Dança, duelo
"Fisiologia do Desespero",
de Eva Schul. Foto: Edu Rabin

Andrei Reina e Paula Carvalho

Nos palcos, o protagonismo do corpo, político como nunca, suspendeu as fronteiras de grupos, nações e linguagens em 2018

“Meu corpo é político” é uma dessas frases que, nos anos recentes, passaram a estampar camisetas e colorir muros das grandes cidades do Brasil. A ideia não é nova — ecoa, para ficar em um exemplo, o famoso pôster feito por Barbara Kruger em 1989, Your Body Is a Battleground — mas tomou de assalto as ruas e também os palcos, onde se testemunha uma produção coreográfica estimulada por esse contexto de protagonismo do corpo. A dança brasileira produzida em 2018 refletiu isso em diversos âmbitos, do particular ao global, e na relação entre eles. Essa abrangência convoca novos atores à cena, que comporta hoje desde ex-secundaristas, organizados em transformar a experiência das ocupações de escolas em dança, aos bailarinos profissionais da São Paulo Companhia de Dança, que interessaram à coreógrafa francesa Joëlle Bouvier para uma criação inspirada pela crise dos refugiados. As fronteiras estão cada vez mais suspensas também na linguagem, como quer a arte contemporânea, com a aproximação constante da dança com o teatro e a performance — além, é claro, da música, que teve, como trilha sonora para a safra deste ano de Igor Stravinsky a Gilberto Gil.


Foto: Karin Serafin

Anátema 01 e Anátema 02, Grupo Cena 11 Cia. de Dança

Pesquisa com ruídos, barulhos de taças, cadeiras, voz: os espetáculos dirigidos por Alejandro Ahmed apresentam corpos isolados, quase sem conexão rítmica ou coreográfica, mas que vivem um ambiente comum de distopia, expostos a luzes e sons. Inspirados por uma ideia foucaultiana de controle dos corpos, elementos como o olhar são fundamentais em cena, para controlar, também, o público. O Cena 11 é um grupo de Florianópolis, surgido em 1994, e já fez trabalhos como O Novo Cangaço (1996) e Skinnerbox (2005). Em 2007, com Pequenas Frestas de Ficção Sobre Realidade Insistente, a companhia de Ahmed venceu o Prêmio Bravo! de Dança.

Foto: Raul Zito

Anonimato, Cia. Treme Terra

A partir de uma imersão na música e na cultura afro-brasileira, Anonimato, da Cia. Treme Terra, criada em São Paulo, faz uma homenagem a personagens invisibilizados da história do país. Elementos da cultura iorubá, do banto e da mitologia dos orixás são mobilizados, acompanhando situações de violência e exclusão vividas pela população negra ainda hoje. Com direção-geral e musical de João Nascimento e direção coreográfica de Firmino Pitanga, o espetáculo foi concebido em conjunto com os dançarinos, que conversaram com figuras importantes de sua comunidade para inspirar os personagens cênicos. A coreografia é embalada por banda com forte percussão (também construída com os dançarinos) e projeções.

Ato Infinito, iN SAiO Cia. de Arte

Colapso, desmoronamento e risco foram algumas das palavras utilizadas pela iN SAiO Cia. De Arte nos textos de divulgação de Ato Infinito para descrever o espaço em que os bailarinos Carolina Canteli, Cristina Ávila, Everton Ferreira, Luiza Alves, Marina Matheus e Natália Franciscone se movem. No espetáculo concebido e dirigido por Claudia Palma, a solução diante da ruína é depositada na ação em conjunto, o que toma forma em cena com dançarinos agarrando uns ao outros, aos gritos e mordidas, em uma tentativa exausta de sobreviver.

Foto: Claudio Higa
Foto: Alex Merino

Balada da Virgem — Em Nome de Deus, Sandro Borelli

Além de conceber, coreografar e dirigir Balada da Virgem, Sandro Borelli dança, marcando o retorno do bailarino aos palcos após dez anos. No solo, o artista da Cia. Carne Agonizante se inspira na figura de Joana D’Arc, em cuja trajetória busca elementos como o ímpeto revolucionário e o fervor religioso para a construção de um corpo que materializa as contradições presentes na personagem histórica que, após ser queimada na fogueira por heresia, foi canonizada pela Igreja Católica e se tornou símbolo nacional francês.

Concreto, Ale Kalaf

Inspirada pelo livro Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense, de Georges Perec, a coreógrafa paulistana Ale Kalaf tentou emular a experiência do escritor francês numa vivência de flâneur em pontos de São Paulo. O resultado, um conjunto de registros de ações cotidianas, está em Concreto, experiência sobre a capital paulista com trilha sonora do violão flamenco de Jony Gonçalves. A proposta de um flamenco urbano, mais moderno, está no cerne das pesquisas da coreógrafa. Em vez dos movimentos tradicionais, gestos menos teatrais, mais naturais, ao estilo espanhol. O contraste entre os vestidos do flamenco, roupas mais informais e luzes de celulares também dão ao gênero contornos mais contemporâneos.

Foto: Paulo Barbuto
Foto: Bruno Padilha

Dança Para Camille, Cia. Fragmento de Dança

Em Corpos Frágeis, espetáculo concebido em 2010, a Cia. Fragmento de Dança investigou, com sete bailarinos em cena, a potência criativa do feminino por meio da vida e obra de artistas como Frida Kahlo e Virginia Woolf. Dança Para Camille é um desdobramento dessa pesquisa, agora formalizada pela coreógrafa e diretora Vanessa Macedo em um dueto concentrado na trajetória de Camille Claudel, escultora francesa que teve o reconhecimento de seu talento adiado por ser parceira de Auguste Rodin. Em cena, as intérpretes Daniela Moraes e Maitê Molnar estão sós, ao mesmo tempo que são o duplo uma da outra, como num jogo de luz e sombra.

Desert Dweller, Projeto Mov_Ola

O coreógrafo paulista Alex Soares estreou no Brasil, neste ano, o espetáculo que havia apresentado com a Hubbard Street 2 em 2014, vencendo prêmio da National Choreography Competition, em Chicago. Inspirado em peça experimental da violoncelista e compositora Julia Kent, o trabalho reflete sobre o sentimento de estar sozinho. O Projeto Mov_Ola, liderado por Soares, completou dez anos em 2018 e tem se destacado no cenário da dança contemporânea pelo uso de outras linguagens (vídeo, celulares, mídias digitais) na proposta coreográfica.

Foto: Clarissa Lambert
Foto: Henrique Chendes

Em Algum Lugar de Mundo, Cia. Sesc de Dança

Com direção de uma das mais experientes coreógrafas mineiras, Dudude Herrmann, a Cia. Sesc de Dança concebeu uma apresentação para ser encenada em espaços públicos. Em Algum Lugar de Mundo tem seis dançarinos, sujeitos a todo tipo de dinâmicas urbanas (sons da cidade, buzinas, quaisquer tipo de público), num espetáculo com o mínimo de elementos de palco, pensado para praças e a rua. Jovem, a Cia. Sesc de Dança foi formada em Belo Horizonte em 2013, mesclando elementos do clássico e do contemporâneo. Já apresentou obras de coreógrafos como Alex Soares, Manoel Francisco, Allan Falieri, Joelma Barros e Cassi Abranches. Priscila Fiorini comanda a coordenação artística do grupo.

Em Comum, Cia. dos Homens

Para celebrar os 30 anos da companhia recifense, a atual diretora Cláudia São Bento convidou Airton Tenório, um dos fundadores do grupo, Cláudio Lacerda, ex-dançarino, e Isabel Ferreira, no elenco desde 2008, para montar coreografias que se relacionam com bonecos, mote da Cia. dos Homens desde 2009. Em roteiro à la Pinocchio, o espetáculo parte da descoberta dos movimentos de bonecos até chegar à dança contemporânea. Reflete sobre gestos, corpo, e também manipulação e representação.

Foto: Lu Morais
Foto: Letícia dos Passos

Estado de Luta, Cia. Balé Baião

São 11 os bailarinos da Cia. Balé Baião em Estado de Luta, todos vestidos de vermelho. “Mobilizada pelo desejo de retomada dos nossos direitos”, como afirma o texto de apresentação da companhia fundada há mais de 20 anos em Itapipoca, no norte do Ceará. O novo trabalho se constitui como uma resposta ao cenário político atual. “As emergências dos contextos de golpe”, continua o manifesto do grupo dirigido por Gerson Moreno, “nos pedem um parecer estético, uma resposta engajada na cena, na dramaturgia e no palco”. Em cena, há referências a religiões de matrizes africanas e indígenas, que na trilha alinhavada por Beatmaker DaSilva, misturam-se com ritmos populares, como o funk, e discursos políticos.




Foto: Edu Rabin

Fisiologia do Desespero, Eva Schul

Criado a partir dos primeiros estudos sobre corpos de bailarinos, do século 16 (quando os aproximavam da musculatura de cavalos), o espetáculo Fisiologia do Desespero, só com mulheres, mostra a força, o vigor e a agilidade do corpo das bailarinas. A diretora gaúcha Eva Schul propõe, com o mote do espetáculo, um feminino para além da ideia da fragilidade e dos moldes sociais. Veterana na dança, com trabalhos na área desde a década de 1970, Schul tem coreografias renomadas como Hall of MirrorReflexos e Catch ou Como Segurar um Instante. Ela também é diretora do Grupo Ânima.

Geleia Geral, Crütz Cia. de Dança

Em seu terceiro espetáculo, a companhia carioca especializada na junção de dança urbana com música popular brasileira mergulha na Tropicália. Canções de Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros compositores vinculados ao movimento, fornecem a trilha sonora para a viagem de uma trupe de artistas. A cada cidade, um novo membro se soma ao grupo, composto ao fim por nove dançarinos que se movimentam contra uma cortina de 120 mil fitas do Senhor do Bonfim, concebida pelo cenógrafa Clívia Cohen. A direção e a coreografia são assinadas pela dupla Lucas Sauer e Ricardo Lima.

Foto: Madu Rodrigues
Foto: Micaela Wernicke

Hidebehind, Josefa Pereira

“Por possuir a incrível habilidade de estar sempre escondido atrás daquele que ousa caminhar por estes bosques ou mesmo atrás dos mais finos troncos de árvores, misteriosamente provoca o desaparecimento para sempre daqueles que consegue capturar.” A descrição do Hidebehind é incluída no programa do espetáculo solo da coreógrafa e bailarina Josefa Pereira, inspirado na criatura noturna do folclore norte-americano. Pintada de rosa, ela borra, por seu movimento, fronteiras estabelecidas do corpo (frente e trás), da narrativa (realidade e ficção) e da natureza (humano e inumano). Hidebehind é a primeira parte da trilogia Bestiário Pink.



In(in)terrupto, Cia. Híbrida de Dança

Sequência de Non Stop, trabalho de 2015 que mescla dança urbana e contemporânea, In(in) terrupto é inspirado pela ideia de "sociedade do cansaço", termo do filósofo Byung-Chul, da Coreia do Sul. Fala da pressão por produtividade na sociedade, do cansaço e do próprio corpo como uma mercadoria na nossa sociedade. Segundo o autor, desenvolvendo ideias de Michel Foucault, os instrumentos de controle estão internalizados na forma como o nosso corpo se situa no mundo. A nova coreografia do grupo carioca, dirigido por Renato Cruz, reflete sobre esse cansaço com a participação de integrantes da companhia colombiana D.A.D.

Foto: Renato Mangolin
Foto: Chris Von Ameln

Indireto Livre, Mais + Companhia

“Somos 13 animais nos conscientizando de nossas peles.” É com essas palavras que o elenco da Mais + Companhia apresenta Indireto Livre, espetáculo fincado na tese de que há método na loucura, no caos e, sobretudo, na liberdade, almejada pelas onze mulheres e pelos dois homens em cena. A obra, que combina dança e teatro, é um desdobramento de Ápice, último trabalho da companhia, que tratava das censuras internas dos intérpretes. O passo seguinte, com Indireto Livre, foi abordar as censuras externas.

Keta, Focus Cia. de Dança

Terceira parte da trilogia batizada Still Reich, Keta é a coreografia inedita encenada pela Focus Cia. de Dança em 2018, ao lado de Pathways, de 2008, e Trilhas, de 2010. Com 18 anos de história, a companhia do carioca Alex Neoral passou por uma renovação importante nos últimos tempos, com a substituição de diversos dançarinos. O espetáculo, que homenageia o compositor minimalista americano Steve Reich, inspira-se em Drummming, peça que criou em 1971 após uma viagem a Gana. Depois de uma série de apresentações homenageando artistas populares como Chico Buarque e Candido Portinari (em Saudade de Mim) ou Roberto Carlos (As Canções Que Você Dançou Pra Mim), a companhia de Neoral volta a um trabalho mais abstrato.

Foto: Paula Kossatz
Foto: Debby-Gram

Monstra, Elisabete Finger e Manuela Eichner

A proposta inicial da coreografia-colagem da curitibana Elisabete Finger e da gaúcha Manuela Eichner é contar a história de uma samambaia. No entanto, o espetáculo parte do mote da relação entre homem (ou, melhor dizendo, mulher, já que são elas que compõem a maior parte do espetáculo) e natureza para transcendê-lo numa perspectiva daimônica, como escreveu Renato Gonçalves em sua crítica ao espetáculo para a Bravo!. Plantas, corpos, xixi, terra e suor são alguns dos elementos em cena. Na performance, citam diversos quadros (como A Primavera, de Sandro Botticelli), recuperando a forma como as mulheres foram retratadas na história, com um sentido de pudor e pecado. O que as diretoras vislumbram é a superação das perspectivas moralistas em busca do reencontro com o verdadeiro sentido do feminino. (Leia mais aqui)

Não Tive Tempo Para Ter Medo, Cia. Carne Agonizante

Estreia de 2018 da engajada Cia. Carne Agonizante, dirigida por Sandro Borelli, Não Tive Tempo Para Ter Medo é uma coreografia que explora a trajetória do líder comunista Carlos Marighella. Com três dançarinos (Alex Merino, Mainá Santana e Rafael Carrion), o espetáculo tensiona a vida do líder do MR-8 trazendo para a cena também a lembrança de sua companheira, Clara Charf. De São Paulo, a Cia. Carne Agonizante completou 20 anos, em 2018, e é conhecida por suas encenações políticas – como a de Colônia Penal, que relacionava Franz Kafka e ditadura militar, ou O Canto Preso, adaptação de Martin Sherman sobre um homem preso num campo de concentração por ser homossexual. Na representação de Marighella, explora também, na dança, o vigor físico do militante, sua agilidade e capacidade de resistir.

Foto: Lucas Mello
Foto: Clarissa Lambert

Odisseia, São Paulo Companhia de Dança

Inspirada pelos novos fluxos migratórios de hoje, mas mais interessada em temas universais ligados à figura do viajante, a coreógrafa francesa Joëlle Bouvier concebeu esta Odisseia após o convite de Inês Bogéa, diretora da São Paulo Companhia de Dança, para criar uma obra com música de Heitor Villa-Lobos. Bouvier pensou, então, em fazer nova viagem, desta vez musical, ao combinar trechos das Bachianas Brasileiras com Paixão Segundo São Mateus do barroco que inspirou Villa-Lobos, Johann Sebastian Bach. Odisseia estreou na temporada de dança do Teatro Alfa em programa triplo, com Melhor Único Dia, de Henrique Rodovalho, e 14’20’’, de Jirí Kylián.

Foto: Silvia Machado

Olhares dos Sapatos, Cia. Dança sem Fronteiras

No novo trabalho do projeto Dança sem Fronteiras, que desde 2010 reúne bailarinos com e sem deficiência em cena, o que está em jogo é a representação e o reconhecimento das diversas formas como se mover no mundo, de acordo com o corpo específico de cada um. Para a coreografia, a também bailarina e diretora Fernanda Amaral aposta em um procedimento lúdico, segundo o qual sapatos e meios de locomoção, como andadores, são os verdadeiros personagens, pelos quais os bailarinos apresentam suas particularidades.

Orquestra, Studio3 Cia. de Dança

​Num espetáculo mais narrativo, a Studio3 Cia. de Dança, companhia paulistana dirigida por Anselmo Zolla, mergulha na trajetória de Heitor Villa-Lobos. O espetáculo inclui cantos e elementos coloridos em meio a citações de elementos biográficos do músico, considerado um de nossos principais compositores. O objetivo, segundo a companhia, era levar ao espetáculo não só a música de Villa-Lobos, mas também sua figura humana – por vezes insegura e frágil – capaz de revolucionar a música brasileira ao trazer para a orquestra diversos elementos da cultura caipira, indígena e afrobrasileira. O espetáculo tem direção musical de Felipe Venancio e teatral de José Possi Neto.

Foto: Renan Livi
Foto: Bruno Vinelli

PlaylistA, Movasse Coletivo de Criação em Dança

O espetáculo Playlist, lançado em 2015 pelo coletivo de Belo Horizonte, era em grande medida construído pelo público, responsável por selecionar a trilha sonora e sugerir movimentos aos bailarinos, que respondiam aos estímulos sem ensaio prévio. Em 2018, o projeto baseado no improviso ganhou artigo feminino e somente bailarinas em cena. Agora, elas também definem regras, escolhem músicas e dançam conforme a sua vontade, em um exercício de liberdade marcadamente feminista.

Presente! Feito da Gente, Balangandança Cia.

​Criada em 1997, a Balangandança faz muito mais do que espetáculos infantis. Com o objetivo de aproximar as crianças da dança contemporânea, o grupo fundado e dirigido por Geórgia Lengos busca formas menos comerciais na sua produção. Em Presente! Feito da Gente, folhas secas, galhos, grãos de areia e sementes são os disparadores de cenas em que improviso coreográfico e brincadeira se confundem para refletir a relação dos homens (pequenos e grandes) com a natureza.



Foto: Jose Romero
Foto: Mayra Azzi

Quando Quebra Queima, ColetivA Ocupação

​Criado por um grupo de alunos que fez parte das ocupações de escolas secundaristas em São Paulo entre 2015 e 2016, Quando Quebra Queima é uma reflexão a partir dos corpos sobre a experiência de resistência ao fechamento de mais de 200 colégios paulistas pelo governo Geraldo Alckmin. Usando funk (muitas vezes sem os batidões tradicionais), rap, jogral e cadeiras, os ex e atuais secundaristas rememoram o sentimento de revolução que havia no movimento das escolas. O espetáculo foi concebido em conjunto pela ColetivA Ocupação e dirigido por Martha Kiss Perrone. A ideia de tornar a experiência das ocupações uma apresentação de dança ganhou força em 2017, quando passaram a ensaiar todos os domingos na Casa do Povo. Foi também lá que Quando Quebra Queima estreou, em maio.​

Rosario, Márcio Cunha

​Fechando uma trilogia sobre artes visuais que levou ao palco coreografias sobre Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat, o carioca Márcio Cunha fez uma imersão na Colônia Juliano Moreira para conceber o espetáculo que homenageia Arthur Bispo do Rosário. Durante a residência, teve como principal interlocutor Arlindo, ex-interno, artista, que conheceu Rosário. No palco, a trilha sonora de Antonio Nóbrega embala a narrativa e costura a trajetória do artista sergipano com elementos nordestinos. O cenário tem obras de Arlindo e do próprio Cunha, também artista visual, em parceria com Silvia Araujo.


Foto: Marcella Azal
Foto: Fernanda Stig

A Sagração da Primavera, Balé da Cidade de São Paulo

Na primeira vez que caem sobre o palco, as pétalas de rosas causam deslumbre. À medida que o espetáculo avança, porém, mais pétalas são arremessadas contra os bailarinos, configurando um obstáculo físico para a ação deles. No casamento da coreografia de Ismael Ivo, atual diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo, com a cenografia de Marcel Kaskeline há uma correspondência com a música de Igor Stravinsky, que começa na introdução sedutora de Adoração da Terra e desemboca na dissonante Dança do Sacrifício. A nova montagem, que marcou os 50 anos do Balé da Cidade, alude à crise ambiental também no prólogo, baseado em peças de música concreta com sons de fogo e gelo, compostas por Andreas Bick.

SETe, Gentlemen de Rua

Vestidos de ternos pretos, os sete homens reunidos têm o corpo rígido até que o toque entre eles redimensiona as articulações e, com elas, o fardo da masculinidade em sua manifestação física. A coreografia concebida por Jorge Garcia, Willy Helm e Osmar Zampieri representa um desenvolvimento da linguagem do grupo Grua (Gentlemen de Rua), que circulou por 15 anos com Corpo de Passagem, trabalho baseado no improviso. Como a obra anterior, SETe é apresentada ao ar livre, tendo ocupado marcos da cidade de São Paulo, como praça Ramos e a avenida Paulista. O processo criativo teve aportes dramatúrgicos do cineasta Heitor Dhalia, que prepara um filme sobre a performance.

Foto: Divulgação
Foto: Lau Gaioto

Subterrâneo, Gumboot Dance Brasil

A Gumboot Dance Brasil é uma das poucas a estudar a gumboot dance, estilo criado por mineiros na África do Sul. Ao conhecer o gênero por intermédio do grupo Kova Brothers, o diretor Rubens Oliveira foi ao país estudar a coreografia. Surgida no século 19, a dança com botas de borracha servia como um meio de comunicação entre trabalhadores, que tinham diversas etnias. Na coreografia que estreou em 2018, dirigida por Rubens Oliveira, o uso das botas, além de representar os mineiros, é elemento percussivo e de marcação de tempo entre os dançarinos. Subterrâneo, no título, diz respeito não só ao trabalho nas minas, como à relação de marcas e memórias presente nos corpos negros e periféricos, no passado e no presente. A direção musical é de Oliveira e Lenna Bahule.

Tamanho Único, Balé Teatro Castro Alves

Produzido de forma coletiva, o espetáculo é uma reunião de solos com tema livre, criados previamente pelos integrantes do Balé Teatro Castro Alves e por convidados estrangeiros, como o pesquisador argentino Leo Serrano e o coreógrafo brasileiro radicado nos Estados Unidos Augusto Soledade. Companhia pública de dança da Bahia fundada em 1981, o BTCA possui um Núcleo de Pesquisa e Assessoria Artística que, com os bailarinos, desenvolveu o conceito de obra coreográfica que norteia Tamanho Único. Segundo os próprios artistas, trata-se da “possibilidade de construir, a partir da relação com a plateia, um espetáculo único a cada apresentação”.

Foto: Fabio Bouzas
Foto: Alicia Peres

Tríptico Sertanejo, Dual Cena Contemporânea

Com dramaturgia de Luís Alberto de Abreu, a nova coreografia da Dual Cena Contemporânea mergulha em uma compreensão expandida do sertão brasileiro, que abrange desde o semiárido nordestino até os pampas gaúchos. Como sugerido no título, o espetáculo é dividido em três partes, que abordam a cultura e a história sertanejas: Maria e Dadá, sobre lendas femininas do cangaço; a devastação que se seguiu ao ataque a Canudos; e O Baile dos Centauros, inspirado no sapateado dos tropeiros. Tríptico Sertanejo acrescenta mais um capítulo à série de obras da companhia que investigam a cultura brasileira, como Chulos, inspirada na Folia de Reis, e Profetas da Selva, baseada na religiosidade tupi-guarani.