Discos, disparos

Guilherme Werneck

Hip hop, erudita, MPB, experimental, eletrônica, orgânica, popular e impopular. Um guia pela música que fez a diferença no Brasil em 2018

Toda lista é terrível, recheada de ausências e escolhas difíceis. Esta não é diferente, ainda mais pensando no volume abissal de lançamentos nacionais até o dia 15 de novembro, quando encerramos esta aventura de mapear os discos mais importantes de 2018 para compor esta antologia. Em primeiro lugar, há de se deixar claro que não se trata de um ranking, do melhor para o menos melhor, até porque escolhemos discos tão díspares em termos de estilos e tamanho de produção que criar um esquema linear de avaliação seria tão injusto quanto contraproducente. O que nos guia nesta antologia, que abrange um arco que vai desde a música erudita até a experimental, é encontrar obras que dialoguem profundamente com os nossos tempos conturbados. Discos que reflitam política e esteticamente a série de rupturas que vêm não só do tenebroso macrocenário político, mas também da micropolítica afetiva, cotidiana. Que cheguem para conversar com a tradição e levá-la a outras paragens e que, de certa maneira, representem a pluralidade de caminhos abertos pelas diferentes cenas musicais, do underground ao mainstream. Boa viagem.

Almeida Prado: Cartas Celestes Volumes 3 e 4 - Aleyson Scopel

Com esses dois discos lançados em 2018, o pianista Aleyson Scopel, a quem Almeida Prado (1943-2010) dedicou uma de suas Cartas Celestes, termina a série de quatro álbuns dedicados às 15 composições para piano solo desse ciclo de composições sobre o céu do Brasil. É um esforço monumental e lança luz sobre a última fase do compositor santista, que leva sua veia nacionalista para passear pelas constelações em diferentes épocas do ano, explorando a liberdade harmônica da transtonalidade.  No Volume 3, estão as Cartas Celestes de números 9, 10, 12 e 14. Já o Volume 4 traz as de de número 13, 16, 17 e 18. Esta última, intitulada O Céu de Macunaíma, é uma joia que sintetiza a relação do compositor com a antropofagia e nos lembra que o piano é, antes de tudo, um instrumento de percussão.

Ambulante - Karol Conka

Dos discos que abraçam o pop sem preconceitos, esse é sem dúvida um dos que traz mais riqueza. O encontro da rapper de curitiba com o produtor Boss in Drama ampliou a paleta sonora para além do rap, entrando num universo mais amplo da música negra, com traps, funks e tintas de R&B. Nas letras, Karol está afiada como nunca, vestindo o personagem da estrela negra bem-sucedida, empoderada. Como nos raps gringos, ela flerta com a estética do bling, do dinheiro e das marcas, mas, por outro lado, parece não perder de perspectiva que sua música também tem uma função social: “Minhas frases mudam vidas, porque pus minha vida em cada frase”, como deixa claro na faixa Vida que Vale. O mais interessante é justamente o encontro da estética mais dura de Karol com os floreios mais açucarados típicos do Boss in Drama. O dois se encontram em perfeita sincronia, fazendo voguing na pista.

Cavala - Maria Beraldo

O âmago de Cavala é uma viagem de conhecimento de raízes, evidente na centralidade da formação da identidade lésbica de Maria Beraldo. Para muitos, isso seria mais do que suficiente. Não para Maria Beraldo, que usa sua experiência pessoal de amar as mulheres para travar um diálogo avançado com a música popular brasileira, em canções que batem bola com músicas de Gilberto Gil (Pai e Mãe), Caetano Veloso (Da Maior Importância) e Chico Buarque (Paratodos). Para quem não captar as referências, a gravação ultraemocional de Eu Te Amode Chico, deixa o jogo evidente. O que torna esse disco um dos melhores do ano é justamente a construção musical dessas canções, a partir da produção de Maria Beraldo com Tó Brandileone. Numa brincadeira com o orgânico do clarinete e do clarone em contraste com as guitarras, os synths e as programações, Cavala aponta caminhos muito férteis para a música brasileira.  

O Disco das Horas - Romulo Fróes

Um ciclo gelado de treze canções, escritas quase de uma sentada por Nuno Ramos, é a base para esse álbum conceitual do cantor e compositor Romulo Fróes, essa alma inquieta que nunca volta ao mesmo lugar com seus álbuns. Das 13 horas, Romulo compõe 12 e Clima, outro parceiro que vem desde o começo dos anos 2000, escreve a 13ª. Só que esse é tanto um disco de Romulo quanto é do saxofonista Thiago França, que toca todo tipo de sopro e fez arranjos jazzísticos para as canções. E o time que grava o disco é de tirar o fôlego: Maria Beraldo (clarone), Juliana Perdigão (clarone e voz), Filipe Nader (sax barítono, sax alto e clarinete), Allan Abbadia (trombone), Amilcar Rodrigues (flughelhorn e trompete), Rodrigo Campos (guitarra), Marcelo Cabral (baixo acústico) e Pedro Gongom (bateria).

Entrevista - Ronei Jorge

O compositor volta solo quase dez anos depois do último disco de sua banda Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, de 2009. Produzido por Pedro Sá, o disco traz o baiano com uma nova banda, a Dziga Tupi, formada por Aline Falcão (teclados, piano e sanfona), Carla Suzart (baixo), Maurício Pedrão (bateria) e Ian Cardoso (guitarra).  O traço mais interessante do disco é justamente o uso das vozes femininas, que remetem aos arranjos vocais de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Tom Jobim. São esses arranjos que dão unidade às canções, junto com uma produção de mão leve, com guitarras entre o rock e o suingue, batidas abertas e ótimos timbres de teclado. As dez músicas do disco destilam a canção popular em busca do que ela tem de mais refinado.

Hackearragacocho - Marco Scarassatti

selo QTV, do Rio de Janeiro, tem lançado alguns dos melhores discos de música exploratória brasileira nos últimos anos. Entre álbuns incríveis para ouvidos abertos, o que chega a esta seleção é um que traz um procedimento único. Marco Scarassatti literalmente hackeou a viola de cocho, um instrumento português muito adotado na música do centro-oeste brasileiro. Ao ganhar de presente uma viola, o músico começou a estudá-la. E levou seu desenho para o luthier Vergilio Lima criar um novo instrumento, o “pássaro cocho”, adicionando à forma original um cavalete e um espelho para ela poder ser tocada com arco, além de um conjunto de cordas de ressonância simpática, como as da cítara. As duas violas são usadas no disco, ampliando não só as possibilidades de timbre, como a própria maneira de tocar a viola. Ao jogar com a mão direita ultrarrápida e com maneiras de captação de som, o músico cria um conjunto de paisagens sonoras nunca imaginadas por violeiros tradicionais.

Hamilton de Holanda Toca Jacob do Bandolim - Hamilton de Holanda

A obra de Jacob do Bandolim (1918-1969) é um dos maiores monumentos do choro. Não à toa, ele é considerado o compositor que mais inovou a linguagem do gênero. Hamilton de Holanda, por sua vez, é sem dúvida um dos chorões mais criativos em atividade. Em quatro discos, o bandolinista honra o legado modernizador do mestre: Jacob Baby, Jacob 10zz, Jabob Black e Jacob Bossa. Os pontos altos são a leitura jazzística do Jacob 10zz — com o trio de bandolim de 10 cordas, baixo acústico e percussão — e a potência rítmica de Jacob Black, em que o bandolinista é acompanhado por violão e dois percussionistas, colocando em outro plano harmônico as melodias de Jacob. Mas falam só um pouco mais alto do que a beleza dos arranjos de Jacob Bossa e as interpretações cristalinas de Jacob Baby.

Lição #2: Dorival - Quartabê

Terceiro disco do Quartabê, segunda lição de mestre, depois do álbum sobre a obra de Moacir Santos. O quarteto experimental formado por Maria Beraldo (clarinete, clarone, voz e coquinho), Joana Queiroz (clarinete, clarone, voz e coquinho), Mariá Portugal (bateria, voz e coquinho) e Chicão (teclas, voz e coquinho) parte de quatro composições de Dorival Caymmi — Morena do Mar, Sargaço do Mar, Preta do Acarajé, Canto de Nanã — para criar nove temas que passeiam pelos arredores das criações do mestre baiano, prestando a devida reverência, mas se esquivando da literalidade. O resultado é um disco belíssimo , composto de panoramas sonoros intrigantes que tocam no âmago da obra de Caymmi sendo, na prática, totalmente alienígenas a ela.

Mansa Fúria - Josyara

Em seu segundo álbum, a cantora e compositora baiana fez um dos discos mais urgentes do ano. O título já dá uma pista dos procedimentos que utiliza para trazer novos ares para a canção popular. Criadas a partir do violão, as 12 músicas do disco exploram ao máximo as possibilidades rítmicas do instrumento, enquanto a produção com elementos eletrônicos, sintetizadores e sopros acentua essa dualidade entre moderno e arcaico, acústico e eletrônico, suave e furioso que permeia o álbum. Mas é nas letras que a mansa fúria se faz presente, e nada explicita melhor suas intenções do que esse trecho de Engenho da Dor: “Saiu no jornal que é preciso esconder/ Tudo aquilo que sou/ Pra agradar os senhores do engenho da dor/ Não vamos voltar pras senzalas/ Não vamos voltar pros porões/ Não vamos voltar pros armários/ Não vamos voltar pras prisões/ Há de ver que a liberdade/Tá cravada no ser/ Na alma”.

Mormaço Queima - Ana Frango Elétrico

Aos 20 anos, a carioca Ana Fainguelernt, mais conhecida como Ana Frango Elétrico, fez um disco de estreia genial. É experimental sem deixar de ser pop, é roqueiro sem deixar de ser brasileiro. Imagine um som criado com o lirismo cru de um Jonathan Richman, com guitarras que subvertem o idioma do rock como as do Stephen Malkmus e com a sagacidade despojada da Lulina. Mormaço Queima, é tudo isso e mais uma boa dose de maldade carioca. Reunindo uma série de músicos do Rio, o disco tomou forma no estúdio, com a contribuição de quatro produtores: Thiago Nassif, Guilherme Lírio, Marcelo Callado e Gustavo Benjão. Juntos, os cinco encontraram o veículo ideal para deixar essa coleção de canções  com letras surrealistas e cheias de ironia ainda mais surpreendentes.

O Menino Que Queria Ser Deus - Djonga

Depois do excelente Heresia (2017), o rapper mineiro mostra que não sofre da síndrome do segundo disco com O Menino Que Queria Ser Deus. Antes refina e leva adiante sua lírica, trazendo novos caminhos tanto para a escrita quanto para o flow. Ambos estão mais complexos, menos retos e literais nesse segundo álbum. Claro que ainda há um peso grande na temática da exclusão social, do racismo, das dificuldades do dia a dia. Porém, Djonga também consegue olhar para um futuro mais maduro, caso por exemplo da ótima Canção Pro Meu Filho. O disco também cresce com as participações especiais, seja com os beats para frente do produtor Coyote Beatz, seja pelas colaborações com Paige em Corra,  com Karol Conka em Estouro ou com também mineiro Hot Apocalypse em Solto.

O Multiverso em Colapso - Guizado

Guizado trafega entre muitos universos diferentes, vem de uma estética punk, flerta com o pop e a psicodelia, e domina como poucos as linguagens do jazz. É do encontro de todas essas vertentes musicais que nasce ou colapsa seu multiverso. Claro que o disco lida com uma boa dose de distopia, preferindo tratar das nossas mazelas com um telescópio numa mão e um microscópio na outra. Começa com um quase manifesto: “O mundo se encontra à beira do abismo, uma miríade de realidades coexistentes é abalada, o multiverso entra em colapso. A realidade tem mais peles que uma cobra, cada pele uma nova verdade, cada verdade uma nova ilusão, o poder completo do fragmento ancestral está dentro de nós, nossas ilusões serão na verdade nossa purificação”. E a purificação vem da nossa capacidade de navegar esses mundos com os ouvidos abertos para essa música que colapsa gêneros sem piedade.

Neura - Juliano Guerra

Terceiro trabalho do gaúcho Juliano Guerra, lançado pelo selo de Pelotas Escápula, é outro disco em que o diálogo com as tradições da canção brasileira, do samba à MPB clássica, resulta em um trabalho inovador que oxigena suas raízes. Com uma prosódia muito peculiar, Juliano Guerra nos conduz por crônicas cotidianas narradas por um personagem inconformado com o mundo ao redor, abordando relações afetivas, estéticas, políticas e as próprias relações com suas neuroses. Musicalmente, a produção traz sambas frágeis e contundentes como Casa Pequena, que atualiza o minimalismo experimental do Tom Zé de Estudando o Samba, rocks mordazes como Gratiluz, e a MPB refinada por arranjos de cortar os pulsos, cujo melhor exemplo é o dueto com Ná Ozzetti em Fica.

A Noite Hoje é a Maior - Biu Roque

Biu Roque morreu em 2010, sem ter um disco lançado. Mas nove anos depois de gravado, A Noite Hoje é a Maior foi lançado neste ano, muito pelo esforço dos produtores Alessandra Leão, Caçapa e Missionário JoséAinda bem que eles não desistiram.  O disco é de uma beleza vertiginosa, a voz aguda de Biu Roque arrepia e suas composições trabalham num campo vasto, entre a inocência e a sabedoria. Mais do que um registro etnográfico, é um disco de autor. A partir das melodias que pareciam brotar naturalmente de Biu Roque, Alessandra trabalhava as guias vocais e Caçapa escrevia os arranjos. O resultado é um disco que passeia pela sonoridade do interior de Pernambuco, dos cocos, dos maracatus, dos cavalos-marinhos, sem deixar de ser profundamente autoral e lírico.

OK OK OK - Gilberto Gil

Para quem é fã de Gil, esse disco quebra diversos paradigmas de sua obra. Isso por conta da produção de seu filho Bem Gil, que colocou o pai para tocar e cantar ao mesmo tempo, realçando uma das maiores belezas do mundo, que é seu jeito de tocar violão. Se o disco é íntimo e coeso na produção, com a família no estúdio e nas letras, ele não é regular nas canções. Há muitos pontos altos, como a conexão com o presente da faixa-título, a parceria com João Donato em Uma Coisa Bonitinha, a balada Prece. Mas há algumas canções-homenagem, como Kalil, feita para o médico que o tratou, que não acrescentam muito.  A lírica do disco no geral, tratando um tema quase tabu como a velhice com extrema poesia, é mais do que suficiente para relevar os pequenos deslizes.

Pedra Preta - Teto Preto

O coletivo de São Paulo traz a porrada do ano, tanto musical como liricamente. Formado agora por Laura Diaz, Loïc Koutana, Pedro Zopelar, William Bica e Savio de Queiroz, depois da saída de L_cio,  o Teto Preto traz uma fusão única de eletrônica e música brasileira. Gestado no circuito de festas, o disco é mais bem compreendido dentro da dinâmica da música de pista, com a típica alternância de momentos frenéticos e de calmaria. Numa faixa como Pedra Preta, por exemplo, os teclados de Zopelar lembram muito o virtuosismo grooveado do Azymuth e o trombone de Bica faz aquele carinho que só os grandes da gafieira sabem fazer. E, por cima deles, a voz aberta de Laura Diaz, encarnando uma Elis Regina, lava a alma. Laura é hoje sem dúvida uma das maiores vozes do Brasil, e o fato de brincar com modulações, delays e outros efeitos eletrônicos só deixa seus vocais ainda mais potentes. Isso sem contar a teatralidade que transpira pelas letras e é evidente nos shows. O Teto Preto fala de hoje como ninguém, seja na micropolítica de D+ívidas, no hino confrontacional Gasolina Aditivada ou na sombria Bate Mais. Um disco para ouvir em loop.

Poema - L_cio

Quem frequentou as pistas de música eletrônica nos últimos 12 anos certamente viu algum live de L_cio com sua flauta transversal. O produtor foi um dos que manteve a chama da música de pista acesa, bem antes da volta da centralidade do techno nas festas de São Paulo nos últimos cinco anos. Curiosamente, apesar de ser um dos maiores produtores brasileiros em atividade, L_cio nunca havia gravado um disco completo. Valeu esperar. Poema, lançado pelo selo D.O.C., de Gui Boratto, e em parceria com o icônico selo alemão Kompakt, é luxo puro. Traz, claro, faixas ultradançantes como Forte, mas também convida ao after, com sons mais ambient como em Lagoa. O mais legal é como L_cio consegue brincar com lindas melodias, mesmo dentro das repetições inerentes à música eletrônica. Talvez aí o melhor exemplo seja a agridoce Avante.

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Quebra-Cabeça - Bixiga 70

Toda banda tem momentos decisivos em que o som dá um salto estético, abre novos capítulos na sua história. Para uma banda que tem nove cabeças pensantes, como o Bixiga 70, abrir-se para novas direções não parece difícil, mas também não é trivial. É nítido nesse quarto disco que a banda passou de fase. Todas as composições foram criadas e arranjadas pelo grupo. Esse impacto coletivo é sentido nas 11 músicas do álbum. A leitura brasileira do afrobeat continua como eixo estruturante do som do Bixiga, mas agora é menos protagonista. A banda está mais livre para experimentar em outros territórios, e, mais do que nos temas e nas melodias, as composições ganham força nos momentos de diálogo entre as diferentes seções da banda. E o som está justo, sem arestas, sempre com grooves pulsantes, melodias poderosas e ideias musicais arejadas.

Radamés Gnattali: Integral das Obras para Piano, Violino e Violoncelo - Trio Puelli

Poucos maestros souberam transitar entre os territórios da música erudita e da popular como o gaúcho Radamés Gnattali. É um crime que nem toda a sua obra esteja disponível hoje. O Trio Puelli, formado por Karin Fernandes (piano), Ana de Oliveira (violino) e Adriana Holtz (violoncelo) justamente para tocar música dos séculos 20 e 21, principalmente brasileira, presta um serviço importantíssimo ao resgatar e gravar em disco cinco obras compostas para o maestro para piano, violino e violoncelo, inclusive com peças inéditas, que estavam apenas em manuscrito, como a Trio nº 2. O processo de catalogação dessas peças foi feita em parceira com o sobrinho de Radamés, Roberto Gnattali, e as gravações que resultam dele demonstram tanto a excelência do compositor como a do trio.

Relax - Kassin

Relax, segundo álbum solo do produtor e compositor carioca, é um disco-homenagem. Toda a sua espinha dorsal está construída na releitura do legado de Lincoln Olivetti para a produção de uma música negra nacional, que nos deu discos com alguns dos grooves mais arrasadores e as linhas de teclados mais inspiradas da música brasileira, seja em seus discos como nas produções para artistas que vão de Tim Maia a Rita Lee. Kassin embarca nessa sonoridade que faz parte da memória afetiva de quem cresceu nos anos 80. A questão é como se apropriar de um som tão icônico sem cair no pastiche. Kassin faz isso ao incorporar sua visão muito particular do mundo e do amor, com letras bem-humoradas, narrando pequenas tragédias e desencontros cotidianos, tratados com ironia fina.

RSTUVXZ - Arnaldo Antunes

Rock, samba e o que mais vier. É isso que a série final do alfabeto significa nesse mais recente disco de Arnaldo Antunes. Porém, grosso modo, o disco é dividido entre rocks e sambas. O mais interessante é que é um disco de síntese, de concisão, apesar do título bastante inclusivo. Essa economia está nas letras, que, com sua habilidade de poeta, Arnaldo enxuga ao essencial, extraindo beleza da simplicidade e criando refrãos que pedem para ser cantados juntos. O que acaba influenciando também as composições, principalmente os sambas. Nada de floreios e volteios, a construção da identidade do samba está na batida, na cadência. Já os rocks, que poderiam estar nos melhores discos dos Titãs dos anos 80 e 90, também extraem sua potência do minimalismo, das repetições e dos jogos de palavras. Coisa de quem domina plenamente seu ofício.

Sibilina - Cacá Machado

Sibilina quer dizer mística, enigmática, e o título tem muito a ver com os procedimentos de desconstrução e reconstrução da tradição do cancioneiro brasileiro de forma pouco óbvia. É um álbum que busca o tempo todo o casamento perfeito entre forma e emoção, com letras que tratam tanto da política pessoal, como Tremor Essencial, gravada anteriormente por Celso Sim, como da política mais tradicional, como é o caso da faixa Nós, Formigas ou de Tem Um,  faixa que abre o disco e é engrandecida pela voz marcante de Mateus Aleluia, dos Tincoãs. Uma novidade é o fato de Cacá passar a encarar também os vocais, o deixando o disco ainda mais pessoal. Produzido por Cacá com Márcio Arantes e Gilberto Monte, as canções são a todo tempo subvertidas por procedimentos de vanguarda, como a adição de ambiências sonoras e edições que infundem complexidade, momentos de transe e desafiam as zonas de conforto.

Suite Intergaláctica - Space Charanga

A música brasileira flerta com o jazz desde que ele existe, entretanto, ainda são poucos os músicos que se aproximam das vertentes mais libertárias do jazz. Não é o caso de Thiago França nem de sua Space Charanga, formada pelos companheiros de Metá Metá, Sérgio Machado (bateria e percussão) e Marcelo Cabral (baixo acústico), e pelo trompetista Amilcar Rodrigues. Os seis temas do álbum, a Suíte Intergaláctica de números 1 a 5, mais a faixa final, Júpiter Charanga, são criadas sobre uma planta baixa: a obra utópico-futurista de Sun Ra. Trafegando com toda a liberdade pela paleta de cores e órbitas do genial compositor norte-americano, França e companhia nos levam por viagens alucinantes. O difícil é aterrissar depois.

Taurina - Anelis Assumpção

Em seu terceiro disco, Anelis Assumpção nos oferece duas chaves temáticas para explorar o universo taurino. A primeira é a astrologia, explícita já no título do álbum, e a segunda é a comida, salpicada aqui e ali nas letras. Mas essas duas temáticas são apenas aberturas para entrar em um universo íntimo e afetuoso, que fala de amor de forma madura, consciente das delícias e dos espinhos. A produção de Beto Villares e Zé Nigro ajuda a dar molho fresco às canções, que, pensando nos trabalhos anteriores, são mais continuidade do que ruptura. É um disco em que as composições falam mais alto. Das 13 faixas, Anelis compõe 12, algumas em parceria com Ava Rocha, Rodrigo Campos e João Donato, numa mistura que vai da MPB ao reggae. A única música que não é sua é Receita Rápida, de Itamar Assumpção, que entra como tempero definitivo nessa cozinha de boa música.

Todo Mundo Tem Que Falar - Bambas de Sampa

Há décadas que São Paulo, com sua cena plural de sambistas das mais diferentes estirpes, deixou de ser o túmulo do samba. Nesse disco, contudo, os Bambas de Sampa estão preocupados menos com os agouros de morte e mais com um dos lugares de nascimento do gênero brasileiro por excelência: a Bahia. O grupo capitaneado por Paulinho Timor e que reúne a nata do samba paulista mergulha na obra de três grandes sambistas baianos: Riachão, Guinga de Ogum e Edil Pacheco, tendo os mestres como convidados e protagonistas. Para além da pesquisa e do resgate desses sambas originais, é um disco delicioso, que respeita, mas em muitos momentos rompe com a malemolência baiana. Com batucada e harmonia de respeito, o grupo leva os sambas para frente, num clima descontraído. Um bônus é o lindo uso das vozes femininas de Paula Sanches, Flora Poppovic e Mariana Furquim.

Tradição Improvisada - Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer

Quem é apaixonado pelo som da rabeca conhece os instrumentos criados pelo alagoano Nelson da Rabeca, que, autodidata, começou a fabricá-los depois dos 50 anos. O multi-instrumentista suíço Thomas Rohrer é um desses apaixonados. Depois de anos de amizade e de trocas musicais, os universos criativos desses dois músicos, com a adição da esposa de Nelson, Benedita dos Santos, foram se alinhando de forma natural, com ambos achando tempo para tocar juntos sempre que as agendas de shows os aproximava.Tradição Improvisada nasce daí e se materializa como um dos discos mais desafiadores para quem gosta de improvisação. O jogo entre Europa e nordeste, entre duas raízes muito distintas, é completamente borrado. O que fica é a beleza de criar universos sonoros ímpares, com os músicos trocando os papéis esperados constantemente.

Trança - Ava Rocha

Trança é desses discos superlativos, não apenas por sua extensão. O terceiro álbum de Ava Rocha trança "afetos, corpos e línguas". Partindo da trança e da Pangeia de Tunga, é um disco de hoje para hoje, fala do feminino sem recorrer a clichês e, pelas entrelinhas, discute o país no que tem de mais profundo, que é a identidade libertária, servindo de contraponto à onda moralizante que sufoca o Brasil. A banda original que a acompanhava em seu disco anterior, Ava Patrya Yndia Yracema, multiplicou-se em inúmeras outras bandas, que servem a dar corpo a essas canções que dialogam com a tradição brasileira, mas são retorcidas por procedimentos mais experimentais. Ao todo, são 35 músicos e cantores que participam das 19 faixas de um  álbum que vai criando identidade lentamente enquanto as diferentes canções se embaralham em um todo que encontra coesão na voz de Ava, aqui mais potente do que nunca.

Ultrassom - Edgar

Pupilo fez um de seus melhores trabalhos como produtor nesse disco do rapper de Guarulhos. As letras de Edgar são fortes, dialogam profundamente com o mundo de hoje de uma forma muito interessante. A sustentação temática é quase de ficção científica, pensando as transformações do mundo após a popularização da internet. Isso não leva, apenas, a uma lírica geek, é antes o mote para tratar de causas ecológicas, do mundo não-binário, dos relacionamentos mediados por telas. O próprio flow de Edgar é bem único, fugindo da cartilha básica do rap, com suas rimas inesperadas, muitas vezes internas. Em cima dessa base, Pupilo  tripudia. Traz alguns dos beats mais irados do ano, e um trabalho com sintetizadores que dão materialidade ao futurismo de Edgar.

Volume Único - Música de Selvagem

O segundo disco do grupo paulistano formado por Arthur Decloedt (baixo), Filipe Nader (sax), Guilherme Marques (bateria), Amilcar Rodrigues (trompete e flughelhorn) e Cuca Ferreira (sax barítono) resolveu brincar com as estruturas e encarar a canção contemporânea. O grupo trouxe músicos próximos para participar desse projeto de expansão da canção, gravando com Sessa (ex-Garotas Suecas), Tim Bernardes (O Terno), Luiza Lian e Pedro Pastoriz (Mustache e os Apaches). É quase um EP em termos de duração, mas o lugar para onde o grupo levou a exploração do choque entre a improvisação livre e o formato mais fechado da canção faz dele um dos discos mais instigantes do ano.

Xodós - Paulo Bellinati e Marco Pereira

Dois dos violonistas de maior apuro técnico do país se juntam para criar um disco encantador. São quatro canções de Dominguinhos, quatro de Dilermando Reis, quatro Pereira e duas de Bellinati. A graça aqui é o arranjo para dois violões de canções muito conhecidas, como De Volta Pro Aconchego e Eu Só Quero um Xodó, de Dominguinhos, e Xodó da Baiana e Magoado, de Dilermando. Para além da técnica, sempre impecável, o que chama a atenção na releitura desses clássicos é a execução cristalina, cheia de emoção, e a sensação de que os dois músicos mergulharam profundamente nas suas próprias histórias para recontar um pouco da nossa história com esse instrumento que se tornou brasileiro por excelência.