona, favorecendo a promoção de escritoras mulheres, de minorias, de imigrantes e de escritores pós-coloniais no mercado. Porém os escritores que recebem atenção internacional ainda são aqueles que escrevem em idiomas centrais como inglês, francês ou alemão e que são publicados por editoras americanas, britânicas, francesas ou alemãs. 

Ou seja, há muito a descobrir ainda? 

Sim. Isso significa que não conhecemos a maioria dos escritores que publicam na África e nas línguas africanas, por exemplo. E os autores de países periféricos que obtêm sucesso mundial são aqueles que têm um agente literário americano, como o japonês Haruki Murakami, no mesmo sentido que autores latino-americanos ascenderam nesse cenário internacional graças aos seus agentes literários espanhóis nos anos 70. Os agentes dominantes, americanos ou britânicos, estão adquirindo as propriedades dos mais renomados autores do século 20, como Italo Calvino, e gerenciando seus direitos.

Autoras como Leila Slimani, que recentemente venceu o Prêmio Goncourt, têm reivindicado uma escrita "sem identidade", por mais que tenha crescido no Marrocos e posteriormente tenha feito faculdade e construído a carreira na França. É possível pensar na literatura como um espaço, como diz ela, de "liberdade absoluta", em que não seja preciso pertencer a alguma identidade?

Por causa de sua ligação com a construção de identidades nacionais e seu desenvolvimento contra os clássicos greco-latinos, a literatura que emergiu em línguas vernaculares na Europa passou a expressar e simbolizar essas novas entidades coletivas. Mas, como mostrou a socióloga Pascale Casanova em obras como A República Mundial das Letras, a literatura moderna extraiu-se dessa ancoragem nacional, concentrando-se em problemas estéticos e formais. Contribuiu, assim, para desconstruir as narrativas nacionais. No entanto, ainda se espera que os autores pós-coloniais ou migrantes escrevam sobre seus países originais ou autores de uma identidade minoritária, sobre sua experiência particular. Marie Ndiaye, uma das escritoras francesas contemporâneas mais importantes, é uma das raras autoras que conseguiram escapar de tal designação apesar de ser mestiça (seu pai é do Senegal), mas foi atacada por um deputado de direita quando ela ganhou o Prêmio Goncourt em 2009, porque criticou a França de Sarkozy.

A literatura francesa é conhecida por "obras universais" – Balzac, Flaubert, Baudelaire etc. Algo se modificou com as literaturas pós-coloniais e o aumento de autores francófonos, mas não necessariamente franceses, como Patrick Chamoiseau, Tahar Ben Jelloun e Amin Maalouf?

Patrick Chamoiseau é francês, ele é da Martinica. Ele renovou a literatura francesa com a língua e cultura crioula, foi uma espécie de revolução simbólica para usar o conceito de Bourdieu. Mas ele é visto em todo o mundo mais como autor do Caribe do que como escritor francês. Isso é típico dessa nova tendência na literatura mundial, que enfatiza as dimensões pós-colonial ou minoritária. Tahar Ben Jelloun foi o primeiro escritor pós-colonial a ganhar o Prêmio Goncourt em 1987. Mas o Goncourt já havia sido atribuído em 1921 a um escritor negro, René Maran, por seu romance Batouala: A True Black Novel, surgindo uma discussão acirrada sobre o que é a literatura francesa, em que opiniões racistas foram contra essa escolha para o prêmio. Até 1980, a Academia Francesa não havia eleito uma mulher – que foi Marguerite Yourcenar –, e, em 1983, um escritor africano, Leopold Sedar Senghor. De fato, em 1993, a política cultural francesa, anteriormente reservada aos escritores franceses, foi estendida aos autores da escrita francesa em geral. E no ano passado, quando a França foi a convidada de honra da feira literária de Frankfurt, a língua é que foi promovida, com autores como Kamel Daoud e Alain Mabanckou, além de autores franceses como Gwenaelle Aubry ou Edouard Louis.

Até pouco tempo atrás, havia no Brasil uma clara preferência – no mercado e  entre os críticos e jornalistas – por autores homens, brancos, com raras exceções. Crê que haja uma tendência à redução dessas hierarquizações entre países e de gênero, classe e raça conforme haja uma universalização do mercado editorial?

Deve-se distinguir na literatura de gênero, como o da ficção policial, o pólo mais comercial e o pólo literário (penso nos romances noir de luxo), que é, em contraste, mais ancorado nas realidades sociais e nacionais. Com literatura sofisticada, é diferente. Em geral, pode-se dizer que se atribui aos autores de países periféricos identidades particulares, em oposição àqueles provenientes de países centrais, especialmente autores brancos masculinos, que são mais facilmente reconhecidos como vozes “universais”. Assim, os primeiros têm de desenvolver estratégias específicas para derrubar essa restrição. Pesquisadores reuniram evidências muito concretas sobre como os editores tendem a encorajar os autores pós-coloniais a dar um perfume exótico à sua escrita, ou, no melhor dos casos, a cumprir uma função testemunhal.

Por exemplo?

As mulheres dos países muçulmanos são mais propensas a atrair a atenção dos editores ocidentais quando descrevem a dominação masculina em sua cultura. O mesmo é verdade para as minorias. A literatura pode servir para reforçar os estereótipos em vez de desafiá-los. É  mais provável que os autores de países periféricos ou idiomas recebam atenção caso digam algo sobre seu país ou cultura. Em relação à sua questão específica sobre o Brasil, as tendências predominantes no mercado mundial podem ter impacto nos campos literários nacionais. Acredito que a evolução da literatura francesa está em grande parte relacionada ao interesse de publicadores anglo-americanos em autores pós-coloniais e minoritários. Observa-se também, na década de 1990, uma feminilização da literatura mundial, significando que houve um aumento no número de traduções de obras de autoras femininas, e isso também teve impacto nos campos nacionais.

Nos últimos dois anos, o maior festival literário do Brasil, a Flip, aumentou significativamente o número de mulheres escritoras, autores negros e negras, vários de países africanos de língua portuguesa. Por outro lado, temos visto o surgimento da discussão sobre a perda da importância e centralidade da literatura. Essas duas coisas estão, de alguma forma, relacionadas? 

É freqüente ouvir que a feminização implica um declínio de prestígio, tanto no campo profissional quanto no campo da arte. Claro que esse discurso deveria ser desconstruído. Primeiro, a suposta causalidade poderia ser revertida, o que significa que atividades em declínio podem ser mais abertas às mulheres, à medida que os homens se voltam para as mais lucrativas ou prestigiadas. Mas penso que estamos assistindo a um novo fenômeno com o crescente acesso das mulheres à educação, que pode desafiar as relações de poder entre homens e mulheres, embora a dominação masculina ainda esteja impregnada em todo o lado. No entanto, você está certa em sublinhar o declínio da importância e centralidade da literatura. Com o surgimento do capitalismo financeiro e da administração como um modo de governança, o valor social do capital cultural diminuiu. É menos determinante agora, no campo do poder, do que costumava ser. Existe também um declínio da ficção literária no comércio de livros americano, enquanto a não ficção está aumentando, em forte conexão com a esfera da mídia. A ficção literária foi desafiada na segunda metade do século 20 pela televisão, e agora é ainda mais por séries dramáticas. E a internet também dá acesso a muitas ficções autopublicadas. Foi assim que o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza começou antes de ser adquirido por uma editora.

O que isso reserva para o futuro da literatura?

A literatura não desaparecerá, mas provavelmente assumirá novas formas. Eu fiz uma pesquisa com uma equipe sobre a profissão de escritor hoje, e observamos a evolução desta profissão na França, especialmente com as intervenções crescentes no espaço público, e o desenvolvimento de performances literárias, combinadas com música, coreografia, vídeos. Eu acho que a indústria editorial ainda não foi capaz de inventar novos formatos para a criatividade literária, mas pode-se ver tais possibilidades surgindo no site de alguns escritores ou em algumas revistas literárias online. E pode ser reservado, como no passado, para apenas alguns felizardos.





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Em um primeiro momento, essas são perguntas que, hoje, atravessam a literatura ligada às questões de gênero, raça e indígenas; são demandas, em resumo, da literatura feita por escritores que se encontram à margem do sistema – incluindo aí também os que ocupam os lugares periféricos geograficamente. Compreender a inserção da temática da diversidade nesse contexto mantém uma perspectiva que dialoga com os movimentos culturais e políticos responsáveis por várias mudanças ao longo dos séculos 20 e 21.

O que não é meu
Os Retirantes (1955),
Cândido Portinari

As afirmações de Giordano e Link deixam a literatura no ponto fronteiriço em que não só as temáticas fogem de afirmações do cânone como também existe um movimento do próprio texto que já não “obedece” ao que lhe foi, anteriormente, imposto. As obras literárias que se encontram nesse contorno são resultados de vivências nas quais não só a literatura entrou em processo de suspensão, mas também outros campos artísticos. Dessa maneira, os rastros da combustão que envolvem a modernidade montam novas ordens criativas.  

Na América Latina, podemos destacar dois momentos que transformaram as relações entre literatura, diversidade e questões identitárias. No Brasil, o movimento modernista foi um ponto de ruptura, no início do século 20, ao priorizar a valorização da linguagem falada, com as influências diretas das vanguardas europeias, como o cubismo e do futurismo. Os modernistas – entre eles, Oswald de Andrade, Plínio Salgado e Guilherme de Almeida – publicaram diversos manifestos e revistas que reivindicavam uma noção de identidade distanciada das “ideais do passado”.

De acordo com Eliane Robert Moraes, professora de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), a ideia de diversidade, como a entendemos hoje, ainda não existia nas primeiras décadas do século 20, quando eclodiu o modernismo. “Isso posto, não deixa de surpreender como ela (a diversidade) acaba sendo, de certa forma, contemplada pelo movimento. Não como plataforma, mas como acontecimento artístico”, diz.

10 séries ao redor do mundo

Dessa maneira, o modernismo procurou conquistar novos olhares para o Brasil, levando em conta formas populares de cultura tidas, muitas vezes, como impuras ou marginalizadas. Ou seja, a arte passa a aglutinar a diversidade, e a incorporá-la em seus acontecimentos. Daí porque a literatura brasileira, a partir de então, apontou suas baterias para o “Brasil profundo” – das pesquisas sobre os folclores regionais de Mário de Andrade, passando pela poesia dos pampas de Augusto Meyer, às narrativas nos sertões de Euclides da Cunha e Graciliano Ramos.

Fronteiras em que a geografia não se dissocia, necessariamente, da marginalidade do está próximo ao cotidiano das grandes cidades. O romance Parque Industrial (1933), de Patrícia Galvão, ilustra a demanda também por uma narrativa feita por corpos fora do padrão imposto pelo sistema, com mulheres proletárias como as personagens principais. “Tratava-se de um movimento que incorporou traços da própria diversidade cultural brasileira, levando em conta inúmeras manifestações artísticas locais que permaneciam à margem do mainstream cultural da época, ainda muito pautado pelo gosto europeu”, observa a professora.

De acordo com Eliane Robert Moraes, o Manifesto Antropófago (1928) faz uma defesa da diversidade ao recusar a mesmice do igual e apostar no potencial de devir que é próprio das alteridades: “Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros”, está grafado no texto antropofágico. E, então, o seu autor sintetiza tal disposição com uma frase definitiva: “Só me interessa o que não é meu”. Essa frase direciona o texto para o outro, e dissolve a característica do eu absoluto, daquele que detém o conhecimento para si e decide como e quando deve compartilhá-lo.

Mercado mágico
Óleo do peruano 
Juan Machicado

Nos anos 60, em um período marcado por regimes ditatoriais e rupturas artísticas, a literatura então marginal de países como Argentina, Peru, México e Colômbia ganhou as atenções dos críticos e leitores europeus, especialmente. Foi o chamado boom latino-americano, em que escritores como Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar ganharam traduções em língua inglesa, deslocando o realismo mágico e o fantástico da obra desses autores da “periferia” para o “centro” do mundo.

Nesse caso, há um aspecto importante a ressaltar, em que o tal boom mais foi um fenômeno do então incipiente mercado globalizado, com todas as superficialidades que ele pode acarretar.  “A partir dessa divulgação, acabou-se criando uma série de expectativas sobre a condição ou a essência latino-americana que não correspondiam à realidade do continente, mas sim às ficções e fantasias do público consumidor”, diz Alfredo Cordiviola, professor titular em Teoria da Literatura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Colonização, resistência, transformação

Bruno Huberman

As produções artísticas de judeus e palestinos influenciaram profundamente os desdobramentos do conflito na região e podem desempenhar um novo papel para o futuro da questão

O sionismo — o nacionalismo judeu — surgiu na Europa Oriental na segunda metade do século 19 e logo se transformou em um movimento internacional voltado para a colonização da Palestina com objetivo de reconstruir o lar nacional dos judeus. A cultura, e em particular a literatura, desempenham desde o início um papel fundamental para construir essa nova “comunidade imaginária” judaica, que em um primeiro momento buscava incentivar a migração de judeus de diferentes origens para a nova terra.

Seguindo a tradição iniciada por franceses e britânicos, como Alphonse de Lamartine, muitos escritores sionistas viam os árabes nativos da Palestina como atrasados e, portanto, passíveis de serem colonizados. Na literatura hebraica-sionista do início do século 20, os nativos da Terra Santa foram retratados tanto como os “maus selvagens” ameaçadores dos textos de Yoshef Haim Brenner e Natan Bistritzki-Agmon, como os “bons selvagens” que aceitavam de bom grado os avanços civilizacionais trazidos pelos judeus europeus, tal qual na obra do patriarca do sionismo, Theodor Herzl. Entre os estrategistas sionistas, os árabes eram vistos como um “problema” a ser solucionado.

Ao longo dos anos, a literatura hebraica acompanhou a colonização sionista e passou a construir narrativas épicas sobre o processo de migração para a Palestina (alyiah) e histórias idílicas sobre a vida das colônias exclusivas para os judeus (kibutz), pintando uma visão romantizada sobre a região que serviu de propaganda para o movimento nacionalista. Os cartazes das agências sionistas que incentivavam a migração de judeus para a Palestina reproduziam essa visão em ilustrações de vastos campos verdes vazios prontos para serem assentados.

As gerações seguintes, constituídas por judeus já nascidos na Palestina, os sabras, passam a refletir sobre a identidade, os valores e os desafios desse novo homem judeu, que emula o amor do árabe pela terra e também o confronta no conflito armado. Uma das obras mais relevantes dessa perspectiva é De Amor e Trevas, romance autobiográfico em que o escritor Amos Oz discute a reconstrução da sua identidade após o suicídio da mãe durante o período de criação de Israel, em 1948.

Essa oposição de identidades tipicamente colonial presente no pensamento sionista e reproduzida na literatura hebraica é central para a compreensão do desenlace da disputa entre judeus e palestinos por aquela terra. Essa alteridade influenciou tanto na opção das lideranças sionistas por realizar um processo de limpeza étnica como forma de resolver o “problema árabe” em 1948 (que promoveu a expulsão de mais de 700 mil palestinos e a destruição de mais de 500 vilarejos por milícias sionistas e militares israelenses), como nos discursos de autoridades israelenses que ainda hoje veem os palestinos como irracionais, atrasados e contrapartes inconfiáveis para uma negociação de paz.   

Tal foi o poder da visão do colonizador sobre o nativo e o desafio da alteridade para a questão Israel-Palestina que não é coincidência que coube a um intelectual palestino, o refugiado Edward Said, elaborar um dos mais importantes conceitos sobre o assunto, o de “orientalismo”. Em sua obra de 1978, Said mostra como o Oriente é uma criação do Ocidente, construído por imagens preconceituosas e racistas que historicamente vêm justificando a colonização desses povos vistos como bárbaros. A demonstração de Said do poder da narrativa de levar a civilização para os nativos atrasados, presente tanto na literatura como nos discursos das autoridades, se tornou tão influente que acabou por ser considerada a pedra fundamental dos estudos pós-coloniais no mundo, servindo de chave para a compreensão de diversos conflitos coloniais.

Identidade palestina

A arte também se transformou em um importante instrumento de construção da identidade nacional palestina e de resistência ao desenraizamento da terra. A experiência coletiva sempre está presente na produção do artista palestino. Um dos que melhor captou o sentimento nacional de resiliência e resistência foi o artista plástico Silman Mansour, autor de diversas pinturas que se tornaram símbolos nacionais, como a do campesino palestino carregando Jerusalém em suas costas (Camel of Hardship, 1974). Durante a Intifada (1987-1993), Mansour fez parte de um coletivo de artistas que passou a usar materiais locais, como barro e borra de café, para produzir suas obras de forma a deixar de importar tintas de Israel.

Por tratar sobre temas como memória, pertencimento à terra e identidade, Mahmoud Darwish, um refugiado palestino que teve seu vilarejo destruído em 1948 e cresceu em Haifa, em Israel, se tornou o poeta nacional palestino. Versos como “Eu venho daqui e tenho memórias” são ensinados em escolas palestinas e israelenses, além de serem vistos em muros em todo o território. Darwish apareceu para o mundo, em 1964, como um raivoso jovem poeta comunista palestino que bradava:

"Anote! Eu sou um árabe. / Meu número de identidade é 50,000. / Eu tenho oito filhos. / E depois desse verão, um nono a caminho. / Isso o deixa com raiva? / Eu sou um árabe."

Essa poesia, intitulada Carteira de Identidade, buscava lutar contra o processo de apagamento dos palestinos que viviam sob regime militar em Israel (1948-1966), quando os palestinos cidadãos de Israel flagrados sem identidade poderiam ser presos ou deportados por serem confundidos com os “infiltradores” — os refugiados palestinos que buscavam retornar às suas casas.

A luta por reconhecimento dos palestinos em Israel — que hoje representam cerca de 25% da população nacional, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas — se mantém por meio dos diversos artistas de hip-hop palestinos, como o grupo Dam.

"Nós estamos assim há mais de 50 anos / Vivendo como prisioneiros por trás de barras de fotografias / De acordos que não mudam nada / Nós não vimos nenhuma luz, e se espreitamos através das barras / Nós vemos um céu azul e nuvens brancas / Ao centro, uma estrela me lembra que sou limitado / Mas não, eu sou forte, mantendo-me otimista / Você não irá limitar a minha esperança com um muro de separação / E se essa barreira estiver entre mim e minha terra / Eu ainda estarei conectado a Palestina como um embrião ao cordão umbilical" (Mali Huriye - I Don’t Have Freedom, Dam, 2007)

Mundos apartados

No decorrer da história, muitas iniciativas buscaram reconciliar e aproximar esses dois mundos apartados. Diversas ações, tanto políticas como culturais, surgiram com intuito de superar o “ódio” que separava judeus e palestinos, particularmente no período do Processo de Paz dos anos 1990. Apesar de bem-intencionadas, muitas dessas iniciativas foram vistas como esforços de “normalização”, isto é, medidas que buscam unir sem discutir as razões que originalmente desuniram judeus e árabes — o colonialismo — e acabavam por “normalizar” as opressões. O filme Promessas de um Novo Mundo (2000), do americano-israelense B.Z. Goldberg, que busca aproximar as visões e vivências de crianças judias e palestinas, é revelador nesse sentido.

Na breve sequência ao original filmada em 2004, a desilusão dos jovens palestinos ao fato de que os gêmeos judeus Daniel e Yarko, de quem haviam ficado amigos no primeiro filme, se alistaram no Exército israelense, mostra como esses esforços “normalizadores” são limitados pela estrutura colonial. “Você queria o quê, B.Z.?”, questiona Yarko ao diretor.

Por outro lado, iniciativas artísticas que assumem uma posição de enfrentar o status quo e tocar na estrutura de forma a gerar transformação na relação entre judeus e palestinos para além da “normalização” podem se revelar arriscadas para a vida dos envolvidos. Este foi o caso de Juliano Mer-Khamis, um ator e ativista natural de Nazaré, em Israel, filho de uma mãe judia que rompeu com o sionismo e de um pai palestino-israelense. Juliano foi um dos responsáveis, ao lado de Zakaria Zubeidi, um militante palestino da Segunda Intifada (2000-2006), pela criação, em 2006, do Teatro da Liberdade no Campo de Refugiados de Jenin, na Cisjordânia, um importante local de resistência e de grande conservadorismo religioso.

O teatro levou jovens palestinos que viviam a violência do conflito, alguns inclusive ex-combatentes, a refletir questões políticas, morais e religiosas por meio da arte. O projeto, que atraiu a atenção internacional, trouxe inúmeros desafetos a Juliano, que veio a ser assassinado no campo em 2011, supostamente pela Jihad Islâmica. Apesar das dificuldades impostas pela morte de Juliano, o Teatro da Liberdade continua ativo.

Os grupos políticos que surgem de fundamentalismos religiosos, tanto judeus como muçulmanos, são vistos por muitos como os principais obstáculos para a paz na região. Tal visão é particularmente presente entre artistas e ativistas do campo da paz israelense, ainda relevante, mas que vem perdendo força e adeptos. Uma das suas principais figuras, o escritor Amos Oz recentemente publicou o livro Como Curar um Fanático – Israel e Palestina: Entre o Certo e o Certo (2017), no qual defende a imaginação, a curiosidade sobre o outro e o humor como antídotos para curar um fanático e construir pontes para o diálogo e a paz.

Binacional, multicultural

Entretanto, o aprofundamento das medidas de colonização e apartheid nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) tem levado cada vez mais pessoas a não acreditar mais nos benefícios do diálogo. A cineasta palestina Larissa Sansour, por exemplo, se utiliza da ficção científica para levar às últimas consequências os sentimentos de confinamento e alienação das pessoas vivendo na Cisjordânia após o Processo de Oslo (1993-1995), não apenas no presente, mas em futuro distópico.

No curta Nation Estate, a personagem principal, interpretada pela própria Sansour, retorna à Palestina pelo aeroporto de Amman, na Jordânia. Após passar pela imigração, chega, por um metrô subterrâneo, a um local similar a um hotel de Dubai. No lobby, um elevador tem como andares os nomes de cidades palestinas: Jerusalém Oriental, Hebron, Ramallah, Jenin, etc. Essas cenas surreais imaginam o tipo de Estado-nação que os palestinos podem vir a ter como resultado do diálogo com os israelenses.

Leitura similar da realidade é feita pelo escritor israelense A.B. Yehoshua, um dos mais importantes e antigos defensores das negociações de paz, mas que em artigo recente defendeu um projeto que revertesse o processo de apartheid resultante dos Acordos de Oslo antes que seja impossível. Yehoshua descreve medidas unilaterais israelenses que almejam criar uma confederação Israel-Palestina não por meio de um tratado de paz, mas através de uma parceria entre os envolvidos no conflito.

O acadêmico israelense radicado na Inglaterra Ilan Pappe, autor do controverso A Limpeza Étnica da Palestina, vai ainda mais além. Ele defende que a discussão não deve mais girar em torno da paz, mas da descolonização. Pappe faz parte de uma campanha de judeus israelenses e árabe palestinos por um Estado democrático binacional e multicultural em Palestina/Israel, que deseja reconstruir as sociedades civis palestinas e israelenses de forma a forjar uma união verdadeira entre judeus e palestinos para além de qualquer etnia, religião, nacionalidade e ideologia.

Nesse cenário de desilusão com o presente e incertezas com o futuro, os artistas judeus e palestinos podem cumprir o importante papel de ajudar as pessoas a sonhar e se moverem em direção a uma nova realidade que traga uma conciliação justa entre os envolvidos no conflito.

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Bruno Huberman é jornalista, doutorando em Relações Internacionais. É membro da SEDQ, rede global judaica por justiça em Palestina/Israel e no mundo, e da FFIPP-Brasil, Rede Educacional por Direitos Humanos em Palestina/Israel.

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“A produção posterior, dos anos 80 e seguintes, teve que abrir novos caminhos expressivos, enfatizar a discussão de outras temáticas (como a diversidade sexual, a vida nas periferias urbanas, o racismo, os traumas da violência, as mazelas da sociedade patriarcal), e afrontar novos desafios, como a atomização do público leitor e a concentração editorial em mãos de empresas transnacionais”, observa Cordiviola.

Assim, tanto o movimento latino-americano como o modernismo fazem parte de um contexto para o qual, o que importa, em termos de diversidade, é o projeto de afirmação de um tipo de identidade perante o colonizador. A partir dessas marcas culturais e literárias, pode-se observar buscas por alteridade que seriam desenvolvidas, de novos modos, nas décadas à frente.

Periferia no centro
Detalhe de My Country, My Mother, My Land,
da australiana Dale Hunter

No Brasil contemporâneo, a literatura produzida nas periferias das grandes cidades é um dos focos das possibilidades de análise das escritas à margem. Na obra de autores como Ferréz, Carolina Maria de Jesus, Lívia Natália, Geovani Martins, Conceição Evaristo, a literatura afasta-se do centro hegemônico social, econômico e cultural e desvela a amplitude de outros lugares possíveis no mundo. Fora do eixo das grandes capitais, escrever sobre o espaço que se ocupa é expandir-se em direção contrária ao que foi imposto por processos de opressão e afastamento.

Projetos como o Sarau Cooperifa, movimento cultural importante no contexto da literatura periférica paulista, e o campeonato brasileiro de poesia falada (SLAM BR), dão o tom nas discussões sobre literatura e diversidade, contextualizando-as em pontos históricos e sociais. “Há uma compreensão de que há algo diferente ocorrendo e eclodindo nas periferias e, como sempre, o gesto de apropriação do sistema capitalista é de visibilizar certas manifestações, que, de alguma maneira, possam ser colocadas sob certa tutela. A potência de ruptura da literatura nunca foi vista com bons olhos, na verdade, da arte, de maneira geral”, afirma Livia Natália, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e poeta.

A ganhadora do SLAM BR 2017, Bell Puã, poeta pernambucana, afirma que a poética de protesto das periferias tem pulsado forte no estado com o SLAM das Minas Pernambuco e o Sarau Controverso Urbano. “Com a vitória pernambucana no SLAM BR 2017, acredito que conseguimos voltar os olhares para poesia nordestina que, no contexto das desigualdades regionais do Brasil, também denuncia o apagamento das particularidades dos estados da nossa região”, observa.

Palco Digital: 

a palavra da periferia 

por Naruna Costa

Para Cristina Burneo Salazar, escritora equatoriana e professora da Universidade Andina Simón Bolívar, a diversidade, hoje, não é só temática. É a circunstância de uma produção: migrações, sexualidade e feminismo são produtores de subjetividade e utilizam “saídas” estéticas como, por exemplo, a poesia e o formato dos saraus. “A literatura contemporânea reconhece o questionamento pela diversidade e o devolve produzindo algumas estéticas, como no trabalho dos poetas que escrevem em Spanglish (conhecidos como chicanos) e vivem nas periferias norte-americanas", diz ela. "Apesar de existir um lugar de produção textual heterodoxo, impuro e não canônico, penso que essas escrituras nem sempre caminham pelas margens; elas criam seus próprios entornos de leitura e, assim, modificam nossos modos de ler e nossos olhares às escritas de fronteira”, analisa.

Nesse contexto, as redes sociais são ferramentas necessárias para a difusão dos debates sobre a temática da diversidade, tanto da produção brasileira quanto de outros países e ajudam, assim, na disseminação desses “novos modos de leitura” de que fala Burneo Salazar. A relação entre editoras, autores e leitores, hoje, é mediada por perfis do Twitter, Instagram, Facebook, gerando novos métodos de avaliação do que vai ou não ser publicado, uma espécie de termômetro de mercado de fácil acesso.

“As mídias sociais contribuíram para que debate sobre diversidade ganhasse mais espaço no mercado editorial brasileiro. Há editoras publicando títulos escritos por pessoas LGBTTQ, negras, indígenas há tempos, mas, nos últimos anos, ficou mais fácil entrar em contato com uma editora e sugerir a publicação de uma obra. Além disso, as mídias facilitam a articulação dos leitores em comunidades de fãs, clubes de leitura, o que deixou mais claro a existência desse público”, afirma a tradutora e poeta Stephanie Borges.

Caminhos desimpedidos
Mulheres e Outros Heróis,
grafite do francês JR no 
Morro da Providência, no Rio

Os mecanismos de mercado cumprem um papel importante para a compreensão da abertura desses canais em favor da diversidade. Para Luara França, editora da Companhia das Letras, o setor responde à demanda, mas é preciso destacar que o livro tem um componente de mudança social muito maior do que outros produtos: “Por isso acredito que o mercado editorial brasileiro esteja correndo atrás de pautas que sejam importantes para a diversidade também como forma de ação social. O marketing de livros é todo um mundo diferente do de outros produtos, trabalha-se diretamente com o conteúdo do livro, então acho que a diversidade só ajuda o setor”, analisa.

A supervisora comercial da Editora Morro Branco e coordenadora do Leia Mulheres, Juliana Gomes, concorda que existe uma demanda dos consumidores, e não acredita em uma ideia de nicho de mercado ligada à pauta. “Colocar esses livros apenas como nicho faz com que fiquem em uma caixa, sendo que o importante é integrar esses escritores que antes não teriam a menor chance comercial. Vale lembrar que a pluralidade de vozes apenas enriquece a literatura e desperta empatia”, observa.​

Lívia Natália não é tão otimista. Para ela, existe um contexto de escuta seletiva e sem disponibilidade de acolhimento das escritas periféricas no mercado: “Vejo uma exploração deste nicho de mercado, principalmente se estivermos pensando em grandes editoras. Se falarmos de iniciativas autogestadas, como as pequenas editoras, temos ali, sim, uma exploração qualificada do nicho, compreendendo e provocando as potencialidades dos objetos estéticos, permitindo que estes discursos venham à tona com toda a sua potência."

10 livros que vieram da periferia .

Seleção feita por Ferréz, autor de livros como Capão Pecado e fundador da marca 1DaSul

Os processos de globalização também atravessam, paradoxalmente, as questões das escritas periféricas, segundo Burneo Salazar. Não só em termos de ampliação de leitura, mas também de mecanismos criativos decorrentes do contexto de integração internacional. “Acredito que a vertigem da globalização está produzindo escritos capazes de falar sobre a condição humana contemporânea com a necessidade de olhar perspectivas que são sempre consideradas marginas, subalternas, não dignas de poetização e que, por sua vez, refletem um momento histórico, social, cultural, transnacional”, observa a professora.

Desse modo, pensar no fazer literário que se afirma como diversidade traz um panorama com várias aberturas para discussão: desde os tópicos teóricos contemporâneos, como a escritura que se coloca em situações de limite e fronteira, até demandas sociais e de mercado. Narrar os espaços que são tidos marginalizados não só se torna uma forma de resistência social e cultural, como também faz parte da reorganização do discurso, descentralizando a literatura por meio de novas montagens do texto e de linguagem. 

Entre processos identitários, de gênero e periféricos, a disseminação da temática da diversidade encontra na literatura um tipo de voz equilibrista: de um lado, o poder do imaginário e do que fica sempre por dizer; do outro, uma realidade que explode e precisa do espaço das letras para elaborar as suas ruínas.

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Priscilla Campos é jornalista, crítica literária e Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco.