Além do gênero
Imagens de Caio Borges

Por Marcelo Pen

O cinema, o teatro e a literatura mostram que os artistas LGBTQ+ ganharam voz na sociedade, mas isso não significa que aprendemos a ver o mundo pelos olhos dos outros e superado a violência e o preconceito

Nenhuma revolução política é possível sem uma mudança radical em nossa noção sobre o possível e o real” (Judith Butler, Problemas de Gênero)

Nascida em 1838, Herculine Barbin foi educada por religiosas ursulinas, e tornou-se professora em uma escola para moças. Ela nunca menstruou, seus seios não se devolveram e ela se apaixonou seguidamente por mulheres. Aos 22 anos, examinada por um médico, constatou-se que tinha ambos os órgãos sexuais malformados. Declarada um indivíduo do sexo masculino, passou a chamar-se Abel, abandonou a escola, mudou-se para Paris, onde viveu na pobreza e escreveu suas memórias. Em 1868, ela/ele se suicidou.

Herculine viveu um período difícil: a partir de 1840, décadas depois de a Revolução Francesa ter revogado as leis discriminatórias do Antigo Regime, os chamados pederastas voltaram a ser perseguidos. Na época, o termo moderno homossexual não havia sido inventado, e o bíblico “sodomita” parecia fora de moda. Ser pederasta era ser fora da lei, sendo associado ao roubo, à prostituição e ao assassinato.

Relatório da polícia municipal parisiense, de 7 de fevereiro de 1843, dá o tom: “Mais tarde a galeria d’Orléans, no Palais-Royal, fica infestada de pederastas que incitam a depravação como se fossem meretrizes, o que provoca a indignação dos transeuntes e comerciantes do palácio”. Na noite anterior, continua o relato, haviam expulsado da galeria 16 desses indivíduos, “conhecidos por se entregar à paixão infame da pederastia”.

Palco digital: Poesia gay na interpretação de Raquel Virginia e Assucena Assucena, de As Bahias e a Cozinha Mineira 

O cerco durou quase um século e meio. Em 1918, o escritor Marcel Proust, autor do monumental Em Busca do Tempo Perdido, foi fichado em uma batida policial ao hotel Marigny, local que servia, segundo outro relatório, “de refúgio a homossexuais”. Somente em 1982, a França despenalizou a homossexualidade.

No fim dos anos 1970, o filósofo francês Michel Foucault redescobriu os diários de Herculine/Abel. Na introdução escrita para a edição em inglês da obra, o autor descreve o estado dela/e, anterior à definição de gênero, como “ditoso limbo da não-identidade”. Ou seja, em vez de estar “fora da lei”, no sentido das práticas criminosas associadas aos indivíduos não-heterossexuais, Herculine vivia em uma condição anterior à lei. 

A pensadora feminista americana Judith Butler discorda. Ela afirma que a hermafrodita (ou, como hoje se denomina, intersexual) não se encontrava fora da jurisdição da lei, mas a reproduzia internamente, o que provocou uma ambivalência fatal, levando-a ao suicídio. Já a crítica indiana Gayatri Spivak, autora do livro Pode o Subalterno Falar?, argumenta que, embora tivesse escrito copiosamente, Herculine/Abel não podia “falar”, no sentido de não dispor, naquele tempo, de uma esfera pública capaz de ouvi-la.
Mutatis mutandis

O atual interesse nesses diários mostraria que ela/ele hoje pode enfim falar? O público estaria disposto a ouvir relatos de sexualidades não-normativas, que põem em xeque o padrão binário masculino/feminino? Afinal, não parece ser coincidência que Jeffrey Eugenides, autor heterossexual de As Virgens Suicidas, tenha se inspirado na história da/o jovem intersexual para escrever o romance Middlessex (2002).

Não muito depois de Foucault publicar os diários, em meados de 1980, ativistas gays decidiram abraçar a denominação mais abrangente LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais ou transgêneros, que posteriormente passou a incluir mais letras e, portanto, sexualidades). Não demoraria para que os acadêmicos se debruçassem sobre a questão, sendo criada a “teoria queer”, da qual são expoentes a própria Judith Butler, Eve Kosowsky Sedgwick e David Halperin, entre outros.

De termo pejorativo para designar identidades sexuais contrárias à normatividade heterossexual, queer passou a indicar, assim, uma posição existencial, teórica e política, segundo a qual, diz Butler, “o nosso conhecimento naturalizado de gênero é, de fato, uma realidade mutável e passível de revisão”. Mais ainda, ao desafiar a estabilidade de gênero como categoria de análise, o estudo de práticas sexuais não-normativas “impele a questão: o que é ser uma mulher? O que é ser um homem?”

A língua trans

Paula Carvalho

Pesquisadora e militante transgênero, Amara Moira fala sobre a produção literária trans no Brasil, a violência brasileira e sobre o pajubá, linguagem disseminada na comunidade LGBTQ+

Quantos livros escritos por pessoas trans ou travestis você já leu? Destes, quantos falam sobre prostituição, condição em que 90% da população TT vive no Brasil? A pesquisadora, militante e professora Amara Moira já catalogou mais de 40 dessas obras publicadas no país. Uma delas, por sinal, é E Se Eu Fosse Puta?, seu primeiro livro, em que conta da sua experiência com a prostituição. Esgotado e com reedição prevista ainda neste ano, o trabalho pode soar a princípio um livro à la Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha, mas a euforia das narrativas sobre os programas no início do livro revelam, na verdade, uma reflexão sobre a realidade de profissionais do sexo trans e travestis que trabalham nas ruas, além de uma pesquisa – pouco feita na literatura, por sinal – da linguagem pajubá, disseminada na comunidade LGBTQ+ no Brasil. Moira falou à Bravo! sobre o seu trabalho. Doutora em Letras pela Unicamp com tese sobre James Joyce, ela também já foi candidata a vereadora pelo PSOL em Campinas e faz parte do movimento Puta Feminista, que luta, dentre outras coisas, pela regularização de casas de prostituição com fiscalização do Estado.

Ouvimos muito pouco falar de pessoas trans na literatura. Como está essa situação?

Eu estou fazendo um levantamento e consegui chegar até agora a umas 40 e poucas obras publicadas. Ano passado, quando comecei o levantamento, tinha 15 obras e achava que isso era tudo. Aí comecei a cavucar, fiz posts no Facebook, as pessoas foram me indicando novos livros. Mas é tudo muito independente, tudo fora dos circuitos oficiais. Teve um boom de publicações nos anos 80 e nos anos 90 – livros da Record, Nova Fronteira, Vozes, editoras que naquele momento eram muito importantes. Depois, houve um sumiço generalizado e agora que a gente está voltando a ter grandes livros de impacto.

Qual foi a primeira obra de uma autora trans publicada no Brasil?

Foi publicada nos anos 80, por uma autora que ainda não tinha se assumido trans naquele momento, a Ruddy Pinho, que sozinha lançou sete obras. Ela é uma cabeleireira mineira que mora no Rio desde os anos 60 e escreveu muitas autobiografias (risos). O bom de ela ter escrito uma autobiografia antes de ter se assumido trans e outra depois é que permite que a gente compare os dois discursos e veja de que formas foram sendo inventadas as narrativas que permitiam que uma figura se afirmasse trans na sociedade. Em 1983 ela publicou Quando eu Passo Batom me Embriago, em que fala que gostava de se travestir de mulher, que isso mexia com a imaginação dela, que era uma homenagem às grandes referências femininas que ela tinha, mas, ao mesmo tempo, uma crítica à mulheridade. Ela se assumiu trans, em 1989 e quando começa a autobiografia, de 1997, ela já começa a se tratar no feminino desde a primeira palavra, desde bebê. E fala que a vida dela inteira foi uma luta para ter o direito de ter um único guarda-roupa.

O que você tem descoberto lendo essas obras?

Elas permitem que a gente olhe para a história do nosso país a partir da perspectiva de pessoas trans. Contar nossa história nesse país nas últimas décadas também é uma forma de contar a história do país. E reivindicar, por exemplo, o nosso protagonismo dentro da história da ditadura – fomos uns dos grupos mais perseguidos.

Uma coisa que é muito legal no seu livro e tem a ver com essa história trans e travesti no Brasil é o uso do pajubá. Já havia outros registros nesse formato?

Teve um livro, publicado em 1994 em italiano, de uma trans brasileira, a Fernanda Farias de Albuquerque, que estava presa em Milão. Ela escreveu esse livro a quatro mãos, com um militante. Chama-se Princesa, e foi traduzido para o português pela Nova Fronteira em 1995. Conta a história de uma menina que sai do interior da Paraíba nos anos 60, vive a prostituição nas grandes cidades brasileiras durante a ditadura e vai para a Europa durante essa primeira leva de imigração de travestis brasileiras. Hoje a gente reivindica a Europa como uma segunda nacionalidade travesti, mas é nos anos 80 que começa tudo isso. O livro foi escrito em condições precárias, trocas de bilhetes entre celas, guardanapos. Mas é extremamente poético – e é uma poeticidade que é fruto dessa intimidade com a literatura. É um italiano aportuguesado, o que faz com que o texto lá seja muito reverenciado e discutido.

E usa o pajubá?

Já tem algumas das palavras, mas poucas ainda. E muitas foram traduzidas pro italiano. No último livro da Ruddy Pinho você vai encontrar umas cinco palavras em pajubá, num livro de 300 páginas. Aí eu tinha encontrado uma poetisa que publicou em 2012, Bianca Fróes, que se colocava como uma travesti escrevendo poemas em pajubá. Só que depois se descobriu que era uma farsa, era um homem cis. Foi o maior banho de água fria. E a Linn da Quebrada, fazendo um trabalho excepcional. A gente está voltando a ser capaz de compreender a música como literatura, também.

Como você descobriu o pajubá?

Meu primeiro contato com o Pajubá foi em 2005, quando entrei na Unicamp, namorei uma mulher trans, e a gente foi morar junto e fui apresentada para esse universo, fiquei fascinada. Ainda sem me pensar como trans. Queria traduzir sonetos de Shakespeare em pajubá (risos). As palavras foram apropriadas de terreiros de candomblé, mas os sentidos foram transformados. Não é o sentido exatamente que vigora no terreiro, mas se faz uma aproximação. É um código particular, que se vale da base do português. E gente de todo o Brasil fala mesmo. É uma coisa muito bonita. Pra muitas pessoas é um código de segurança, uma forma de se comunicar com a sua amiga, companheira de rua, sem que o cliente, o policial ou quem está passando na rua entenda. E quanto mais essas palavras vão sendo conhecidas, mais vão se transformando. Recentemente começou um trabalho de tentar levantar essas palavras, fazer um registro – tem um monte de blogs, tem o dicionário Aurélia... Mas na rua já começam a ter outras formas, para disfarçá-las, para manter em transformação. Porque se ele se torna conhecido perde a função de ser uma língua de segurança.

E você têm feito outros trabalhos em pajubá?

Eu quero pensar esse idioma dentro das nossas narrativas de cultura, de literatura. Eu estou escrevendo um monólogo em pajubá. É grande, eu já li em algumas situações. Foi encomendado pela edição ao vivo da revista Serrote, em que o público iria pra ouvir o texto que foi escrito, mas não publicado. Foi uma experiência de sujeitar as pessoas a ouvirem um texto em idioma familiar, mas desconhecido.

Você toca muito, no seu livro, nessa dimensão psicanalítica do desejo e de não gostar de ter o desejo por pessoas trans e travestis. Qual a importância de tratar desse assunto?

Falar sobre o que gente enfrenta na sociedade é uma forma de falar sobre a sociedade também. Todos esses comportamentos – esses homens que vêm nos procurar, o que eles vêm pedir e a forma como nos tratam – são reveladores de como eles estão sendo criados. Às vezes a gente não se dá conta de como as coisas estão conectadas. Ando na rua, o cara está me olhando, chega do meu lado, começa a falar coisas no meu ouvido, mas é só se ninguém estiver percebendo, só se ele estiver longe dos amigos dele. Ele não pode ser visto comigo. É uma situação de ter um desejo e ao mesmo tempo não reconhecê-lo publicamente. É uma beleza que rompe com o esperado, com os padrões hegemônicos, mas que não pode ser reconhecida. É um corpo que não pode andar de mãos dadas, ser apresentado para a família.

Esse é outro ponto do livro, o jeito como você mostra os homens. Quando você fala, por exemplo, que muitas vezes os corpos que procuram serviços de prostituição também não são corpos padrão. Também era um objetivo no livro tratar da masculinidade?

Foi se tornando. Antes de virar um livro, aquilo era um blog. E antes, uma página de Facebook. E era interessante que na página eu tinha muito mais controle do alcance, da repercussão. Nos primeiros meses de funcionamento, quando eu ainda não tinha sido denunciada por linguagem obscena e perdido a página, tinha condições de verificar o que acontecia ali. O post tinha 3 mil visualizações e 2 curtidas. Isso no final de 2014. E como assim? Na verdade, tinha uma grande rede de figuras que se repassavam o texto, mas não podiam curtir porque tinham família, amigos, namorado ou namorada no Facebook. Isso dá a dimensão de como é difícil fazer uma militância pelos direitos das trabalhadoras sexuais no Brasil. Isso mostra também porque a história da humanidade fala sobre prostitutas, mas no Brasil eu não consegui contar 10 autoras prostitutas que publicaram livros. Dessas 40 trans que eu contei, duas ou três falam de prostituição, no máximo. Olha que loucura. Também, dessas, duas ou três apenas são negras. Isso diz muito sobre quem está publicando e que assuntos se pode falar. A gente ainda tem uma dificuldade muito grande de falar disso. Até 70% das pessoas que interagiam com a página eram mulheres. E eu achava bom isso, eu não estava conversando com homens, não era o blog tradicional de uma prostituta que queria conquistar mais clientes.

Totalmente diferente da Bruna Surfistinha, que é o caso mais famoso.

É isso. De um lado tenho muitas diferenças em relação a ela, mas por outro ela também é uma criadora de caminhos. Ela é uma das figuras que começa a tornar possível que exista narrativas de trabalhadoras sexuais. Em 2005, por ali. Antes dela tinha o Princesa, da Fernanda Farias, e o Eu Mulher da Vida, de Gabriela Leite, de 1992. Mas é um livro muito diferente. A Gabriela Leite tinha uma fala mais militante que pouco enfatizava nessas dinâmicas do dia a dia da trabalhadora sexual, não tanto de cliente, do quarto, que é uma das coisas que a gente sente curiosidade.

E que é uma forma de a pessoa chegar no texto.

Eu comecei a me dar conta que o quarto da prostituta era um tubo de ensaio de gênero, ali aconteciam reações químicas (risos). De um corpo em contato com outro corpo, ver como aquele corpo agia em relação ao meu, ver como nos tratavam antes e depois de gozar, antes e depois de pagar, muda muito a forma como se coloca. Isso é muito revelador de todas as dinâmicas de exclusão. A gente costuma, também, pensar os homens como seres livres sexualmente e na verdade eles são muito engessados e muito presos. Tanto que muitas vezes o que eles desejam viver em termos de sexualidade só vão viver com a prostituta. Chegam pra nós e trazem todas essas demandas inconfessáveis - e às vezes tão bestas. E quanto mais a gente se recusa a falar sobre sexo mais a gente sobrecarrega as trabalhadoras sexuais, com as demandas inconfessáveis da nossa época.

A literatura pode ser uma forma de se fazer ouvir?

Foi aí que a gente conseguiu. É pelas redes sociais que a gente conseguiu todos os grandes livros. Praticamente todos esses dez tiveram primeiro uma atuação em blogs. Penso aqui na Bruna Surfistina, na Vanessa de Oliveira, na Paula Lee, na Lola Benvenutti, no meu próprio blog. Poucas, como a Gabriela Leite e a Princesa, estão fora disso. A primeira obra de uma pessoa trans foi escrita nos anos 80 e só nos anos 90 que vão surgir as de prostitutas.

E como você foi parar na prostituição?

É sempre muito complexa a pergunta de como fui parar ali, vou sempre reelaborando. Uma das coisas de que me dou conta é que, quando começo a minha transição, eram cinco pessoas trans na Unicamp, dentre 30 mil alunos, e quando eu ia pro Jardim Itatinga, em Campinas, eram 100 só naquela rua. Dentro de um universo de 2 mil trabalhadoras sexuais que trabalhavam naquele bairro. Ali eu estava entre figuras que sabiam o que era transfobia, que tinham um corpo parecido com o meu, podia ir pensando quem eu era de outra maneira. Lá eu podia ser elogiada, ser bonita, construir uma relação positiva com meu corpo. E não como um ser estranho ou intruso, mas como uma igual. Mas, se na Unicamp eu era um ser intruso por ser trans, na prostituição eu também não era igual às minhas colegas de trabalho, eu era um ser intruso porque venho da classe média, branca, tive a possibilidade de estudar. Nos dois lugares eu estava inserida parcialmente. Era como se eu tivesse fazendo uma ponte entre dois mundos.

A situação trans no Brasil, comparada com outros países, é realmente muito pior?

Na Europa há mais tranquilidade. Desde os anos 90, em São Paulo você encontrava muros pichados com "limpe São Paulo mate uma travesti por noite" e na Europa a polícia te respeita, te trata no feminino, acham que você tem o direito de reivindicar outro gênero.

Por que dessa diferença tão gritante?

Acho que são culturas menos inseguras com a sua própria masculinidade, onde a questão de gênero está um pouco mais equilibrada. Eu fui participar de um evento na Holanda e no Reino Unido, andava pelas ruas e as pessoas não ficavam me olhando. É como se elas não se dessem ao direito de reconhecer o outro como "um corpo estranho que eu posso olhar". Por que isso pode ser muito invasivo também. E no Brasil até hoje – na América Latina como um todo, talvez – é uma questão delicada. Mas na Argentina o Congresso aprovou uma lei quase por unanimidade que garantia a retificação desburocratizada do gênero nos registros. Em 2012. Aqui no Brasil a gente acabou de fazer isso, só que foi via Supremo Tribunal Federal. Não foram os representantes do povo. Pelo Congresso, seria impossível.


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No plano artístico, uma virada também estava acontecendo. Os anos 80 e 90 foram marcados pela ação mais devastadora do vírus da Aids, mas também por uma maior visibilidade do corpo LGBT e a retirada da homossexualidade da lista de patologias mentais da Organização Mundial da Saúde. No Brasil, ainda sob os resquícios da ditadura, vieram a público, no Brasil, os contos de Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu; o ensaio Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan; a poesia de Waldo Motta e de Roberto Piva (esta vinda dos anos 1970) e as músicas de Cazuza.

No cinema internacional, vieram os filmes da fase mais transgressora de Pedro Almodóvar, Maus Hábitos (1983) e A Lei do Desejo (1987), embalados pelo movimento artístico La Movida Madrileña; os experimentos artísticos de Derek Jarman em Caravaggio (1986), Eduardo 2º (1992) e Blue (1993); os estudos sobre a marginalidade juvenil de Gus Van Saint, em Drugstore Cowboy (1989) e My Own Private Idaho (1991), que no Brasil recebeu o título Garotos de Programa; os melodramas de Rainer Werner Fassbinder, cuja obra se inicia em 1969  – a minissérie Berlin Alexanderplatz (1980), baseada em Alfred Döblin, Lili Marlene (1981) e Querelle (1982). Este último baseia-se em obra do dramaturgo Jean Genet, assim como o primeiro do diretor americano Todd Haynes, Veneno (1991), o que nos adverte de que é longa a lista de precursores.

A rigor poderíamos remontar ao Antigo Testamento, investigando as ambivalências da história de Davi e Jônatas, ou à Antiguidade clássica, lembrando que foi a morte de Pátroclo que fez com que Aquiles voltasse ao campo de batalha em Troia, em busca de vingança. Na modernidade, acorrem os versos de Lorde Byron, de Arthur Rimbaud e de Paul Verlaine.

Tiros e atentados

O amor não correspondido de Byron por seu pajem de 15 anos, eternizado no poema Amor e Morte, não impede Byron de ser celebrado como herói nacional da Grécia no início de sua Guerra da Independência, mas os tiros que Verlaine dispara, cerca de 50 anos depois, contra Rimbaud, recebem a seguinte explicação do informante da polícia: “A causa deve portanto ser atribuída às relações imorais entre esses dois indivíduos”.

O ferimento foi superficial, Rimbaud retirou a queixa, mas a lei não perderia a oportunidade de punir um apoiador da Comuna e homossexual ainda por cima, e condenou Verlaine a dois anos de prisão. Dois anos também foi a duração da pena de trabalhos forçados imposta a Oscar Wilde, na Inglaterra do fim do século 19, num processo de grande repercussão pública pelo qual o dramaturgo, poeta, autor de O Retrato de Dorian Gray, foi condenado por sodomia e grave atentado ao pudor.

Quando promotor o provocou a explicar o que seria o “amor que não ousa dizer o seu nome”, contido no poema de seu jovem amante, Lord Alfred Douglas, o escritor explicou que se tratava do fundamento da filosofia de Platão, a inspiração de sonetos de Michelangelo e Shakespeare. Mas, observou, a ignorância de sua época teria punido tal amor com a autocensura e posto ele próprio no banco dos réus.

10 peças de teatro no universo gay

O nexo entre censura e transgressão marcou vários momentos do século 20, quando a homossexualidade esteve próxima das vanguardas artísticas e do ativismo político. O modernismo americano e das letras inglesas teria sido outro, por exemplo, sem a Little Review, revista dirigida pela editora gay Margareth Anderson, que publicou um grande número de escritores modernos entre 1914 e 1929. Foi ali que, partir de 1918, saíram os primeiros capítulos de Ulysses, de James Joyce, o que rendeu à publicação um processo por obscenidade, que ela perdeu.

Podemos pensar ainda em Gertrude Stein (amiga de Anderson), André Gide (amigo de Wilde), em Christopher Isherwood, cujo romance Adeus a Berlim (1939) inspirou o filme Cabaré (1972), de Bob Fosse; no poeta W. H. Auden, no dramaturgo e cineasta Jean Cocteau ou em Virginia Woolf, autora de Orlando, romance sobre o herói que muda de sexo ao longo de séculos da história inglesa e que foi inspirado na amante da autora, Vita Sackeville-West. Em 1912, Thomas Mann lançou Morte em Veneza, meditação artístico-filosófica, de corte platônico, sobre um velho escritor obcecado por um jovem de extrema beleza. Em contrapartida, Maurice, o único romance abertamente gay de E.M. Forster, escrito nos anos 10, só veio à luz após a morte do autor, em 1971.

No cinema, uma relativa abertura data dos anos 40, quando Hollywood cooptou tanto intelectuais quanto escritores abertamente gays. Tennessee William trabalhou no roteiro de algumas peças suas, anteriormente encenadas com sucesso: Algemas de Cristal (1950), Um Bonde Chamado Desejo (1951) e De Repente, no Último Verão (1951). Truman Capote, de A Sangue Frio, escreveu o roteiro para Os Inocentes (1961), baseado no romance em A Volta do Parafuso, de Henry James, além de ver várias de suas obras vertidas para o cinema, como Bonequinha de Luxo (1961). E não esqueçamos de Edward Albee, cuja controversa peça da Broadway, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, foi adaptada para o cinema em 1966 por Mike Nichols, com Richard Burton e Elizabeth Taylor no elenco.
Visibilidade, violência

Para o bem ou para o mal, os artistas ou o pensamento LGBT há algum tempo têm trânsito mais tranquilo nas correntes dominantes. Marguerite Yourcenar, cujo romance Memórias de Adriano (1951) reconstitui a vida do imperador romano que mandou construir uma cidade em louvor ao amante morto, tornou-se a primeira mulher eleita para a Academia Francesa, em 1980. O cineasta francês Christophe Honoré e o canadense Xavier Dolan são prata da casa em seus países.

Em 2003, Elephant, de Gus Van Sant, ganhou a Palma de Ouro de Cannes. Seu filme Milk (2008), sobre o ativista LGBT Harvey Milk, rendeu o Oscar de melhor ator para Sean Penn, lembrando que Filadélfia (1993) já tinha dado o mesmo prêmio a Tom Hanks, no papel de um advogado gay portador do vírus HIV. No mesmo ano, Nicole Kidman ganhou o Oscar de melhor atriz por interpretar Virginia Woolf na adaptação cinematográfica de As Horas, de Michael Cunningham, que, por sua vez, já havia recebido o Pulitzer de ficção, em 1999.

Em 2005, O Segredo de Brokeback Mountain, filme de Ang Lee baseado em um conto de Annie Proulx, ganhou o Leão de Ouro de Veneza, além de faturar os Oscars de melhor direção e roteiro adaptado. Em 2013, O Azul é a Cor mais Quente, de Abdellatif Kechiche, versão de romance gráfico de Julie Maroh, sobre uma garota que descobre o desejo nos braços de uma jovem de cabelos azuis, arrebatou a Palma de Ouro.

Uma valsa para todos

Igor Zahir

Reflexo de uma sociedade em constante movimento, personagens de filmes e séries tornam-se peças-chave para humanizar a todos diante de questões LGBTQ

Dois homens dançam uma valsa, ao som de um violino tocado por um terceiro personagem. A canção escolhida falava sobre a vida solitária em alto mar, sem mulheres. A cena, do curta-metragem mudo Dickson Experimental Sound Film (1894), de William K. L. Dickson, é considerada como uma das primeiras de temática LGBTQ no cinema por muitos – entre eles, o historiador Vito Russo no livro The Celluloid Closet – considerado "a bíblia do cinema gay". Por outro lado, há quem defenda o argumento de que o diretor não fez nada além de mostrar as danças masculinas típicas do exército americano naquela época, sem nenhuma conotação sexual.

É difícil mesmo dizer em que momento o LGBTQ entrou para a história da sétima arte, dada a sutileza das primeiras aparições. No clássico Carlitos no Estúdio (1916), de Charlie Chaplin, vemos uma das primeiras piadas sobre gays no cinema, confirmando que, décadas atrás, o tom predominante para tratar do assunto era realmente a comédia. É possível, ainda, traçar um histórico de como os gays foram retratados por cineastas ano após ano. No entanto, se a indústria cinematográfica passou por altos e baixos nesse assunto, é pertinente lembrar que as reações e conveniências da sociedade, mesmo que nem sempre das melhores, foram fundamentais como termômetros desses filmes.

Além do tom cômico, outra vertente foram a das produções que deixavam a homossexualidade subentendida – como no longa Gata em Teto de Zinco Quente (1958), de Richard Brooks, no qual personagem de Paul Newman passa a rejeitar a esposa (interpretada por Elizabeth Taylor) após o suicídio de um amigo gay. Vale incluir nessa list, aquele que muitos consideram a obra-prima de Alfred Hitchcock, Festim Diabólico (1948), protagonizado por dois jovens assassinos cuja orientação sexual, apesar de não dita às claras, era evidente.

Quarenta anos à frente, não havia nada de subentendido quando a luz chegou às drag queens, travestis e transexuais, em produções como Priscilla – a Rainha do Deserto (1994), de Stephan Elliott; Gaiola das Loucas (1996), de Mike Nichols; e Tudo sobre Minha Mãe (1999), de Pedro Almodóvar, que colocavam os dilemas e tabus trans em evidência. Nesse momento, o humor original e o drama que prevalecia nas produções do pós-guerra colidiram. As necessidades sociais eram outras: o século 21 se aproximava, e as personagens, ainda que muito estereotipadas, passaram a ser vistas mais humanizadas. Quais os sentimentos por trás daquela marginalização? Quais as dores e delícias por trás das caricaturas?

Tudo o que antes não se falava explicitamente sobre o público LGBTQ começou a vir à tona. Além desse espaço para a transsexualidade, foram surgindo cada vez mais filmes a respeito da má notícia da época, o HIV. Um dos primeiros foi Meu Querido Companheiro (1990), de Norman René, ainda no auge da Aids, nos anos 80, quando a doença era tratada como um “câncer gay” que vinha atingindo um número alarmante de pessoas nos Estados Unidos e no mundo.

Com essa bagagem, o passo seguinte foram – são – os filmes em que as pessoas LGBTQ também namoram, amam e se magoam como quaisquer outras. Impossível não citar O Segredo de Brokeback Mountain (2006), com o caso conturbado entre dois vaqueiros (vividos brilhantemente por Jake Gyllenhaal e Heath Ledger) que se apaixonam enquanto trabalham num rancho com uma montanha de tirar o fôlego ao fundo. O filme de Ang Lee foi um marco, pois mostrou ao mundo, com cenas sensíveis e viscerais, as perturbações de um homem gay: o conflito interno para se aceitar, o medo do que vai enfrentar se sair do armário, o envolvimento com mulheres para tentar construir uma relação tida como “normal”, e a dilacerante dor do amor verdadeiro que não consegue ultrapassar essas barreiras impostas por uma sociedade machista e preconceituosa. O contexto do longa ajudou leigos e heterossexuais a entenderem porque deve-se usar o termo “orientação sexual” e não opção. Se pudessem escolher, aqueles caubóis tão diferentes de John Wayne jamais se envolveriam sentimentalmente com alguém do mesmo sexo, sabendo do que teriam que combater dali em diante.

Depois de O Segredo de Brokeback Mountain, uma considerável remessa de produções, tanto hollywoodianas quanto europeias, destrincharam relacionamentos homossexuais, com certa sutileza nas cenas picantes e grandes doses de afetividade, com tudo de bom e ruim que se enfrenta em um relacionamento. Direito de Amar (2009), de Tom Ford, é um exemplo do luto sofrido pelo protagonista que perde seu companheiro e se divide entre seguir adiante ou dar cabo da própria existência. Assim como o longa que deu a Ang Lee o Oscar de Melhor Diretor, o filme cativa homo e heterossexuais por um simples motivo: eles fazem com que as pessoas entrem numa catarse, numa espécie de terapia interna, sobre amor, felicidade, perspectiva de futuro. E o mais complexo, sobre o seu olhar para o outro. Porque, após esse exercício tão denso, por um momento o telespectador se esquece que aqueles personagens têm orientações sexuais diferentes. Não à toa, muitos pais de família conservadores começam a assistir com pé atrás e asco pelas cenas de beijo, e terminam com nó na garganta e se segurando para não chorar.

Do final dos anos 2000 para cá, quando esses tópicos foram retratados separadamente a cada filme, o cinema LGBTQ se permitiu misturar os assuntos. Afinal, não dá para falar de um personagem homossexual, mostrando apenas uma faceta da sua jornada diária. Outros tabus também entraram em pauta. Minhas Mães e Meu Pai (2010), de Lisa Cholodenko, mostra duas lésbicas com filhos adolescentes concebidos por inseminação artificial, e o pai biológico que acaba incorporado ao núcleo. No fim da história, é inevitável refletir sobre a própria família.

Azul É a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche, trata da descoberta do prazer entre duas garotas lésbicas. O brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), de Daniel Ribeiro, por sua vez, foca na novidade afetiva de um garoto cego por um novo colega de escola. Em todos eles, qualquer pessoa que se dispor a assistir de mente aberta, a dar uma chance para aquelas tramas, acaba se questionando se há mesmo algo de errado com a sexualidade alheia, ou se o problema não está dentro dos seus valores pré-concebidos.

Beijo de amor

Desde 2016, o termo LGBTQ ganhou força, devido ao trabalho de conscientização efetuado pela Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Glaad), organização não-governamental norte-americana dedicada a acompanhar a maneira com que a mídia retrata esse público. À medida que o “T” (de transexuais, travestis e transgêneros) e o “Q” (de queer) começaram a ser abrangidos por ativistas e especialistas, o mercado audiovisual, mais uma vez, acompanhou o bonde. Surgiram, então, uma enxurrada de filmes e séries com personagens trans.

Na série de Jenji Kohan Orange Is The New Black (2013), uma das presidiárias, Sophia, alçou Laverne Cox à fama. Em Sense8 (2015), Nomi Marks é uma lésbica trans, vivida pela também trans atriz Jamie Clayt – numa série concebida e dirigida pelas irmãs, também trans, Wachowski. Nos filmes Tomboy (2012), de Céline Sciamma, e Meu Nome é Ray (2015), de Gaby Della,  pode-se ter uma ideia de como é superdelicada a questão do gênero na cabeça de uma criança ou adolescente, e do quanto os familiares são importantes para ajudar nessa jornada.

Para quem está de fora, pode parecer desnecessário entender a não-binaridade de gênero. Parte daí a importância do cinema e outros produtos de ficção tratarem de algo tão real e cada vez mais comum. Em 2016, o dramaturgo Benedito Ruy Barbosa causou revolta quando declarou que “odeia história de bicha” e que não podem fazer o assunto ser normal para crianças. Tenho que saber que tem muito pai que não quer que o filho veja, porque eles não sabem explicar, não sabem como colocar. Muita gente reclama disso para mim. O que não é justo é você transformar: só é normal o cara que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é sapatona é perfeita, a que não é sapatona não é legal. É assim que estamos vivendo", disse o autor em coletiva para promover a novela Velho Chico.

O mais alarmante é que tal opinião ainda é compactuada por muitas pessoas. Grupos mais obsoletos alegam dificuldade em explicar aos filhos (ou aos avós, em alguns casos) uma cena de duas pessoas do mesmo sexo se beijando, quando na verdade, o que deveria ser constrangedor são cenas de traição conjugal, violência doméstica ou qualquer espécie de machismo.

Em Albert Nobbs (2011), de Rodrigo García, Glenn Close interpreta uma mulher forçada a viver e se vestir como homem para sobreviver na Irlanda do século 19. Após 30 anos incorporando essa persona, ela acaba se enxergando como homem para fugir de possíveis problemas graves se sua verdadeira identidade vier à tona. É o mais claro exemplo do que acontece quando um ser humano precisa ser outra pessoa pra poder ser alguém neste mundo.

Felizmente, a sociedade muda, e a indústria cultural acompanha o ritmo. Anos atrás, o tabu era deixar ou não os jovens assistirem filmes com temática LGBTQ. Hoje, o que gera movimentação nas redes sociais é uma novela mostrar uma história gay, e não ter ao menos uma cena de paixão. O próximo passo, como um ato de resistência num mundo repleto de políticos homofóbicos, é a certeza de que a sétima arte não vai ceder aos retrocessos. Quem sabe, daqui a uns anos, filmes e séries LGBT nem precisem mais dessa alcunha, e uma cena romântica de beijo gay seja descrita apenas como o que é na verdade: um beijo de amor.

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Em 2017, Moonlight, de Barry Jenkins, tornou-se o primeiro filme com temática gay e elenco composto inteiramente por atores negros, a levar o Oscar de melhor filme. E, em 2018, o filme chileno Uma Mulher Fantástica, de Sebástian Lélio, sobre as dificuldades vividas por uma mulher transexual após a morte do parceiro, conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A novidade é que a atriz principal do filme, Daniela Vega, também convidada para apresentar a canção do filme Me Chame pelo Seu Nome, na mesma cerimônia, é uma atriz transexual.

São vitórias incontestáveis, mas esse panorama cinematográfico não significa que o preconceito ou a homofobia terminaram mundo afora. No Brasil, por exemplo, relatórios do Grupo Gay da Bahia, ONG fundada pelo professor Luiz Mott (UFBA), apontam o assassinato de 338 pessoas LGBT em 2012, alguns com requintes de crueldade, um aumento de mais de 20% com relação ao ano anterior, que já registrava um salto de mais de 100% desde 2007.

Um caso ilustrativo do estado das coisas no campo da arte ocorreu no ano passado, quando a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em Porto Alegre, foi encerrada prematuramente pelo banco que a patrocinava por causa de pressão de grupos conservadores. Em nota, o braço cultural do banco, tomando o cuidado de isentar-se da responsabilidade sobre o conteúdo exibido, deu razão aos detratores, afirmando que teria, sim, havido “desrespeito” a “símbolos, crenças e pessoas”. Segundo esclarecem, quando a arte não gera “inclusão e reflexão positiva”, perderia o propósito maior de “elevar a condição humana”.

O olhar dos outros

A advertência da nota tem tom prescritivo e confunde arte com elevação, de que discordaria quase todo crítico de arte e de literatura que se preza, a começar pelo recém-falecido Antonio Candido, que afirmou que parte da literatura “nasce dos movimentos de negação do estado de coisas predominante” e que o livro, cujo efeito transcende “as normas estabelecidas,” pode ser “fator de perturbação e mesmo de risco”. Mas a nota ainda resvala em perigoso sofisma ao empregar o termo “inclusão”, caro ao discurso LGBT, para insinuar que se deveriam incluir justamente os grupos que pretendem destruir esse movimento e suas manifestações.

Valendo-nos de Candido, a arte em geral e, principalmente, as manifestações LGBT, que até ontem aliavam-se orgulhosamente à contracultura, “não são uma experiência inofensiva”. Mas onde residiria o risco? Tomando a sugestão de Butler, as sexualidades não-normativas forçariam o ser humano a pensar no estatuto hegemônico em que se erigiu o binarismo sexual, o qual, ademais, historicamente oprime um dos termos do binômio. Forçaria ainda cada um de nós a confrontar crenças arraigadas, muitas das quais defendidas como verdades absolutas por instâncias de poder, do Estado à religião, da família aos agentes econômicos.

Mas há outra dimensão, certamente vinculada à anterior, que liga os sujeitos LGBT aos sujeitos negros. Em The Souls of Black Folk ("as almas da gente negra"), de 1903, W.E.B. Du Bois escreve que, na sociedade americana, o negro teria a faculdade da “dupla consciência”, o sentimento de olhar para si mesmo através do olhar dos outros, que, sobretudo naquela época, era eivado de preconceitos.

LGBTQ+ em 10 obras de arte contemporâneas

Seleção feita por Luiz Flavioprofessor de História da Arte e Filosofia, além de artista e produtor cultural.

Sendo subalternas a uma classe hegemônica, as pessoas LGBT –como as negras – tomam consciência de si, constroem inicialmente sua identidade, pelos parâmetros sociais que as mantêm à margem. No caso do artista, a dificuldade transforma-se em vantagem no sentido de que ele ou ela aprende a ver mais, a ver não só por seus olhos, mas também pelo olhar dos outros, sendo capaz de desmascarar por dentro a falácia da normalidade, da estabilidade do gênero e das estratégias reguladoras dos grupos dominantes.

Trata-se de uma questão de ponto de vista, portanto. Na concepção de Du Bois, o negro, depois do egípcio, do mongol, do grego, do romano, do indiano e do teutão, seria uma “espécie de sétimo filho” e, assim, nasceria com um véu, dotado do dom da segunda visão. O trecho faz referência velada ao folclore africano, conforme o qual o sétimo filho nasceria com uma membrana embrionária, por vezes cobrindo a cabeça, o que lhe conferiria habilidades especiais, como a visão de fantasmas e a profecia.

Em outras culturas, o dom do vaticínio também constitui um atributo ambivalente – algo que parece toldar a visão, parece obscurecê-la, como um véu, leva a pessoa a ver melhor. Assim, o profeta é muitas vezes um cego. Tirésias, o mais célebre dos videntes na tradição grega, não só é retratado como cego, mas como alguém que foi homem e foi mulher. T.S. Eliot, no poema A Terra Devastada, descreve-o “palpitando entre duas vidas,/ Ancião com enrugados peitos femininos”.

Tal como Herculine/Abel, ele sabe mais do que os meros mortais. Quanto à jovem criada por irmãs ursulinas, depois de ter-lhe sido imposto o status masculino, ela/ele­ escreveu: “Foi dado a mim, como homem, o mais íntimo e profundo conhecimento de todas as aptidões, de todos os segredos do caráter feminino. Eu leio esse coração, como um livro aberto (...).”

Que ela/e possa falar hoje, que nós possamos ouvir, e por fim conversemos.

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Marcelo Pen é professor doutor em Teoria e Literária e Literatura Comparada