Livros, labirintos
Ilustração de "Kafkianas",
de Elvira Vigna

Por Almir de Freitas

Do ensaio à poesia, da biografia à ficção, os lançamentos de 2018 ajudam a dar uma resposta contra as trevas do presente, no caminho para a saída que tanto ansiamos

O escritor argentino Jorge Luis Borges bem sabia que livros  e labirintos têm muita coisa em comum além da possibilidade, eventual, de os primeiros forrarem os corredores dos segundos em uma abadia num país longínquo – se não inventado mesmo, com requintes de verossimilhança. Nos 30 livros aqui selecionados, fazendo um recorte possível da produção editorial brasileira em 2018, os caminhos se bifurcam em progressão geométrica: da poesia aos quadrinhos, do ensaio ao teatro, da biografia à literatura de ficção, essa é uma antologia que abre passagens para estreias literárias, edições póstumas, reedições atualizadas com afinco. E também para as histórias das vidas de quem os escreveu e dos próprios livros, com narrativas e tempos que se sobrepõem e se colam aos signos que percorrem cada página. No todo, atendem àquela ideia do contemporâneo como um tempo “saturado de agoras”, na expressão de Walter Benjamin, em que passado e presente se articulam na busca por uma resposta contra as trevas. Entre portas espelhadas, alçapões e passagens estreitas, tateamos entre violências e solidões, esperanças ou puro deleite. É dessa maneira que, acumulando a maior das riquezas pelo caminho, não perdemos de vista a saída que tanto ansiamos.




Foto: Ana Luisa Escorel

Antonio Candido 100 Anos, org. Maria Augusta Fonseca e Roberto Schwarz. Editora 34

Homenagem ao centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais brasileiros, que, sociólogo de formação, foi pioneiro na abordagem da crítica literária relacionada aos processos sociais. O volume traz ensaios de 36 intelectuais de várias áreas e gerações – nomes como os dos brasileiros Alfredo Bosi, Michael Löwy, Ismail Xavier, Iná Camargo Costa, Vilma Arêas, além de estrangeiros, como a tcheca Šárka Grauová e o chileno Grínor Rojo. Acompanham fac-símiles de dedicatórias de escritores a Antonio Candido e um inédito do próprio: Como e Porque Sou Crítico. Neste texto, sobre a infância, conta: "(...) eu era apaixonado por antologias escolares, brasileiras e estrangeiras, o que me levou a fazer em cadernos as minhas próprias (...) fazia um título caprichado e se possível colocava o retrato do autor, cortado de revistas e jornais, deixando em branco um certo número de páginas para cópia posterior."

A Biblioteca Elementar, Alberto Mussa. Record

Romance policial passado no Rio do século 18, tem a trama desencadeada por um crime cometido na hoje Rua da Carioca: dois homens se atracam e uma arma dispara. Testemunha, uma cigana que saía escondida do cemitério dos pretos, no Convento de Santo Antônio, acabará tendo suas próprias culpas envolvidas nessa história que encerra o chamado “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, formado por cinco romances – os demais são O Trono da Rainha Jinga (1999), O Senhor do Lado Esquerdo (2011), A Primeira História do Mundo (2014) e A Hipótese Humana (2017). Todos policiais, os livros ganham originalidade investigando a formação do imaginário formado pela combinação de tradições populares, indígenas e africanas no Rio de Janeiro do período colonial.

A Cidade Dorme, Luiz Ruffato. Companhia das Letras

O mundo da classe média operária ocupa o centro da cena nesta antologia de 20 contos urbanos, de forte apelo memorialístico. Em cidades grandes ou pequenas, estão lá o barro nas ruas, o futebol na várzea e no estádio aos domingos, a graxa nos uniformes, as crentes e os padres católicos... E também a sombra da ditadura militar, a violência contra mendigos e travestis, o tráfico de drogas, os pais alcoólatras. São narrativas escritas ao longo de duas décadas – o que explica a diversidade de estilos de cada um, remetendo ao trabalho de linguagem em livros que vão de Eles Eram Muito Cavalos (2001) a Inferno Provisório (2016). Entre os contos está O Repositor, escrito para a revista Bravo! em 2004.

"Siegfried quis falar alguma coisa engraçada, talvez elogiar brincalhão a rosa que ela trazia na orelha, as sobrancelhas riscadas e os cílios longos, mas descobriu que não havia riso de reserva." Raimundo Carrero, "Somos Pedras Que se Consomem "
Esboço de "Strictu" (1999)
Foto: Pat Kilgore

Cildo - Estudos, Espaços, org. Diego Matos e Guilherme Wisnik. Ubu

Caprichada, ricamente ilustrada e trilíngue (português, inglês e espanhol), a edição desvela a obra de um dos principais artistas visuais brasileiros em atividade, com obras como Desvio para o Vermelho (1967-1984), uma de suas mais conhecidas, destaque de Inhotim (MG). O catálogo de instalações sai de cena aqui por instante, para colocar em primeiro plano os esboços e estudos que mostram os processos de criação das obras – muitas deles inéditos em livro, resultado de uma pesquisa iconográfica tocada pelos organizadores e pela direção de arte. Completa o pacote 12 textos – alguns também inéditos – assinados por críticos como Lisette Lagnado, Ronaldo Brito e Sônia Salzstein, abarcando uma carreira de quase 50 anos.

Com Armas Sonolentas, Carola Saavedra. Companhia das Letras

A escritora, nascida no Chile e radicada desde criança no Rio de Janeiro, deixa de lado o realismo de seus romances anteriores para mergulhar no sueño – nas “sonolentas" armas do onírico e do fantástico. Subintitulada Um Romance de Formação, a narrativa perscruta afetos femininos – relação de mãe e filha, a maternidade – combinados aos respectivos desafetos – humilhação e violência –, na trajetória de três mulheres: Anna, uma aspirante a atriz que se casa com um cineasta alemão de olho em uma oportunidade, mas que se vê sozinha na pequena cidade de Mainz-Gonsenheim, desterrada em um país cujo idioma não domina; a melancólica Maike, uma jovem alemã que se interessa subitamente pelo Brasil e alimenta uma paixão por uma colega do curso de português; e uma menina de 14 anos que deixa Minas Gerais para trabalhar como doméstica no Rio. Em todas, o horizonte é a casa e o pertencimento – uma ideia de lar que é também o descoberta de suas verdadeiras identidades.

Condenados à Vida, Raimundo Carrero. CEPE

Volumosa, a edição concentra uma produção literária de três décadas do escritor pernambucano, reunindo os livros Maçã Agreste (1989), Somos Pedras Que se Consomem (1995), O Amor Não tem Bons Sentimentos (2007) e Tangolomango (2013). "Em um espaço de 18 anos, período que se iniciou há 29 anos", escreve o jornalista e crítico José Castello no Prefácio, "Carrero escreveu quatro narrativas espantosas, que se oferecem, agora, como um espelho devastador de nosso presente." Como num único romance épico, a tetralogia acompanha a família Cavalcante do Rego em sua trajetória vertiginoso em direção à ruína. Espécie de saga com ecos bíblicos, Carrero expõe a decadência de uma elite local com a potência simbólica do incesto e do assassínio.

Da Prosa, Hilda Hilst. Companhia das Letras

Um dos vários lançamentos da escritora homenageada pela Flip de 2018, a caixa com dois volumes traz toda a sua – tardia – produção ficcional. Já refugiada na sua Casa do Sol, em Campinas (SP), Hilda era dona de uma obra poética extensa quando, com 40 anos de idade, lançou Fluxo-Floema (1970), narrativa que abre a edição. Dez narrativas depois, atravessando a “obscenidade” aflorada nos ano 80, chegamos na dialógica Estar Sendo. Ter Sido (1997), em que uma das vozes diz: "não. sou ninguém não. sou apenas poeira. poeira que às vezes se levanta e remoinha e depois sobe e levita, procurando o Pai. sou apenas cadela-poeira, às vezes fareja o que não vê (...). Acompanham textos de Alcir Pécora, Carola Saavedra e Daniel Galera.

Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra sobre Ela, Ignácio de Loyola Brandão. Global

Mais de 40 depois de Zero (1974) e 30 de Não Verás País Nenhum (1981), o escritor volta ao romance distópico, encerrando uma espécie de trilogia sobre o futuro do Brasil. Se os dois primeiros tinham como referência a ditadura militar – o primeiro como um enfrentamento pelo experimentalismo, o segundo imaginando um prolongamento dela num século 21 de caos ambiental –, Desta Terra… avança para um tempo em todos são vigiados o tempo todo, num Brasil esgarçado pela política, sem educação nem cultura, inundado de partidos políticos inúteis. "Sobra um país que baila num vórtice caótico, e personagens que tentam se manter inteiras diante de um mundo colapsado, sem conseguir se apegar a nada, sem perspectiva", escreveu Guilherme Werneck, publisher da Bravo! (Leia mais aqui).

Devassos no Paraíso, João Silvério Trevisan. Objetiva

Publicado pela primeira vez em 1986, este vasto estudo sobre a homoafetividade no país ganhou, em sua quarta edição, uma reformulação quase completa: correções e atualizações de dados, informações inéditas e novos capítulos. No conjunto, traça um panorama ao mesmo tempo cultural e da vida cotidiana ao longo da história, sem perder de vista, claro, as inúmeras formas de perseguição e estigmatização dos gays – da Inquisição no Brasil Colônia à Aids nos anos 80, da tradicional homofobia das elites ao recrudescimento da intolerância. Entre as novidades estão pautas e os eventos do novo século – entre outros, a tentativa de censura às artes, a atuação da bancada evangélica, a agressão a Judith Butler no Brasil, a eleição de Donald Trump – todos aglutinados no extenso capítulo O Retorno do Deus Punitivo. (Leia mais aqui)

Dora Sem Véu, Ronaldo Correia de Brito. Alfaguara

Honra, família, tragédia. As mitologias primitivas do agreste sempre foram uma das marcas principais da obra do escritor e dramaturgo cearense, radicado em Recife, também médico de ofício. Autor de livros de contos como Faca (2003) e O Livro dos Homens (2008), Ronaldo se aventura aqui em seu terceiro romance. A narradora-protagonista é Francisca, uma socióloga sexagenária que embarca com o marido num caminhão de romeiros a caminho de Juazeiro. A busca é por Dora, a avó que nunca conheceu, cuja existência foi revelada pelo seu pai antes de morrer. Na paisagem, marcas de um passado de violência que resiste e se prolonga na modernidade. "Além dos arames farpados dos currais, as frentes de trabalho em troca de um prato de comida, sob vigilância cerrada para evitar as fugas."

"E outras vezes penso, Potente Implacável Senhor, que teria sido melhor não morrer e ficar fiando o destino das gentes e Agda-daninha às noites só cantando, que é verdade que sei melhor cantar do que morrer." Hilda Hilst, "Kadosh"

Enterre seus Mortos, Ana Paula Maia. Companhia das Letras

Na literatura pulp de Ana Paula Maia, Edgar Wilson já trabalhou como carvoeiro em um crematório (Carvão Animal) e em um abatedouro (De Gados e Homens). Agora, o trabalho sujo, perverso e excludente é o de recolher animais mortos nas estradas e levar as carcaças para um depósito, onde são triturados. Lá trabalha também Tomás, um padre excomungado que dá extrema-unção a quem agoniza pelos caminhos, em desastres de carro. Ao mesmo tempo natural e brutal, a tarefa – e a dualidade – ganha nova dimensão quando Edgar Wilson encontra cadáveres humanos, para os quais ninguém sabe que destino dar. Crueza de uma escritora absolutamente única na literatura brasileira, que levou o Prêmio São Paulo de Literatura este ano por Assim na Terra Como Embaixo da Terra. (Leia mais aqui)

A atriz em "Fedra" (1986). Foto: Silvio Pozatto

Fernanda Montenegro – Itinerário Fotobiográfico, Fernanda Montenegro. Sesc São Paulo

Organizado pela própria, o livro reúne 669 fotos em 500 páginas que contam a trajetória profissional da atriz, que em 2019 completará 90 anos de idade. Muitas das imagens são inéditas, pertencentes ao acervo pessoal de Fernanda, e trazem companhias de teatro e histórias de outros atores fundamentais do século 20, além de momentos marcantes da teledramaturgia, do cinema e – também – do rádio, onde ela começou. "Lá na rádio eu fiquei dez anos", conta. "Além de videoatriz, fui locutora e tive o programa Passeio Literário, que me proporcionou um convívio imenso com a literatura, com o valor das palavras." Os registros da vida pessoal se estendem à homenagem que faz ao companheiro de vida, Fernando Torres, que morreu em 2008.

História Concisa da Música Clássica Brasileira, Irineu Franco Perpetuo. Alameda

O título pede o complemento: fala-se aqui da “música impopular brasileira”, na expressão do próprio autor. É uma história que começa com a frota de Cabral, abarrotada de instrumentos, mas que emperra na mentalidade da elite colonial: diferente do México, por exemplo, não sobrou nenhuma partitura da América portuguesa antes do século 18. Um diagnóstico histórico e social que se vale de pensadores como Sérgio Buarque de Holanda para mostrar uma riqueza de estudos que, contudo, não conseguem fazer frente ao descaso, que subsiste. "Nossas orquestras sinfônicas e teatros de ópera parecem padecer de um bovarismo (ou vira-latismo, de acordo com o gosto do freguês) crônico, e se veem como instituições estrangeiras que, como que por acaso, estão radicadas no Brasil”, diz o autor (Leia mais aqui)

Jorge Amado – uma BiografiaJoselia Aguiar. Todavia

Curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) no biênio 2017-2018, a jornalista e escritora baiana foi tocando em paralelo o projeto de fazer a mais completa biografia do conterrâneo ilustre, autor de livros como Gabriela, Cravo e Canela (1958) e Jubiabá (1959), dois dos abre-alas de uma obra largamente adaptada para o cinema e a televisão e traduzida para centenas de idiomas. Para o trabalho, que resulta numa edição com igualmente, para o Brasil, maiúsculos 10 mil exemplares, Joselia contou com acesso exclusivo a documentos e cartas de parentes, amigos e escritores – um tour de force complementado com muitas horas de entrevistas e pesquisas, realizadas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.

Kafkianas, Elvira Vigna. Todavia

Póstumo, o livro reconta 20 contos do escritor Franz Kafka, em textos pequenos feitos de períodos curtos, telegráficos. O resultado é um admirável contraste entre as histórias perturbadoras do tcheco e uma dicção de fundo infanto-juvenil – fábulas do absurdo tornadas cômicas. Estão lá histórias como Na Frente da Porta, sobre um homem que passa a vida diante de um porta, impedido de conhecer a Lei, e de Um Médico do Interior: nesta, o doutor, que acabara de perder o cavalo morto de frio e precisa enfrentar uma nevasca para salvar um garoto, acha – do nada – uma parelha saudável no chiqueiro. “Chiqueiro?!”, escreve Elvira. "Kafka é assim mesmo, completamente kafkiano, você sabe. Não vou nem explicar”.

"A única coisa que, de fato, une o banqueiro ao mendigo, que os coloca no mesmo barco mental, é o valor social do dinheiro – essa é a nossa liga realmente indestrutível." Cristovão Tezza, "A Tirania do Amor"

Maria Bonita – Sexo, Violência e Mulheres no CangaçoAdriana Negreiros. Companhia das Letras

Seu nome era Maria Gomes de Oliveira, nascida na pequena Malhada da Caiçara, no interior da Bahia. Mas a menina sertaneja, chamada quando criança de "Maria de Déa", acabou passando para a história mesmo como Maria Bonita. A mitologia posterior que se formou sobre Lampião e seu bando agradeceu a alcunha, e a mulher do “Jaguar do Nordeste” ganhou ares de guerreira – uma espécie “Joana D’Arc da caatinga”, a primeira cangaceira do Brasil. Neste biografia, escrita com uma perspectiva feminina, Adriana Negreiros desfaz este e outros mitos propagados pelos cordéis ou pela indústria cultural, especialmente aquele de que havia igualdade de sexos entre os bandoleiros, revelando histórias de abuso e dominação entre os “rebeldes primitivos”, na expressão do historiador inglês Eric Hobsbawm.

Gravura de Joan Miró para o livro de João Cabral de Melo Neto

Miró, João Cabral de Mello Neto. Verso Brasil

Quando João Cabral ingressou na carreira diplomática, em 1947, foi nomeado vice-cônsul em Barcelona, na Espanha, onde sua imaginação criou pontes entre as paisagens e as vidas severinas da Catalunha-Andaluzia e as de Recife e do sertão brasileiro. E nos três anos em que lá permaneceu, descobriu, apesar de o país viver sob a repressão do general Francisco Franco, um ambiente artístico e intelectual rico, e fez amigos como Joan Miró. A amizade resultaria em um ensaio sobre o artista catalão, que, acompanhado de gravuras exclusivas do próprio, foi publicado em 1950 pela Edições de l’Oc de Barcelona. É justamente esse o livro que chega pela primeira vez ao Brasil, quase 70 anos depois. No texto, João defende a ideia de que Miró abole o ponto de fuga a fim de romper com a ordem estática da tela, em busca de uma "terceira dimensão imaginária."

Nenhum Mistério, Paulo Henriques Brito. Companhia das Letras

Demorou seis anos para que o professor, tradutor e escritor carioca lançasse seu sétimo livro de poesia – o último havia sido Formas do Nada (2012). No todo, é uma obra que se vale das formas fixas – métricas, em vez do verso livre. Aqui, prescrutando os sentimentos de “angústia, frustração, impotência”. Como nos decassílabos “Os deuses do acaso dão, a quem nada/ lhes pediu, o que um dia levam embora;/ e se não foi pedida a coisa dada/ não cabe se queixar da perda agora./ Mas não ter tido nunca nada não/ seria bem melhor – ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão/ completa era o capítulo final, a anestesia valeria o preço?”, do soneto Nenhuma Arte, publicado antes no jornal O Globo, em 2013.

O Nervo do Poema – Antologia para Orides Fontela, org. Patrícia Lavelle e Paulo Henriques Britto. Relicário

Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Orides de Lourdes Teixeira Fontela (1940-1998) teve uma vida difícil – tanto quanto, dizem, o seu temperamento. A biografia explica a produção de apenas cinco livros em 30 anos, entre 1969 (Transposição, organizado por Davi Arrigucci Jr.) e 1996 (Teia, prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes). Em meio a imensas dificuldades financeiras, crises de depressão e brigas feias com amigos, Orides evitava o confessionalismo em versos límpidos e luminosos, precisos e complexos na decifração. É esse o legado que inspira esta edição, em que mais de 20 poetas contemporâneos – entre eles Ana Martins Marques, Marcos Siscar e Ricardo Aleixo – escrevem poemas seguindo a trilha de Orides.

Nova História do Cinema Brasileiro, org. Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman. Sesc SP

São mais de mil páginas, divididas em dois volumes ocupados por textos de 23 especialistas, com a ambição de contar a mais completa história do cinema brasileiro – dos primeiros filmes mudos a um panorama da cinematografia nacional contemporânea, até 2016. Pelo caminho (com um olho também nas obras locais e independentes) não faltam os capítulos obrigatórios: as chanchadas, as produções da Vera Cruz, o cinema de propaganda do Estado Novo, o Cinema Novo, o Cinema Marginal, a pornochanchada, os desvãos da Embrafilme e seu fim. Além de agregar estudos e análises sobre a produção mais contemporânea, de ficção ou documental, as análises se valem de um instrumental teórico mais afinado com estudos recentes.

Nuvens, Hilda Machado. Editora 34

Em vida, Hilda Machado (1951-2007) passou quase anônima pela poesia – apenas dois poemas publicados na revista Inimigo Rumor, em versos cometidos por uma cineasta, professora e pesquisadora de cinema da Universidade Federal Fluminense. Foi o organizador da edição, Ricardo Domeneck, quem encontrou este livro, datado de 1997, registrado na Biblioteca Nacional à espera da publicação. Somados a outros quatro textos esparsos, os versos revelam uma poesia musical e ao mesmo tempo coloquial, concisa e visual. Em versos como: "(...) os joelhos ainda esfolados/ lambendo os dedos/ procuro por compressas frias/ oh céu brilhante do exílio/ que terra/ que tribo/ produziu o teatrinho Troll colado à minha boca/ onde é que fica essa tomada/ onde desliga."

Pequena Música, Adriana Lisboa. Iluminuras​

Depois de dialogar com a pintura e a música nos romances Sinfonia em Branco (2001) e com o jazz em Hanói (2013), a escritora carioca retoma o protagonismo do som em sua obra poética. Aqui, trata-se da música que, à maneira de John Cage, não ignora o ruído e o silêncio – a harmonia possível para um universo complexo na simplicidade, povoado de elementos do cotidiano, sonhos e referências livrescas. E a Cage: “No lugar mais silencioso do mundo/ ruge-ruge o ruído da vida/ o homem é feito de sangue e neurônios/ que cantam sua própria música/ sem partitura ou I Ching/ o silêncio não existe:/ forma é vazio/ vazio é forma/ e tudo isso cabe no intervalo/ de quatro minutos e trinta/e três/ segundos.”

Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, Djamila Ribeiro. Companhia das Letras​

Obra que se tornou de maneira quase instantânea referência para o movimento feminista negro. Parte do livro reúne textos publicados no blog da revista Carta Capital entre 2014 e 2017 – sobre temas como cotas, blackface, discriminação e, também, sobre os sinais que revelam o racismo estrutural no Brasil. Mas a grande força do livro está na Introdução, A Máscara do Silêncio, feito como um longo ensaio autobiográfico, em que a autora relembra a violência da discriminação sofrida na infância e adolescência vivida na cidade de Santos, em São Paulo. Em especial, do processo de apagamento da própria identidade diante de episódios de bullying e da sensação permanente de inadequação. (Leia mais aqui)

Sebastopol, Emilio Fraia. Alfaguara

Autor de Verão de Chibo (com Vanessa Barbara) e da HQ Campo em Branco (com DW Ribatski), o escritor paulistano faz sua estreia solo com três contos conectados: sobre uma alpinista brasileira que sofre um acidente grave no Everest e procura reconstruir/ desconstruir a sua história pontuada, por registros em vídeo alheios; o dono de uma pousada no Centro-Oeste às voltas com o mistério de um homem desaparecido; e um velho diretor de teatro que, auxiliado por uma jovem, tenta sua última cartada com um peça sobre o pintor Bogdan Trúnov, da cidade russa que dá nome ao livro. Entre personagens e cenários distintos, costura-se uma narrativa feita de traumas e tragédias, em que memória e destino não se dissociam.

"Já tava dado que o dia ia ser daqueles que tu anda na rua e vê o céu todo embaçado, tudo se mexendo que nem alucinação. Pra tu ter uma ideia, até o vento que vinha do ventilador era quente, que nem o bafo do capeta." Geovani Martins, "O Sol na Cabeça"

O Sol da Cabeça, Geovani Martins. Companhia das Letras

Geovani, que nasceu em Bangu e já morou no Vidigal, Rocinha e Barreira do Vasco, apresenta, em 13 contos, sua apreensão literária de uma realidade em que os anos leves de infância e das aspirações adolescentes se alternam com a violência do tráfico ou da polícia – um deslocamento do realismo comum dos dramas da classe média urbana para as favelas cariocas. Na linguagem, a oralidade coloquial do morro empresta ao mesmo tempo vigor e familiaridade a esse realismo que se afasta dos umbigos em geral. "Não era para estar ali. De repente, tudo se confundia: tomava cerveja, sentia saudade, orgulho, vontade. Um moleque brotou com tinta, uns papos de escolta, a bola de metal dançando na lata, o cheiro forte de adrenalina.", escreve na abertura de O Rabisco.

"Bom Retiro, 958 Metros". Foto: Flavio Portella

Teatro da Vertigem, org. Silvia Fernandes. Cobogó

Edição comemorativa dos 25 anos da companhia de teatro paulista, que se destacou pela encenação de peças em espaços não-convencionais – um recurso de imersão que transforma toda a experiência sensorial do espectador. As 115 fotos ilustram essa trajetória, em que o palco migrou para igreja presbiteriana (O Paraíso Perdido, 1992), hospital (Livro de Jó, 1995), presídio (Apocalipse 1,11, 2000), rio Tietê (BR-3, 2006), edifício na avenida Paulista (Kastelo, 2009) e bairro de São Paulo (Bom Retiro, 958 Metros, 2012). Nomes como Antônio Araújo, Lilia Schwarcz, Ismail Xavier e Sérgio de Carvalho assinam textos críticos e analíticos, reiterando a pluralidade colaborativa que sempre foi alicerce da companhia. (Leia mais aqui)

A Tirania do Amor, Cristovão Tezza. Todavia

Parado no semáforo dentro do seu carro, o economista Otavio Espinhosa, já além do meio caminho da vida, toma uma decisão radical: vai abdicar de fazer sexo. "A ideia bateu opaca, sem ênfase, quase já um fato consumado à frente, como o brilho fixo do semáforo de pedestres, bonequinho imóvel: abdicar. A “libertação” do mundo caótico dos afetos planejada e experimentada traduz uma crise geral – do casamento exaurido, do emprego ameaçado, do filho contestador e da carreira acadêmica chegando ao fim de maneira humilhante. Por trás de tudo, a falência de um país corrompido financeira e moralmente, ilustrada pela investigação de um escândalo na empresa de investimentos onde Espinhosa trabalha. História dura na prosa sempre elegante de Tezza. (Leia mais aqui)

Todas as Crônicas, Clarice Lispector. Org. Pedro Karp Vasquez. Rocco

No tempo em que fake news eram inofensivas, Clarice era a rainha das citações fajutas nas redes sociais. Boa parte delas era pretensamente parte das crônicas da escritora ucraniana. O trigo separado do joio – resultado de ampla pesquisa feita por Larissa Vaz – está nesta edição, que reúne pela primeira vez os textos escritos para jornais e revistas – destes, 124 antes inéditos em livro. A primeira parte traz os publicados no lendário Caderno B do Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Em uma delas – bem à sua maneira –, anota: “Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica nenhuma. Isto é apenas. Não entre em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério” (Máquina Escrevendo, 1971). A segunda parte é formada por textos escritos para outros veículos, e a terceira reúne esparsos do livro Não Esquecer.

Todos os Santos, Marcello Quintanilha. Veneta

Capa dura, de luxo, o álbum-portfólio traz os primeiros trabalhos do ilustrador e quadrinista de Niterói – cidade onde ele, aos 16 anos, tomou um ônibus para o Rio de Janeiro e arrumou o primeiro emprego, na editora Bloch, desenhando roteiros de artes marciais e terror. A atual edição traz, por exemplo, a pequena Acomodados!! Acomodados!! (1991), premiada na 1ª Bienal Internacional de Histórias em Quadrinhos do Rio, mas nunca antes publicada; sua estreia solo, Fealdade de Fabiano Gorila (1999), uma homenagem ao pai, jogador de futebol; HQs mais recentes que só saíram no exterior, inéditas no Brasil; e também ilustrações e tiras produzidas para a imprensa – veículos como O Estado de S.Paulo, Trip, Vanguardia, El País, ArtReview e Bravo! (Leia mais aqui)

Tudo Pode ser Roubado, Giovanna Madalosso. Todavia

No submundo circundante de São Paulo, uma garçonete de um bar (em tudo semelhante ao Spot, na avenida Paulista) se vale da sua beleza e juventude para seduzir clientes na noite paulistana. Não se trata apenas de sexo: uma vez nas casas das vítimas, a trambiqueira comete pequenos furtos na calada da noite – roupas e acessórios caros, especialmente, que ela vende em um brechó chique tocado pela trans Tiana. O thriller insólito, estruturado com maestria na estreia da escritora no romance, começa quando Biel – um malandro de manual, com chapéu e tudo – a procura com uma encomenda muito diferente: roubar uma primeira edição de O Guarani, de José de Alencar, publicado em 1857, em troca de uma bolada. O alvo e um tímido professor universitário, que não vai facilitar em nada a tarefa.