Teatro, terremoto

Por Andrei Reina

Sismófrago dos abalos da sociedade, o teatro registrou em 2018 picos de distopias e reivindicações de fala, preocupações futuras e acerto de contas com o passado

“Instrumento que detecta, amplia e registra as vibrações da Terra, sejam elas provocadas por processos naturais ou pelo homem.” A definição de sismógrafo segundo o dicionário Houaiss ajuda a entender a recorrência da metáfora, utilizada, por exemplo, pela crítica Iná Camargo Costa, que compara o aparelho utilizado por geólogos à capacidade da arte em antecipar movimentos da sociedade. Dos sismógrafos disponíveis no campo artístico, o teatro talvez seja mesmo o mais sensível aos abalos do mundo, tanto pelo caráter coletivo de sua criação quanto pela relação imediata com o público. Nesta pequena antologia do teatro brasileiro produzido em 2018, observa-se que as agulhas registraram reflexões sobre a natureza do poder, a imaginação distópica, a guerra dos sexos e a reivindicação de fala por grupos marginalizados, que correspondem, no solo social, à degradação da política, à pauperização das condições materiais de vida, ao levante feminista e à luta por reconhecimento de negros e gays. Viu-se também o encontro entre os tempos, na colaboração de artistas de diferentes gerações, mapeando acidentes na topografia do presente e, também, desentranhando do passado histórias que pedem reavaliação crítica.

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Os 3 Mundos, Nelson Baskerville

Com HQs como Daytripper e Dois Irmãos no currículo  pelo quais levaram o prêmio Eisner, um dos mais importantes do mundo no gênero –, os gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá saltaram dos quadrinhos para os palcos pela primeira vez. Com o auxílio da atriz Paula Picarelli e do diretor Nelson Baskerville, a dupla utiliza referências pop para montar o cenário pós-apocalíptico de Os 3 Mundos: escombros de estações de metrô, devastadas pela guerra. Ali vive o Grupo da Serpente, uma família de praticantes de kung fu, liderado por Lachesis. Em oposição a eles ficará o Mundo das Máscaras, liderado por Acônito, que comanda seu grupo do alto de uma torre. A ação toda é uma mistura de teatro, cinema, artes marciais e, claro, HQ. O ilustrador Eloar Guazzelli contribuiu com desenhos que foram animados e projetados em vídeo.

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Agosto na Cidade Murada, Jé Oliveira e Mariana Souto Mayor

Inicialmente pensada como uma história em quadrinhos inspirada no compositor Itamar Assumpção e no artista plástico Arthur Bispo do Rosário, Agosto na Cidade Murada é ao mesmo tempo uma peça e um show com texto e música originais de Salloma Salomão. No espetáculo, o veterano das artes afro-brasileiras imagina uma sociedade pós-racial dividida por um muro, cuja violência e fragilidade é denunciada por secundaristas inconformados. Na direção musical do trabalho, Salomão somou esforços aos músicos Guilherme Prado e Eduardo Brechó – este último, cantor da banda Aláfia, influenciada pela estética de Salloma. A colaboração com jovens artistas da periferia de São Paulo se dá ainda pela participação de criadores oriundos de grupos como Clariô e Coletivo Negro no elenco e na direção, como é o caso de Jé Oliveira.

"Suponho que sempre acreditamos em mulheres quando as mentiras são agradáveis... das primeiras até as últimas." Arthur Schnitzler, "Anatol"

Anatol, Eduardo Tolentino de Araujo

Escrito por um dos mais polêmicos autores do fin de siècle vienense, Anatol aborda com humor e erotismo a fragilidade masculina. Publicada em 1893, a peça é a estreia dramatúrgica de Arthur Schnitzler, autor que usou fortemente a, então nova e impactante, psicanálise de Sigmund Freud, para criar um Don Juan moderno, metido em romances esvaziados com mulheres de origem social diversa. Em sete cenas curtas, Anatol confronta seus desejos e fragilidades diante de burguesas, prostitutas, costureiras e atrizes, de várias idades. Um dos aspectos marcantes do texto, e salientado na encenação do Grupo Tapa, é a força dessas personagens femininas, cujo desembaraço expõe a vulnerabilidade do homem que dá nome à peça.

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Buraquinhos ou o Vento é Inimigo do Picumã, Naruna Costa

O jovem dramaturgo Jhonny Salaberg se baseou no que vê e vive em Guaianases, na periferia de São Paulo, para elaborar esse potente depoimento sobre o genocídio da população negra. Em primeira pessoa, o texto parte da história de um garoto de 12 anos que, ao sair para comprar pão num 1º de janeiro, é abordado por um policial, para quem ele não passa de um suspeito. Assustado, parte numa fuga fantástica, correndo pela América Latina e a África para salvar sua vida. No texto, Salaberg busca formas poéticas para retratar a vida sob opressão, apostando ao mesmo tempo em uma ressignificação de acordo com novos termos, definidos pelos oprimidos. A direção do elenco de rapazes é assinada por Naruna Costa, atriz fundadora do Grupo Clariô, marco do teatro periférico da cidade.

Casa de Bonecas - Parte 2, Regina Galdino

Parte da genialidade de A Casa de Bonecas, drama escrito pelo norueguês Henrik Ibsen em 1879, está na inteligência de seu final: a cena acaba com Nora abandonando a casa onde morava – e com ela, a vida que a oprimia. À imaginação do espectador cabia completar o que o palco do século 19 era incapaz de encenar. O spoiler, além de antigo, é necessário: partimos para 2017, quando o dramaturgo norte-americano Lucas Hnath decide iniciar uma história 15 anos depois de onde termina o clássico. Agora uma escritora engajada, Nora retorna ao lar para oficializar o divórcio com Torvald, não sem antes enfrentar o ressentimento do marido e dos filhos. Na montagem brasileira, dirigida por Regina Galdino, é Marília Gabriela quem vive a revolução feminista da personagem burguesa. (Leia mais aqui)

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CérebroCoração, Enrique Diaz e Renato Linhares

Anunciada como uma peça-conferência, o monólogo escrito e protagonizado por Mariana Lima une a sala de aula e o teatro para discutir o difícil equilíbrio entre a razão e a emoção, entre a ciência e a poesia – dualidade materializada pelo escrutínio dos órgãos do corpo que emprestam a cada um dos polos um símbolo. A peça começa com uma cientista prestes a iniciar uma conferência sobre o funcionamento do cérebro, mas o racional acaba sendo tragado pelo caos da emoção. “Cérebro-Coração é das montagens mais audaciosas e inteligentes, uma jornada não convencional que nos propõe um sair de nós sem sair, porque o convite é para adentrarmos nas nossas entranhas”, escreveu Helena Bagnoli, publisher da Bravo! (Leia mais aqui)

"Essa ferida aberta que agora pulsa em minha costela é o gatilho sem sentido de quem gosta de abatedouros." Jhonny Salaberg, "Buraquinhos ou o Vento é Inimigo do Picumã"

Colônia, Vinicius Arneiro

Contra um quadro negro, atrás de uma mesa, o ator Renato Livera destrincha os significados da palavra “colônia” nesta peça-palestra escrita por Gustavo Colombini, dramaturgo indicado ao Prêmio Shell pela peça O Silêncio Depois da Chuva (2011). O texto converge para duas experiências históricas, ambas de longa duração: o passado colonial brasileiro e o holocausto do Hospital Colônia de Barbacena, que vitimou mais de 60 mil pessoas desde a sua inauguração, em 1903, até o final dos anos 1980. O manicômio mineiro abrigava gente sem nenhum histórico de transtorno mental, e estima-se que lucrou cerca de R$ 600 mil, em valores de hoje, com a venda de quase 2 mil corpos para faculdades de Medicina. A história foi investigada pela jornalista Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro, que inspira a montagem de Vinicius Arneiro.

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Domínio Público, Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz

Produzida por sugestão da curadoria do Festival de Curitiba, a peça é uma resposta pública de quatro artistas aos ataques sofridos durante a onda conservadora contra a cultura em 2017: Wagner Schwartz, pela perseguição decorrente da divulgação de trecho da performance La Bête, em que uma criança interage com o corpo do artista na presença da mãe, a coreógrafa Elisabete Finger; a atriz trans Renata Carvalho, pela censura à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu; e Maikon K, por ter a performance DNA de Dan, em que aparece nu dentro de uma bolha, interrompida pela Polícia Militar do Distrito Federal, que o deteve na ocasião. O tom da criação é menos bélico do que se imaginaria: recua-se no tempo para o furto da Monalisa no início do século 20 por um trabalhador italiano do Louvre, para mostrar como os sentidos de uma obra de arte se modificam com o tempo e estão em disputa. (Leia mais aqui)


Esqueça, Luiz Antônio Sena Junior​

Em cena, Ridson Reis e Roquildes Junior se multiplicam em diversos personagens para contar, em tom lúdico e crítico, o “descobrimento” do Brasil. A dramaturgia, assinada pelos atores com Giordano Castro, se baseia na peça A Descoberta das Américas, do autor italiano Dario Fo, enquanto a encenação de Luiz Antônio Sena Junior se inspira no cinema e em elementos da cultura pop. A montagem reúne representantes de dois dos principais grupos de teatro contemporâneo da Bahia: Roquildes e Sena Junior integram A Outra Companhia; Ridson, o Bando de Teatro Olodum. A colaboração entre companhias atravessa a fronteira do Estado e alcança Pernambuco, já que Castro é membro do Grupo Magiluth, com sede no Recife.

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Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse, Antunes Filho

Prestes a completar 89 anos, Antunes Filho dispensa o descanso ou a comodidade estética que a importância de sua carreira para o teatro brasileiro garantiria. Em sua nova produção à frente do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, o encenador se interessa pela espera. Não aquela imaginada por Tchekhov em As Três Irmãs ou por Beckett em seu Godot, mas a formulação da contemporânea dela, escrita pelo dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce pouco antes de sua morte prematura, em 1995. No enredo, cinco mulheres aguardam o retorno do filho de uma delas, que saiu de casa, após se desentender com o pai. Ao longo da encenação, elas tecem hipóteses sobre o retorno do único homem da casa, enquanto refletem sobre a condição em que vivem. (Leia mais aqui)

F.A.L.A., Flávio Rodrigues​

Após investigar a construção da masculinidade negra e periférica em Farinha com Açúcar ou sobre a Sustança de Meninos e Homens, o Coletivo Negro se volta, em F.A.L.A., para a diversidade sexual. Os três Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas – cifrados na sigla que alude ao “lugar de fala”, conceito-chave das novas lutas por reconhecimento das minorias – apresentam trajetórias de corpos negros LGBTQI+, cuja expressividade, na aposta poética e política do grupo, aponta “para além de um mundo que se pretende branco, homogêneo e binário”, na expressão do diretor, Flávio Rodrigues.

"A alegria foi toda embora. O gozo, o prazer do gozo, do êxtase, tudo ainda está lá, mas não a alegria.” Edward Albee, "Peça do Casamento"
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Insetos, Rodrigo Portella

De uma joaninha que deseja se tornar um percevejo a gafanhotos dedicados ao desmatamento, o novo trabalho da Cia. dos Atores utilizou insetos para abordar questões contemporâneas – como as sexualidades em trânsito e a crise ambiental – de modo fabular e bem-humorado. Dividida em 12 fragmentos, a peça tem texto assinado por Jô Bilac, que volta a colaborar com a companhia após Conselho de Classe, e traz no elenco quatro atores (Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e Susana Ribeiro) que fundaram o influente grupo carioca há 30 anos. A peça confirma ainda o nome de Rodrigo Portella como um dos principais diretores da cena carioca, na esteira do sucesso de Tom na Fazenda, drama homoafetivo que lhe rendeu o Prêmio Shell de direção.

A Invenção do Nordeste, Quitéria Kelly

No final do livro A Invenção do Nordeste e Outras Artes, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior aposta que a arte é um dos únicos veículos capazes de reformular o imaginário que se tem sobre a região. Menos de 10 anos depois, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte viu seu estudo sobre a transformação do Nordeste em um conceito prenhe de conteúdos políticos e culturais virar peça pelas mãos dos conterrâneos do Grupo Carmin. Incomodada com o preconceito contra nordestinos, aflorado com especial violência no período eleitoral, a diretora e atriz Quitéria Kelly levou a inquietação a Pablo Capistrano e Henrique Fontes, que elaboraram a dramaturgia. Marcada pela meta-narrativa, a trama apresenta um diretor à procura de atores para representar um “personagem nordestino”. A disputa entre dois norte-riograndenses pelo papel suscita uma comédia de erros que coloca em xeque a ideia de que há uma identidade redutora do Nordeste.

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Isto é um Negro?, Tarina Quelho

O que significa ser negro no Brasil de hoje? Parafraseando a pergunta feita pelo escritor italiano Primo Levi após vivenciar o horror dos campos de concentração durante o Holocausto (É Isto Um Homem?), a peça mobiliza referências teóricas e a experiência própria dos jovens atores Ivy Souza, Lucas Wickhaus, Mirella Façanha e Raoni Garcia – todos nus em cena –, para investigar o lugar que os corpos negros ocupam na sociedade e no imaginário social do país. O espetáculo foi dirigido por Tarina Quelho e recebeu orientação dramatúrgica de José Fernando Peixoto de Azevedo, dupla responsável pela intervenção cênica Apagamentos, que levou questionamentos similares a um Museu Paulista ainda em obras.

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Jogo da Guerra, Pedro Bennaton

Ação direta e performance se confundem no novo trabalho do Erro, grupo que desde 2001 experimenta novas formas de intervenção no espaço público de Florianópolis, em Santa Catarina. Baseado no jogo de tabuleiros e livro de mesmo nome criados por Alice Becker-Ho e Guy Debord, Jogo da Guerra é composto por três ações simultâneas: dois grupos são separados em extremidades opostas da rua, enquanto um terceiro observa a movimentação em um ambiente recluso e confortável. A peça utiliza procedimentos do diretor e ensaísta Augusto Boal, como o Teatro Invisível e o Teatro Fórum, para criar uma indistinção entre atores e público, convidado a participar de um exercício de imaginação política radical, herdeiro do Maio de 1968 francês.

"Às vezes, chego a pensar: poxa, será que eu sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos gente?" Plínio Marcos, "Navalha na Carne"

Justa, Carlos Gradim

Fundada pelo diretor Carlos Gradim e pela atriz Yara de Novaes em 1998, a Odeon Companhia Teatral chega aos 20 anos com os olhos voltados para a atual crise política do país. A princípio, a dramaturgia de Newton Moreno deveria refletir a vida das prostitutas, mas a pesquisa levou os rumos do trabalho a Brasília, em uma aproximação (entre a corrupção e o meretrício) há muito explorada pela crônica política. Na trama, um investigador interpretado por Rodrigo Vaz procura pistas para desvendar o assassinato em série de políticos no prostíbulo frequentado por eles. Ao conversar com as garotas de programa – que ganham vida na atuação virtuosa de Novaes – o detetive conhece Justa, mulher cega e incorruptível por quem fica obcecado. (Leia mais aqui)

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O Leão no Inverno, Ulysses Cruz

A concepção do diretor Ulysses Cruz para a história do rei Henrique II e da rainha Eleanor de Aquitânia em tudo se difere da célebre adaptação da peça de James Goldman para o cinema, dirigida por Anthony Harvey em 1968 com Peter O’Toole e Katherine Hepburn no elenco. Nesta que é a estreia brasileira da obra, o figurino dispensa realismo, o cenário é mínimo e os atores se concentram mais na palavra que no gesto, em uma espécie de ensaio geral. Leopoldo Pacheco e Regina Duarte protagonizam a peça, que contava ainda com atores mais jovens no elenco, como Sidney Santiago, que se desligou da montagem após Regina Duarte declarar apoio ao então candidato à presidência Jair Bolsonaro.

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Lugar Nenhum, Sérgio de Carvalho

Em peças recentes, a Companhia do Latão tem se debruçado sobre as contradições do país sob o ponto de vista dos produtores de cultura. Seja em Ópera dos Vivos ou em Aos que Ficam, observa-se com lentes críticas o desajuste entre as ideias enunciadas pelos artistas e a realidade histórica brasileira, que as desmente. Construída a partir de notas de trabalho de Anton Tchekhov, Lugar Nenhum põe em cena uma atriz e um cineasta formados na agitação cultural dos anos 1960 em uma crise contemporânea à reabertura democrática. Segundo o diretor e dramaturgo Sérgio de Carvalho escreve no programa da peça, a escolha por Tchekhov se explica por uma correspondência literária local: “Este genial dramaturgo russo realizou no teatro algo que Machado de Assis fez em seus grandes romances, a sondagem dos desajustes entre vida ideológica e uma realidade social baseada na herança do trabalho servil (escravo, no caso do brasileiro)”.

Medeia Negra, Tânia Farias

Para a construção do monólogo, a atriz Márcia Limma visitou o presídio feminino de Salvador, onde ministrou oficinas de contação de histórias. Assim, reuniu em si narrativas que a ajudaram a remeter para o Brasil o mito grego da mãe que assassina os próprios filhos depois de abandonada pelo amado – aqui, avaliado com interseccionalidade, isto é, segundo o ponto de vista de uma mulher negra das classes populares, que carregam o peso das mortes impostas pelo patriarcado. Com dramaturgia assinada por Márcio Marciano e Daniel Arcades, o espetáculo promove ainda o encontro entre a gaúcha Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, na figura da diretora Tânia Farias, e o Grupo Vilavox, fundado por Limma e outros artistas baianos em 2001.

"Vamos voltar para nossa casa, Ninotchka... Esta casa é esquisita. Continuo ouvindo tiros de fuzil lá fora." Matéi Visniec, "Nina, ou da Fragilidade das Gaivotas Empalhadas"
Stefan Chytrek
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Molière, Diego Fortes

Escrito por uma dramaturga mexicana contemporânea, Sabina Berman, o texto retrata a disputa entre dois autores franceses do século 17 pelo mecenato do rei Luís 14º, mas vem bem a calhar ao Brasil de 2018. Para além da discussão sobre o patrocínio às artes, ou da relação desta com o poder, a contenda entre a tragédia de Moliére e o humor de Racine – vividos aqui por Matheus Nachtergaele e Elcio Nogueira Seixas, respectivamente – tem o atualíssimo contraponto moralista e conservador do arcebispo Péréfixe, interpretado por Renato Borghi, decano do grupo em plena atividade aos 81 anos. O elenco de peso da comédia musical, recheada de canções de Caetano Veloso arranjadas por Gilson Fukushima, conta ainda com Georgette Fadel e Nilton Bicudo.

Navalha na Carne Negra, José Fernando Peixoto de Azevedo

No texto de Plínio Marcos para Navalha na Carne, não há menção ao universo racial das personagens. Encenações consagradas da peça, contudo, estabeleceram um imaginário branco para Neusa Sueli, Vado e Veludo – a prostituta, por exemplo, foi interpretada por Tônia Carrero no teatro e por Vera Fischer no cinema. Em Navalha na Carne Negra, isso é invertido pela presença de Lucelia Sergio, Rodrigo dos Santos e Raphael Garcia no elenco, passando também pelo olhar sobre a cena, dirigida por José Fernando Peixoto de Azevedo, encenador que tem se debruçado sobre o que chama de teatro preto em livros como Eu, Um Crioulo e em colaborações com grupos de teatro como Os Crespos, integrado por Lucelia. Em cena com os atores, a cinegrafista Isabel Praxedes transmite em tempo real o que enquadra em dois telões, enaltecendo o caráter coletivo da experiência precária e violenta daqueles representantes do subproletariado brasileiro. (Leia mais aqui)

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Necropolítica, Aury Porto​

“Mosaico sombrio de uma sociedade em crise”, como anunciado no programa, a peça da Mundana Companhia tem aspecto futurista e distópico, mas fala das possibilidades políticas do presente. No texto de Marcos Barbosa, que toma emprestado o conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe, a interação entre vivos e mortos tenta estabelecer as bases de uma nova política. Segundo o dramaturgo, a estrutura da peça é baseada obras de Brecht para o palco, como Terror e Miséria no Terceiro Reich e Na Selva das Cidades, esta encenada em 2016 pela Mundana sob a direção de Cibele Forjaz. A peça estreou na Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicas do Centro Cultural São Paulo, importante janela para experimentos dramatúrgicos que chegou a sua quarta edição.

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Nina, ou da Fragilidade das Gaivotas Empalhadas, Denise Weinberg

Encenada no porão do Centro Cultural São Paulo, a peça promove o reencontro de três personagens de A Gaivota, obra-prima do teatro moderno escrita pelo russo Anton Tchekohv às portas do século 20. Quinze anos passados da ação original, Nina, Trigórin e Tréplev estão agora isolados pela neve na casa que foi da mãe de Tréplev, enquanto lá fora os bolcheviques iniciam a Revolução de 1917. A gaivota original – empalhada – está preservada na parede da sala. Nina é um dos trabalhos mais recentes do dramaturgo romeno Matéi Visniec, cujas intervenções pós-modernas em clássicos do teatro, como em O Último Godot, têm sido muito bem recebidas no Brasil.

Elina Gioulanli

Odisseia, Leonardo Moreira

Com 10 anos completados em 2018, a  Companhia Hiato decidiu levar a um novo patamar a combinação de fábula e realidade que caracterizou peças anteriores, como as do Projeto Ficção (2011-2014). Dessa vez, o grupo de São Paulo decidiu levar para perto do público a Odisseia de Homero – o poema épico que conta a história do arguto Odisseu, que, voltando da Guerra de Troia, vive várias desventuras no caminho de casa, em Ítaca. Para aplacar a distância que a obra poderia suscitar no público mais jovem, a montagem se vale das histórias pessoais dos atores em cena. Além da linguagem, a encenação de Leonardo Moreira também estreita os laços entre os artistas e o público ao servir comida e bebida à plateia, que também é requisitada a encarnar o papel de Odisseu, em um encontro do coletivo com o particular.

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Um Panorama Visto da Ponte, Zé Henrique de Paula​

Sessenta anos após a montagem histórica do Teatro Brasileiro de Comédia, que reunia atrizes como Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, finalmente é reencenada no Brasil Um Panorama Visto da Ponte, peça de Arthur Miller, principal dramaturgo do pós-guerra americano ao lado de Tennessee Williams. No cenário de placas de contêineres, concebido por Bruno Anselmo, vê-se o desenrolar da história, concentrada em uma família de imigrantes italianos que se estabelecem nos Estados Unidos para fugir da devastação material da Europa após a Segunda Guerra Mundial. No elenco, o veterano Sérgio Mamberti encontra os atores Rodrigo Lombardi e Gabriella Potye sob a direção de Zé Henrique de Paula. (Leia mais aqui)

Peça do Casamento, Guilherme Weber​

Edward Albee não parou em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, uma das mais definitivas peças a retratar a degradação emocional de um casal, escrita em 1962. Em Peça de Casamento, do final dos anos 1980, o dramaturgo americano voltou ao assunto, desta vez em chave metalinguística, para mostrar a deterioração da vida conjugal de Jack e Gillian, às portas de um divórcio após 30 anos juntos, e ao mesmo tempo desconstruir o gênero das peças de relacionamento. A direção de Guilherme Weber enaltece esse aspecto reflexivo, sublinhado pelo cenário de espelhos concebido por Daniela Thomas e Camila Schmidt para os atores Eliane Giardini e Antônio Gonzalez.

"Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbrais da eternidade sem uma vela na mão?" Oswald de Andrade, "O Rei da Vela"
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RefúgioAlexandre Dal Farra

Construída como um thriller, a peça é uma espécie de anti-Godot. Em vez dos que esperam, como na peça de Samuel Becket, aqui há um grupo de pessoas reunido numa realidade indeterminada, e cada uma começa a ir embora sem explicação ou motivo aparente. Aos que ficam, em número cada vez mais reduzido, resta conjecturar sobre o que está havendo. Como é característico na dramaturgia de Alexandre Dal Farra, o texto sugere mais do que revela, em diálogos que apostam menos na causalidade do que no estranhamento e mesmo no incômodo. Desse modo, Refúgio acrescenta um capítulo na poética já reconhecida em trabalhos como Mateus, 10 e a trilogia Abnegação, ambos com o Tablado de Arruar.

O Rei da Vela, Hugo Possolo

Hugo Possolo decidiu reviver a crítica à burguesia nacional escrita em cores modernistas por Oswald de Andrade em 2014. Como no início na década de 1930, o país vivia as consequências internas de uma crise internacional, o que justificava o interesse em devolver Abelardo 1º aos palcos – desta vez, como um palhaço capaz de operar internamente a sátira do personagem, em linguagem dominada pelo grupo Parlapatões. O atraso da estreia se deveu à dificuldade na captação de recursos e à temporada comemorativa de 50 anos da montagem do Teatro Oficina em 2017. Pouco tributária da encenação de Zé Celso Martinez Correa, a direção de Possolo aposta na linguagem circense e introduz a figura de Oswald como um narrador, interpretado por Nando Bolognesi.

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O Terceiro Sinal, Ricardo Bittencourt

Baseado no Ensaio de Risco, em que o jornalista e dramaturgo Otavio Frias Filho narra a experiência de atuar – com apenas três ensaios – na montagem do Teatro Oficina para Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, a peça chegou a ser encenada em 2010, mas foi somente em 2018 que encontrou o seu espaço. Reformulado para o Oficina, onde se passa a ação do texto publicado no livro Queda Livre, a peça tem Bete Coelho dando corpo e voz a reflexões sobre o ofício de ator. Tendo cumprido temporada em abril e maio deste ano, o espetáculo acabou sendo uma homenagem antecipada ao diretor de redação da Folha de S. Paulo, que morreu em agosto aos 61 anos em decorrência de um câncer no pâncreas.

Traga-me a Cabeça de Lima Barreto, Fernanda Júlia

Dez anos após protagonizar a adaptação teatral de Triste Fim de Policarpo Quaresma, Hilton Cobra reencontra Lima Barreto em cena – agora, dando vida ao escritor carioca que desde 2017, quando foi o autor homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), vem experimentando renovado interesse por sua obra. No monólogo escrito por Luiz Marfuz e dirigido por Fernanda Júlia, a história de Lima Barreto começa pelo fim, quando médicos eugenistas tentam conduzir uma autópsia para entender como aquele homem de “raça inferior” poderia ser um gênio literário. Desse modo, a trajetória do escritor aparece de forma crítica, à luz do racismo estrutural brasileiro.

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